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23/07/2016

Evangelho e comentário


Tempo Comum

Santa Brígida – Padroeira da Europa

Evangelho: Jo 15, 1-8

1 «Eu sou a videira verdadeira, e Meu Pai é o agricultor. 2 Todo o ramo que não dá fruto em Mim, Ele o cortará; e todo o que der fruto, podá-lo-á, para que dê mais fruto. 3 Vós já estais limpos em virtude da palavra que vos anunciei. 4 Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode por si mesmo dar fruto se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. 5 Eu sou a videira, vós os ramos. Aquele que permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. 6 Se alguém não permanecer em Mim, será lançado fora como o ramo, e secará; depois recolhê-lo-ão, lançá-lo-ão no fogo e arderá. 7 Se permanecerdes em Mim, e as Minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á concedido. 8 Nisto é glorificado Meu Pai: Em que vós deis muito fruto e sejais Meus discípulos.

Comentário:

É bem de ver que podar as videiras é uma tarefa absolutamente necessária para não só manter a saúde e o vigor das plantas como para garantir frutos abundantes e de bom calibre.

Abandonada, a videira continuará a dar frutos mas, em pouco tempo estes tornam-se enfezados e sem qualquer préstimo e a própria videira crescerá sem forma num emaranhado de ramos e folhas que acabarão por abafar as outras plantas que estiverem próximo.

Assim connosco os cristãos termos de "podar" quanto não presta ou está a mais na nossa vida, mantendo o vigor e a saúde da nossa alma para que as obras sejam boas, dêem os frutos que o Senhor legitimamente espera colher.

Por vezes pode custar esse corte, essa "limpeza" desses inúmeros "ramos" que são os desejos de ter, os atilhos que nos prendem a coisas supérfluas, o lastro que vamos acumulando que nos pesa e tolhe.

Mas vale a pena!

(ama, comentário sobre Jo 15, 1-8, Malta, 27.04.2016)










27/04/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 15, 1-8

1 «Eu sou a videira verdadeira, e Meu Pai é o agricultor. 2 Todo o ramo que não dá fruto em Mim, Ele o cortará; e todo o que der fruto, podá-lo-á, para que dê mais fruto. 3 Vós já estais limpos em virtude da palavra que vos anunciei. 4 Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode por si mesmo dar fruto se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. 5 Eu sou a videira, vós os ramos. Aquele que permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. 6 Se alguém não permanecer em Mim, será lançado fora como o ramo, e secará; depois recolhê-lo-ão, lançá-lo-ão no fogo e arderá. 7 Se permanecerdes em Mim, e as Minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á concedido. 8 Nisto é glorificado Meu Pai: Em que vós deis muito fruto e sejais Meus discípulos.

Comentário:

Jesus sublinha uma vez mais que sem Ele nada podemos fazer.

E como proceder?

Estando unidos a Ele.

Não há outro processo ou alternativa.

Unidos a Cristo como os ramos à videira podemos tudo mesmo o que aparentemente é impossível.

(ama, comentário sobre Jo 15, 1-8 2015.07.23)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES

CAPÍTULO XVIII

Outras interpretações

Ouço e considero todas essas teorias, mas não quero discutir por questões de palavras, o que não serve para nada, senão para a confusão dos ouvintes. Pelo contrário, a lei é boa para a edificação se dela se faz uso legítimo, porque a sua finalidade é a caridade que nasce de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida. O nosso Mestre sabe quais dos dois preceitos em que resumiu toda a lei e os profetas. A mim, que observo com zelo tais preceitos, ó meu Deus, luz dos meus olhos na escuridão, que me importa que possa que possa encontrar sentidos diferentes para essas palavras, se todos são verdadeiros? Que me interessa, digo eu, que outros compreendam o texto de Moisés de modo diferente do meu? Nós todos que o lemos procuramos indagar e compreender o pensamento do autor. E como o julgamos verídico, não ousamos admitir que ele pusesse dizer o que sabemos ou o que consideramos falso.

Assim, nos esforços que fazemos para compreender, na Escritura Sagrada, a ideia que o escritor quis transmitir, onde está o mal se o leitor interpreta o sentido que tu, Luz de todas as inteligências sinceras, lhe fazes parecer verdadeiro, embora talvez não tenha sido este o pensamento do autor? E considerando que ele, pensando de outra maneira, só pensou verdades?

CAPÍTULO XIX

A verdade

A verdade, Senhor é que criaste o céu e a terra. A verdade é que o princípio é tua Sabedoria, em que criaste todas as coisas. É também verdade que este mundo visível se compõe de duas grandes partes, o céu e a terra, síntese de todas as realidades criadas. É ainda verdade que tudo o que é mutável sugere ao nosso pensamento a ideia de algo informe, susceptível de tomar forma, de mudar e de se transformar.

A verdade é que um ser tão intimamente unido a uma forma mutável que, embora sujeito em si a mudanças, nunca se transforma, não está sujeito ao tempo. A verdade é que a massa sem forma, que é quase o nada, não pode conhecer as vicissitudes do tempo. A verdade é que a matéria que constitui uma coisa, se assim podemos falar, toma o nome dessa coisa, e portanto, podemos chamar céu e terra a essa massa informe com a qual foram feitos o céu e a terra.

A verdade é que, de tudo o que recebeu forma, nada se aproxima mais do informe que a terra e o abismo. A verdade é que não apenas tudo o que foi criado e formado, mas ainda tudo o que possa ser criado se origina de ti, tu que és o autor de tudo que existe. A verdade é que tudo o que é formado a partir do informe, primeiro é informe, e depois recebe forma.

CAPÍTULO XX

O princípio e as suas interpretações

Todas essas verdades, das quais não duvidam os que de ti receberam a graça de ver com os olhos da alma, e que creem firmemente que o teu servo Moisés falou em espírito de verdade, há quem dê esta interpretação: “No princípio Deus criou o céu e a terra” – isto é, Deus criou, no seu Verbo, que lhe é co-eterno, o mundo racional e sensível, ou espiritual e corporal. Outro diz: “No princípio Deus criou o céu e a terra” – isto é, Deus criou no seu Verbo, que lhe é co-eterno, toda a massa do mundo corpóreo, com tudo o que contém de realidades, manifestamente conhecidas.

Um terceiro diz: “No princípio Deus criou o céu e a terra” – isto é, Deus criou no seu Verbo, que lhe é co-eterno, a matéria informe das criaturas espirituais e corporais. Outro afirma: “No princípio Deus criou o céu e a terra” – isto é, Deus criou a matéria informe das criaturas corporais, onde estavam ainda confundidos o céu e a terra, que agora distinguimos na massa do universo, com suas formas bem distintas e determinadas.

Um último diz: “No princípio Deus criou o céu e a terra” – isto é, desde que começou a agir, Deus criou a matéria informe, onde estavam contidos confusamente em potencial o céu e a terra, que depois receberam forma própria, e que agora nos aparecem com tudo o que neles existe.

CAPÍTULO XXI

A terra invisível

O mesmo ocorre em relação à interpretação das palavras que se seguem. Entre essas, todas verdadeiras, cada um escolhe uma. Este diz: “A terra era invisível e caótica, e as trevas estendiam-se sobre o abismo” – isto é, essa massa corpórea, que Deus fez, era a matéria ainda sem forma, sem ordem, sem luz, das coisas corpóreas.

Outro diz: “A terra era invisível e caótica, e as trevas estendiam-se sobre o abismo” – isto é, esse conjunto que chamamos terra e céu era a matéria ainda informe e tenebrosa, da qual seriam tirados o céu e a terra corpóreos, com tudo o que os nossos sentidos físicos neles percebem.

Outro diz: “A terra era invisível e caótica, e as trevas estendiam-se sobre o abismo” – isto e´, esse conjunto que chamamos céu e terra era a matéria ainda informe e tenebrosa, donde seriam feitos o céu inteligível, noutros termos, o céu do céu, e a terra, isto é, toda natureza corpórea, nela incluindo o céu material, ou seja, a matéria de toda criatura visível e invisível.

Outro diz: “A terra era invisível e caótica, e as trevas estendiam-se sobre o abismo” – isto é, não quis a Escritura chamar à massa informe céu e terra, porque ela já existia; é dessa massa que ela chamou terra invisível, caótica, abismo de trevas, é dela, que Deus criou o céu e a terra, isto é, a criatura espiritual e a corporal.

E outro ainda: “A terra era invisível e caótica, e as trevas estendiam-se sobre o abismo” – isto é, já existia uma matéria informe, da qual a Escritura diz que Deus criou o céu e a terra, toda a massa corporal do mundo, dividido em duas grandes partes, uma superior, outra inferior, com todas as criaturas nelas existentes e que nos são familiares.

CAPÍTULO XXII

Objecções

Mas a essas últimas opiniões alguém poderia opor a seguinte objecção: “Se não quereis dar o nome de céu e terra à matéria informe, havia então alguma coisa não criada por Deus, e de que ele se serviria para criar o céu e a terra. De facto, a Escritura, não diz que Deus criou essa matéria, a menos que consideremos que seja ela o que chama céu e terra quando diz: “No princípio Deus criou o céu e a terra” – No que se segue: “A terra era invisível e informe” – ainda que a Escritura quisesse designar assim a matéria informe, nós apenas poderíamos entender com isso a matéria criada por Deus, conforme está escrito: “Criou o céu e a terra” – Aos que sustentam as duas últimas opiniões que acabamos de expor, ou de uma das duas, respondem assim: “Não negamos que esta matéria informe seja obra de Deus, de quem procede tudo o que é bom. De facto afirmamos ser um bem superior o que é criado e plenamente formado, mas também dizemos que aquilo que é passível de ser criado e receber forma, embora seja um bem inferior, é ainda um bem.

A Escritura não menciona a criação por Deus dessa matéria informe, mas deixa também de falar de muitas outras coisas, como, por exemplo, da criação dos querubins, dos serafins, dos tronos, das dominações, dos principados, das potestades, todas criaturas que o Apóstolo menciona claramente, e que Deus evidentemente criou. Se as palavras: “Deus criou o céu e a terra” – compreendem todas as coisas, que diremos das águas sobre as quais pairava o Espírito de Deus?

Se pretendemos que sejam parte do que designa a palavra terra, como conceber por isso uma matéria informe, quando vemos as águas tão belas? E, por outro lado, por que está escrito que dessa matéria informe foi criado o firmamento, chamado céu, quando não se faz menção da criação das águas? Pois as águas que vemos correr com harmoniosa beleza e não são nem informes, nem invisíveis! E se elas receberam a sua beleza quando Deus disse: “Que se reúnam as águas que estão sob o firmamento! – e se nessa reunião receberam a sua formação, que dizer das águas que estão acima do firmamento? Informes, elas não teriam merecido lugar tão honroso, nem é referido com que palavras foram formadas.

Assim, se o Génesis é omisso quanto à criação de certas coisas, criação essa que está acima de dúvidas para uma fé sadia e uma inteligência segura, e se nenhuma doutrina racional ousa sustentar que essas águas são co-eternas a Deus, pelo facto de as vermos mencionadas no Génesis sem a menção do momento da sua criação, por que haveríamos de aceitar, à luz da verdade, que essa matéria informe, que a Escritura chama terra invisível e desordenada e abismo tenebroso, foi feita por Deus do nada e por isso não é co-eterna a Deus, embora a narração da Escritura tenha deixado de referir o momento em que foi criada?

(Revisão de versão portuguesa por ama)


23/07/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual



Tempo comum XVI Semana


Evangelho: Jo 15, 1-8

1 «Eu sou a videira verdadeira, e Meu Pai é o agricultor. 2 Todo o ramo que não dá fruto em Mim, Ele o cortará; e todo o que der fruto, podá-lo-á, para que dê mais fruto. 3 Vós já estais limpos em virtude da palavra que vos anunciei. 4 Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode por si mesmo dar fruto se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. 5 Eu sou a videira, vós os ramos. Aquele que permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. 6 Se alguém não permanecer em Mim, será lançado fora como o ramo, e secará; depois recolhê-lo-ão, lançá-lo-ão no fogo e arderá. 7 Se permanecerdes em Mim, e as Minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á concedido. 8 Nisto é glorificado Meu Pai: Em que vós deis muito fruto e sejais Meus discípulos.

Comentário:

Alguns aduzem que as palavras de Cristo «pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á concedido» que São João recolhe neste trecho são uma “figura de retórica” porque ‘tenho pedido tanto e tão insistentemente e Deus não me ouve!’.

Estes não têm razão porque Deus ouve-nos sempre.
Já o conceder o que pedimos depende não da Sua Vontade que é – sempre – proceder como se diz no trecho mas sim de duas coisas principais:
A primeira é a necessidade do que pedimos;
A segunda será o bem que nos advirá se nos for concedido.

(ama, comentário sobre Jo 15, 1-8, 2015.05.03)



Leitura espiritual



São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus

168
        
As circunstâncias daquele servo da parábola, devedor de dez mil talentos, reflectem bem a nossa situação perante Deus: também nós não temos com que pagar a dívida imensa que contraímos por tantas bondades divinas e que aumentámos ao ritmo dos nossos próprios pecados.
Embora lutemos denodadamente, não conseguiremos devolver com equidade o muito que o Senhor nos perdoou.
Mas a misericórdia divina supre com abundância a impotência da justiça humana.
Ele é que pode dar-se por satisfeito e anular a dívida, simplesmente porque é bom e é infinita a sua misericórdia.

A parábola - lembrais-vos bem - termina com uma segunda parte, que é como que o contraponto da precedente.
Aquele servo, a quem acabam de perdoar uma dívida enorme, não se compadece de um companheiro que lhe devia apenas cem denários. Aí é que se põe de manifesto a mesquinhez do seu coração.
Estritamente falando, ninguém lhe negará o direito de exigir o que é seu; no entanto, algo se revolta dentro de nós e nos diz que essa atitude intolerante se afasta da verdadeira justiça: não é justo que quem, há apenas um momento, recebeu um tratamento misericordioso de favor e compreensão, não reaja ao menos com um pouco de paciência para com o devedor.
Reparai que a justiça não se manifesta exclusivamente pelo rigoroso respeito de direitos e deveres, como se se tratasse de problemas aritméticos que se resolvem com somas e subtracções.

169
         
A virtude cristã é mais ambiciosa: leva-nos a mostrar-nos agradecidos, afáveis, generosos; a comportar-nos como amigos leais e honrados, tanto nos tempos bons como na adversidade; a ser cumpridores das leis e respeitadores das autoridades legítimas; a rectificar com alegria quando nos damos conta de que nos enganámos ao encarar uma questão.
Sobretudo, se somos justos, cumpriremos os nossos compromissos profissionais, familiares, sociais..., sem espaventos nem alardes, trabalhando com empenho e exercitando os nossos direitos, que também são deveres.

Não acredito na justiça dos preguiçosos, porque com o seu dolce far niente - como dizem na minha querida Itália - faltam, e às vezes gravemente, ao mais fundamental dos princípios da equidade: o do trabalho.
Não devemos esquecer que Deus criou o homem ut operaretur, para trabalhar; e os outros - a nossa família, a nossa nação, a Humanidade inteira, - dependem também da eficácia do nosso trabalho.
Meus filhos, que pobre ideia têm da justiça os que a reduzem a uma simples distribuição de bens materiais!

170
        
A justiça e o amor à liberdade e à verdade

Desde a minha infância - desde que tive ouvidos para ouvir, na expressão da Escritura - tenho ouvido o clamor da questão social. Não se trata de nada de particular; é um tema antigo, de sempre.
Talvez tenha surgido no mesmo instante em que os homens se organizaram de alguma maneira e se tornaram mais visíveis as diferenças de idade, de inteligência, de capacidade de trabalho, de interesses, de personalidade.

Não sei se haver classes sociais é coisas irremediável; aliás, não é do meu ofício falar dessas matérias, e muito menos aqui, neste oratório, onde nos reunimos para falar de Deus (não desejaria tratar senão deste tema em toda a minha vida) e para conversar com Deus.

Pensai o que quiserdes em tudo aquilo que a Providência confiou à livre e legítima discussão dos homens, mas a minha condição de sacerdote de Cristo impõe-me a necessidade de subir mais alto e de vos lembrar que, em qualquer caso, nunca podemos deixar de viver a justiça, com heroísmo, se for necessário.

171
         
Estamos obrigados a defender a liberdade pessoal de todos, sabendo que Jesus Cristo foi quem nos conquistou essa liberdade.
Se não o fizermos, com que direito reivindicaremos a nossa?
Também devemos difundir a verdade, porque veritas liberabit vos, a verdade liberta-nos, enquanto a ignorância escraviza.
Temos de defender o direito de todos os homens à vida, à posse do necessário para uma existência digna, ao trabalho e ao descanso, à escolha do seu estado, à constituição de um lar, a trazer filhos ao mundo dentro do matrimónio e a poder educá-los, a passar serenamente o tempo da doença ou da velhice, ao acesso à cultura, à associação com os outros cidadãos para fins lícitos e, em primeiro lugar, a conhecer e amar Deus com plena liberdade, porque a consciência, sendo recta, descobre a marca do criador em todas as coisas.

Precisamente por isso, é urgente repetir - não me meto em política, estou só a expor a doutrina da Igreja - que o marxismo é incompatível com a fé de Cristo.
Existe alguma coisa mais oposta à fé do que um sistema que baseia tudo em eliminar da alma a presença amorosa de Deus?
Gritai isso com muita força, de modo que se oiça claramente a vossa voz: para praticar a justiça não precisamos do marxismo para nada. Pelo contrário, esse erro gravíssimo, pelas suas soluções exclusivamente materialistas que ignoram o Deus da paz, levanta obstáculos à felicidade e ao entendimento entre os homens.
 Dentro do cristianismo achamos a boa luz que dá sempre resposta a todos os problemas; basta que vos empenheis sinceramente em ser católicos, non verbo neque lingua, sed opere et veritate, não com palavras e com a língua, mas com obras e com verdade.
Afirmai isto sempre que se vos apresente a ocasião - procurai-a se for preciso - sem reticências, sem medo.

172
         
Justiça e caridade

Lede a Sagrada Escritura.
Meditai um a um, os episódios da vida do Senhor, os seus ensinamentos.
Considerai especialmente os conselhos e as advertências com que preparava aquele punhado de homens que haviam de ser os seus apóstolos, os seus mensageiros até aos confins da terra.
Qual é a principal norma que lhes dá?
Não é o mandamento novo da caridade?
Foi com amor que abriram caminho naquele mundo pagão e corrupto.

Convencei-vos de que apenas com a justiça nunca resolvereis os grandes problemas da Humanidade.
Quando se faz apenas justiça, não é de estranhar que as pessoas se sintam feridas: a dignidade do homem, que é filho de Deus, pede muito mais do que isso.
A caridade tem que ir dentro e ao lado, porque dulcifica tudo e tudo deifica: Deus é amor.
Temos de actuar sempre por amor de Deus, que torna mais fácil amar o próximo e purifica e eleva os amores terrenos.

Para se passar da estrita justiça à abundância da caridade há todo um trajecto a percorrer e não são muitos os que perseveram até ao fim: alguns conformam-se com chegar apenas aos umbrais: prescindem da justiça e limitam-se a um pouco de beneficência, a que chamam caridade, sem cuidarem de que o que fazem representa uma pequena parte do que estão obrigados a fazer.
E mostram-se tão satisfeitos consigo mesmos como o fariseu que julgava ter enchido a medida da lei só por jejuar dois dias por semana e pagar o dízimo de tudo o que possuía.

173
        
A caridade, que é como que um transbordar generoso da justiça, exige em primeiro lugar o cumprimento do dever: começa-se pelo que é justo; continua-se pelo que é mais equitativo...
Mas para amar requer-se muita finura, muita delicadeza, muito respeito, muita afabilidade; numa palavra, seguir aquele conselho do Apóstolo: levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo.
Então, sim, vivemos plenamente a caridade, realizamos o mandato de Jesus.

Para mim não existe exemplo mais claro dessa união prática da justiça com a caridade do que o comportamento das mães.
Amam com idêntico carinho todos os seus filhos e esse amor leva-as precisamente a tratá-los de modo diferente - com uma justiça desigual - visto que cada um é diferente dos outros.

Pois também em relação aos nossos semelhantes a caridade aperfeiçoa e completa a justiça, porque nos leva a proceder de maneira desigual com os desiguais, adaptando-nos às suas circunstâncias concretas, a fim de comunicarmos alegria a quem está triste, ciência a quem carece de formação, afecto a quem se sente só...
A justiça determina que se dê a cada um o que lhe pertence; ora isto não significa dar a todos a mesma coisa.
O igualitarismo utópico é fonte das maiores injustiças.

Para procedermos sempre assim, como essas boas mães, precisamos de esquecer-nos de nós mesmos e de não aspirar a outra superioridade senão a de servir os outros, como Jesus Cristo, que afirmava: o Filho do homem veio, não para ser servido, mas para servir.
Isto exige a inteireza da submissão da nossa vontade ao modelo divino, trabalhar para todos, lutar pela felicidade eterna e pelo bem-estar dos outros.
Não conheço melhor caminho para ser justo do que uma vida de entrega e de serviço.

174
         
Talvez alguns pensem que sou um ingénuo.
Não me importa. Embora me qualifiquem desse modo, porque continuo a acreditar na caridade, garanto-vos que sempre acreditarei nela!
E enquanto o Senhor me conceder vida, continuarei a ocupar-me - como sacerdote de Cristo - de que haja unidade e paz entre os que são irmãos por serem filhos do mesmo Pai, Deus; de que a humanidade se compreenda; de que todos compartilhem o mesmo ideal: o da Fé!

Recorramos a Santa Maria, Virgem prudente e fiel, e a S. José, seu esposo, modelo acabado de homem justo.
Eles, que na presença de Jesus, Filho de Deus, viveram as virtudes que contemplámos, conseguir-nos-ão a graça de que se arraiguem firmemente na nossa alma, para nos decidirmos a proceder a toda a hora como bons discípulos do Mestre: prudentes, justos, cheios de caridade.

(cont)



06/05/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual (A beleza de ser cristão)


Semana V da Páscoa

Evangelho: Jo 15 1-8

1 «Eu sou a videira verdadeira, e Meu Pai é o agricultor. 2 Todo o ramo que não dá fruto em Mim, Ele o cortará; e todo o que der fruto, podá-lo-á, para que dê mais fruto. 3 Vós já estais limpos em virtude da palavra que vos anunciei. 4 Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode por si mesmo dar fruto se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. 5 Eu sou a videira, vós os ramos. Aquele que permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. 6 Se alguém não permanecer em Mim, será lançado fora como o ramo, e secará; depois recolhê-lo-ão, lançá-lo-ão no fogo e arderá. 7 Se permanecerdes em Mim, e as Minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á concedido. 8 Nisto é glorificado Meu Pai: Em que vós deis muito fruto e sejais Meus discípulos.

Comentário:

Com insistente cuidado, o Senhor vai avisando sem tergiversações a absoluta necessidade de estarmos unidos a Ele.
Formando um só e bem estruturado conjunto como uma vide com os seus ramos.
Não é demais nem despicienda a nossa necessidade de sermos avisados já que todos – mais ou menos – sofremos dessa estranha forma de desejar caminhar por nós mesmos com uma auto-suficiência facciosa que, se não corrigida a tempo, acabará por nos perder.

(ama, comentário sobre Jo 15, 1-8, 2014.07.23)


Leitura espiritual

a beleza de ser cristão

PRIMEIRA PARTE



XI. OS DONS DO ESPÍRITO SANTO

…/22

        Ao falar do Baptismo assinalamos, que entre os efeitos da Graça recebida «o viver e actuar sob a moção do Espírito Santo mediante os dons do Espírito Santo”.[i]
        O Senhor tinha prometido aos Apóstolos a vinda do Espírito Santo e tinha-lhes indicado: «o Espírito de verdade guiar-vos-á até à verdade completa”;[ii] e, pouco antes, tinha anunciado a missão do Espírito com estas palavras: «Convencerá o mundo no referente ao pecado, no referente à justiça e no referente ao juízo; no referente ao pecado, porque não creem em mim; no referente à justiça, porque vou para o Pai, e já não me vereis; no referente ao juízo, porque o príncipe deste mundo está condenado”.[iii]
        Com estas afirmações podemos dar-nos conta do verdadeiro significado da acção da Graça na pessoa do crente e o que comporta na pessoa do homem de fé a «participação na natureza divina”: Deus, Uno e Trino, Pai, Filho e Espírito Santo vive no crente e com o crente.
E também nos daremos conta de que o crente, por sua vez, não é apenas um membro passivo nesta relação com Deus.
O homem de fé vive em Deus e com Deus, como verdadeiro «filho de Deus em Cristo Jesus”.
Para explicar esta acção de Deus no e com o cristão e do cristão em e com Deus, afirma-se: «A vida moral dos cristãos está sustentada pelos Dons do Espírito Santo.
Estes são disposições permanentes que tornam o homem dócil para seguir os impulsos do Espírito Santo”)[iv].
Vimos que a vida cristã, o novo viver do baptizado, se enforma a través da Fé, da Esperança e da Caridade, que permitem ao homem desenvolver no seu actuar a riqueza sobrenatural da vida de Deus enxertada em nós, ao «participar da natureza divina”.
        Com a Fé, a Esperança e a Caridade, o homem realiza acções superiores às forças humanas da sua própria natureza.
Necessita, portanto, do apoio constante da acção de Deus para se manter e não desfalecer no seu actuar.
Daí a presença do Espírito Santo na alma, com uma missão de algum modo semelhante à que teve na Encarnação de Jesus Cristo.
        O Espírito Santo tornou possível que Deus Filho nascesse de mulher, tornando-se carne no seio da Virgem Maria.
A acção do Espírito Santo na pessoa do baptizado torna possível que o enxerto da Graça vá configurando o cristão em «outro Cristo”, no «próprio Cristo”.
        É o passo que abre as portas à conversão do homem, de «criatura de Deus” em «filho de Deus em Cristo”, recebendo e acolhendo a redenção de Cristo; e situa-o no umbral da sua santificação, tão magistralmente descrita por São Paulo: «Com efeito, eu pela lei morri para a lei, a fim de viver para Deus; estou crucificado e vivo com Cristo, mas não eu, mas é Cristo que vive em mim; a vida que vivo no presente na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim”.[v]
Resumindo brevemente podemos dizer que a Graça santificante, ao infundir no espirito do homem a Fé, a Esperança e a Caridade, prepara todas as potências do cristão para receber aluz de Deus e começar a crescer pelos caminhos que essa luz lhe descobre.
Luz e caminhos que são os Dons do Espírito Santo.
A graça santificante também infunde na alma os dons do Espírito Santo.
Pela sua acção, o homem, na sua condição de «filho de Deus em Cristo”, move-se impulsionado pelo próprio Espírito Santo, para levara a cabo no seu interior a sugestão que São Paulo faz aos Efésios para que se despojem «do homem velho que se corrompe seguindo a sedução das concupiscências, a renovar o espírito da vossa mente e a revestir-vos do homem novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade”.[vi]
O Espírito Santo, «Deus connosco”, está presente com os seus dons na alma que recebeu a Graça santificante; portanto, já desde o Baptismo actuam no interior do cristão.
É conveniente assinalar, e sublinhar de novo, que essa actuação divina não impede que o homem actue livremente e em modo estrictamente humano por meio da inteligência, da memória e da vontade, potências a que também os dons se referem.
Se podemos resumir numa imagem esta acção do Espírito Santo, diríamos que torna possível que o enxerto divino na alma do cristão dê frutos de Fé, de Esperança e de Caridade nas suas actuações exteriores.
Como a água de um rio que faz surgir nas margens, e segundo as terras que encontra no seu caminho, plantas, diferentes árvores, assim a Graça, ao enxertar-se do núcleo essencial do ser humano, torna possível que o homem fique «enxertado” em Cristo.
E, ao mesmo tempo, ilumina a inteligência com a Fé, a memória, com a Esperança, e a vontade, coma Caridade, e origina que as faculdades do homem sejam movidas pela acção da Sabedoria, da Ciência, de todos os Dons do Espírito Santo.
De facto, quando considerámos os sacramentos do Baptismo, da Confirmação, da Eucaristia, incluímo-los sob a denominação comum de «sacramentos de iniciação cristã”, já assinalámos que, desde esse momento, toda a «vida de Cristo” actua no cristão; e a vida d Cristo é a vida da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo.
No momento de explicar o desenvolvimento da vida cristã no homem, costuma-se distinguir entre Virtudes e Dons, sublinhando a maior importância da acção humana – esforço, perseverança, vontade, numa palavra – nas Virtudes como hábitos no actuar; e a gratuidade dos Dons, infundidos directamente por Deus na alma e, sob cuja acção, o homem é levado a actuar.
Na realidade, e ao ser a Graça «participação da natureza divina”, ou seja, «uma nova vida” que torna possível ao homem ser «nova criatura em Cristo”, o ser humano cristão vive já desde o princípio com a ajuda dos Dons do Espírito Santo.
O Pai, o Filho e o Espírito Santo actuam na sua pessoa, e com a pessoa, do crente.
É teoria comum dos autores que essas virtudes infusas da Fé, da Esperança e da Caridade capacitam o ser humano para os actos ordinários da ascese e da luta cristã, que estudarmos na segunda parte, e que os Dons facilitam forças ao cristão para levara cabo actos extraordinários e heroicos.
Depois de tudo que já vimos, sem em absoluto negar a validade que possa ter essa arreigada visão, parece-me mais acertado não fazer esse tipo de distinções; também para facilitar a compreensão do engendrar-se no homem e o desenvolver-se da «única vida cristã”.
Por esse motivo, pode dizer-se que não está longe da realidade considerar que o trabalho da Graça santificante na conversão do homem e no desenvolvimento da «nova criatura” tem uma única origem, um mesmo princípio e nunca se dá actuações do cristão que se possa aplicar exclusivamente à acção das virtudes ou ao impulso dos Dons.
Na realidade, repetimo-lo, é a «vida divina no homem”, na totalidade da participação pessoal do baptizado, o que torna possível a existência da «nova criatura”.
Dons e Virtudes actuam com juntamente e na pessoa do crente. As Virtudes não são possíveis sem os Dons; e também são fruto da acção do Espírito Santo na natureza humana.
Dons e Virtudes enxertam-se na alma em graça, e no enxertar-se originam a acção, em união com o esforço e a liberdade do crente.
Esta concomitância não constitui obstáculo para que, em muitas ocasiões, seja possível e até lógico sublinhar a maior influência de um dom ou de uma virtude determinada, numa acção do cristão.
A vida cristã, logo, é «a vida da carne, vivida na fé do Filho de Deus”, e esta fé só é possível desenvolvê-la nos Dons do Espírito Santo.
Num acto de fé, por exemplo, além da virtude da fé pode apreciar-se a luz dos dons de sabedoria e de inteligência.
Num acto de martírio, a acção da virtude da esperança está impregnada, entre outros, pela seiva dos dons de fortaleza e piedade.
Deus ao criar Adão e doar-lhe o espírito, a vida do espírito, deu consistência ao actuar do homem, fazendo correr a vida por e em todas as suas faculdades.
Em certa analogia com essa primeira criação, ao doar-lhe a Graça, leva o homem a actuar enxertado em Cristo, na unicidade da sua pessoa, e a sua acção manifesta-se na sua inteligência com a Fé, na memória com a Esperança, na vontade com a Caridade, que dão sentido humano ao seu actuar como criatura.
A pessoa humana, enxertada na Graça, actua com capacidades, objectivos, dimensões e horizontes humanos e divinos.
Ou melhor, com um horizonte que, sendo humano, é divino; e é divino sem nunca deixar de ser humano.
Para desenvolver brevemente estas afirmações, consideramos agora sucintamente os Dons, a missão particular de cada um na constituição da «nova criatura em Cristo”, segundo a tradição espiritual da Igreja.
Esclarecemos, todavia, que a acção da Graça no espírito humano, os canais pelos quais se encaminha e a unidade que tende a configurar entre Deus e o homem, e o homem e Deus, jamais chegam a ser plenamente compreensíveis para o entendimento humano, que não tem capacidade para elaborar conceitos de todas essas realidades.
O mistério iniciado por Deus na criação, e continuado na santificação do homem, é tão insondável para o homem como o é o mistério do amor de Deus.

(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)





[i] Catecismo, n. 1266
[ii] Jo 16, 13
[iii] Jo 16, 8-12
[iv] Catecismo, n. 1830
[v] Gal 2, 19-20
[vi] Ef 4, 22-24