04/04/2017

Leitura espiritual

A Cidade Deus
A CIDADE DE DEUS


Vol. 2

LIVRO X

CAPÍTULO XXII

Origem do poder dos santos contra os demónios e origem da verdadeira purificação do coração.

Os homens de Deus expulsam a potestade do ar, inimiga e contrária à piedade, não aplacando-a, mas conjurando-a com verdadeira piedade. Vencem todas as tentações desse inimigo, rogando contra ele, não a ele próprio, mas ao seu Deus. De facto, tal potestade a ninguém vence nem subjuga a não ser pela associação ao seu pecado. É, pois, vencida em nome d’Aque!e que assumiu a condição humana e levou uma vida sem pecado, para que a remissão dos pecados se operasse n ’Ele, sacerdote e sacrifício, mediador entre Deus e os homens, o Homem Jesus Cristo por quem, purificados dos pecados, somos reconciliados com Deus. Efectivamente só os nossos pecados separam os homens de Deus. Nesta vida não é por virtude nossa, mas por misericórdia de Deus, não é por poder nosso, mas por indulgência d ’Ele, que se opera em nós a purificação dos pecados. A própria virtude, seja ela qual for, que chamamos nossa, foi-nos concedida pela sua bondade. E muito atribuiríamos a esta carne se não vivêssemos por permissão d’Ele até a deixarmos. Também a graça nos é concedida pelo mediador para que, maculados pela carne do pecado, fiquemos limpos pela semelhança da Carne do pecado. Por esta graça de Deus, pela qual Ele nos mostra a sua grande misericórdia, somos governados, mediante a fé, nesta vida; e, depois desta vida, seremos levados pela própria beleza da verdade imutável à plenitude da perfeição.

CAPÍTULO XXIII

Princípios da purificação da alma segundo os platónicos.

Diz ainda Porfírio que, segundo uma resposta dos oráculos divinos, as teletas da Lua e do Sol não nos purificam — querendo assim mostrar que o homem não pode ser purificado pelas teletas de nenhum deus. Quais são então as teletas que nos purificam, se não nos purificam as da Lua e do Sol, que são tidos por principais entre os deuses do Céu? Acaba por afirmar que o oráculo anunciou que os princípios podem purificar; é que receou que, depois de ter dito que as teletas do Sol e da Lua não purificavam, se poderia vir a julgar que as teletas de qualquer outro da turbamulta dos deuses teria poder para purificar. Pois bem, sabemos quais são os princípios que ele admite, como platónico. Fala, de facto, de Deus Pai e de Deus Filho a quem em grego chama «Inteligência Paterna» ou «Mente Paterna». Acerca do Espírito Santo nada diz ou o que diz não é claro. Não compreendo qual é esse outro que coloca entre os dois. Se queria falar de uma terceira natureza da alma, como Plotino quando trata das Três principais substâncias (De Tribus principalibus substantiis), não falaria de um médio entre eles, isto é, entre o Pai e o Filho.
Realmente Plotino põe a natureza da alma depois da «Inteligência Paterna»; mas Porfírio, falando de um meio, não a coloca depois, mas entre as duas. Fala assim, como lhe foi possível, do que nós chamamos o Espírito Santo — não apenas do «Espírito do Pai» nem apenas do «Espírito do Filho», mas do Espírito de Um e Outro. De facto, os filósofos escolhem livrem ente os seus termos e nas questões mais difíceis de compreender não receiam ofender os ouvidos religiosos. Mas a nós convém que se fale conforme uma regra precisa, não aconteça que a liberdade nas palavras gere uma opinião ímpia acerca das coisas que elas designam.

CAPÍTULO XXIV

Único verdadeiro princípio que purifica e renova a natureza humana.

Por isso nós, quando falamos de Deus, não afirmamos dois ou três princípios, tal como não nos é permitido afirmar dois ou três deuses. É certo que, quando falamos de cada uma das pessoas divinas — do Pai, do Filho ou do Espírito Santo —, confessamos que cada um é Deus; todavia não dizemos, como os heréticos Sabelianos, que o Pai é idêntico ao Filho, que o Espírito Santo é idêntico ao Pai e ao Filho. Mas dizemos que o Pai é o Pai do Filho, que o Filho é Filho do Pai e que o Espírito Santo, sem ser nem o Pai nem o Filho, é o Espírito do Pai e do Filho. E assim se diz com verdade que o homem não é purificado senão por um princípio embora entre eles (filósofos) se fale de princípios no plural.

Porfírio, porém, dominado pelas potestades ciosas, das quais sentia vergonha, mas que tinha medo de livremente rebater, não quis reconhecer o Cristo Senhor como o Princípio por cuja encarnação somos purificados. Desprezou-o nessa carne que Cristo assumiu para ser sacrifí­cio da nossa purificação. Não compreendeu este grande sacramento devido ao orgulho que o bom, o verdadeiro mediador abateu pela sua humildade, mostrando-se aos mortais nessa mortalidade que os maléficos e enganadores mediadores não tinham; e por isso com mais arrogância se envaideceram, prometendo, como imortais a mortais, uma ilusória aos infelizes homens. Mas com o bom e verdadeiro mediador mostrou que o mal é o pecado e não a substancia ou a natureza da carne; Ele pôde, pois, assumir esta carne e com ela uma alma humana, e conservá-la sem pecado, como pôde depô-la com a sua morte e transformá-la para melhor com a sua ressurreição; mostrou que nem a própria morte — castigo do pecado que Ele, embora sem pecado, sofreu por nós — pode ser evitada ao que peca, mas deve sim ser suportada, quando a ocasião surgir, como coisa justa. Não morreu porque pecou, mas morreu porque, morrendo, pôde pagar os nossos pecados.

O citado platónico não soube que este é que era o Princípio pois, se o soubesse, tê-lo-ia reconhecido como purificador. Não é a carne que há n’Ele que é o princí­pio — nem a alma humana; é o Verbo por quem tudo foi feito. A carne não purifica, pois, por si própria, mas pelo Verbo por quem foi assumida quando

o Verbo se fez came e habita entre nós.[i]

Também quando falava misticamente da sua carne que devia ser comida e os que o não compreenderam se retiraram ofendidos dizendo:
 
É dura esta palavra quem a pode ouvir? [ii]

respondeu Ele aos que ficaram:

É o espírito que vivifica, mas a came para nada serve[iii].

O Princípio, portanto, tomando uma alma e uma carne, purifica a alma e a carne dos crentes. Por isso, aos judeus que lhe perguntavam quem era Ele, respondeu que era o Princípio. E nós — carnais, enfermos, sujeitos ao pecado, envolvidos nas trevas da ignorância — seríamos totalmente incapazes de compreender isso, se não fôssemos purificados e curados por Ele por meio do que éramos e do que não éramos. Realmente, éramos homens, mas não éramos justos e na sua encarnação Ele tinha uma natureza humana, mas justa e não pecadora. É esta a mediação pela qual foi estendida a mão aos que tinham caído e jaziam por terra; é esta a descendência preparada pelos anjos em cujas palavras se promulgava a lei que mandava prestar culto a um só Deus e prometia o mediador que havia de vir.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Jo I, 14.
[ii] Jo VI, 60.
[iii] Jo VI, 63.

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