18/02/2017

Leitura espiritual


A CIDADE DE DEUS 

Vol. 1

LIVRO VII

CAPÍTULO XVI

Acerca de Apoio e de Diana e de outros deuses escolhidos, que pretenderam identificar com as partes do Mundo.



Quanto a Apoio, embora o tenham por adivinho e médico, para o colocarem em alguma parte do Mundo disseram que ele é também o Sol; disseram da mesma forma que Diana, sua irmã, era a Lua e presidia aos caminhos. (Daí pretenderem que ela era virgem, porque um caminho nada gera). Ambos têm setas, porque estes dois astros lançam do céu os seus raios sobre a Terra. Pretendem que Vulcano seja o fogo do Mundo, Neptuno as águas do Mundo, Díspater, ou seja, o Orco, a parte terrestre e mais baixa do Mundo. Fazem Libero e Ceres presidir às sementes — ele às sementes masculinas e ela às sementes femininas, ou ele aos seus elementos líquidos e ela aos seus elementos secos. E tudo isto se relaciona sem dúvida com o Mundo, isto é, com Júpiter, que se chama precisamente «progenitor e progenitora», porque expele de si e em si recebe todas as sementes. Pretendem também, por vezes, que Ceres seja a Grande-Mãe que, dizem eles, mais não é que a Terra. Esta apresentam-na ainda como sendo Juno, à qual atribuem as causas segundas. E, todavia, foi a Júpiter que se conferiu o título de «progenitor e progenitora dos deuses», porque, conforme julgam, Júpiter é a totalidade do Mundo. E Minerva também, porque a fizeram presidir às artes humanas e, não tendo encontrado estrela para a alojarem, identificaram-na com a zona superior do éter ou mesmo com a Lua. Também Vesta: consideram-na a maior das deusas porque ela é a própria Terra. Todavia, acharam que deviam atribuir-lhe os elementos leves do fogo, aqueles de que os homens se utilizam, — mas não os elementos violentos: esses atribuem-nos a Vulcano.

Assim, para eles, todos estes deuses escolhidos mais não são que este Mundo: para uns, o Mundo inteiro; para outros, suas partes; o Mundo inteiro como Júpiter; suas partes, como Génio, a Grande-Mãe, o Sol e a Terra, ou antes Apoio e Diana. E, ora fazem de várias coisas um só deus, ora de vários deuses uma só coisa. Um só deus é várias coisas — é o caso de Júpiter. Efectivamente, o Mundo inteiro é Júpiter, o Céu só por si é Júpiter, só por si um astro é Júpiter. Isto é o que se julga; é o que se diz! E também o caso de Juno: Juno é a senhora das causas segundas, Juno é o ar, Juno é a Terra e, se tivesse triunfado de Vénus, Juno seria um astro. De maneira semelhante, Minerva é a zona superior do éter, Minerva é igualmente a Lua, que se situa no limite inferior do éter. Mas também fazem de vários deuses uma só coisa: Jano é o Mundo, e Júpiter também; Jano é a Terra, a Grande-Mãe e Ceres também.

CAPÍTULO XVII

O próprio Varrão apresentou como duvidosas as suas opiniões acerca dos deuses.

Acerca do que resta, tal como acerca do que já foi relatado a título de exemplo, eles nada explicam, mas, bem ao contrário, tudo complicam. Arrastados pelo ímpeto do seu pensamento vagabundo, avançam e recuam, aos saltos, de lá para cá, de cá para lá, ao ponto de o próprio Varrão achar melhor de tudo duvidar e nada afirmar. Tendo terminado o primeiro dos três livros consagrados aos deuses certos, escreve assim no princípio do segundo, consagrado aos deuses incertos:

Não devo ser repreendido por este livrinho ter expendido opiniões duvidosas acerca dos deuses. Quem julgar que é necessário e possível formular um juízo seguro, formá-lo-á ele próprio depois de me ter ouvido. Por mim, mais facilmente me levam a duvidar do que disse no meu primeiro livro, do que a condensar num breve resumo tudo o que possa escrever neste.

Ora, nesse terceiro livro acerca dos deuses escolhidos, após um preâmbulo que considerou oportuno acerca da teologia natural, ao começar a tratar as futilidades e loucuras desta teologia civil em que, longe de ser guiado pela verdade dos factos, era antes embaraçado pela autoridade dos antepassados, diz:

Vou tratar, neste livro, dos deuses públicos do Povo Romano, aos quais se dedicaram templos e que assinalaram, honrando-os com estátuas. Mas, como Xenófanes de Cólofon direi o que penso, mas não o que aprovo. É que é próprio do homem emitir opiniões, mas o saber apenas a Deus pertence.

Por isso, ao tentar dar-nos a conhecer as instituições criadas pelo homem, promete-nos, titubeando, uma exposi­ ção, não de questões bem definidas e firmemente assentes, mas de simples opiniões e de pontos de vista duvidosos. Ele sabia muito bem que há um mundo, que há um Céu e uma Terra, um Céu cintilante de estrelas, uma Terra útil de sementes e outras coisas semelhantes. Acreditava de ânimo firme e seguro que este vasto conjunto e toda esta Natureza são dirigidas e governadas por uma certa força invisível e superiormente poderosa. Mas não podia afirmar, com o mesmo conhecimento e crença, que Jano é o mundo, nem podia descobrir como é que Saturno, sendo pai de Júpiter, se tomou seu súbdito; e outras coisas que tais.

CAPÍTULO XVIII

Qual a causa mais verosímil da propagação dos erros do paganismo?

Tudo isto se explica de forma mais verosímil admitindo que os deuses foram homens que os pagãos por adulação quiseram divinizar, dedicando-lhes cerimónias e solenidades conformes ao carácter, aos costumes, aos actos e às circunstâncias de cada um. Estas honras, insinuando-se, pouco a pouco, na alma dos homens, semelhantes a demónios e, ávidos de diversões, espalharam-se por toda a parte, ornadas pelas mentiras dos poetas e as seduções dos espíritos falazes.

E, de facto, que um jovem sem amor filial ou receando ser assassinado por um pai sem amor paternal, tenha podido, ávido de reinar, expulsar seu pai do reino — é coisa mais de acreditar do que a explicação que Varrão nos dá de que Saturno foi vencido por Júpiter, o pai pelo filho, porque a causa, que está nas mãos de Júpiter, é anterior à semente, que está nas mãos de Saturno. Se assim fosse, jamais Saturno poderia ser anterior ou pai de Júpiter; a causa precede sempre a semente e nunca é gerada por esta. Mas, nos seus esforços para justificarem com pretensas interpretações naturais as fábulas menos consistentes e as acções puramente humanas, mesmo os espíritos mais argutos sentem-se de tal forma embaraçados que até nós nos sentimos constrangidos a deplorar os seus desvarios.

CAPÍTULO XIX

Interpretações acerca do culto prestado a Saturno.

Conforme Varrão afirma, disseram que Saturno costumava devorar o que dele nascia, porque as sementes voltam ao sítio donde nasceram. E o facto de, em vez de Júpiter, lhe terem dado um torrão para devorar, significa, diz ele, que as sementes começaram a ser enterradas pelas mãos dos homens antes de se descobrir a utilidade de se lavrar a terra. Saturno devia, pois, designar a terra e não as sementes, porque é a terra que, de certo modo, devora o que produziu, uma vez que a ela voltam, para serem novamente recebidas no seu seio, as sementes que dela nasceram.

Quanto ao torrão dado a Saturno em vez de Júpiter, que relação pode isto ter com o facto de as sementes serem cobertas com terra pelas mãos do homem? Quererá isso dizer que essa semente coberta de terra não seria por isso devorada como as outras? Isto diz-se como querendo sugerir que quem apresentou o torrão, escondeu a semente, como dizem que se tirou Júpiter a Saturno, oferecendo-lhe um torrão — quando na realidade, cobrindo a semente de terra, se fez com que essa semente fosse mais rapidamente devorada. Depois, neste caso, Júpiter é a semente e não a causa da semente, como acima se referiu. Mas que mais podem fazer os homens que, ao interpretarem inépcias, nada de sensato encontram para nos dizer?

Saturno tem uma foice por causa da agricultura
diz Varrão. Com certeza, no seu reinado ainda não havia agricultura; e, se a sua época se considera antiga, conforme a interpretação que Varrão dá destas fábulas, é precisamente porque os homens primitivos viviam de sementes que a terra espontaneamente produzia. Quanto à foice — será que talvez ele a tenha recebido depois de ter perdido o ceptro, e assim, de rei preguiçoso que fora nos antigos tempos, se tomou, sob o reinado de seu filho, obreiro diligente?

A seguir Varrão diz que, se certos povos, como os Cartagineses, tinham o costume de sacrificar crianças a Saturno, e outros, como os Gauleses, mesmo velhos, — era porque de todas as sementes a melhor era a raça humana. Que necessidade teremos de insistir sobre tão cruel inépcia? Notemos desde já e retenhamos que estas interpreta­ções não se referem ao verdadeiro Deus, natureza viva, incorpórea e imutável, a quem se deve pedir a vida eternamente feliz, mas antes que elas se mantêm confinadas às coisas corpóreas, temporais, mutáveis e mortais. Diz Varrão:

Que Saturno, segundo as fábulas, tenha castrado o Céu, seu pai, significa isto que a semente divina está em poder de Saturno e não em poder do Céu.

E isto porque, tanto quanto se possa compreender, nada no Céu nasce da semente. Mas então vede: se Saturno é filho do Céu, ele é filho de Júpiter. Que Júpiter é o Céu, inúmeros e precisos testemunhos o confirmam. E assim as opiniões que não resultam da verdade se esboroam por si mesmas sem que haja ninguém a abalá-las.

Diz ainda Varrão que Saturno se chama Κρόνος, palavra grega que significa tempo, porque sem tempo, acrescenta, nenhuma semente poderia ser fecundada. Diz-se isto, e outras coisas mais, de Saturno e tudo se refere à semente. Mas, pelo menos Saturno, com semelhante poder deveria bastar às sementes. Porque se requisitam então ainda outros deuses, nomeadamente Libero e Libera, ou seja, Ceres? A propósito destes deuses e da semente, repete Varrão muitas coisas, como se nada tivesse já dito acerca de Saturno.

CAPÍTULO XX

Os mistérios de Ceres Eleusina.

Entre as cerimónias dedicadas a Ceres, apregoam-se as Eleusis, que tão famosas foram entre os Atenienses. Varrão não dá delas qualquer explicação. Apenas se refere ao trigo que Ceres descobriu e a Prosérpina que Ceres perdeu quando Orco a raptou. Diz ele que Prosérpina representa a fecundidade das sementes; e, como essa fecundidade faltou durante algum tempo e a terra se queixou da sua esterilidade, apareceu a opinião de que a filha de Ceres, ou seja a própria fecundidade, chamada Prosérpina (de proserpere— propagar-se) fora raptada por Orco e retida nos infernos. Solenizou-se esta desgraça com luto público; mas, quando reapareceu a fecundidade e Prosérpina voltou, surgiu a alegria e foram instituídas cerimónias nessa ocasião. Acrescenta Varrão que nesses mistérios se referem muitos factos relativos, todos eles, à descoberta dos cereais.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)


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