15/02/2017

Leitura espiritual

A CIDADE DE DEUS

Vol. 1

LIVRO VII

CAPÍTULO III

Não há qualquer motivo assinalável na escolha dos deuses, pois que muitos deuses inferiores exercem funções mais elevadas do que as dos escolhidos.

Qual teria sido então a causa que obrigou tantos deuses escolhidos a essas tarefas mesquinhas, ao passo que um Vitumno e um Sentino,

a quem uma obscura fama esconde [i]
os superam na partilha das grandezas? Com efeito, é Jano, deus escolhido, quem abre o acesso e, por assim dizer, a porta ao sémen; é Saturno, deus escolhido, quem fornece o próprio sémen; é Libero, deus escolhido, quem facilita a emissão nos homens, como Libera, que é a própria Ceres ou Vénus, o facilita às mulheres; é Juno, deusa escolhida (e não sozinha, mas com Mena, filha de Júpiter), quem assegura o fluxo menstrual para que se desenvolva o que foi concebido. E é um obscuro e desconhecido Vitumno quem confere a vida; um obscuro e desconhecido Sentino quem confere a sensibilidade — dois benefícios tão acima de tantos outros como estes estão abaixo da inteligência e da razão. De facto, assim como os seres dotados de razão e de inteligência estão acima dos que, desprovidos de razão e de inteligência, vivem e sentem como gado—assim também os seres dotados de vida e de sensibilidade estão com razão acima dos que não vivem nem sentem. Consequentemente, Vitumno, o despenseiro da vida, e Sentino, o despenseiro da sensibilidade, mereceriam ocupar um lugar entre os deuses escolhidos mais do que Jano, o introdutor do sémen, mais do que Saturno que o concede e difunde, mais do que Libero e do que Libera, que o movimentam e emitem — sémen que, aliás, não merece ser considerado se não atinge a vida e a sensibilidade. E não são estes dois dons de eleição que provêm dos deuses escolhidos, mas de alguns deuses ignorados e, perante a grandeza dos outros, desprezados.

Haverá quem responda: Jano tem poder sobre todos os começos e é por isso que está certo que lhe atribuem os preliminares da concepção; Saturno dispõe de todos os sémenes e por isso também a inseminação do homem não pode passar sem o seu concurso; Libero e Libera presidem a todas as emissões seminais, razão por que dirigem todos os actos concernentes à reprodução do homem; Juno preside a todas as purificações e a todos os partos, e por isso não deixa de assistir às purificações das mulheres e aos nascimentos dos homens. Mas, nesse caso, respondam, pois é isso que se pretende, acerca de Vitumno e de Sentino: têm eles também poder sobre todo o ser vivo e sensível? Se concordam que assim é, reparem a que alto posto devem ser guindados. Realmente, nascer duma semente, é nascer na terra e da terra, ao passo que viver e sentir pertence também, na sua opinião, aos deuses siderais. Mas, se disserem que a Vitumno e a Sentino pertencem apenas os atributos que se desenvolvem na carne e se apoiam nos sentidos — porque é que o Deus, mercê do qual tudo vive e sente, não há-de ser ele quem dispensa à carne a vida e a sensibilidade e quem, pela sua acção universal, concede também este dom aos recém-nascidos? Que necessidade há de Viturno e de Sentino?

 Será que aquele que preside a toda a vida e a toda a sensibilidade lhes confiou, como que a criados, estes domí­nios da carne tidos por muito distantes e muito baixos? Têm estes deuses escolhidos tanta falta de criadagem que nem têm a quem confiar estes cuidados, mas são constrangidos, apesar de toda a sua nobreza que lhes valeu o serem escolhidos, a trabalharem na companhia de deuses obscuros? Assim, Juno, deusa escolhida, a rainha, «a esposa e irmã de Júpiter», tem ela própria que ser Interduca para as crianças, e cumpre o seu serviço com duas das mais obscuras das deusas — Abeona e Adeona. Junta-se-lhes a deusa Mente, encarregada de incutir nas crianças um espírito recto — e não a colocam entre os deuses escolhidos, como se o homem pudesse receber alguma coisa de maior importância! Mas Juno é lá admitida na qualidade de Interduca e de Domiduca, como se fosse grande coisa «andar no caminho» e «dirigir-se para casa» sem espírito recto — benefício que depende de uma deusa que, os que presidiram à escolha, não pensaram em colocar entre as divindades escolhidas.

Seria, porém, melhor tê-la preferido a Minerva, a quem, entre outras funções menores, se atribui a memória das crianças. Quem é que, de facto, poderá duvidar de que um espírito recto é muito superior à mais prodigiosa memória? Ninguém será mau por ter um espírito recto, mas há gente péssima que tem uma admirável memória e é tanto pior quanto menos capaz for de esquecer seus maus propósitos. E, todavia, Minerva figura entre os deuses escolhidos, ao passo que a deusa Mente se perde na multidão dos sem categoria. E que direi da Virtude e da Felicidade, de que tanto falámos já no livro quarto? Admitem-nas como deusas mas não lhes concedem lugar entre os deuses escolhidos; concederam-no, porém, a Marte e a Orco, encarregados, o primeiro de ocasionar as mortes violentas, o segundo de acolher em si os defuntos!

Nestes insignificantes trabalhos, minuciosamente repartidos por uma caterva de deuses, vemos que os deuses escolhidos trabalham como trabalha o Senado com a plebe, e encontramos funções, mais importantes e melhores que as dos chamados deuses escolhidos, desempenhadas por certos deuses que não foram considerados dignos de qualquer escolha. Resta concluir que, se eles se encontram entre os deuses principais e escolhidos, tal não resulta dos cargos mais elevados que desempenham no mundo, mas apenas da sorte de serem mais conhecidos do povo. Aí está porque o próprio Varrão afirma que a certos deuses-pais e a certas deusas-mães aconteceu como acontece aos homens — caírem na obscuridade. Se, portanto, não se devia meter a Felicidade na categoria dos deuses escolhidos, porque não há dúvida de que esta honra se deve, não ao mérito, mas à sorte, — dever-se-ia então colocar a Fortuna, pelo menos entre estes deuses ou até acima deles, pois que, segundo se diz, ela dispensa os seus favores a cada um, não segundo a ordem da razão, mas segundo o capricho da sorte. Ela é que deveria, entre os deuses escolhidos, ocupar o primeiro lugar, pois que é principalmente entre estes que ela mostra o seu poder. Constatámos que não é devido às suas eminentes virtudes nem por causa de uma felicidade merecida que eles foram postos à parte, mas, conforme o sentimento dos seus próprios adoradores, pelo poder arbitrário da fortuna. Também o eloquente Salústio pensava, com certeza, nestes deuses quando dizia:

Com certeza que a fortuna é senhora soberana; é ela que, mais conforme o seu capricho do que conforme a justiça, assegura a todos os seres a notoriedade ou a obscuridade [ii].
Efectivamente, não é possível encontrar razões para se enaltecer Vénus e rebaixar a Virtude, quando ambas são colocadas na categoria das deusas sem que se possam comparar os seus méritos.

Mas, se se julga mais digno de honra o que é mais procurado pela maioria, — porque é que a deusa Minerva é tão celebrada e a deusa Pecúnia mantida na obscuridade? É que, realmente, entre os homens, são mais os aliciados pela avareza que os seduzidos pela ciência; e entre os pró­prios artistas, raras vezes se encontra um que, no seu ofí­ cio, não tenha em vista ganhar dinheiro, e cada um aprecia sempre mais o fim que se propõe do que o que apenas é um meio para o conseguir. Se foi, portanto, o juízo de uma multidão estulta que presidiu a esta distinção, porque é que a deusa Pecúnia não obteve a preferência sobre Minerva, já que a maioria dos artistas trabalha na mira do dinheiro (pecunia)? Se, porém, esta distinção se deve a um reduzido número de sábios, porque é que a Virtude não foi preferida a Vénus, já que a razão a coloca tão acima destas? Pelo menos, como já disse, a Fortuna, soberana universal na opinião dos que lhe atribuem maior influência, tudo pode tomar glorioso ou obscuro, mais conforme ao capricho do que à verdade. E se, mesmo entre os deuses, ela tem uma importância que pode tomar glorioso ou obscuro quem ela quiser, deveria ocupar o primeiro lugar entre os deuses escolhidos, já que sobre os deuses é tão grande o seu poder. Será que a Fortuna não conseguiu essa honra porque ela própria (é caso para pensar) sofreu uma fortuna adversa? Nesse caso, ela, que nobilita os outros, mas a si não pode nobilitar, é de si própria adversária!

CAPÍTULO IV

Está-se melhor com os deuses inferiores, que de nenhuma infâmia estão manchados, do que com os escolhidos, cujas torpezas são tão celebradas.

Um homem ávido de renome e de glória não deixará de felicitar os deuses escolhidos e de lhes chamar afortunados, desde que não repare que mais pelos ultrajes do que pelas honras foram eles escolhidos. Efectivamente, a obscuridade que envolve a turbamulta dos deuses ínfimos protegeu-os da ignomínia. Rimo-nos, na verdade, por os vermos classificados em conformidade com as tarefas que a opinião humana inventou e lhes atribuiu: à maneira de subalternos cobradores de impostos ou de artífices do bairro operário, em que o menor dos vasos, para se dar por acabado, passa por numerosas mãos até que o mestre lhe ponha sozinho termo. Pensaram, contudo, que não se podia tirar melhor rendimento da multidão dos trabalhadores senão fazendo com que cada um aprendesse, depressa e com facilidade, apenas uma parte da tarefa, para os não obrigar, à custa de muito tempo e canseiras, a serem todos perfeitos no trabalho todo. Todavia, entre os deuses não escolhidos mal se encontrará um cuja reputação se tenha perdido em consequência de algum crime, ao passo que entre os escolhidos a custo se encontrará algum que não tenha sofrido o ferrete de alguma insigne infâmia. Os grandes desceram até às humildes tarefas dos pequenos; estes não foram guindados até aos sublimes crimes daqueles.

É verdade que, acerca de Jano, nada me ocorre a respeito da probidade. E talvez assim seja: teria levado uma vida mais afastada de crimes e torpezas. Acolheu benigno Saturno fugitivo; partilhou o seu reino com o seu hóspede, embora cada um tenha fundado a sua cidade — o Janículo e Satúmia. Mas essas pessoas, gulosas de tudo o que pode manchar o culto dos deuses, achando demasiado honrosa a vida de Jano, desfiguram-no na monstruosa fealdade da sua estátua, que o representa, ora com duas, ora com quatro frontes, como que duplicado. Será que quiseram, já que a maioria dos deuses escolhidos perdeu a cara à força de impudor no crime, que Jano aparecesse com tantas mais frontes quanto mais inocente era?


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Vergílio, Eneida, V, 302.
[ii] Salústio, Catiliana, VIII, 1.

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