02/01/2017

Leitura espiritual

Leitura espiritual



A Cidade de Deus 


Vol. 1

LIVRO II

CAPÍTULO V

Obscenidades com que os seus adoradores honravam a mãe dos deuses.

De forma nenhuma eu quereria ter por juízes nesta matéria os que mais procuram divertir-se do que lutar contra os vícios de um comportamento depravadíssimo, — mas o próprio Cipião Nasica, eleito pelo Senado como o melhor dos cidadãos, que recebeu nas suas mãos a imagem desse demónio e a introduziu em Roma. Ele é que nos diria se concordava em que à sua mãe, como recompensa dos seus méritos por parte do Estado, se lhe prestassem honras divinas — como consta que os Gregos, os Romanos e outros povos as tinham decretado em honra de alguns mortais cujos benefícios tinham em alta estima e julgavam que com isso os tornavam imortais e contados no número dos deuses [1]. Com certeza que Cipião havia de desejar para sua mãe a maior das felicidades possíveis. Mas se em seguida lhe perguntassem se queria que entre as honras divinas se celebrassem aquelas torpezas, — não clamaria ele que preferia ver sua mãe prostrada sem sentidos, morta, a vê-la viva para, como deusa, ter de ouvir complacentemente tais coisas? Longe vá o pensamento de que um senador do Povo Romano dotado de uma mentalidade tal que proibiu a construção de um teatro nesta cidade de varões fortes, quisesse para sua mãe um culto em que ela aceitaria benevolamente, como deusa, sacrifícios cujos ritos a ofenderiam como matrona. De maneira nenhuma ele acreditaria que a divinização transformaria em seu contrário o pudor de uma mulher digna de louvor a ponto de os seus adoradores a invocarem com honras quejandas. Porque, para as não ouvir quando proferidas não interessa contra quem, no tempo em que ela vivia entre os homens, teria tapado os ouvidos e pôr-se-ia em fuga sob pena de fazer corar com vergonha dela os seus vizinhos, o seu marido e os seus filhos.

E, assim, tal mãe dos deuses, a quem o homem mais perverso teria vergonha de ter por mãe, escolheu o melhor varão, não para o ajudar e aconselhar mas para o enganar com disfarces à maneira da mulher da qual está escrito «Mas a mulher apodera-se das preciosas almas dos homens [2]; o que ela quis foi que aquela alma de tão elevado carácter, arrastada por um pretenso testemunho divino, e na verdade a si mesma se considerando como a melhor, não procurasse a piedade e a religião verdadeiras sem as quais a soberba esvazia e derruba todo o génio, mesmo o mais digno de louvor. Como pois escolheria essa deusa tão bom varão senão insidiosamente, quando procurava para os seus ritos sagrados obscenidades tais que os melhores homens evitavam que fossem mostradas aos seus convidados?

CAPÍTULO VI

Os deuses pagãos nunca estabeleceram normas de conduta.

Pelo mesmo motivo não tiveram esses deuses a menor preocupação com a vida e os costumes das nações e suas gentes que os veneravam, mas, pelo contrário, permitiram, sem proferirem qualquer das suas terríveis proibi­ções, que fossem atingidas por tão horrendos e detestáveis males, não só nos seus campos e vinhas, nas suas casas e bens pecuniários e, por fim no seu próprio corpo que está submetido à alma, mas também que fossem atingidas na própria alma, e permitiram mesmo que elas se afundassem nesses males e se tomassem na pior gente. Mas se o proibiam — pois que no-lo mostrem, que no-lo provem, e não nos venham cochichar aos ouvidos não sei que débeis sussurros de pouquíssimos acerca de uma misteriosa religião recebida dos antepassados em que se aprendia a rectidão de vida e a guarda da castidade. Mostrem-nos os lugares e digam-nos quando foram consagrados para essas reuniões;
— onde se não pratiquem cenas com palavras e gestos obscenos dos histriões;
— onde se não celebrem os Fugalia [3] em que a toda a casta de torpezas é concedida permissão (e, na verdade, Fugalia são— mas «fuga» do pudor e da honestidade);
— onde estão os lugares destinados a ouvir os preceitos dos seus deuses para reprimirem a avareza, destruírem a ambição;
— onde os povos ouçam o que os deuses preceituam acerca da repressão da avareza, da destruição da ambição, do refreamento da luxúria;
— onde os desgraçados aprendam o que se deve saber como tão estrondosamente o proclamou o vosso Pérsio ao dizer:
Aprendei ó míseros, e tomai conhecimento das causas das coisas:
Que somos nós? nascemos para ter que vida?
Que lugar nos é concedido? e por que suave viragem dobramos?
Desde que ponto e por onde o nosso caminho dobrará suavemente o marco da meta?
Que medida impor ao dinheiro? que é lícito desejar?
Qual a utilidade da moeda acabada de fazer?
Quanto se deve dar à pátria e aos amados parentes?
Que homem te ordena Deus que sejas? Qual o teu lugar na humanidade [4]?

Digam em que locais costumavam os deuses ensinar esses preceitos e por que povos seus adoradores eram habitualmente ouvidos — tal qual como nós, que mostramos as igrejas para isso construídas por onde quer que se difunda a religião cristã.

CAPÍTULO VII

Sem a autoridade divina, são inúteis as descobertas filosóficas: o que os deuses fazem arrasta muito mais facilmente os homens ao vício do que o que os homens discutem.

Será que eles nos vão lembrar as escolas e as discussões dos filósofos? Primeiro que tudo — elas não são romanas mas gregas. Ou então são já romanas porque a Grécia se tornou província romana. De facto, não se ensinam lá os preceitos de Deus, mas as descobertas de homens dotados de agudíssimo engenho, que se aplicaram a descobrir pelo raciocínio:
o que estava escondido na natureza das coisas;
o que se deve desejar e o que se deve evitar nos costumes;
o que, como certeza, se tira por conexão das pró­prias regras do raciocínio, ou o que não é consequente, ou ainda o que repugnará.

E alguns deles, na medida em que foram ajudados por Deus, descobriram coisas importantes. Mas, na medida em que foram, como homens, limitados, erraram: principalmente quando a divina Providência resistia justamente à sua soberba, querendo mostrar, pelo seu exemplo, que o caminho da piedade parte da humildade para se elevar às alturas. Surge daqui uma questão que teremos ocasião de, mais tarde, aprofundarmos e discutirmos se Deus, o verdadeiro Senhor, o quiser.

Mas se os filósofos descobriram alguma coisa que pode ser útil para levarmos uma vida digna e conseguirmos a felicidade — quanto mais justo não seria que a eles atribuissem honras divinas! Quanto melhor e mais honesto não seria que no templo de Platão se lessem os seus livros do que nos templos dos demónios se castrassem os Galos [5] se consagrassem os invertidos, se mutilassem os loucos, e se assistisse a tudo o que há de mais cruel e vergonhoso, de vergonhosamente cruel ou cruelmente vergonhoso que é costume celebrar-se nas cerimónias de tais deuses!

Quão preferível seria que, para se instruírem suficientemente os jovens na justiça, se recitassem em público as leis dos deuses em vez de se louvarem em vão as leis e as instituições dos antepassados. Na verdade, todos os adoradores de tais deuses, logo que são tocados pela paixão, como diz Pérsio,
impregnados de ardente veneno [6],
apegam-se mais aos feitos de Júpiter do que aos ensinamentos de Platão ou às censuras de Catão. Mostra-o aquele adolescente viciado, referido nas obras de Terêncio, que olha para um certo quadro pintado numa parede
onde estava representado Júpiter, dizem, a despejar no seio de Danae utrn como que chuva de ouro [7].
e ele, encostando-se a uma tão alta autoridade, gaba-se de, na sua torpeza, imitar esse deus: Mas que Deus!

aquele que sacode as abóbodas do céu com soberano trovão! Eu, um homenzito, não faria isso? Pois já o fiz e com que ganas [8].

CAPÍTULO VIII

Jogos cénicos pelos quais os deuses se aplacam em vez de se ofenderem com as representações das suas torpezas.

Na realidade estas coisas não são proferidas nas cerimónias dos deuses mas nas fábulas dos poetas. Não quero afirmar que esses mistérios sejam mais vergonhosos do que as representações teatrais. O que digo é que os Romanos não introduziram esses mesmos jogos, em que reinam as ficções dos poetas, nas solenidades dos seus deuses em virtude de um ingénuo dever (— é a história que convence quem isto nega) — mas têm sido os próprios deuses que têm exigido severamente, e até de certo modo sob coacção, que se celebrem e se consagrem em sua honra. No primeiro livro toquei de passagem neste assunto em breve referência. Efectivamente nos primórdios, tendo- -se agravado uma peste, foram decretados jogos cénicos em Roma por decisão dos pontífices. Quem é que na verdade, ao ordenar a sua vida, não escolhe para si as acções representadas em cena com garantia da autoridade divina, de preferência às normas amiúde escritas nas leis promulgadas pelo génio humano?

Se os poetas mentirosamente nos apresentaram um Júpiter adúltero, os deuses, se por ventura castos, deveriam irritar-se e vingar-se, não pela negligência na representação mas por os humanos terem representado tais atrocidades que eram pura ficção. E as mais toleráveis destas representações cénicas são as comédias e as tragédias, isto é, as fábulas dos poetas para serem representadas nos espectáculos com muitas cenas vergonhosas — mas pelo menos sem as frases obscenas de muitas outras composi­ções como as que fazem parte dos estudos chamados honestos e liberais que os meninos são obrigados pelos velhos a ler e a aprender.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)



[1] Segundo o filósofo grego Evémero, os deuses mais não são que poderosos reis que os seus súbditos divinizaram após a morte por lisonja ou por reconhecimento para com os seus méri­tos. É possível que Santo Agostinho tenha tomado conhecimento do Evemerismo através de Cícero que aceita esta explicação historicista do fenómeno mítico pelo menos em relação a Hércules, Castor, Pallus e Liber (v. De natura deorum, II, 24). Embora esta explicação não encontrasse aceitação entre os gregos (Calímaco, Eratóstenes, Estrabão, Plutarco), foi, porém defendida pelos romanos (Énio, Evhemerus, sive Sacra Historia) e pelos apologistas judeus (Livro da Sabedoria XIV, 15 segs.) e cristãos (Lactânio Div. Inst. XI, 45-48 e 63-65. Santo Agostinho. De Civ. Dei, IV, 27; VIII, 26; XVIII, 5, 14, 19). V. A. Mandouze, Saint Augustin et la religion romaine in Rech. Augustin. J. Paris, 1958, p. 157 e segs; G. Nemety, Evhemeri reliquiae, Budap., 1889.
[2] Mulier autem virorum pretiosas animas captat. Prov., VI, 26.
[3] Fugalia era o nome que se dava às festas comemorativas da expulsão dos reis, a seguir às Terminalia, ambas em Fevereiro. O nome deriva na realidade do verbo fugio, com o significado de fugir, de raiz comum com o verbo grego φεύγω e o subst. φυγή (fuga).
[4] Discite, o tniseri, et causas agnoscite rerum, Quid sumus, et quidnam victuri gignimur, ordo Quis datus, aut metae qua mollis flexus et unde, Quis modus argenti, quid fas optare, quid asper Utile nummus habet, patriae carisque propinquis Quantum largiri deceat; quem te Deus esse Jussit, et humana qua parte locatus es in re. Persio, Sat. Ill, 66-72 (in Perse Satires, Texte établi et traduit par A. Castault, Belles-Lettres Paris, 1920
[5] Os Galos eram sacerdotes de Cibele que se mutilavam no decorrer das cerimónias orgiásticas. Eram combatidos tanto pelos satíricos pagãos (Pérsio, Juvenal, Marcial) como pelos apologetas cristãos (Justino Apol. I, 27; Minúcio Félix — Oct. X X IV , 4; Lactâncio — Div.Just. I, 21, 16; Jerónimo — In Oseam I, 4).
[6] ferventi tincta veneno. Pérsio, Sat., III, 37.
[7] ubi inerant pictura haec, Jovem quo pacto Danaae misisse aiunt quondam in gremium im­brem aureum. Terêncio, Eunuq, 584-585.
[8] A t quem deum! qui templa caeli summo sonitu concutit. Ego homuncio id non facerem? Eço vero illud feci ac libens. Id. Ib. 590.

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