15/03/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Quaresma

Semana V

Evangelho: Jo 8, 21-30

21 Jesus disse-lhes mais: «Eu retiro-Me: vós Me buscareis, e morrereis no vosso pecado. Para onde Eu vou, vós não podeis ir». 22 Diziam, pois, os judeus: «Será que Ele Se mate a Si mesmo, pois diz: Para onde Eu vou, vós não podeis ir?». 23 Ele disse-lhes: «Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima. Vós sois deste mundo, Eu não sou deste mundo. 24 Por isso Eu vos disse que morreríeis nos vossos pecados; sim, se não crerdes que “Eu sou”, morrereis nos vossos pecados». 25 Disseram-Lhe então eles: «Quem és Tu?». Jesus respondeu-lhes: «É exactamente isso que Eu vos estou a dizer. 26 Muitas coisas tenho a dizer e a julgar a vosso respeito, mas O que Me enviou é verdadeiro e o que ouvi d'Ele é o que digo ao mundo». 27 Eles não compreenderam que Jesus lhes falava do Pai. 28 Jesus disse-lhes mais: «Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então conhecereis que “Eu sou” e que nada faço por Mim mesmo, mas que, como o Pai Me ensinou, assim falo. 29 O que Me enviou está comigo, não Me deixou só, porque Eu faço sempre aquilo que é do Seu agrado». 30 Dizendo estas coisas, muitos acreditaram n'Ele.

Comentário:

A poucos dias da Sua entrega definitiva que culminará na Cruz, o Senhor como que "alarga" o Seu discurso abordando esses mesmos temas: a salvação e redenção da humanidade.

Não obstante o aparente "hermetismo" do discurso a verdade é que muitos - o evangelista confirma-o - compreendem e acreditam.

Não há dúvida... para acreditar é fundamental compreender.

(ama, comentário sobre Jo 8 21-30 2015.03.24)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO - CONFISSÕES

LIVRO QUINTO

CAPÍTULO V

Loucuras de Manés

Mas, quem pediu a esse Manés que escrevesse sobre coisas cujo conhecimento não é necessário à piedade? Tu disseste ao homem: Vê que a piedade é a sabedoria. Manés podia muito bem ignorar essa piedade ainda que fosse muito instruído nas ciências profanas. Mas, como não as conhecia, e se atrevia desavergonhadamente a ensiná-las, de nenhum modo conhecia a piedade. Pois certamente é vaidade alardear conhecimentos humanos, mesmo verdadeiros, e é piedade confessar-te a ti. Manés, afastando-se dessa regra, falou tanto sobre essas coisas que foi convencido da sua ignorância pelos que as conhecem bem. Donde se viu claramente o crédito que merecia em matérias mais obscuras. Ele não queria ser pouco estimado; empenhou-se em convencer aos demais que tinha em si, pessoalmente, e na plenitude do seu poder, o Espírito Santo, que consola e enriquece os teus fiéis. Surpreendido em erro ao falar do céu, das estrelas, e do curso do sol e da lua, embora tais coisas não pertençam à religião, claramente deixou ver ser sacrílego o seu atrevimento ao ensinar coisas que ignorava e também falsas, e isso com tão insano orgulho a ponto de atribuí-las à pretensa divindade de sua pessoa.

Quando pois ouço que este ou aquele irmão em Cristo ignora esses problemas, e confunde uma coisa com outra, suporto com paciência o seu modo de opinar. Não vejo nada que possa ser-lhe prejudicial enquanto não fizer ideia indigna de ti, Senhor, criador do universo, mesmo que ignore até o lugar e a natureza das coisas materiais. O mal seria acreditar que esses problemas pertencem à essência da piedade, e tenazmente atrever-se a afirmar o que ignora. Mas ainda essa fraqueza é suportada nos primórdios da fé pela mãe caridade, até que o homem novo cresça e se transforme em varão perfeito, e não possa ser abalado por qualquer vento de doutrina.

Quanto a Manés, que se atreveu a fazer-se de doutor, de mestre, de guia e cabeça daqueles a quem convertera, de tal forma que os que o seguiam acreditassem seguir não um homem qualquer, mas o teu Espírito Santo, quem não julgaria que tão rematada loucura, uma vez demonstrada sua falácia, deveria ser detestada e afastada para bem longe?

Contudo, eu ainda não estava certo se o que havia lido noutros livros, sobre as mudanças dos dias e das noites, uns mais longos, outros mais curtos, e sobre a sucessão dos dias e das noites, e dos eclipses do sol e da lua, e outros fenómenos semelhantes, poderiam ser explicados conforme a sua doutrina. Caso isso fosse possível, eu ainda ficaria em dúvida quanto ao modo por que se realizariam esses fenómenos; anteporia a autoridade de Manés à minha fé, pois o tinha então em conta de santo.

CAPÍTULO VI

A eloquência de Fausto

Durante os quase nove anos em que o meu espírito errante deu ouvidos aos maniqueus, esperei ansiosamente a vinda de Fausto. Os demais adeptos, com os quais me encontrava casualmente, embaraçados com as objecções que eu lhes fazia, remetiam-me a ele que, à sua chegada, com uma simples entrevista resolveria facilmente todas aquelas dificuldades, e ainda outras maiores que me ocorressem, de maneira claríssima.

Logo que chegou, pude notar que se tratava de um homem simpático, de fala cativante, e que expunha os temas comuns dos maniqueus, mas com muito mais agrado que eles. Mas, que interessava à minha sede este elegante copeiro de copos preciosos? Eu já tinha os ouvidos fartos daquelas teorias, e nem me pareciam melhores por serem expostas em melhor estilo, nem mais verdadeiras pela elegância das suas formas; nem eu considerava Fausto mais sábio por ter o rosto de mais graça e sua linguagem mais finura. Aqueles que mo haviam recomendado não eram bons juízes: tinham Fausto como homem sábio e prudente somente porque lhes agradava sua facúndia.

Diferentes de outra espécie de homens que conheci, que tinham como suspeita a verdade, e não se lhe renderiam se lhes fosse apresentada com linguagem elegante e verbosa.

Mas eu, meu Deus, nessa época já tinha aprendido de ti, por caminhos ocultos e admiráveis – e creio que eras tu que me ensinavas, porque era verdade, e ninguém pode ser mestre da verdade senão tu, seja qual for a instância e modo dela brilhar – já havia aprendido de ti que não se deve ter por verdadeiro um pensamento porque expresso eloquentemente nem falso porque é dito com rudeza; e que, pelo contrário, um pensamento não é verdadeiro por ser enunciado com simplicidade, nem falso porque sua expressão é elegante; a sabedoria e a ignorância são como alimentos, proveitosos ou nocivos, e as palavras, elegantes ou rudes, como pratos preciosos ou toscos, nos quais se podem servir a ambos.

A ânsia com que por tanto tempo esperara por Fausto, deleitava-se enfim com o ardor e a vivacidade das suas disputas, com os termos apropriados e a facilidade com que lhe vinham à boca para adornar o seu pensamento. Deleitava-me, certamente, e eu o louvava e exaltava com os outros, e muito mais ainda do que eles.

Contudo, na reunião dos ouvintes, aborrecia-me não poder apresentar-lhe as minhas dúvidas, e dividir com ele os cuidados dos meus problemas, conferindo com ele minhas dificuldades em forma de perguntas e respostas. Quando, enfim, o pude fazer, acompanhado dos meus amigos, comecei a falar-lhe em ocasião e lugar oportunos para tais discussões, apresentando-lhe algumas objecções das que mais me preocupavam. Vi então que se tratava de homem completamente ignorante das artes liberais, com excepção da gramática, que conhecia de modo superficial.

Contudo como havia lido alguns discursos de Cícero, e pouquíssimos livros de Séneca, alguns poemas e livros da seita, escritos em bom latim e com arte, e como se exercitava todos os dias em falar, adquirira grande facilidade de expressão, que ele tornava mais agradável e sedutora com o bom emprego de seu talento e certa graça natural.

Não é assim como estou contando, meu Senhor e meu Deus, juiz da minha consciência?

Diante de ti estão o meu coração e a minha memória, e que já então guiavas no segredo oculto da tua providência, pondo diante dos meus olhos os meus erros vergonhosos, para que os visse e odiasse.

CAPÍTULO VII

Desilusão

Por isso, logo que reconheci a sua ignorância naquelas ciências em que o julgava grande conhecedor, comecei a desesperar que me pudesse esclarecer e resolver as dificuldades que me preocupavam. É bem verdade que ele podia ignorar tais coisas e possuir a verdadeira piedade, contanto que não fosse maniqueísta. Os seus livros estão cheios de fábulas intermináveis acerca do céu e dos astros, do sol e da lua, que eu já não esperava, mas que pudesse explicar tão argutamente como eu desejava, comparando-as com os cálculos matemáticos que eu lera noutras partes, para ver se deveria preferir o que diziam os livros de Manés, ou se, pelo menos, estes apresentavam demonstrações de igual valor.

Mas, quando apresentei as minhas dificuldades à sua consideração e crítica, com grande modéstia, não se atreveu a tomar sobre si tal encargo, pois certamente sabia que ignorava o assunto e não se envergonhava de confessá-lo. Não pertencia à classe de charlatães que me vi obrigado muitas vezes a suportar, que pretendiam ensinar-me tais coisas, mas não me diziam nada. Este, pelo menos, tinha coração, senão dirigido a ti, pelo menos não era incauto consigo mesmo. Não ignorava totalmente a sua ignorância, razão pela qual não quis meter-se temerariamente em questões de onde não pudesse sair, ou de mui difícil retirada. Por isso mesmo cresceu a meus olhos, por ser a modéstia de uma alma que se conhece muito mais bela que o saber que eu desejava; e em todas as questões mais difíceis e subtis o encontrei sempre com igual ânimo.

Esfriado pois o meu entusiasmo pelos livros de Manés, e muito mais desconfiado dos outros doutores maniqueus, depois que este, tão renomado, se me havia mostrado tão ignorante em muitas das questões que me inquietavam, continuei a tratar com ele, mas por causa de sua paixão pelas letras, que eu ensinava então aos jovens de Cartago. Lia com ele os livros que desejava conhecer por ter ouvido falar deles, ou os que eu considerava apropriados à sua inteligência.

Quanto ao mais, todo o empenho que eu havia posto em progredir na seita desapareceu por completo logo que conheci este homem, mas não a ponto de me separar definitivamente dela.

De facto, não achando na ocasião caminho melhor que aquele por onde cegamente me lançara, resolvi continuar provisoriamente na mesma, até que tivesse a fortuna de encontrar algo melhor e preferível. Foi assim que aquele Fausto, que havia sido para muitos, laço de morte, começava involuntária e inconscientemente a desfazer o laço que me enredara. É que as tuas mãos, meu Deus, no segredo da tua providência, não abandonavam a minha alma; e a minha mãe, dia e noite, não deixava de te oferecer em sacrifício por mim o sangue do seu coração, na forma das suas lágrimas.

E tu, Senhor, agiste comigo de modo admirável, pois isso foi obra tua, meu Deus. Porque o Senhor é quem dirige os passos do homem e quem inspira o seu caminho. E quem poderá dar-nos a salvação, senão a tua mão, que restaura o que fez?

(cont)


(Revisão de versão portuguesa por ama)

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