19/03/2014

Tratado dos vícios e pecados 33

Questão 77: Da causa do pecado por parte do apetite sensitivo: se a paixão da alma é causa do pecado.

Em seguida devemos tratar da causa do pecado por parte do apetite sensitivo, se a paixão da alma é causa do pecado.

E nesta questão, discutem-se oito artigos:

Art. 1 ― Se a vontade é movida pela paixão do apetite sensitivo.
Art. 2 – Se a razão pode ser travada pela paixão contrária à sua ciência.
Art. 3 ― Se o pecado causado pela paixão, deve ser tido como causado pela fraqueza.
Art. 4 ― Se o amor-próprio é o princípio de todo o pecado.
Art. 5 ― Se se consideram convenientemente como causas dos pecados a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida.
Art. 6 ― Se o pecado fica atenuado pela paixão.
Art. 7 ― Se a paixão isenta totalmente do pecado.
Art. 8 ― Se o pecado provocado pela paixão pode ser mortal.

Art. 1 ― Se a vontade é movida pela paixão do apetite sensitivo.

(Supra, q. 9, a. 2 ; q. 10, a. 3 ; De Verit., q. 22, a. 9, ad 6).

O primeiro discute-se assim. ― Parece que a vontade não é movida pela paixão do apetite sensitivo.

1. ― Pois, nenhuma potência passiva é movida senão pelo seu objecto. Ora, a vontade é uma potência, passiva e activa ao mesmo tempo, enquanto motora e movida, como diz o Filósofo, em universal, a respeito da potência apetitiva 1. E como o objecto da vontade não é a paixão do apetite sensitivo, mas antes, o bem da razão, resulta que a paixão desse apetite não move a vontade.

2. ― Demais. ― O motor superior não é movido pelo inferior, assim como a alma não é movida pelo corpo. Ora, a vontade, apetite racional, está para o apetite sensitivo, como o motor superior para o inferior. Pois, segundo o Filósofo, o apetite racional move o sensitivo, assim como, nos corpos celestes, uma esfera move outra 2. Logo, a vontade não pode ser movida pela paixão do apetite sensitivo.

3. ― Demais. ― Nada de imaterial, pode ser movido pelo material. Ora, a vontade é uma potência imaterial, pois, sendo racional, não se serve de nenhum órgão material, como diz Aristóteles 3. Ao passo que o apetite sensitivo é uma potência material, dependente, como é, de um órgão corpóreo. Logo, a paixão do apetite sensitivo não pode mover o apetite intelectivo.

Mas, em contrário, diz a Escritura (Dn 13, 56): a concupiscência te perverteu o coração.

A paixão do apetite sensitivo não pode arrastar ou mover directamente a vontade senão só indirectamente. E isto de dois modos, dos quais o primeiro é por abstração. Pois, estando todas as potências da alma radicadas na essência da mesma, necessariamente, quando uma exerce com veemência o seu acto, as outras sofram remissão no seu, ou mesmo, são totalmente impedidas dele. E isto, porque toda potência, capaz de muitos actos, torna-se remissa; donde e ao contrário, quando tende com veemência para um só objecto torna-se-lhe menos possível produzir outros. Ou porque, operações da alma exigem uma certa intensidade, e esta, aplicada veementemente a um objecto, não pode atender a outro com a mesma veemência. E deste modo, por uma como distracção, quando o movimento do apetite sensitivo se fortifica, por uma determinada paixão, é necessário que sofra remissão ou fique totalmente impedido o movimento próprio à vontade, apetite racional.

De outro modo, por parte do objecto da vontade, que é o bem apreendido pela razão. Pois, o juízo e a apreensão da razão ficam impedidos pela veemente e desordenada apreensão da imaginação e pelo juízo da faculdade estimativa, como se vê claramente nos dementes. Ora, é manifesto, a apreensão da imaginação e o juízo da estimativa dependem da paixão do apetite sensitivo, assim como a apreciação do gosto depende da disposição da língua. Por isso notamos que os lesados por uma paixão não desviam facilmente a imaginação do objecto do seu afecto. Portanto e consequentemente, o juízo da razão quase sempre é consecutivo à paixão do apetite sensitivo, e, por conseguinte, também o movimento da vontade, ao qual é natural obtemperar sempre ao juízo da razão.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. ― A paixão do apetite sensitivo causa imutação no juízo relativo ao objecto da vontade, como já se disse, embora a paixão própria do apetite sensitivo não seja directamente objecto da vontade.

RESPOSTA À SEGUNDA. ― O superior não é movido pelo inferior, directamente, mas, indirectamente, pode, de certo modo, ser movido, como já se disse.

E, o mesmo, devemos responder à TERCEIRA OBJEÇÃO.

Revisão da tradução portuguesa por ama

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Notas:
1. III De anima (lect. XV).
2. III De anima (lect. XVI).
3. III De anima, XIV.




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