23/10/2018

Temas para reflectir e meditar

Formação humana e cristã – 86 

Se for possível devemos participar na Santa Missa como se fosse a última da nossa vida e, na verdade, pode muito bem que seja.

Não há dramatismo mas conveniente precaução que nos ajudará a participar nessa Missa com maior compunção e amor.

Sendo um acto de tão grande importância e relevo não é admissível que não nos empenhemos com todas as nossas capacidades de inteligência, fé, compunção e amor em participar não como meros assistentes, mais ou menos passivos, mas como participantes de facto, diria como “co-celebrantes”.
O mistério da Santa Missa está ali, connosco e por nossa causa.
Sim, Jesus instituiu o Sacramento por nós para que pudéssemos pelos tempos fora celebrar a Última Ceia com Ele tal como se estivéssemos no Cenáculo.
Repetindo as mesmas palavras e gestos conforme Ele recomendou, o celebrante é o portador desse poder extraordinário e, o pão e o vinho, transforma-se no Corpo e no Sangue do Salvador.

AMA, reflexões.

Leitura espiritual

Resultado de imagem para são francisco de assis
LEGENDA MAIOR 

Vida de São Francisco de Assis)

CAPITULO 5

Austeridade de vida e como as criaturas lhe proporcionavam consolo

7. Por outro lado, também é verdade que procurava inculcar com insistência nos seus irmãos o desejo de uma vida austera e penitente, mas repugnava-lhe a excessiva severidade que não se reveste de entranhas de misericórdia nem é condimentada com o sal da discrição.
Efectivamente aconteceu que um de seus irmãos, entregue aos rigores de uma abstinência por demais rigorosa, começou a desmaiar de tanta fome, não podendo encontrar um momento de repouso.
Compreendendo o bom pastor o perigo que corria aquela ovelha do seu rebanho, chamou-o, colocou diante dele um pouco de pão e, para não deixá-lo embaraçado, começou a comer por primeiro, enquanto com suavidade convidava o outro a comer. O irmão deixou de lado a vergonha, tomou daquela comida com grande alegria, uma vez que com sua vigilância e condescendência o Pai lhe havia evitado os danos do corpo e lhe dera motivo de grande edificação.
Na manhã seguinte, reuniu o homem de Deus os irmãos e, referindo-se ao que havia acontecido naquela noite, acrescentou esta advertência:
“Irmãos, sede modelos uns dos outros, não pelos jejuns mas por vossa caridade!”.
Recomendou-lhes também a prática da prudência, não a da prudência inspirada pela nossa natureza humana decaída, mas a prudência praticada por Cristo, cuja vida é modelo de toda perfeição.

8. No seu estado actual de fraqueza, o homem é incapaz de imitar o Cordeiro de Deus crucificado com perfeição, evitando todo contágio do pecado. E assim ensinava Francisco aos seus irmãos mediante o seu próprio exemplo que aqueles que procuram ser perfeitos devem purificar-se, dia após dia com as lágrimas da contrição.
Atingira extraordinária, pureza da alma e do corpo, embora nunca deixasse de purificar a sua visão espiritual com lágrimas em profusão e não levasse em consideração o facto de isso lhe custar a saúde dos olhos.
Em consequência das suas constantes lágrimas, veio a sofrer dos olhos, mas quando o médico disse que deveria restringir as lágrimas se quisesse evitar a perda da visão, ele replicou:
“Irmão médico, usufruímos da luz deste mundo em comum com as moscas; não devemos rejeitar a presença da luz eterna apenas para preservá-la.
O nosso corpo recebeu a faculdade da visão por causa da alma; a visão de que goza a alma não foi dada por causa do corpo”.
Preferia perder a visão dos olhos a sufocar a devoção do espírito, refreando as lágrimas, que limpam os olhos da alma e os tornam capazes de ver a Deus.

9. Certa vez, os médicos prescreveram-lhe como remédio uma cauterização, e os irmãos insistiam com ele para que consentisse. O homem de Deus aceitou com humildade, pois via então uma ocasião de se curar e ao mesmo tempo de sofrer.
Chamaram pois o cirurgião.
Veio ele e colocou um ferro no fogo para realizar a operação.
O servo de Cristo, querendo dar coragem ao próprio corpo, tomado de horror natural, dirigiu-se ao fogo como a um amigo:
 “Meu irmão fogo, disse ele, o Altíssimo te criou como o mais útil, belo e poderoso entre todas as coisas para expressar a formosura; sê propício comigo nesta hora, sê compassivo.
Peço ao Senhor que te criou se digne moderar para mim teu calor, a fim de que possa sofrer-te quando me queimares suavemente”.
Terminada a oração, fez o sinal-da-cruz por cima do ferro em brasa e aguardou sem trepidar.
O ferro penetrou candente naquela carne delicada, cauterizando desde a orelha até os cílios.
O santo expressou com as seguintes palavras a dor que lhe havia produzido aquele fogo:
“Louvai ao Senhor, irmãos meus caríssimos, pois na verdade vos digo que nem senti a dor do fogo nem experimentei dor alguma no corpo”. E voltando-se para o cirurgião disse-lhe:
“Se a carne ainda não está bem queimada, podes cauterizá-la ainda mais”. Ao ver o médico naquela carne enferma virtude tão rara de espírito, ficou cheio de admiração e, atribuindo-a a verdadeiro milagre, exclamou:
“Asseguro-vos, meus irmãos, que hoje vi coisas admiráveis”. Pois havia o santo chegado a tão alto grau de perfeição, que com harmonia admirável a carne se sujeitava ao espírito e o espírito a Deus, e por divina ordenação as criaturas sujeitas ao serviço de Deus se submetiam também de modo inefável ao domínio e vontade do seu servo.

10. Certo dia, encontrando-se gravemente doente no eremitério de Santo Urbano e sentindo as forças a abandoná-lo, pediu vinho para beber.
Como não houvesse em casa nenhuma gota, mandou vir água. Fez sobre ela o sinal-da-cruz e aquilo que até então era apenas água pura transformou-se em delicioso vinho.
O que a pobreza do eremitério tornava impossível foi obtido pela pureza do santo. Mal provou do vinho e as forças lhe voltaram. A água tinha um novo gosto, e o doente obtinha dela uma saúde nova.
Tanto a bebida como aquele que a tomara foram miraculosamente transformados.
Eram dois modos de indicar quanto Francisco já se havia “despojado do homem velho e se transformara no homem novo” (cf. Cl 3,9-10).

11. Não eram apenas as criaturas que se submetiam à vontade do servo de Deus; o próprio Criador de todas as coisas acedia aos seus desejos.
Certa vez, o santo, prostrado por muitas doenças ao mesmo tempo, sentiu desejo de um pouco de música que lhe devolvesse a alegria do espírito.
Mas como as conveniências não permitiam contratar homens para esse fim, os anjos deram sua colaboração para alegrá-lo.
De facto, certa noite, enquanto vigiava em meditação, de repente ouviu uma cítara tocando com uma harmonia maravilhosa e uma melodia dulcíssima.
Não se via ninguém, mas percebia-se claramente o afastamento ou a aproximação do citarista.
Enlevado em Deus o espírito do santo, sentiu-se repleto de tanta suavidade com aquela dulcíssima e inefável harmonia que lhe pareceu estar gozando já na mansão eterna.
Esse facto não pôde ele ocultar aos mais familiares dos seus religiosos, os quais conheciam frequentemente por certos indícios que o Senhor confortava o santo com grandes e extraordinárias consolações de modo que nem ele mesmo as podia ocultar.

12. Uma outra ocasião, indo pregar com um irmão entre a Lombardia e a Marca de Treviso, sobreveio a noite e ainda se encontravam às margens do rio Pó. Era muito perigoso continuar naquela escuridão sem enxergar e no meio de terras alagadas. O companheiro disse ao santo:
“Pai, reza a Deus que nos livre dos perigos que nos ameaçam!” Com a sua imensa confiança, disse o santo:
“Deus pode, se agrada à sua bondade, dissipar as trevas e nos dar a luz benéfica”.
Mal acabara de falar, uma luz miraculosa os envolveu e embora mais além fosse noite total eles viam claramente e num grande raio a estrada e suas redondezas.
Essa luz foi guia do corpo e conforto para a alma deles, e após uma longa caminhada, chegaram à hospedaria, sem dificuldade, cantando hinos e cânticos de louvor.
Considerai, pois, quanta e quão admirável foi a virtude deste santo, a cujo império e vontade o fogo apaga o seu ardor, a água se converte em vinho generoso, os anjos o recreiam com as suas celestiais harmonias e a luz divina lhe indica o caminho, demonstrando-se dessa forma que todas as criaturas do mundo contribuíam sensivelmente para manifestar a santidade do nosso grande patriarca.

São Boaventura

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por AMA)

Pequena agenda do cristão


TeRÇa-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





Nosso Senhor cruzou-se no nosso caminho


A entrega é o primeiro passo de uma corrida de sacrifício, de alegria, de amor, de união com Deus. E, assim, toda a vida se enche de uma bendita loucura, que faz encontrar felicidade onde a lógica humana não vê senão negação, padecimento, dor. (Sulco, 2)

Como a Nosso Senhor, também a mim me agrada muito falar de barcas e de redes, para todos tirarmos propósitos firmes e concretos dessas cenas evangélicas. S. Lucas conta-nos que uns pescadores lavavam e remendavam as redes à beira do lago de Genesaré. Jesus aproxima-se de uma daquelas naves atracadas na margem e sobe a uma delas, a de Simão. Com que naturalidade se mete o Mestre na vida de cada um de nós para nos complicar a vida, como se repete por aí em tom de queixa. Nosso Senhor cruzou-se convosco e comigo no nosso caminho, para nos complicar a existência, delicadamente, amorosamente.

Depois de pregar da barca de Pedro, dirige-se aos pescadores: duc in altum, et laxate retia vestra in capturam, remai para o mar alto e lançai as redes! Fiados na palavra de Cristo, obedecem e obtêm aquela pesca prodigiosa. Olhando para Pedro que, como Tiago e João, estava pasmado, Nosso Senhor explica-lhe: não tenhas medo; desta hora em diante serás pescador de homens. E, trazidas as barcas para terra, deixando tudo, seguiram-no. (Amigos de Deus, 21)

Evangelho e comentário


Tempo comum


Evangelho: Lc 12, 35-38

35 «Estejam apertados os vossos cintos e acesas as vossas lâmpadas. 36 Sede semelhantes aos homens que esperam o seu senhor ao voltar da boda, para lhe abrirem a porta quando ele chegar e bater. 37 Felizes aqueles servos a quem o senhor, quando vier, encontrar vigilantes! Em verdade vos digo: Vai cingir-se, mandará que se ponham à mesa e há-de servi-los. 38 E, se vier pela meia-noite ou de madrugada, e assim os encontrar, felizes serão eles.

Comentário:

Neste texto confirmam-se de forma iniludível as palavras de Cristo quando diz que veio para servir e não para ser servido.

O Senhor dos Senhores, o Rei dos Reis não hesita em afirmar que no prémio que dará aos que cumprirem a Sua Vontade será nada menos que servi-los!

Custa-nos admitir tal honra! Parece-nos demasiado!

Mas, o Senhor só diz a Verdade e as Suas palavras cumprir-se-ão inexoravelmente.

Felizes servos que têm este Amo!

(AMA, comentário sobre Lc 12, 35-38, 24.10.2017




22/10/2018

Segunda feira agenda do cristão

SeGUNDa-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça "boa cara" que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?






Temas para reflectir e meditar

Formação humana e cristã – 85 

Quanto vale - por assim dizer - uma Santa Missa?
O mesmo que, por exemplo dez Terços do Rosário?
Ou uma romaria a pé a Fátima ou Santiago de Compostela?
Ou uma privação deveras custosa e difícil?

Não há termos de comparação, nem pode nem deve haver. Mas, a  Santa Missa tem o "maior valor" de quanto possamos imaginar exactamente porque é o memorial fidedigno do próprio sacrifício de Cristo na Cruz.

«Isto é o Meu Corpo... Isto é o Meu Sangue» repete o celebrante o que o Senhor disse aos doze na Última Ceia, obedecendo a um mandato claro e concreto: «Fazei isto em memória de Mim»

E, misteriosa mas verdadeiramente a transubstanciação acontece e já não é mais o pão e o vinho que estão sobre o altar mas o próprio Corpo e o Sangue do Redentor.

E nós, esmagados por esta realidade, percebemos com o nosso coração, a nossa alma, todo o nosso ser que estamos na presença do Nosso Salvador, de Deus omnipotente e eterno, Criador e Senhor de todas as coisas.

E, mesmo sem querer, o nosso pensamento eleva-se e repetimos como São Tomé: 'Meu Senhor e meu Deus'. 
Acrescentando por nosso lado: 'estou aqui e creio em Ti, adoro-Te e espero que me ajudes a merecer este Teu extraordinário Dom'.

AMA, reflexões.

Leitura espiritual

Resultado de imagem para são francisco de assis
LEGENDA MAIOR 

Vida de São Francisco de Assis

CAPITULO 5

Austeridade de vida e como as criaturas lhe proporcionavam consolo

1. Francisco, o homem de Deus, via que por seu exemplo muitíssimos se sentiam encorajados a levar a cruz de Cristo com grande fervor e com isso também ele se sentia animado, como bom guia do exército de Cristo, a conquistar vitoriosamente as culminâncias da virtude. A fim de realizar aquelas palavras do Apóstolo: “Os que são de Cristo crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscências” (GI 5,24), e levar no próprio corpo a armadura da cruz, refreava os estímulos dos sentidos com uma disciplina tão rigorosa que a muito custo admitia o necessário para seu sustento.
Dizia que é difícil satisfazer as exigências do corpo sem se abrir mão das baixas tendências dos sentidos. Por essa razão, a contragosto e raramente, aceitava alimentação cozida e. neste caso, ou lhe acrescentava cinzas ou a mergulhava na água para torná-la insípida. E que diremos do vinho se a própria água ele a bebia tão escassamente, ainda que abrasado de sede?
Facilmente encontrava meios de tornar mais penosa a sua abstinência em que todos os dias fazia progresso; pois, embora houvesse chegado ao cume da perfeição, procurava, contudo como se fosse um principiante, castigar com novas mortificações as revoltas da carne. Mas quando saía pelo mundo, conformava-se, no tocante à comida, com aqueles que o hospedavam em suas casas, seguindo nisso o conselho do Evangelho; mas logo que voltava ao retiro, entregava-se de novo aos costumeiros rigores de sua abstinência.
Desse modo agia com austeridade consigo mesmo, mas suave e caridosamente com o próximo, e conformando-se em tudo ao Evangelho de Cristo, não só jejuando, mas também comendo, a todos edificava com seu exemplo. Era a terra nua que quase sempre servia de leito a seu pobre corpo fatigado.
Muitas vezes dormia sentado, usando uma pedra ou um tronco como travesseiro, enquanto o único manto andrajoso lhe cobria o corpo.
E assim servia ao Senhor no frio e na nudez.

2. Alguém lhe perguntou certa vez como podia proteger-se contra o rigor do inverno com agasalhos tão pobres e ele respondeu cheio de estranho fervor de espírito: “Se tivéssemos internamente esse fogo que é o desejo da pátria celeste, não
teríamos dificuldade em suportar o frio externo”.
Tinha horror de roupas caras e preferia as grosseiras, acrescentando que João Baptista foi louvado por Cristo por causa das suas roupas rudes.
Se a roupa que recebesse parecia muito macia, costumava coser-lhe por dentro pedaços de cordas grosseiras porque, dizia ele, é nos palácios dos ricos que devemos procurar os que usam roupas finas e não nas choupanas dos pobres.
Sabia por experiência própria que os demónios ficavam aterrorizados ao verem pessoas vestidas com roupas rudes, ao passo que vestes ricas ou macias lhes davam coragem para atacarem mais afoitamente.
Certa noite, usou um travesseiro de penas, contrariamente aos seus costumes, porque estava com dor de cabeça e sofria dos olhos; mas um demónio entrou no travesseiro e não lhe deu descanso até de manhã, impedindo-o de se entregar à oração.
Finalmente ele chamou um irmão e disse-lhe que levasse embora aquele travesseiro. Ao deixar o quarto com o travesseiro, o irmão ficou sem forças e com os membros paralisados. Então Francisco, que viu em espírito o que estava acontecendo, com uma palavra restituiu ao irmão o vigor do corpo e da alma.

3. Francisco vigiava constantemente sobre si mesmo, tomando todo cuidado em conservar puros a sua alma e o seu corpo; no início da sua conversão, em pleno inverno, às vezes, mergulhava num fosso cheio de água gelada para reprimir os desordenados movimentos da concupiscência e preservar ilesa dos ardores do torpe deleite a cândida veste de seu pudor virginal. Um homem espiritual, afirmava ele, suporta muito mais facilmente o frio que congela o corpo do que o ardor do mais leve desejo carnal que domine seu espírito.

4. Uma noite, enquanto orava num cubículo do eremitério de Sarteano, o antigo inimigo chamou-o por três vezes:
“Francisco, Francisco, Francisco!”
E tendo perguntado o que queria, o demónio acrescentou maliciosamente: “Não existe pecador algum no mundo com quem Deus não use de misericórdia, se ele se converter. Mas aquele que se mata com as suas penitências, jamais encontrará misericórdia”.
O homem de Deus logo percebeu, por revelação divina, o engano do inimigo que tentava chamá-lo de volta à tibieza, como logo a seguir ficou demonstrado pelo que aconteceu.
De facto Francisco sentiu arder dentro de si uma grave tentação sensual, alimentada pelo sopro daquele que tem um “hálito ardente como brasas” (Jo 41,12). Mal a notou e já se despojou das suas vestes e começou a disciplinar-se com todo rigor.
“Eia, irmão burro, assim te convém permanecer, assim te convém estar e sofrer os açoites que bem mereces.
O hábito religioso serve para a decência e leva em si o carácter da santidade; por essa razão não deve apropriar-se dele um homem luxurioso.
Pois bem, se pretendes evitar o castigo, anda, pois, para onde te apraza”.
Movido então de um grande fervor de espírito, saiu da cela e foi a um campo que ficava bem próximo e aí, nu como estava, revirou-se num grande monte de neve para sufocar assim os ardores da concupiscência. Em seguida, formou sete bolas ou figuras de neve de diversos tamanhos, e diante delas falava a si mesmo:
“Tens aqui, neste bloco maior, a tua mulher; esses quatro são dois filhos e duas filhas; os outros dois são um servo e uma serva, que precisas para os trabalhos da casa. Apressa-te, pois, a vesti-los porque estão morrendo de frio. Mas se as muitas preocupações que te dão te aborrecem, procura desprender-te deles e consagra-te fielmente a teu único Deus e Senhor”.
O tentador, vencido, bateu em retirada imediatamente e o santo voltou à sua cela, vitorioso.
O frio externo que ele se impusera como castigo tinha tão bem apagado o fogo interior da concupiscência que se livrou dele para sempre. Um dos irmãos, que estava em oração naquela hora, testemunhou todo o espectáculo graças a um esplêndido luar que havia; o homem de Deus, informado desse facto, contou-lhe o drama da sua tentação, mas proibiu-lhe que falasse dele a quem quer que fosse, enquanto vivesse.
5. Ensinava que não basta só mortificar as paixões da carne e refrear os seus estímulos, mas também guardar com suma vigilância os outros sentidos, através dos quais a morte entra na alma. Recomendava muito evitar-se com todo empenho a familiaridade e as conversas com as mulheres, porque para muitos elas são ocasião de ruína.
Pois, afirmava ele, “é o que perde os mais fracos e enfraquece os mais fortes; conseguir evitar o contágio das mulheres para quem com elas se entretém é tão difícil quanto ‘caminhar no fogo e não queimar os pés’, como diz a Escritura (cf. Pr 6,27). A não ser que se trate de um indivíduo de virtude muito provada”. Ele mesmo desviava os olhos para não perder tempo com vaidades, de tal forma que não conhecia mulher alguma pelas feições, como ele próprio assegurou certa vez a um companheiro.
Julgava perigoso permitir que a fantasia retivesse a imagem delas capaz de fazer renascer o fogo numa carne já dominada ou de manchar a alvura de uma alma inocente. Chegava mesmo a declarar que falar a uma mulher era frivolidade, salvo confissão ou breve aconselhamento, de acordo com as necessidades de sua alma e as exigências das boas maneiras:
“De que assuntos poderia um religioso tratar com uma mulher a não ser o caso de ela lhe pedir devotamente a penitência ou algum conselho para melhorar sua vida?
Quem se sente muito seguro de si, não toma o devido cuidado com o inimigo, e o demónio quando pode pegar um homem por um fio de cabelo transforma este numa grossa amarra com que o arrasta sem dificuldade ao abismo”.

6. Quanto à preguiça, sentina de todos os maus pensamentos, ensinava que se há de fugir dela com o maior cuidado e mostrava por seu exemplo que é preciso dominar a carne preguiçosa e rebelde mediante contínuas disciplinas e frutuosas fadigas. Por isso chamava o corpo de “irmão burro”, indicando assim que é necessário carregá-lo de trabalho e de fardos, puni-lo com chicotadas e ser sustentado com alimento ordinário e escasso. Por isso quando via algum ocioso e vagabundo, desses que pretendem viver às expensas do suor dos outros, chamava-o de “Irmão Mosca”, porque este, nada fazendo de bom e usando mal dos benefícios recebidos, chega a se converter em objecto de abominação para todos.
Por isso, em certa ocasião assim se expressava: “Quero que meus irmãos trabalhem e se ocupem em algum trabalho honesto, para que não se entreguem à ociosidade e venham a cair por palavra ou pensamento em algo que seja ilícito ou pecaminoso”.
Queria que seus irmãos observassem o silêncio indicado no Evangelho, quer dizer, que em todas as circunstâncias evitassem com todo cuidado qualquer palavra ociosa, de que no dia do juízo deverão prestar contas (cf. Mt 12,36).
Levado por esse sentimento, toda vez que encontrava um religioso viciado pelo apetite desenfreado de falar, repreendia-o duramente, dizendo que o calar com modéstia protege a pureza do coração e não é virtude de menor importância, se é verdade, como diz a Escritura, que “a morte e a vida se encontram em poder da língua” (Pr 18,21), não tanto por razão do gosto quanto pela excessiva loquacidade.

São Boaventura

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por AMA)

Tens erros... e que erros!!


Não te assustes nem desanimes, ao descobrires que tens erros... e que erros! Luta por arrancá-los. E, desde que lutes, convence-te de que é bom que sintas todas essas debilidades porque, se não, serias um soberbo: e a soberba afasta de Deus. (Forja, 181)

Jesus, se nós, que nos reunimos no teu Amor, fôssemos perseverantes! Se conseguíssemos traduzir em obras esses anseios de santidade que Tu próprio despertas nas nossas almas! Perguntemo-nos a nós próprios com frequência: para que estou eu na terra? E assim hão-de procurar acabar perfeitamente – com muita caridade – as tarefas que empreenderem em cada dia e cuidar das coisas pequenas. Debrucemo-nos sobre o exemplo dos santos: pessoas como nós, de carne e osso, com fraquezas e debilidades, que souberam vencer e vencer-se por amor de Deus; consideremos a sua conduta e – como as abelhas que destilam de cada flor o néctar mais precioso – aproveitemo-nos das suas lutas. Assim também havemos de aprender a descobrir muitas virtudes nos que nos rodeiam – dão-nos lições de trabalho, de abnegação, de alegria... – sem nos determos demasiado nos seus defeitos; só quando for imprescindível, para os ajudar com a correcção fraterna. (Amigos de Deus, 20)

Evangelho e comentário


Tempo comum



Evangelho: Lc 12, 13-21

13 Dentre a multidão, alguém lhe disse: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo.» 14 Ele respondeu-lhe: «Homem, quem me nomeou juiz ou encarregado das vossas partilhas?» 15 E prosseguiu: «Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque, mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.» 16 Disse-lhes, então, esta parábola: «Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. 17 E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: ‘Que hei-de fazer, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?’ 18 Depois continuou: ‘Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. 19 Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.’ 20 Deus, porém, disse-lhe: ‘Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?’ 21 Assim acontecerá ao que amontoa para si, e não é rico em relação a Deus.»

Comentário:

De facto, o Senhor disse-nos para pedirmos quanto quisermos e que achamos que nos faz falta.

A esta luz compreende-se a resposta de Jesus neste trecho do Evangelho?

Penso que sim porque o Senhor quer o nosso bem e anseia por nos dar o que necessitamos, mas, neste caso – como noutros de igual teor – temos de convir que Deus não é nosso “empregado” nem nos servirá como nos convier em cada circunstância.

Por isso mesmo nos deu inteira liberdade de escolher as opções que devemos tomar na nossa vida nem nunca interferirá para que tomemos esta ou aquela decisão.

(AMA, comentário sobre Lc 12, 13-21, 23.10.2017)




21/10/2018

Temas para reflectir e meditar

Formação humana e cristã – 84


Ora bem, este é um bom exemplo, penso eu, da oração universal.
Não fazemos a menor ideia de quem possam ser estas almas mas, o Senhor, sabe e aplicará a nossa prece conforme Lhe parecer mais adequado.

Pensemos um pouco, quantas destas almas "esquecidas" nos devem a nós a sua "libertação" do Purgatório e a sua ida, definitiva, para o Céu!
Sim... ponho um ponto de exclamação porque, tenho a certeza de que o que disse é absolutamente verdade.


Voltemos atrás: rezai pelos pecadores!

Ou seja: rezai por todos os homens e mulheres sem distinguir nem raça credo ou modo de vida.

Por alguma razão, Santa Teresinha do Menino Jesus é a padroeira das missões, ela, que nunca saiu, na sua curta vida, do convento.

Porque a oração vale por todas as "presenças" e por todas as intenções particulares quando é feita com a intenção geral de alguma causa, intenção ou grupos de pessoas.

Por isso mesmo, a Santa Missa  é considerada a oração universal por excelência porque se aplica a todos os homens como foi muito bem expresso e determinado por Jesus Cristo na Última Ceia.

«Por vós e por todos» são as Suas palavras textuais, não exclui ninguém, não escolhe ou põe de lado seja quem for, nem naquele momento nem nunca.

AMA, reflexões.

Leitura espiritual

Resultado de imagem para são francisco de assis
LEGENDA MAIOR 

(Vida de São Francisco de Assis)

CAPITULO 4

6. Muitos, inflamados pelo ardor de sua pregação, impunham-se a nova regra de penitência de acordo com a fórmula aperfeiçoada pelo homem de Deus que decidiu chamar esse género de vida “Ordem dos Frades da Penitência”. E não havendo outro caminho possível para todos os que buscam o céu a não ser o caminho da penitência, admitem-se nela os clérigos e os leigos, os solteiros e os casados. Os inúmeros milagres realizados por alguns deles provam bem qual o mérito que tiveram aos olhos de Deus. Houve também donzelas que optaram pela castidade perpétua, entre as quais Clara, virgem amantíssima de Deus, primeiro rebento do jardim, perfumada como branca flor primaveril, esplêndida como estrela fulgurante. Gloriosa agora no céu, é justamente venerada na terra pela Igreja, ela que foi, em Cristo, a filha do Pai São Francisco, pobrezinho, e a mãe das damas pobres.

7. Também houve um grande número de homens que, movidos não só por devoção, mas também inflamados do desejo da perfeição de Cristo, abandonavam toda vaidade mundana e seguiam Francisco.
Crescendo e multiplicando-se dia após dia, espalharam-se em pouco tempo até aos confins da terra.
Realmente a santa pobreza, único viático que levavam consigo nas suas viagens, os tornava prontos para toda obediência, fortes para enfrentar as fadigas e sempre dispostos a partir em missão.
Nada possuíam deste mundo e a nada se apegavam.
Nada, pois, temiam perder.
Estavam livres dos cuidados, sem ansiedades que os perturbassem ou lhes causassem preocupações e os distraíssem.
Os seus corações viviam na paz e olhavam o futuro dia após dia, sem se preocuparem com abrigo para a noite.
Em diversas partes do mundo sucedia-lhes ser cobertos de injúrias como pessoas desprezíveis e desconhecidas; mas o amor do Evangelho os tornara tão pacientes, que eles mesmos procuravam os lugares em que sabiam que seriam per seguidos e evitavam aqueles em que a santidade deles era conhecida e haviam encontrado honra e simpatia.
A pobreza que suportavam era para eles como riqueza e abundância, e segundo a palavra do profeta tinham prazer “não nas coisas grandes, mas nas pequenas” (Eclo 29,30).
Certa vez, alguns irmãos chegados às terras dos pagãos encontraram um sarraceno que, movido de compaixão, lhes ofereceu dinheiro necessário para comprarem o que comer, mas eles recusaram aceitar o dinheiro.
Ficou admirado, porque via que nada tinham.
Percebeu então que era por amor a Deus que eles se haviam feito mendigos e recusavam dinheiro.
Sentiu-se tão atraído por eles, que se ofereceu para dar-lhes o suprimento necessário, enquanto lhe restasse alguma fortuna.
Preciosa e inestimável pobreza, poder admirável que soube converter em tão grande ternura e compaixão um coração bárbaro e feroz!
Por conseguinte, é um crime monstruoso e detestável que um cristão pisoteie e despreze essa pérola preciosa que teve em tão grande estima um infeliz sarraceno.

8. Nesse tempo, um religioso da Ordem dos Crucíferos, chamado Morico, encontrava-se numa hospedaria próxima à cidade de Assis, vítima de enfermidade tão grave e prolongada, que os médicos esperavam para muito breve a sua morte.
Vendo-se nesse estado, enviou o enfermo uma pessoa que em seu nome pedisse com instância a Francisco se dignasse rogar por ele ao Senhor.
Ouviu o santo afavelmente essa súplica e recolhendo umas migalhas de pão, amassou-as com um pouco de azeite tomado da lâmpada que ardia diante do altar da Santíssima Virgem, formou com essa massa um preparado inteiramente novo e o enviou ao doente através dos seus religiosos, dizendo-lhes ao mesmo tempo:
“Ide, levai este remédio ao nosso irmão Morico e dizei-lhe que estou certo de que por meio dele a virtude omnipotente de Cristo não só lhe devolverá inteiramente a saúde, mas também, convertendo-o em esforçado guerreiro, fará que venha muito cedo a engrossar as fileiras de nosso exército”.
Mal o enfermo provou daquele antídoto, feito sob inspiração divina, levantou-se completamente curado, sentindo-se tão revigorado por Deus na alma e no corpo que, tendo ingressado na Ordem de Francisco, nela perseverou por muitos anos levando uma vida de muita penitência: suas vestes eram apenas uma túnica pobre e consumida pelo uso, sob a qual levou por muito tempo um áspero cilício, colado à carne; comia apenas alimentos crus, ervas, legumes e frutas; não se sabe que tenha provado algum dia pão e vinho. Apesar disso, sempre viveu são e robusto e sem achaques de espécie alguma.

9. Cresciam cada dia mais em mérito os pobrezinhos de Cristo, e a fama de que gozavam se espalhou como um perfume, atraindo de todos os pontos da terra homens que queriam conhecer nosso bem-aventurado Pai. E até mesmo um poeta mundano, outrora coroado pelo imperador e apelidado posteriormente “Rei das Canções”, desejou conhecer esse homem de Deus, de cujo desprezo pelo mundo todos falavam.
Encontrou-o, por acaso, pregando num mosteiro de São Severino, e ali a mão do Senhor pousou sobre ele: viu Francisco, pregador da cruz de Cristo, atravessado por duas espadas brilhantes e postas em forma de cruz; uma delas descia da cabeça aos pés e a outra se dirigia, penetrando pelo peito, desde a extremidade de uma mão até a da outra.
O poeta não conhecia Francisco pessoalmente, mas percebeu que a pessoa que lhe aparecia naquele milagre não poderia ser outra.
Ficou estupefacto ante aquela visão que Deus lhe mostrava e imediatamente resolveu encetar uma vida mais santa; a palavra do santo levou-o à compunção, como se uma espada espiritual saindo de sua boca o tivesse traspassado.
Por isso, desprezando todas as pompas e vaidades do mundo, uniu-se a Francisco e abraçou resolutamente seu género de vida, professando a Regra da Ordem. E como o Seráfico Pai muito se alegrou ao vê-lo convertido das iniquidades do mundo à tranquila paz de que gozam os verdadeiros discípulos de Cristo, quis que na Ordem fosse conhecido com o nome de Frei Pacífico.
Muito santo se tornou Pacífico mais tarde; e antes de ir à França, em que foi o primeiro ministro provincial, foi agraciado por Deus com uma visão.
Um grande tau apareceu várias vezes na testa de Francisco, iluminando e adornando maravilhosamente a sua face com singular variedade de cores. E na verdade o santo nutria grande veneração e afecto pelo sinal tau. E mesmo o recomendava muitas vezes por palavras e o escrevia de próprio punho sobre as cartas que enviava, como se a sua missão consistisse, conforme a palavra do profeta, em “marcar com um tau a fronte dos homens que gemem e choram” (Ez 9,4), convertidos sinceramente a Cristo.

10. Com o passar dos anos e crescendo o número dos irmãos, o solícito pastor começou a reuni-los no local chamado Santa Maria da Porciúncula para o capítulo geral, a fim de repartir entre eles, por sorte, a terra ou propriedade de sua pobreza e dar a cada qual a porção que a obediência determinasse.
Mais de cinco mil irmãos aí se reuniram e faltava tudo nesse lugar. Mas Deus, em sua bondade, veio-lhes em socorro, concedendo-lhes o suficiente para as forças do corpo e a alegria do espírito.
Aos capítulos provinciais Francisco não podia assistir pessoalmente, mas a sua presença era marcada por directivas solícitas, oração contínua e com sua bênção eficaz. E às vezes mesmo, por virtude do poder de Deus, ele aparecia visivelmente.
Um dia, por exemplo, quando o glorioso confessor de Cristo, António, estava pregando aos irmãos no capítulo de Arles acerca do título da cruz: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”, certo religioso de virtude comprovada, de nome Monaldo, movido por instinto interior e divino, dirigiu os olhos para a porta da sala onde se celebrava o capítulo, e cheio de admiração viu ali, com os olhos corporais, o seráfico Pai, que, elevado no ar e de mãos estendidas em forma de cruz, abençoava seus religiosos.
Todos experimentaram naquela ocasião tanta e tão extraordinária consolação de espírito, que em seu interior não lhes foi possível duvidar da real presença do seráfico Pai, confirmando-se depois nesta crença não só pelos sinais evidentes que haviam observado, como também pelo testemunho que verbalmente lhes deu o próprio santo. Devemos admitir que a mesma força omnipotente de Deus que permitiu outrora ao santo bispo Ambrósio assistir aos funerais do glorioso Martinho, para que venerasse com piedoso afecto aquele santo pontífice, essa mesma providência quis igualmente que seu servo Francisco estivesse presente à pregação de Santo António, grande arauto do Evangelho, para que aprovasse a verdade daquela doutrina, sobretudo no que se refere à cruz de Cristo, cujo ministro e embaixador fora constituído.

11. Quando a Ordem se expandiu, Francisco julgou ter chegado o momento de obter a confirmação em carácter definitivo pelo Papa Honório, sucessor de Inocêncio, da forma de vida aprovada por este último. Deus então, para instruí-lo, fez-lhe a seguinte revelação: parecia-lhe ter ajuntado do chão minúsculas migalhas de pão e ele devia distribui-las a seus irmãos esfaimados que se comprimiam em grande número à sua volta. Como hesitasse em distribuir tão pequenas migalhas que lhe poderiam ter escapado das mãos, disse-lhe uma voz do céu: “Francisco, com todas essas migalhas faze uma hóstia e poderás dar de comer a todos os que o desejarem”. Ele assim fez, mas todos aqueles que a recebiam sem devoção ou a tratavam sem consideração apareciam claramente marcados de uma lepra que os consumia. De manhã, contou o santo tudo isso aos seus companheiros, triste por não saber penetrar o mistério. Mas no dia seguinte à noite enquanto, privando-se do sono, ele continuava a orar, ouviu a mesma voz lhe dizer do alto do céu: “Francisco, as migalhas que viste na última noite são as palavras do Evangelho, a hóstia representa a Regra e a lepra o pecado”.
Querendo, pois, reduzir a uma forma mais sucinta, conforme o sentido da visão anterior, a Regra escrita antes com abundância de palavras tomadas ao Evangelho, movido por inspiração divina, subiu com dois companheiros ao cume de um monte e aí, havendo-se entregue durante vários dias a um jejum rigoroso a pão e água, fez escrever uma nova Regra conforme o Espírito Santo lhe ia ditando. Mas aconteceu que, ao descer do monte, Francisco entregou aquela Regra a seu vigário, com encargo de a guardar; e como este, depois de alguns dias, afirmasse que a havia perdido por descuido, o santo voltou novamente à solidão do monte e a escreveu pela segunda vez de modo inteiramente igual à primeira, como se o próprio Deus a houvesse ditado palavra por palavra. Depois disso, conseguiu logo, como desejava, que o mencionado Papa Honório III lhe confirmasse solenemente a Regra, no oitavo ano de seu pontificado. Exortando mais tarde fervorosamente a seus filhos à fiel observância da referida Regra, garantia-lhes que ele nada havia colocado nela que fosse de sua reflexão pessoal, antes tudo o que continha escrevera conforme o próprio Senhor lhe havia revelado. E para que assim constasse com mais certeza para testemunho divino, passados alguns dias, foram impressas em seu corpo pelo dedo do Deus vivo as chagas de Cristo, como se fossem elas uma bula do Sumo Pontífice, Cristo Jesus, em confirmação absoluta da Regra e recomendação eficaz de seu autor, como se dirá depois ao descrevermos mais amplamente as virtudes do santo.

São Boaventura

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por AMA)