17/02/2018

A dor de corrigir

Esconde-se uma grande comodidade – e às vezes uma grande falta de responsabilidade – naqueles que, constituídos em autoridade, fogem da dor de corrigir, com a desculpa de evitar o sofrimento alheio. Talvez poupem desgostos nesta vida..., mas põem em jogo a felicidade eterna – a deles e a dos outros – pelas suas omissões que são verdadeiros pecados. (Forja, 577)

O santo, para a vida de muitos, é "incómodo". Mas isto não significa que tenha de ser insuportável.

O seu zelo nunca deve ser amargo; a sua correcção nunca deve ferir; o seu exemplo nunca deve ser uma bofetada moral, arrogante, na cara do próximo. (Forja, 578)

Portanto, quando nos apercebemos de que na nossa vida ou na dos outros alguma coisa corre mal, alguma coisa precisa do auxílio espiritual e humano, que nós, filhos de Deus, podemos e devemos prestar, uma clara manifestação de prudência consistirá em dar-lhe remédio oportuno, a fundo, com caridade e com fortaleza, com sinceridade. Não valem as inibições. É errado pensar que com omissões ou adiamentos se resolvem os problemas.


Sempre que a situação o requeira, a prudência exige que se aplique o remédio totalmente e sem paliativos, depois de pôr a chaga a descoberto. Ao notar os menores sintomas do mal, sede simples, verazes, quer sejais vós a curar os outros, quer sejais vós a receber essa assistência. Nesses casos, deve-se permitir à pessoa que está em condições de curar em nome de Deus que aperte de longe a zona infectada e depois de mais perto, até sair todo o pus, de modo que o foco da infecção acabe por ficar bem limpo. Em primeiro lugar, temos que proceder assim connosco mesmos e com quem, por motivos de justiça ou caridade, temos obrigação de ajudar. Rezo nesse sentido especialmente pelos pais e por quem se dedica a tarefas de formação e de ensino. (Amigos de Deus, 157)

Temas para meditar e reflectir

Dificuldades - Nós e os outros


Verificamos muitas vezes que aquele que julgávamos conhecer bem - talvez até intimamente - tem problemas, emoções e dificuldades que desconhecíamos inteiramente.

Constatamos que, afinal, não somos únicos nem "especiais" e que o que nos acontece - e muitas vezes nos condiciona -, também sucede nesse outro.

Que fazer então?

Sugerir o nosso próprio remédio?

Bom... se connosco funciona porque não?

Agora, se não conseguimos encontrar para nós próprios, solução ou lenitivo que fazer senão pedir conselho.

Aliás, devemos fazê-lo sempre, não só porque é muito útil, mas, sobretudo, porque essa pessoa que nos aconselha terá a experiência e sabedoria para nos esclarecer e encaminhar com segurança.


(ama, reflexões, 2016.11.17)

Evangelho e comentário

Tempo de Cinzas

Sábado depois de Cinzas

Evangelho: Lc 5, 27-32

27 Depois disto, Jesus saiu e viu um cobrador de impostos, chamado Levi, sentado no posto de cobrança. Disse-lhe: «Segue-me.» 28 E ele, deixando tudo, levantou-se e seguiu-o. 29 Levi ofereceu-lhe, em sua casa, um grande banquete; e encontravam-se com eles, à mesa, grande número de cobradores de impostos e de outras pessoas. 30 Os fariseus e os doutores da Lei murmuravam, dizendo aos discípulos: «Porque comeis e bebeis com os cobradores de impostos e com os pecadores?» 31 Jesus tomou a palavra e disse-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os que estão doentes. 32 Não foram os justos que Eu vim chamar ao arrependimento, mas os pecadores.»

Comentários:

A resposta de Jesus não pode ser mais clara ou concludente.

E, além disso, na “lógica” dos planos divinos para a salvação da humanidade, perfeitamente natural.

Não parece possível que alguém não tivesse entendido as Suas palavras ou não entendesse o Seu propósito.


(AMA, comentário sobre Lc 5, 27-32. 17.10.2017)

Leitura espiritual

RESUMOS DA FÉ CRISTÃ

TEMA 8 Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro

Jesus Cristo assumiu a natureza humana sem deixar de ser Deus: é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

3. A união hipostática

No princípio do século quinto, após as controvérsias precedentes, era clara a necessidade de defender firmemente a integridade das duas naturezas humana e divina na Pessoa do Verbo; de modo que a unidade pessoal de Cristo começa a constituir o centro da atenção da cristologia e da soteriologia patrística.

Para este novo aprofundamento contribuíram novas discussões.
A primeira grande controvérsia teve a sua origem nalgumas afirmações de Nestório, patriarca de Constantinopla, que utilizava uma linguagem em que dava a entender que em Cristo há dois sujeitos: o sujeito divino e o sujeito humano, unidos entre si por um vínculo moral, mas não fisicamente.
É neste erro cristológico que tem origem a recusa do título de Mãe de Deus, Theotókos, aplicado a Santa Maria. Maria seria Mãe de Cristo, mas não Mãe de Deus.
Opondo-se a esta heresia, São Cirilo de Alexandria e o Concílio de Éfeso de 431 recordaram que «a humanidade de Cristo não tem outro sujeito senão a pessoa divina do Filho de Deus, que a assumiu e a fez sua desde que foi concebida.
Por isso, o Concílio de Éfeso proclamou, em 431, que Maria se tornou, com toda a verdade, Mãe de Deus por ter concebido humanamente o Filho de Deus em Seu seio» [i].

Anos mais tarde surgiu a heresia monofisita.

Esta heresia tem os seus antecedentes no apolinarismo e numa má compreensão por parte de Eutiques (ancião arquimandrita de um mosteiro de Constantinopla), da doutrina e da linguagem empregue por São Cirilo.
Eutiques afirmava, entre outras coisas, que Cristo é uma Pessoa que subsiste numa só natureza, pois a natureza humana teria sido absorvida na divina.
Este erro foi condenado pelo Papa São Leão Magno, no seu Tomus ad Flavianum [ii] – autêntica jóia da teologia latina – e pelo Concílio ecuménico de Calcedónia do ano 451, ponto de referência obrigatório para a cristologia.

Ensina assim:
«há que confessar um só mesmo Filho e Senhor nosso Jesus Cristo: perfeito na divindade e perfeito na humanidade» [iii], e acrescenta que a união das duas naturezas é «sem confusão, sem alteração, sem divisão, sem separação» [iv].

A doutrina de Calcedónia foi confirmada e aclarada pelo II Concílio de Constantinopla do ano 553, que faz uma interpretação autêntica do Concílio anterior.
Depois de sublinhar várias vezes a unidade de Cristo [v], afirma que a união das duas naturezas de Cristo tem lugar segundo a hipóstase [vi], superando, assim, a possibilidade de equívocos da fórmula ciriliana que falava de unidade segundo a “fisis”.
Nesta linha, o II Concílio de Constantinopla indicou também o sentido em que deveria entender-se a conhecida fórmula ciriliana de «uma natureza do Verbo de Deus encarnada» [vii], frase que São Cirilo pensava ser de Santo Atanásio, tratando-se, na realidade, de uma falsificação apolinarista.

Nestas definições conciliares, que tinham como finalidade aclarar alguns erros concretos e não expor o mistério de Cristo na sua totalidade, os Padres conciliares utilizaram a linguagem do seu tempo.
Da mesma maneira que Niceia empregou o termo consubstancial, Calcedónia utiliza termos como natureza, pessoa, hipóstase, etc., de acordo com o significado habitual que tinham na linguagem comum e na teologia da sua época. Isto não significa, como afirmaram alguns, que a mensagem evangélica se helenizasse.
Na realidade, os que se mostraram rigidamente helenizantes foram precisamente aqueles que propunham as doutrinas heréticas, como Arrio ou Nestório, que não souberam ver as limitações que tinha a linguagem filosófica do seu tempo face ao mistério de Deus e de Cristo.

4. A Humanidade Santíssima de Jesus Cristo

«Na Encarnação “a natureza humana foi assumida, não absorvida” [viii]» [ix].

Por isso a Igreja ensinou «a plena realidade da alma humana, com as suas operações de inteligência e vontade, e do corpo humano de Cristo.

Mas, paralelamente, a mesma Igreja teve de lembrar repetidamente que a natureza humana de Cristo pertence, como própria, à pessoa divina do Filho de Deus que a assumiu.
Tudo o que Ele fez e faz nela, depende de “um da Trindade”.
Portanto, o Filho de Deus comunica à sua humanidade, o seu próprio modo de existir pessoal na Santíssima Trindade.
E assim, tanto na sua alma, como no seu corpo, Cristo exprime humanamente os costumes divinos da Trindade [x]»,  [xi].

A alma humana de Cristo é dotada de um verdadeiro conhecimento humano.

A doutrina católica ensinou tradicionalmente que Cristo, enquanto homem, possuía um conhecimento adquirido, uma ciência infusa e a ciência beata própria dos bem-aventurados no Céu.
O conhecimento adquirido de Cristo não podia ser, por si mesmo, ilimitado: «por isso o Filho de Deus, fazendo-Se homem, pôde aceitar “crescer em sabedoria, estatura e graça[xii] e também teve de Se informar sobre o que, na condição humana, deve aprender-se de modo experimental [xiii]» [xiv].
Cristo, em quem repousa a plenitude do Espírito Santo com os Seus dons [xv], possuiu também a ciência infusa, quer dizer, aquele conhecimento que não se adquire directamente pelo trabalho da razão, mas é infundido directamente por Deus na inteligência humana.

Com efeito, «o Filho também mostrava, no seu conhecimento humano, a clarividência divina que tinha dos pensamentos secretos do coração dos homens [xvi]» [xvii].

Cristo possuía também a ciência própria dos beatos: «Pela sua união com a Sabedoria divina na pessoa do Verbo Encarnado, o conhecimento humano de Cristo gozava, em plenitude, da ciência dos

Por tudo isto deve afirmar-se que Cristo, enquanto homem, é infalível: admitir o erro n’Ele seria admiti-lo no Verbo, única pessoa existente em Cristo.

(cont)

José Antonio Riestra

Notas:





[i] Catecismo, 466; cf. DS 250 e 251
[ii] Cf. Ibidem, 290-295.
[iii] Cf. Ibidem, 301; Catecismo, 467.
[iv] Cf. Idem.
[v] Cf. Ibidem, 423.
[vi] Cf. Ibidem, 425
[vii] Cf. Ibidem, 429.
[viii] GS 22, 2
[ix] Catecismo, 470
[x] cf. Jo 14, 910
[xi] Catecismo, 470
[xii] Lc 2, 52
[xiii] cf. Mc 6, 38; 8, 27; Jo 11, 34
[xiv] Catecismo, 472
[xv] cf. Is 11, 1-3
[xvi] cf. Mc 2, 8; Jo 2, 25; 6, 61
[xvii] Catecismo, 473

Hoy el reto del amor es jugar a sustituir expresiones

 
ECONOMÍA TEOLÓGICA


Llevaba un día de perros. De esos que la paciencia se agota... 

Quería empezar a montar los vídeos que hemos hecho con las marionetas, pero había un montón de trabajos urgentes que necesitaban el ordenador... El día iba pasando... 

¡Al final sólo pude sentarme unos minutos! Y, para colmo, ese tiempo sólo me sirvió para descubrir que el programa se nos ha estropeado. ¡Imagina de qué gas llegué a la oración! 

Al comentárselo a Lety, me dijo que el programa es muy viejo, que había que conseguir otro. Nos pusimos a buscar... ¡y ahí ya sí que me dio el patatús! ¡Un miserable programa valía riñón y medio! 

En esto, la página se actualizó y... ¿sabes qué salió? "Rebajas de mayo, sólo 7 días". Algunos programas estaban al 10%, otros al 25%... pero, justo el que habíamos mirado nosotras estaba... ¡¡¡al 75%!!! 

Siempre decimos que el Señor paga el 50% de nuestros proyectos. Está claro que, por aquello de que es su mes, María quiso colaborar con otro 25%... ¡¡Gloria al Señor!!

Por la noche, en el oratorio, me daba cuenta de que, cuando actúa así, es fácil sustituir el "qué casualidad" por un "¡gracias!", pero, cuando a diario actúa en cositas pequeñas, ¿qué nos sale decir? 

Y, si nada es casualidad... esa noche tuve que darle gracias también por haber permitido que el programa se estropease justo en ese momento, que no llegase a verlo antes, que... Realmente, ¡todo está en sus manos, y hasta de lo que parece malo, Cristo saca un bien! 

Hoy el reto del amor es jugar a sustituir expresiones. Te invito a que hoy, cuando te salga el "¡qué casualidad!" vuelvas tu mirada al Cielo y digas "¡Gracias, Señor!". Y, si en algún momento te surge la frase "¡qué mala suerte!", te invito a cambiarla por un "No te entiendo, Señor... pero espero en Ti". ¡Disfruta sabiendo que Cristo tiene el control y descansa en sus brazos! ¡Feliz día! 


VIVE DE CRISTO

Pequena agenda do cristão

SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





16/02/2018

NUNC COEPI - Sugestão

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Publicações em 16.02.20184


Tornar agradável a vida aos outros

Enquanto continuares persuadido de que os outros devem viver sempre pendentes de ti; enquanto não te decidires a servir, a ocultar-te e desaparecer; a relação com os teus irmãos, com os teus colegas, com os teus amigos, será fonte contínua de desgostos, de mau humor... – de soberba. (Sulco, 712).

Quando te custar fazer um favor, prestar um serviço a uma pessoa, pensa que é filha de Deus; lembra-te de que o Senhor nos mandou amar-nos uns aos outros. Mais ainda: aprofunda quotidianamente neste preceito evangélico; não fiques na superfície. Tira as consequências – é muito fácil – e adapta a tua conduta de cada instante a essas exigências. (Sulco, 727)

Oxalá saibas, diariamente e com generosidade, contrariar-te, alegre e discretamente, para servir e para tornar agradável a vida aos outros. Este modo de proceder é verdadeira caridade de Jesus Cristo. (Forja, 150)

Se deixarmos que Cristo reine na nossa alma, não nos tornaremos dominadores; seremos servidores de todos os homens. Serviço. Como gosto desta palavra! Servir o meu Rei e, por Ele, todos os que foram redimidos com o seu sangue. Se os cristãos soubessem servir! Vamos confiar ao Senhor a nossa decisão de aprender a realizar esta tarefa de serviço, porque só servindo é que poderemos conhecer e amar Cristo e dá-Lo a conhecer e conseguir que os outros O amem mais.


Como o mostraremos às almas? Com o exemplo: que sejamos testemunho seu, com a nossa voluntária servidão a Jesus Cristo em todas as nossas actividades, porque é o Senhor de todas as realidades da nossa vida, porque é a única e a última razão da nossa existência. Depois, quando já tivermos prestado esse testemunho do exemplo, seremos capazes de instruir com a palavra, com a doutrina. Assim procedeu Cristo: coepit facere et docere, primeiro ensinou com obras, e só depois com a sua pregação divina. (Cristo que passa, 182)

Temas para meditar e reflectir

Estou velho


Com frequência ouve-se esta frase que significa sempre uma pretensa justificação para se eximir a algo.

A velhice não pode, não deve ser desculpa para não fazer o que está perfeitamente ao nosso alcance porque, se o for, então as pessoas de idade não fariam absolutamente nada.

A idade traz consigo uma riqueza de conhecimentos e experiências que não podem deixar de ser úteis aos mais novos.

Talvez que uma destas a ter muito, muito em conta, seja a prudência, a capa­cidade de análise, o discernimento que evita muitos disparates, precipitações, agir sob impulso.

As pessoas idade são uma dádiva da vida à sociedade que, não poucas vezes, as trata como descartáveis incómodos.

O cristão sabe muito bem a quem deve a sua prática religiosa, quem o levou à pia baptismal, ensinou as primeiras orações, lhe "apresentou" Deus.

Foram quase sempre os mais velhos, os Pais, os professores, os irmãos.

Quanta gratidão não devemos sentir!



(ama, reflexões, 2016.11.13)

Evangelho e comentário

Tempo de Cinzas

Sexta Feira depois de Cinzas

Evangelho: Mt 9, 14-15

14 Depois, foram ter com Ele os discípulos de João, dizendo: «Porque é que nós e os fariseus jejuamos e os teus discípulos não jejuam?» 15 Jesus respondeu-lhes: «Porventura podem os convidados para as núpcias estar tristes, enquanto o esposo está com eles? Porém, hão-de vir dias em que lhes será tirado o esposo e, então, hão-de jejuar.»

Comentários:

Talvez de forma um pouco enigmática, Jesus responde aso que Lhe fazem uma pergunta em tom de crítica.

Enigmática apenas para aqueles que não tinham como certo – não acreditavam – que Jesus Cristo era O Messias.

Mais tarde, quando se tornar claro Quem de facto Ele é compreenderão que enquanto a Sua presença se mantiver no meio deles só haverá motivos de alegria e júbilo.


(AMA, comentário sobre Mt 9, 14-15.17.10.2017)

Leitura espiritual

RESUMOS DA FÉ CRISTÃ

TEMA 8 Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro

Jesus Cristo assumiu a natureza humana sem deixar de ser Deus: é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

1. A Encarnação do Verbo

«Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher» [i].

Cumpre-se, assim, a promessa de um Salvador que Deus fez a Adão e Eva ao serem expulsos do Paraíso:
«Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta esmagar-te-á a cabeça e tu tentarás mordê-la no calcanhar» [ii].

Este versículo do Génesis é conhecido com o nome de proto-evangelho, porque constitui o primeiro anúncio da boa nova da salvação.
Tradicionalmente, interpretou-se que a mulher de que se fala, tanto é Eva, em sentido directo, como Maria, em sentido pleno; e que a descendência da mulher se refere tanto à humanidade como a Cristo.
Desde então até ao momento em que «o Verbo se fez carne e habitou entre nós» [iii], Deus foi preparando a humanidade para que pudesse acolher com fruto o Seu Filho Unigénito.
Deus escolheu para si o povo israelita, estabeleceu com ele uma Aliança e formou-o progressivamente, intervindo na sua história, manifestando-lhe os seus desígnios através dos patriarcas e profetas e santificando-o para Si.
E tudo isto, como preparação e figura daquela nova e perfeita Aliança que havia de concluir-se em Cristo e daquela plena e definitiva revelação que devia ser efectuada pelo próprio Verbo encarnado [iv].
Embora Deus tenha preparado a vinda do Salvador, sobretudo, mediante a eleição do povo de Israel, isso não significa que tenha abandonado os restantes povos, “os gentios”, pois nunca deixou de dar testemunho de Si mesmo [v].
A Providência divina fez com que os gentios tivessem uma consciência mais ou menos explícita da necessidade da salvação e até aos mais recônditos cantos da terra se conservava o desejo de serem redimidos.
 A Encarnação tem a sua origem no amor de Deus pelos homens:
«nisto se manifestou o amor que Deus para connosco: Deus enviou o Seu Filho unigénito ao mundo, para que por Ele tenhamos a Vida» [vi].

A Encarnação é a demonstração, por excelência, do Amor de Deus pelos homens, já que nela é o próprio Deus quem se entrega aos homens fazendo-Se participante da natureza humana em unidade de pessoa. Após a queda de Adão e Eva no paraíso, a Encarnação tem uma finalidade salvadora e redentora, como professamos no Credo:
«por nós homens e para nossa salvação, desceu do céu e encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, e Se fez homem» [vii].

 Cristo afirmou de Si mesmo que «o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido» [viii] e que «Deus não enviou o Seu Filho para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» [ix].

A Encarnação não só manifesta o infinito amor de Deus pelos homens, a Sua infinita misericórdia, a Sua justiça, o Seu poder, mas também a coerência do plano divino de salvação;
a profunda sabedoria divina consiste na forma como Deus decidiu salvar o homem, ou seja, do modo mais conveniente à sua natureza, que é precisamente mediante a Encarnação do Verbo.
Jesus Cristo, o Verbo encarnado, «não é nem um mito, nem uma ideia abstracta qualquer;
É um homem que viveu num contexto concreto e que morreu depois de ter levado a sua própria existência no quadro da evolução da história.
A investigação histórica sobre Ele é, pois, uma exigência da fé cristã» [x].

Pertence à doutrina da fé que Cristo existiu, como também que morreu realmente por nós e que ressuscitou ao terceiro dia [xi].

A existência de Jesus é um facto provado pela ciência histórica, sobretudo, mediante a análise do Novo Testamento cujo valor histórico está fora de dúvida.

Há outros testemunhos antigos não cristãos, pagãos e judeus, sobre a existência de Jesus.
Precisamente por isso, não são aceitáveis as posições daqueles que contrapõem um Jesus histórico ao Cristo da fé e defendem a suposição de que quase tudo o que o Novo Testamento diz acerca de Cristo seria uma interpretação de fé que fizeram os discípulos de Jesus, mas não a Sua autêntica figura histórica que ainda permaneceria oculta para nós.
Estas posições que, ao longo do tempo, encerram um forte preconceito contra o sobrenatural, não têm em conta que a investigação histórica contemporânea coincide em afirmar que a apresentação que faz de Jesus o cristianismo primitivo se baseia em autênticos factos realmente acontecidos.

2. Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro

A Encarnação é «o mistério da união admirável da natureza divina e da natureza humana, na única Pessoa do Verbo» [xii].

A Encarnação do Filho de Deus «não significa que Jesus Cristo seja, em parte Deus e em parte homem, nem que seja o resultado de uma mistura confusa do divino com o humano.

Ele fez-Se verdadeiro homem, permanecendo verdadeiro Deus.

Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem» [xiii].
A divindade de Jesus Cristo, Verbo eterno de Deus, estudou-se ao tratar da Santíssima Trindade.
Aqui vamos fixar-nos, sobretudo, no que se refere à Sua humanidade. A Igreja defendeu e aclarou esta verdade de fé durante os primeiros séculos face às heresias que a falseavam.
Já no século I, alguns cristãos de origem judaica, os ebionitas, consideraram Cristo como um simples homem, embora muito santo.
No século II surge o adopcionismo, que defendia que Jesus era filho adoptivo de Deus; Jesus seria apenas um homem em quem habita a força de Deus; para eles, Deus era só uma pessoa.
Esta heresia, foi condenada no ano 190 pelo Papa São Victor, pelo Concílio de Antioquia, no ano 268, pelo Concílio I de Constantinopla e pelo Sínodo Romano do ano 382 [xiv].
A heresia ariana, ao negar a divindade do Verbo, negava também que Jesus Cristo fosse Deus.
Arrio foi condenado pelo Concílio I de Niceia no ano 325.

Também, recentemente, a Igreja voltou a recordar que Jesus Cristo é o Filho de Deus subsistente desde a eternidade que na Encarnação assumiu a natureza humana na Sua única pessoa divina [xv].

A Igreja fez também frente a outros erros que negavam a realidade da natureza humana de Cristo.
Entre estes, enquadram-se aquelas heresias que recusavam a realidade do corpo ou da alma de Cristo.
Entre as primeiras encontra-se o docetismo, nas suas diversas variantes, que tem um pano de fundo gnóstico e maniqueu.
Alguns dos seus seguidores afirmavam que Cristo teve um corpo celeste, ou que o Seu corpo era puramente aparente, ou que apareceu de repente na Judeia sem ter tido que nascer ou crescer.
Já São João teve que combater este tipo de erros:
«muitos sedutores se têm levantado no mundo, que não confessam que Jesus Cristo tenha vindo em carne» [xvi].

Arrio e Apolinar de Laodiceia negaram que Cristo tivesse verdadeira alma humana.
O segundo teve particular importância neste campo e a sua influência esteve presente durante vários séculos nas controvérsias cristológicas posteriores.
Numa tentativa de defender a unidade de Cristo e a Sua impecabilidade, Apolinar defendeu que o Verbo desempenhava as funções da alma espiritual humana.
Esta doutrina, no entanto, implicava negar a verdadeira humanidade de Cristo composta, como em todos os homens, de corpo e alma espiritual [xvii].
Foi condenado no Concílio I de Constantinopla e no Sínodo Romano de 382 [xviii].

(cont)

José Antonio Riestra

Notas:




[i] Gal 4, 4
[ii] Gn 3, 15
[iii] Jo 1, 14
[iv] Concílio Vaticano II, Const. Lumen Gentium, 9.
[v] cf. Act 14, 16-17
[vi] 1 Jo 4, 9
[vii] Concílio de Constantinopla I, Symbolum, DS 150; cf. Concílio Vaticano II, Const. Lumen Gentium, 55.
[viii] Lc 19, 10; cf. Mt 18, 11
[ix] Jo 3, 17
[x] Comissão Teológica Internacional, Cuestiones selectas de Cristología (1979), en ID., Documentos 1969-1996, 2ª ed., BAC, Madrid 2000, 221.
[xi] cf. 1 Cor 15, 3-11
[xii] Catecismo, 483
[xiii] Catecismo, 464
[xiv] Cf. DS 151 y 157-158.
[xv] Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Decl. Mysterium Filii Dei, 21-II-1972, em AAS 64(1972)237-241.
[xvi] 2 Jo 7; Cf. 1 Jo 4, 1-2
[xvii] cf. Catecismo, 471
[xviii] Cf. DS 151 e 159.