15/01/2018

Devemos santificar todas as realidades

A tua tarefa de apóstolo é grande e formosa. Estás no ponto de confluência da graça com a liberdade das almas; e assistes ao momento soleníssimo da vida de alguns homens: o seu encontro com Cristo. (Sulco, 219)


Estamos no Natal. Acodem-nos à memória os diversos factos e circunstâncias que rodearam o nascimento do Filho de Deus e o olhar detém-se na gruta de Belém, no lar de Nazaré. Maria, José, Jesus Menino ocupam de modo muito especial o centro do nosso coração. Que diz, que nos ensina a vida, simples e admirável ao mesmo tempo, dessa Sagrada Família?


Entre as muitas considerações que poderíamos fazer, agora quero escolher sobretudo uma., Como refere a Escritura, o nascimento de Jesus significa o início da plenitude dos tempos, o momento escolhido por Deus para manifestar plenamente o seu amor aos homens, entregando-nos o seu próprio Filho. Essa vontade divina realiza-se no meio das circunstâncias mais normais e correntes: uma mulher que dá à luz, uma família, uma casa. A omnipotência divina, o esplendor de Deus passam através das coisas humanas, unem-se às coisas humanas. Desde esse momento, nós, os cristãos, sabemos que, com a graça do Senhor, podemos e devemos santificar todas as realidades sãs da nossa vida. Não há situação terrena, por mais pequena e vulgar que pareça, que não possa ser a ocasião de um encontro com Cristo e uma etapa da nossa caminhada para o Reino dos Céus.



Por isso, não é de estranhar que a Igreja se alegre, que rejubile, contemplando a modesta morada de Jesus, Maria e José. (Cristo que passa, 22)

Temas para reflectir e meditar

A força do Silêncio, 287


Sem Deus, é fácil perceber como falham dolorosamente os debates humanos e as soluções políticas perante o mal.

Qual é a pedagogia de Deus?
Na parábola do trigo e do joio, Jesus convida a deixar crescer o trigo e o joio até á época da colheita.
Então chegará a altura de o mal ser destruído pelo bem.
A paciência perseverante, sustida pela Providência, é uma aliada em todas as nossas batalhas quotidianas. O combate contra o mal tem lugar ao longo do tempo e importa ser perseverante e não perder a esperança.
Deus trabalha os corações e o mal nunca tem a última palavra.
Na noite mais obscura Deus age em silêncio.
Precisamos de entrar no tempo de Deus e no grande silêncio que é o silêncio do Amor, de confiança e abandono activo.
Não esqueçamos nunca que a oração silenciosa é o acto mais robusto e mais seguro da luta contra o mal.


CARDEAL ROBERT SARAH

Evangelho e comentário

Tempo Comum


Evangelho: Mc 2, 18-22

18 Estando os discípulos de João e os fariseus a jejuar, vieram dizer-lhe: «Porque é que os discípulos de João e os dos fariseus guardam jejum, e os teus discípulos não jejuam?» 19 Jesus respondeu: «Poderão os convidados para a boda jejuar enquanto o esposo está com eles? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar. 20 Dias virão em que o esposo lhes será tirado; e então, nesses dias, hão-de jejuar.» 21 «Ninguém deita remendo de pano novo em roupa velha, pois o pano novo puxa o tecido velho e o rasgão fica maior. 22 E ninguém deita vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho romperá os odres e perde-se o vinho, tal como os odres. Mas vinho novo, em odres novos.»

Comentário:

Há pessoas que criticam e menosprezam o jejum, dizendo até que é uma violência “de outros tempos”, um sacrifício sem razão de ser.

Muitos destes são capazes dos maiores jejuns e privações por questões de estética, beleza corporal, culto do físico.

De facto, o jejum é uma prática muito antiga e, ainda hoje em dia, há religiões que o prescrevem como obrigação severa e absoluta. [i]

Do que se trata é realmente uma privação e, sobretudo, uma contenção dos excessos de comida e bebida.

Mas o jejum não se limita ao comer e beber, mas abarca tudo quanto possa constituir um pequeno sacrifício voluntário, evidentemente, como, por exemplo, o “jejum da televisão”.

O Senhor foi muito claro quando afirmou que não vinha pedir sacrifícios, mas boas acções, não actos negativos, mas sim obras positivas.

(ama, Comentário sobre Mc 2, 18-22, 165.01.2017)










[i] O Ramadão, por ex.

Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

Capítulo III

ACREDITAS?

A divindade de Cristo no Evangelho de S. João


3     «Como podeis vós acreditar?»

…/3

Somente uma certeza revelada, que tem por detrás de si a força e autoridade do próprio Deus, podia desdobrar-se num livro com tal insistência e coerência, chegando, desde mil lugares diferentes, , sempre à mesma conclusão: isto é, à identidade total entre o Pai e o Filho, baseada, por parte do Pai, no amor pelo Filho e, por parte do Filho, baseada na obediência ao Pai.
Tem havido no nosso século, infelizmente, muitos estudiosos de grande nomeada que formaram um conceito sobre o evangelho de João com a mesma atitude de quem estava habituado a examinar uma tese de doutoramento de qualquer aluno seu; atentos somente bibliografia, sempre solícitos a apanhá-los em falta sobre um ou outro pormenor, e incapazes de compreender a única coisa fundamental que a João interessava dizer: que Jesus Cristo é o Filho de Deus, que em Jesus a humanidade entra em contacto, sem barreira alguma, com a vida eterna e com o próprio Deus.

«Porventura, Deus não demonstrou ser estulta a sabedoria deste mundo? [i]»
Sim, demonstrou a sua estultícia, e o pior é que o mundo está muitas vezes longe de o suspeitar e de se aperceber disso. São muitos os que comentam esta frase de Paulo, sem se aperceberem que é deles próprios que está falando:
Porque vós dizeis: «Nós vemos!», o vosso pecado permanece, dizia Jesus. Se fosseis verdadeiramente estultos e ignorantes, não teríeis culpa; mas porque dizeis ou pensais, que sois sábios, o vosso pecado permanece [ii].

Dizia eu que João aprendeu a língua dos homens do seu tempo para proclamar, por meio dela, a verdade que salva: que Jesus Cristo é o Filho de Deus, que o Verbo era Deus.
Isto mereceu-lhe, na tradição cristã, o título de «teólogo».
Esta palavra entrou efectivamente na linguagem cristã com um sentido bem conciso e diferente daquele que antes existira a partir de Platão.
Teólogos (theologountes) – lê-se num texto do século II, onde o vocábulo apareceu pela primeira vez nas fontes cristãs – são aqueles que «proclamam Cristo Deus» [iii].
Deste modo, João mostra-nos, ainda hoje, aquilo que deve fazer cada teólogo cristão para merecer este epíteto.

5. «Bem-aventurado aquele que não se escandaliza por causa de Mim»

A divindade de Cristo é o cume mais elevado, o “Evereste”, da Fé. É muito mais difícil crer nela do que crer simplesmente em Deus.
Se, portanto, sob um ponto de vista objectivo, isto é, do dado de fé, - como vimos até aqui – ela é a coisa mais importante em que se deve crer no Novo Testamento, e a obra de Deus por excelência, sob um ponto de vista subjectivo, isto é, do nosso acto de fé, ela é uma coisa mais difícil de crer.

Esta dificuldade está ligada `possibilidade e, sobretudo, `inevitabilidade do “escândalo”:
«Bem-aventurado aquele – diz Jesus – que não se escandaliza por causa de Mim! [iv]».
O escândalo reside no facto que Aquele que Se proclama “Deus” é um homem do qual tudo se sabe:
«Este sabemos nós de onde Ele é», dizem os fariseus [v].
«É Filho de Deus – exclamava Celso – um homem que viveu ainda há tão pouco tempo?» É um homem «de ontem ou de anteontem?», um homem «nascido numa aldeia da Judeia, de uma pobre fiandeira?» [vi].

Este escândalo é superado somente com a Fé.
É uma ilusão pensar-se que pode ser abafado acumulando provas históricas da divindade de Cristo e do Cristianismo.
No que diz respeito à Fé verdadeira, nós estamos na situação dos homens que Jesus encontrou durante a Sua vida, ou, melhor talvez, na situação em que se encontravam os homens que, depois da Páscoa, ouviam João e os outros Apóstolos proclamar que Jesus de Nazaré – aquele homem “nascido numa obscura aldeia da Judeia”, que tinha sido repudiado por todos e fora crucificado – era o Filho de Deus e Deus também Ele próprio.

Não se pode crer verdadeiramente – escreve alguém – senão numa situação de contemporaneidade, ou seja, fazendo-se contemporâneo de Cristo e dos Apóstolos.
Mas a história e o passado não nos ajudam a crer?
Não passaram já mil e oitocentos anos – escreveu Kierkegaard – desde que Cristo viveu?
O Seu Nome não é anunciado e não creem n’Ele no mundo inteiro?
A Sua doutrina não mudou a face do mundo, não penetrou vitoriosamente em todos os recantos?
E a história não estabeleceu de modo suficiente, quem Ele era, que Ele era Deus?
Não!
A história não estabeleceu tal coisa nem poderia fazê-lo por toda a eternidade!
Como é possível pelo resultado de uma existência humana, como foi a de Jesus, chegar a uma conclusão, dizendo: Ergo, este homem era Deus?
Uma pegada no caminho é uma consequência do facto de que alguém passou por esse caminho.
Eu poderia enganar-me, julgando, por exemplo, que se trata de uma ave.
Examinando mais cuidadosamente poderei concluir que não se trata de uma ave, mas sim de um outro animal.
Porém, não posso, por mais que continue a examinar melhor, chegar à conclusão que não se trata de uma ave, nem de outro animal qualquer, mas sim de um espírito, porque um espírito, por natureza, não pode deixar vestígios no caminho.
Isto é um pouco parecido com o que se passa no caso de Cristo.
Não podemos tirar conclusões que Ele é Deus, examinando simplesmente aquilo que conhecemos d’Ele e da Sua vida, ou seja, mediante a observação directa.
Quem quer crer em Cristo, é obrigado a fazer-se Seu contemporâneo na humildade.
O problema está nisto:
Queres ou não queres crer n’Ele como Ele próprio disse que era?
Em relação ao absoluto não há senão um tempo: o presente, para quem não é contemporâneo do absoluto, ele não existe de facto.
E visto que Cristo é o absoluto, é difícil verificar que, em relação a Ele, só é possível uma situação: a de contemporaneidade.
Cem, trezentos ou mil e oitocentos anos; não alteram nem Lhe tiram nem Lhe aumentam nada revelam quem Ele era, porque, quem Ele era, somente é manifestado pela fé [vii].

(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, V, 28,5 (PG 20,513)
[ii] Cf. Jo 9,40-41
[iii] Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, V, 28,5 (PG 20,513)
[iv] Mt 11, 6
[v] Jo 7,27
[vi] CF. Orígenes, Contra Celso, 1, 26.28; VI, 10 (SCh 132, 146sss.; SCh 147,202ssss.
[vii] Cf. S. Kierkegaard, «O Exercicio do Cristianismo» 1,11 in Obras, «0p. cit.». pp. 703sss.

Diálogos apostólicos

O DIVÓRCIO – 4 

A. O PROBLEMA DO DIVÓRCIO


Pergunto:

Nessas situações, um casamento diferente recuperaria esses bens?


Respondo:

Não, não; mas é difícil entendê-lo:

Com o divórcio os filhos sofrem desequilíbrios e tensões afectivas, bem como falta de orientações claras. Por exemplo, é frequente conceder-lhes muitas coisas para ganhar o seu afecto face à outra parte, a quem não sabem se devem amar ou odiar.
A pessoa culpável não se corrige com o divórcio, mas confirma-se-lhe a sua conduta: se uma pessoa não me satisfaz, ando com outra e assim sucessivamente. Por seu lado, se não se lhes permitir casar de novo, não poderão causar dano a outras pessoas, excepto se entrarem no seu jogo como amantes.

A pessoa inocente que não se casa de novo, mantém a sua integridade interior e, diante dos filhos, a lealdade da sua palavra e conduta. Conserva também a dignidade do seu corpo que não entrega a outra.

Pequena agenda do cristão

SeGUNDa-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?




14/01/2018

Cristo diz-me a mim e diz-te a ti que precisa de nós

Devoção de Natal. – Não sorrio quando te vejo fazer as montanhas de musgo do Presépio e dispor as ingénuas figuras de barro em volta da gruta. – Nunca me pareceste mais homem do que agora, que pareces uma criança. (Caminho, 557)


Quando chega o Natal, gosto de contemplar as imagens do Menino Jesus. Essas figuras que nos mostram o Senhor tão apoucado, recordam-me que Deus nos chama, que o Omnipotente Se quis apresentar desvalido, quis necessitar dos homens. Do berço de Belém, Cristo diz-me a mim e diz-te a ti que precisa de nós; reclama de nós uma vida cristã sem hesitações, uma vida de entrega, de trabalho, de alegria.


Não conseguiremos jamais o verdadeiro bom humor se não imitarmos deveras Jesus, se não formos humildes como Ele. Insistirei de novo: vedes onde se oculta a grandeza de Deus? Num presépio, nuns paninhos, numa gruta. A eficácia redentora das nossas vidas só se pode dar com humildade, deixando de pensar em nós mesmos e sentindo a responsabilidade de ajudar os outros.


É corrente, às vezes até entre almas boas, criar conflitos íntimos, que chegam a produzir sérias preocupações, mas que carecem de qualquer base objectiva. A sua origem está na falta de conhecimento próprio, que conduz à soberba: o desejo de se tornarem o centro da atenção e da estima de todos, a preocupação de não ficarem mal, de não se resignarem a fazer o bem e desaparecerem, a ânsia da segurança pessoal... E assim, muitas almas que poderiam gozar de uma paz extraordinária, que poderiam saborear um imenso júbilo, por orgulho e presunção tornam-se desgraçadas e infecundas!



Cristo foi humilde de coração. Ao longo da sua vida, não quis para Si nenhuma coisa especial, nenhum privilégio. (Cristo que passa, 18)

Temas para reflectir e meditar

Crucifixo


O valor do Crucifixo como ajuda para a oração e a vida cristã é evidente: não há símbolo que nos lembre tão vivamente o infinito Amor de Deus pelo homem como esta imagem do próprio Filho de Deus pregado na Cruz por amor de nós, para que possamos alcançar a vida eterna.

Nada pode incitar-nos mais ao arrependimento dos nossos pecados do que essa representação de Jesus crucificado por nossas culpas.

Nada pode ser melhor âncora nas nossas tribulações e contrariedades de cada dia que esta imagem de Cristo agonizante, que dá sentido e valor ao nosso sofrimento.

(LEO J. TRESE, A Fé Explicada, Edições Quadrante S. Paulo 4ª Ed. nr. 338)



Evangelho e comentário

Tempo Comum


Evangelho: Jo 1, 35-42

35 No dia seguinte, João encontrava-se de novo ali com dois dos seus discípulos. 36 Então, pondo o olhar em Jesus, que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus!» 37 Ouvindo-o falar desta maneira, os dois discípulos seguiram Jesus. 38 Jesus voltou-se e, notando que eles o seguiam, perguntou-lhes: «Que pretendeis?» Eles disseram-lhe: «Rabi - que quer dizer Mestre - onde moras?» 39 Ele respondeu-lhes: «Vinde e vereis.» Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Eram as quatro da tarde. 40 André, o irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João e seguiram Jesus. 41 Encontrou primeiro o seu irmão Simão, e disse-lhe: «Encontrámos o Messias!» - que quer dizer Cristo. 42 E levou-o até Jesus. Fixando nele o olhar, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, o filho de João. Hás-de chamar-te Cefas» - que significa Pedra.

Comentário:

Nunca se esquece o momento em que a nossa vida deu como que uma revira­volta, conheceu um novo rumo, se alterou definitivamente!

João, jamais esquecerá o primeiro encontro a sós com Jesus Cristo, e refere a hora em que tal sucedeu.

Assim nós, cristãos vulgares e correntes, deveríamos ter bem gravados os mo­mentos principais da nossa vida de cristãos: a data do nosso Baptismo, da nossa Primeira Comunhão e, talvez nalgum caso, quando aceitámos decididamente o que sabíamos ser um convite do Senhor para algo mais específico.

(AMA, comentário sobre Jo 1 35-42, 28.09.2017)








Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

Capítulo III

ACREDITAS?

A divindade de Cristo no Evangelho de S. João


3     «Como podeis vós acreditar?»

…/2

Uma sociedade que se atola cada vez mais na matéria e na desordem moral, será uma sociedade que acreditará cada vez menos na divindade de Cristo.
Esta, de facto, torna-se uma reprovação permanente, como uma luz indiscreta.
«O incrédulo diz: “Se eu tivesse fé, abandonaria os prazeres”; mas eu repondo-lhe: “Terias fé, se tivesses abandonado os prazeres”» [i].
Pelo contrário, um grande sustentáculo da fé na divindade de Cristo é a pureza.
«Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus» [ii].
Verão a Deus também em Jesus reconhecendo a Sua divindade.

Existem decerto ainda outros motivos – alguns culpáveis, outros não – para quem não crê na divindade de Cristo; mas os que atrás citei, especialmente o da procura da própria glória, são os mais comuns quando se trata de pessoas que conheceram Cristo e, porventura, até já creram nele, sobretudo as pessoas doutas.

4.«A obra de Deus é crer naquele que Ele enviou»

A divindade de Cristo – e, portanto, a universalidade da Sua salvação – é o objectivo específico e principal do crer, segundo o Novo Testamento. «Crer», sem outras especificações, significa crer em Cristo. Pode também significar crer em Deus, mas enquanto é o Deus que enviou o Seu Filho ao mundo.
Jesus dirigia-se às pessoas que acreditavam já no verdadeiro Deus; toda a Sua insistência sobre a fé está relacionada com aquele novo acontecimento que era a Sua vinda ao mundo, o Seu falar em nome de Deus. Numa palavra, o facto de Ele ser o Filho unigénito de Deus.

Foi, sobretudo, S. João quem fez da divindade de Cristo e da Sua filiação divina a finalidade principal do seu evangelho e o tema que tudo unifica. Ele conclui o seu evangelho dizendo:

«Estas palavras foram escritas para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus», e para que, crendo, tenhais a vida em Seu nome» [iii]; e termina a sua primeira carta quase com as mesmas palavras:
«Escrevo-vos tudo isto para que saibais que tendes a vida eterna, vós que acreditais no nome do Filho de Deus». [iv]

Uma rápida vista de olhos ao Quarto Evangelho, mostra-nos, através do ponto de vista da fé na divindade de Cristo, como esta constitui a sua urdidura e textura. Crer n’Aquele que o Pai enviou, é tido como «a obra de Deus», e aquilo que mais agrada a Deus. Não crer nisto é visto, consequentemente, como «o pecado» por excelência:

«O Consolador convencerá o mundo quanto ao pecado», e o pecado é: «não creem em Mim». [v]


Está traçada claramente uma linha que distingue a humanidade em duas partes: aqueles que creem e aqueles que não creem que Jesus é o Filho de Deus. Quem crê n’Ele não é condenado, mas quem não crê já está condenado; quem crê tem a vida, quem não crê não terá a vida [vi].                 

Também, à medida que se desenrola a revelação de Jesus, vê-se concretamente formarem-se dois grupos de pessoas. De algumas foi dito que «creram n’Ele»
Em Caná, os Seus discípulos acreditaram n’Ele [vii]; muitos mais, de entre os samaritanos, «creram n’Ele pela Sua palavra« [viii].

Por outro lado, fala-se de pessoas, particularmente os chefes, que «não creram n’Ele e nota-se que nem os Seus irmãos «criam n’Ele» [ix].

Mesmo depois da Sua morte, a fé n’Nele será como a grande pedra de toque no seio da humanidade:

De um lado estarão aqueles que embora não tenham visto, creram [x]; do outro lado, estará o mundo que se recusará a crer.
Perante esta distinção, todas as outras conhecidas anteriormente, passam para segundo plano. O episódio de S. Tomé aparece como um tácito convite dirigido por S. João ao leitor.
No fim, ele é convidado a fechar o livro, a ajoelhar e exclamar:

«Meu Senhor e meu Deus!» [xi].
É nesta clara e solene profissão de fé na divindade de Cristo que se cumpre a finalidade ela qual S. João escreveu o seu evangelho.

É de ficarmos mesmo estupefactos perante o cometimento que o Espírito de Jesus permitiu que João levasse a cabo. Ele abraçou os temas, os símbolos, as esperanças, tudo quanto havia de religiosamente vivo, tanto no mundo judaico como no helenístico, guiando tudo para uma única ideia, ou melhor, para uma única pessoa: Jesus Cristo Filho de Deus, salvador do mundo.
O evangelho de João não se centra sobre um acontecimento, mas sobre uma pessoa.
Nisto ele é diferente de Paulo, cujo pensamento, embora também ele dominado por Cristo, tem por centro, mais que a pessoa de Cristo, a Sua obra de salvação, o Seu mistério pascal.

Ao lermos os livros de certos estudiosos, seguidores  da «Escola de história das religiões», o mistério cristão não se distingue, senão em coisas de pouca monta, do mito religioso gnóstico e mandeu [xii], ou da filosofia religiosa helenística e hermética.
Os confins perdem-se e os paralelismos multiplicam-se.
A fé cristã, mormente a de S. João, torna-se uma das variantes desta mitologia cambiante e desta religiosidade difusa.
Mas o que significa isto?
Significa só que se prescinde das coisas essenciais: da vida e da força histórica que está por detrás dos sistemas e das representações.
As pessoas vivas são diferentes umas das outras, mas os esqueletos são todos semelhantes.
Uma vez reduzida a esqueleto, isolado da vida que produziu, isto é, da Igreja, a mensagem cristã corre o rico de se confundir com as outras da mesma época.

S. João não nos legou um conjunto de doutrinas religiosas antigas, mas um poderoso kerigma.
Aprendeu a língua dos homens do seu tempo para gritar nessa língua, com todas as suas forças, a única verdade que salva, a Palavra por excelência, o «Verbo».
Ele «reduziu» todas as inteligências à obediência a Cristo».
O Cristo de S. João é «o herdeiro de tudo».
É o «Logos total», como Lhe chama S. Justino, é Aquele que reúne em Si todas as partículas de verdade, espalhadas aqui e ali, como sementes, entre as pessoas [xiii].
É o Cristo «herdeiro de todo o esforço humano», o rei que «recebeu tributos de povos desconhecedores de que lhos enviavam» [xiv].

 Um cometimento como este não se leva a cabo sentado a uma escrevaninha, com o apoio de meia dúzia de livros abertos.
A síntese joanina da fé em Cristo foi realizada «a fogo», isto é, na oração, vivendo de Cristo, falando d’Ele.
Quiçá, falando d’Ele com a Mãe, pois que ela tinha vivido em sua casa, ou somente permanecendo perto dela e contemplando-a.
Uma coisa é certa, independentemente da questão do autor do Quarto Evangelho: Maria estava presente no ambiente em que se formaram as tradições do Quarto Evangelho, porque «o discípulo de Jesus amava tinha-a levado para sua casa.
Precisamente por causa desta sua origem especial, o resultado da síntese de João, ainda hoje, não pode ser compreendido por quem esteja debruçado sobre uma escrevaninha com meia dúzia de livros abertos para consulta.

(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] B. Pascal, Pensamentos, 240, Br.
[ii] Mt 5,8
[iii] Jo 20, 31
[iv] 1 Jo 5, 13
[v] Jo 16, 8-9
[vi] Cfr. Jo 3, 18.36
[vii] Jo 2, 11
[viii] Jo 4, 41
[ix] Jo 7, 5
[x] Cfr. Jo 20,029
[xi] Jo 20, 28
[xii] Nota de AMA: seguidor ou praticante do mandeísmo, religião praticada no Oriente Médio.
[xiii] Cfr. S. Justino, II Aplologia, 10,13.
[xiv] Ch. Péguy, Eve, in Oeuvres Poétiques, Paris 1975, pp. 1086,1581.