10/01/2018

Diante de Deus tu és uma criança

Diante de Deus, que é Eterno, tu és uma criança mais pequena do que, diante de ti, um miúdo de dois anos. E, além de criança, és filho de Deus. – Não o esqueças. (Caminho, 860)

Se reparardes bem, é muito diferente a queda de uma criança e a queda de uma pessoa crescida. Para as crianças, uma queda, em geral, não tem importância; tropeçam com tanta frequência! E se começam a chorar, o pai lembra-lhes: os homens não choram. Assim se encerra o incidente com o empenho do miúdo por contentar o seu pai.

(…) Se procurarmos portar-nos como eles, os tropeções e os fracassos – aliás inevitáveis – na vida interior, nunca se transformarão em amargura. Reagiremos com dor, mas sem desânimo, e com um sorriso que brota, como a água límpida, da alegria da nossa condição de filhos desse Amor, dessa grandeza, dessa sabedoria infinita, dessa misericórdia, que é o nosso Pai. Aprendi durante os meus anos de serviço ao Senhor a ser filho pequeno de Deus. E isto vos peço: que sejais quasi modo geniti infantes, meninos que desejam a palavra de Deus, o pão de Deus, o alimento de Deus, a fortaleza de Deus para se comportarem de agora em diante, como homens cristãos. (Amigos de Deus, 146)

Temas para reflectir e meditar

O supérfluo e o necessário


O supérfluo dos ricos é o necessário dos pobres.


Possuem-se coisas alheias quando se possuem coisas supérfluas.



(SANTO AGOSTINHO, Comentários sobre o Salmo 147.)




Evangelho e comentário

Tempo Comum


Evangelho: Mc 1, 29-39

29 Saindo da sinagoga, foram para casa de Simão e André, com Tiago e João. 30 A sogra de Simão estava de cama com febre, e logo lhe falaram dela. 31Aproximando-se, tomou-a pela mão e levantou-a. A febre deixou-a e ela começou a servi-los. 32 À noitinha, depois do sol-pôr, trouxeram-lhe todos os enfermos e possessos, 33 e a cidade inteira estava reunida junto à porta. 34 Curou muitos enfermos atormentados por toda a espécie de males e expulsou muitos demónios; mas não deixava falar os demónios, porque sabiam quem Ele era. 35 De madrugada, ainda escuro, levantou-se e saiu; foi para um lugar solitário e ali se pôs em oração. 36 Simão e os que estavam com Ele seguiram-no. 37 E, tendo-o encontrado, disseram-lhe: «Todos te procuram.» 38 Mas Ele respondeu-lhes: «Vamos para outra parte, para as aldeias vizinhas, a fim de pregar aí, pois foi para isso que Eu vim.» 39 E foi por toda a Galileia, pregando nas sinagogas deles e expulsando os demónios.

Comentário:

Jesus Cristo é, de facto, um verdadeiro “médico de família” atento e disponível para assistir os doentes quando necessário seja qual for o mal que os aflige.

Uma simples febre!

E, Deus Nosso Senhor, O Todo Poderoso, não tem qualquer pejo em assistir a sogra de Pedro.

Ficamos comovidos com esta simplicidade de Jesus, comovidos e tranquilos porque temos a segurança do Seu desvelo, interesse e disponibilidade para nos acudir quando necessário

(AMA, comentário sobre Mc 1, 29-39, 11.01.2017)






Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

CAPÍTULO II

JESUS CRISTO, O HOMEM NOVO

1.   Obediência e novidade

Resta-nos agora clarificar brevemente a última questão:
Como se apresenta o homem novo revelado por Cristo e qual é o traço essencial que o distingue do homem «velho»?
De facto, temos de conhecer este homem novo, já que fomos chamados a «revestir-nos dele».
Chegámos também, desta vez, ao ponto em que devemos passar do querigma para a paréneses, passar da contemplação de Cristo homem «novo» para a imitação da novidade que é a Sua.

A diferença entre os dois tipos de humanidade é resumida por São Paulo na antítese: desobediência-obediência.
«Assim como, pela desobediência de um só homem, todos os outros se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos» [i].
Por isso, dizia eu mais atrás que, para se descobrir que «tipo de homem é Jesus», é preciso olhar também para o mistério pascal. Porque é lá que o novo Adão se revela obediente.

O homem novo é um homem que nada faz «por Si mesmo», ou «para Si mesmo» ou para Sua glória. É Aquele cujo alimento é fazer a vontade do Pai. É Aquele que leva a Sua obediência até à morte e à morte na cruz. O homem novo é Aquele que vive em total e absoluta dependência de Deus e encontra nessa dependência a Sua força, a sua Alegria e a Sua liberdade. Não encontra nela o Seu limite, mas o caminho para superar o Seu limite, numa palavra, encontra nessa dependência o Seu ser:
«Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, - disse Jesus – então sabereis que Eu sou, e que não faço nada por Mim mesmo, mas como o Pai Me ensinou, assim Eu faço» [ii].
«Eu sou» porque «nada faço por Mim mesmo». O ser de Cristo radica-se na Sua submissão ao Pai. Ele «é» porque «obedece».

O ser do homem mede-se pelo grau da sua dependência de Deus, seu criador, até coincidir no seu último vértice que é Jesus Cristo, com o Ser absoluto que é o próprio Deus, e poder dizer também como homem: «Eu sou»! Eis em que consiste a verdadeira «afirmação» do homem e o verdadeiro «humanismo». Os seguidores de outro tipo de humanismo podem não aceitar esta afirmação e até revoltar-se contra ela, mas nós sabemos que é a verdade. Se o homem não é só natureza, mas também, vocação, é aqui que se realiza a vocação do homem e é a de se à imagem e semelhança de Deus.

Os crentes devem fazer duas coisas, acerca deste homem novo: proclamá-lo e revestir-se dele., isto é, vivê-lo.
Ao proclamá-lo servem-nos de exemplo os grandes Padres da Igreja do século IV: Basílio, Gregório Nazianzeno, Gregório Nisseno, Agostinho… todos eles eram homens embebidos pela cultura do seu tempo; podiam dizer falando dos seus interlocutores:
«São Gregos? Também eu!»
Mas eles converteram-se, tornando-se estultos aos olhos dos sábios, abraçando a humanidade de Cristo, e tornaram-se assim o «berço» em tomou forma um novo modo de pensar, uma nova visão do homem, o «cadinho» em que o helenismo se cristianizou e o cristianismo se helenizou, no bom sentido, isto é, se fez «grego com os gregos».
Eles assumiram a ideia de homem da sua cultura, aproveitando o que ela tinha de válido – como por exemplo, a afirmação de que «nós somos da linhagem de Deus» [iii] - e corrigindo o que havia de errado, como a afirmação de que «a carne não é capaz de salvação».
O mesmo devemos fazer nós hoje também, na nossa cultura que não tem dificuldade em admitir a salvação e a bondade da matéria, ao passo que tem dificuldade em admitir que «somos da linhagem de Deus», criados por Ele.
Eles, os Padres, salvaram também a sua cultura, obrigando-a a abrir-se por dentro a novos horizontes. Souberam também reconhecer as grandes conquistas da cultura do seu tempo e não apontar-lhe somente as suas carências; o mesmo devemos fazer nós também.
No seu tempo um dos pontos nevrálgicos era constituído pela «sabedoria»; hoje um dos pontos nevrálgicos «é a liberdade».
São Paulo dizia:
«Os gregos procuram a sabedoria; nós pregamos a Cristo crucificado, o que é um escândalo para os gentios, mas para aqueles que são chamados é virtude de Deus e liberdade de Deus!».

Todas as aberrações que hoje se ouvem acerca da humanidade de Cristo e das Sua presumíveis lutas e rebeliões, como a ideia, por exemplo, de que Cristo não seria completo se não tivesse uma «personalidade humana», derivam do facto de que se acabou por aceitar o pressuposto do humanismo ateu segundo o qual existe uma surda rivalidade e incompatibilidade entre Deus e o homem e «onde nasce Deus, morre o homem».
Em vez de destruir os raciocínios que se levantam contra a fé e submetendo à fé toda a inteligência humana, é à fé que, desate modo, se sujeita a inteligência humana.

2.       «Se o Filho vos libertar…»

Proclamar Cristo homem «sem pecado» não tem certamente por finalidade refutar o undo e o homem de hoje, mas pelo contrário, incutir-lhe confiança e esperança. Poucos são os temas evangélicos que têm tanta força libertadora como este.
Lembro-me ainda da primeira vez que «descobri» a santidade de Cristo. Fazendo um exame de consciência aos meus actos e aos meus pensamentos eu ia com clareza que não havia um único desses actos que se pudesse considerar totalmente puro e que de algum modo não estivesse inquinado pelo meu «eu» de pecado. Esta situação leva-me a procurara com o pensamento uma saída como quando São Paulo exclamou:
«Quem me libertará deste corpo de morte?» [iv].
Foi então que descobri «Jesus sem pecado» e compreendi pela primeira vez o valor incomensurável que este incisivo «absque peccato» tem na Bíblia! Esta visão incutia-me na alma uma grande paz e confiança, como o náufrago que encontrou qualquer coisa a que se agarrar. O pecado, portanto – repetia comigo mesmo – não é omnipresente e se não é omnipresente também não é omnipotente!
Houve – e existe ainda – um ponto no universo onde começou a sua retirada, a qual se concluirá irremediavelmente com a sua definitiva irradicação. Veio-me então o desejo de abrir a Bíblia com a esperança de entrar nela uma palavra que, de algum modo, me falasse deste Jesus sem pecado. E o meu olhar fixou-se no texto de São João no qual Jesus diz:
«Em verdade, em verdade vos digo: todo o que comete pecado é escravo do pecado… Por isso, se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres» [v].
Compreendi que Jesus não fala aqui de toda a liberdade ou da liberdade em geral, mas da libertação do pecado: se o Filho vos libertar do pecado sereis verdadeiramente livres. Um dia também nós seremos livres do pecado, isto é, «verdadeiramente» livres, teremos uma liberdade que agora nem sequer conseguimos imaginar.
Comentando o texto (Onde está o espírito do Senhor aí está a liberdade» [vi], Santo Agostinho revela-nos o segredo da verdadeira liberdade:
«Onde está o Espírito do Senhor já não se é aliciado pelo prazer de pecar, e isto é a liberdade.
Onde não está o espírito do Senhor é-se aliciado pelo prazer de pecar e isto é a escravidão»[vii ].
O Espírito do Senhor é o Espírito do Senhor Jesus!

(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Rm 5,19
[ii] Jo 8,28
[iii] Act 17,28
[iv] Rm 7,24
[v] Jo 8,34-36
[vi] 2Cor 3,17
[vii] Santo Agostinho, De Spiritu et Littera, 16,28 (CSEL 60,181

AS “NOTÍCIAS” SOBRE A IGREJA

As “notícias” nos jornais, televisões, revistas, etc., sucedem-se a um ritmo impressionante, criando casos, ou “denunciando”, segundo eles, ataques ao Papa Francisco, obviamente pelos sectores ditos conservadores da Igreja, Cardeais, Bispos, Sacerdotes, Leigos, etc., etc.

Este tipo de jornalismo tem apenas um fim: desacreditar a Igreja e a religião católica.

Aproveitando o facto do Papa Francisco ser muito mais mediático do que os seus antecessores, dá-se notícia de todos os problemas, (a que chamam oposição), para sustentar esta teoria do ataque ao Papa Francisco.
Quem se quiser lembrar, (e é fácil procurar), poderá constatar que Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI, (para referir apenas estes), sofreram os mesmos problemas, ou idênticos, mas que, por não serem tão mediáticos, não foram notícia maciça na comunicação social.
Desenganemo-nos, pois este tipo de jornalismo não está preocupado com o Papa Francisco nem com a Igreja, está preocupado sim em fazer passar o seu desiderato de afirmação do politicamente correcto, das ditas causas fracturantes, que destroem a família e a sociedade, e para isso, claro, é preciso desacreditar a Igreja Católica e o Cristianismo.

Mas todos nós, ou pelo menos uma grande parte de nós, que falamos, escrevemos, opinamos, etc., publicamente nas redes sociais e não só, somos também culpados, porque publicamos tais “notícias”, criamos debates sobre as mesmas, e assim, provocamos muito mais divisão do que união.

A Igreja, graças a Deus, vive da unidade, reconhecendo a sua diversidade.
A Igreja, como Cristo, não exclui, mas apenas inclui, ou deve incluir.
Desde que em unidade com aquilo que a Igreja diz na sua Doutrina, na sua Tradição, nos seus Documentos Dogmáticos, e portanto em união com o Papa e o Magistério, as Missas podem ser em latim, (com mais ou menos pompa), a Comunhão pode fazer-se na mão, (desde que seguindo os preceitos para tal estabelecidos), e tantas outras coisas que são alvo de discussão entre os chamados conservadores e os chamados progressistas, tudo é possível e tudo é agradável a Deus, porque é vivido em unidade de Igreja.

Aliás a imagem da Igreja como Corpo de Cristo, é particularmente interessante quando pensamos nisto.
O corpo é um todo, com mãos, pernas, etc., e não é perfeito se lhe faltar alguma parte.
No entanto eu posso preferir usar a mão esquerda ou a direita, posso preferir cruzar a perna direita ou a esquerda, mas nada disso impede que o corpo não seja corpo e não esteja unido e coeso.
Não faz sentido, (e ninguém o faria porque causava dor a si próprio), cortar uma mão, um braço ou uma perna, por exemplo, porque por qualquer razão essa parte do seu corpo não lhe é querida.

Assim, todos têm lugar na Igreja, desde que respeitem tudo aquilo que a Igreja é, ou melhor, que Jesus Cristo quer que seja, e isso está bem determinado ao longo dos séculos que a mesma Igreja já tem de longevidade, pela graça de Deus, até aos dias de hoje e para sempre, guiada pelo Espírito Santo.

Não demos a quem está de fora e deseja destruir a Igreja, razões para acreditar que o pode fazer, mas unamo-nos no amor a Deus e aos irmãos, (todos sem excepção), e rezemos unidos, embora vivendo a fé na diversidade de cada um ou de cada grupo, mas unidos em Igreja.

Os problemas de uma família discutem-se em família.
Ninguém traz para a praça pública a discussão dos seus problemas de família.

Assim devemos também fazer em Igreja, para não darmos azo a que outros, a quem move apenas o mundo, o politicamente correcto, possam vir deitar “achas na fogueira” da discórdia, da divisão, porque apenas um fogo deve consumir a Igreja e os seus membros, e esse fogo é o Espírito Santo.

Rezemos pelo Papa Francisco, pela Igreja e por todos nós que vivemos a fé em Igreja, e não demos “audiência” a quem não procura a verdade, mas pelo contrário, apenas pretende impor o seu modo de vida, conduzido pelo príncipe do mundo.


Joaquim Mexia Alves,
Marinha Grande, 3 de Janeiro de 2018

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Perguntas e respostas

A EUTANÁSIA


8. E se é incurável?


A palavra incurável soa mais dolorosa que se fossem cinquenta anos, ainda que muitas vezes a morte chegue de modo natural antes desse tempo de doença.

A palavra incurável suprime a esperança e então o sofrimento perde sentido e se pensa inclusivamente na eutanásia

Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?







09/01/2018

Jesus ainda está à procura de pousada

Jesus nasceu numa gruta em Belém, diz a Escritura, "porque não havia lugar para eles na estalagem". Não me afasto da verdade teológica, se te disser que Jesus ainda está à procura de pousada no teu coração. (Forja, 274)

Não me afasto da mais rigorosa verdade se vos digo que Jesus continua agora a buscar pousada no nosso coração. Temos de Lhe pedir perdão pela nossa cegueira pessoal, pela nossa ingratidão. Temos de Lhe pedir a graça de nunca mais Lhe fechar a porta das nossas almas.
O Senhor não nos oculta que a obediência rendida à vontade de Deus exige renúncia e entrega porque o amor não pede direitos: quer servir. Ele percorreu primeiro o caminho. Jesus, como obedecestes Tu? Usque ad mortem, mortem autem crucis, até à morte e morte de Cruz. É preciso sair de nós mesmos, complicar a vida, perdê-la por amor de Deus e das almas... Tu querias viver e que nada te acontecesse; mas Deus quis outra coisa... Existem duas vontades: a tua vontade deve ser corrigida para se identificar com a vontade de Deus, e não torcida a de Deus para se acomodar à tua.
Com alegria, tenho visto muitas almas que jogaram a vida – como Tu, Senhor, "usque ad mortem"! – para cumprir o que a vontade de Deus lhes pedia, dedicando os seus esforços e o seu trabalho profissional ao serviço da Igreja, pelo bem de todos os homens.

Aprendamos a obedecer, aprendamos a servir. Não há maior fidalguia do que entregar-se voluntariamente ao serviço dos outros. Quando sentimos o orgulho que referve dentro de nós, a soberba que nos leva a pensar que somos super-homens, é o momento de dizer que não, de dizer que o nosso único triunfo há-de ser o da humildade. Assim nos identificaremos com Cristo na Cruz, não aborrecidos ou inquietos, nem com mau humor, mas alegres, porque essa alegria, o esquecimento de nós mesmos, é a melhor prova de amor. (Cristo que passa, 19)

Temas para reflectir e meditar

A força do Silêncio, 293


Porque há um tempo para combater e um tempo para fazer uso do silêncio.

Se possuíssemos verdadeiramente a pedagogia do silêncio que vem de Deus, teríamos um pouco da paciência do Céu.



CARDEAL ROBERT SARAH

Evangelho e comentário

Tempo Comum


Evangelho: Mc 1, 21-28

21 Entraram em Cafarnaúm. Chegado o sábado, veio à sinagoga e começou a ensinar. 22  E maravilhavam-se com o seu ensinamento, pois os ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da Lei. 23 Na sinagoga deles encontrava-se um homem com um espírito maligno, que começou a gritar: 24«Que tens a ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos arruinar? Sei quem Tu és: o Santo de Deus.» 25 Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem.» 26 Então, o espírito maligno, depois de o sacudir com força, saiu dele dando um grande grito. 27 Tão assombrados ficaram que perguntavam uns aos outros: «Que é isto? Eis um novo ensinamento, e feito com tal autoridade que até manda aos espíritos malignos e eles obedecem-lhe!» 28 E a sua fama logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da Galileia.

Comentário:

«E maravilhavam-se com o seu ensinamento, pois os ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da Lei

Parece algo estranha esta “declaração” do evangelista.

Mas temos de compreender que, em Jesus Cristo, tudo era absolutamente novo, isto é, observando a Lei, não alterando um “til”, dava-lhe uma interpretação nova e acessível a qualquer um.

E como o fazia com uma convicção e uma autoridade tais que não se admitia discussão.

Os ouvintes – as pessoas comuns – estavam habituados a que lhes dissessem que as coisas eram assim, como quem diz, “à letra”, não se importando com a interpretação nem com qualquer explicação.

Jesus Cristo, bem a o contrário, explica e diz porque é que a Lei é assim, diz isto, estabelece aquilo e qual a forma de entender, compreender e pôr em prática.

E as pessoas entendem, finalmente, que a Lei de Deus é uma lei natural acessível a qualquer um e feita de modo a que todos a possam pôr em prática.

Ou seja, em vez de rigor… amor!

(ama comentário sobre Mc 1, 21-28, 10.01.2017)







Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus
CAPÍTULO II

JESUS CRISTO, O HOMEM NOVO

1.   Jesus, homem «novo».

Dizia eu que o Novo Testamento não está interessado tanto em afirmar que Jesus é um «homem verdadeiro», mas sim que é o «homem novo».
Ele é definido por S. Paulo «o último Adão» (eschatos), isto é, o «homem definitivo», não passando o primeiro Adão de uma espécie de esboço e de realização imperfeita [i].
Cristo revelou o homem novo, aquele que foi «criado segundo Deus na justiça e na santidade verdadeira» [ii].

A «novidade» do homem novo não consiste, como se vê, em qualquer novo componente que Ele possa a mais que o homem precedente, mas consiste, isso sim, na santidade.
Cristo é o homem novo porque é o Santo, o justo, o homem à imagem de Deus. Todavia, trata-se de uma novidade não acidental, mas essencial que não diz respeito somente ao modo de agir do homem, mas também ao seu ser.
Que é de facto o homem?
Para o pensamento profano e em especial para o pensamento grego, ele é essencialmente uma natureza, um ser definido com base naquilo que possui por nascimento:
«Um animal racional», seja qual for o modo como se queira definir esta natureza.
Porém, para a Bíblia, o homem não é somente natureza, mas em medida igual é também vocação; ele é também aquilo a que é chamado a tornar-se, mediante o exercício da sua liberdade na obediência a Deus.
Os Padres exprimiam isto fazendo a distinção entre o conceito de «imagem» e o de «semelhança» [iii].
O homem é por natureza ou por nascimento, «à imagem» de Deus, mas só se torna «à semelhança» de Deus no decorrer da sua vida, através do esforço em se assemelhar a Deus, através da obediência. Pelo facto de existirmos somos à imagem de Deus, mas pelo facto de obedecermos somos também à Sua semelhança, porque queremos as coisas como Ele quer.
«Na obediência – dizia um antigo Padre do deserto – exerce-se a semelhança com Deus e não só ser à Sua imagem» [iv].

Devemos dizer, entre parênteses, que este modo de definir o homem com base na sua vocação, mais do que com base na sua natureza, é partilhado pelo pensamento contemporâneo, mesmo que nele se dê pouco relevo à dimensão, essencial para a Bíblia, da obediência, e que fique somente de pé a da liberdade, pelo que, em vez de vocação se fala de projecto [v].
Por isso também sob este ponto de vista a resposta mais eficaz às instâncias do pensamento moderno não vem tanto da insistência sobre Cristo «verdadeiro homem», entendido no antigo sentido de «naturalmente completo», mas da insistência sobre Cristo «homem novo», revelador do projecto definitivo do homem.

O Verbo de Deus não se limita, portanto, a fazer-se homem como se existisse já um modelo ou um molde de um homem belo e completo, dentro do qual, por assim dizer, Ele Se submete. Ele revela também o que é o homem; com Ele aparece o próprio modelo porque Ele é verdadeiramente a perfeita «imagem de Deus» [vi].
O facto de sermos chamados a tornarmo-nos «conformes à imagem do Seu Filho» [vii] é bem mais relevante do que o Jesus ter sido chamado a tronar-se conforme à nossa imagem.
O Concílio Vaticano II diz bem:
«Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era efectivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor, Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do Seu amor, revela também o homem a si mesmo» [viii]
«Deus fez-se homem – gostavam de repetir os Padres da Igreja – para que o homem se tornasse Deus».
Ao lado deste axioma devemos hoje colocar este outro: Deus fez-se plenamente homem para que o homem se tornasse homem!
Plenamente e autenticamente homem.
Portanto, Jesus não é somente o homem que se assemelha a todos os outros homens, mas também o homem ao qual todos os outros e devem assemelhar. Este «homem de finitivo» é também, em certo sentido, o homem primitivo, se é verdade, como diziam os Padres, que foi à imagem deste homem futuro – imagem da Imagem – que Adão foi criado.
«Ele fez homem – escreve Stº Ireneu – à imagem de Deus [ix].
A imagem de Deus é o Filho de Deus [x], à imagem do qual foi feito o homem. [xi]
Tudo isto constitui uma aplicação coerente da afirmação paulina segundo a qual Cristo é «o Primogénito de todas as criaturas» [xii] e também da afirmação joanina do Verbo «por meio do qual tudo foi feito» [xiii].
O homem não tem, em Cristo, somente o modelo, mas também a sua «forma substancial».
Como acontece na feitura de uma estátua, a forma, ou o projecto, que no pensamento precede a realização, impregna de si a matéria e o plasma, assim também Cristo, arquétipo do homem, o molda e o configura a Si mesmo, definindo-lhe a verdadeira natureza.
«Se fosse possível existir - escreve Cabasillas – um artifício qualquer com que se pudesse ver, com os próprios olhos, a alma do artista, veríamos nela, sem matéria, a casa, a estátua ou qualquer outra obra [xiv].
Não foi por qualquer «artifício», mas por revelação divina que João Paulo e outros autores inspirados, «viram» a alma do Artista, de Deus, e descortinaram nela, sem matéria, o homem ideal contido em Cristo. É agradável encontrar esta visão patrística da relação entre o homem e Cristo, quase idêntica, num teólogo moderno como K. Barth, porque isso demonstra que ela, mais do que ser incompatível com modo de pensar moderno, é só incompatível com a incredulidade moderna.
«O homem – escreve Barth – é um ser humano enquanto é um só ser com Jesus, tem a sua base na eleição divina e, por outro lado, enquanto é um só ser com Jesus, é constituído pela escuta da Palavra de Deus» [xv].

Considerada sob este prisma, a expressão «excepto no pecado» dita em referência a Jesus [xvi] não aparece uma excepção à plena e definitiva humanidade como se Ele fosse em tudo verdadeiro homem como nós, menos numa coisa, o pecado; como se o pecado fosse um traço essencial e natural do homem.
Longe de derrogar a plena humanidade de Cristo, este «excepto no pecado» constitui o traço distintivo da Sua verdadeira humanidade, pois o pecado é a única verdadeira «sobre-estrutura», a única componente espúria ao projecto divino do homem. É surpreendente como se chegou ao ponto de considerar como a coisa mais «humana» precisamente aquela que é a menos humana.
«A perversidade humana chegou ao ponto de considerar homem aquele que é vencido pela sensualidade, ao passo que não considera homem, aquele que a venceu. Assim, não são homens os que venceram o mal, mas são-no os que são vencidos por ele!» [xvii]
A palavra «humano» chegou a significar mais aquilo que aproxima o homem dos animais, que aqui que o distingue deles, como a inteligência, a vontade, a consciência, a santidade.

Jesus é, portanto, «verdadeiro» homem, não apesar de o ser sem pecado, mas precisamente porque é sem pecado.
São Leão Magno, na famosa carta dogmática que inspirou a definição de Calcedónia e que, para certos trechos, faz dela o melhor comentário, escrevia:
«Ele, Deus verdadeiro, nasceu numa íntegra e perfeita natureza como verdadeiro homem, completo de todas as prerrogativas, tanto divinas como humanas. Todavia, dizendo «humanas» referindo-se àquelas coisas que o Criador no princípio colocou e nós e posterior veio restaurar; ao passo que, no Salvador, não existiu qualquer vestígio daquelas coisas que o Enganador acrescentou e que o homem enganado acolheu. Não é preciso pensar que Ele, pelo facto de ter querido compartilhar as nossas fraquezas, tivesse participado também nas nossas culpas. Ele assumiu a condição de escravo, mas sem a contaminação do pecado; assim enriqueceu o homem sem ter apoucado Deus» [xviii]

Por este texto se vê como, revitalizando o dogma a partir da Sagrada Escritura, na linha da Tradição, com o senso da Igreja, ele deixa de ser uma verdade arcaica, incapaz de suster o assalto do pensamento moderno, «como se fosse uma muralha em ruínas ou um recinto prestes a desabar»; pelo contrário, torna-se uma verdade sempre nova e enérgica, que tem «o poder de abater as fortalezas, destruindo os argumentos e todos os obstáculos que se levantam contra o conhecimento de Deus» [xix].
Tinha razão Kierkegaard quando dizia que «a teologia dogmática da Igreja é comum castelo de fadas, onde repousam num sono profundo os príncipes e as mais formosas princesas; basta somente acordá-los, para que se levantem em toda a sua glória» [xx].

O dogma de Cristo «verdadeiro homem» e «homem novo» tem a capacidade de originar um autêntico safanão nas mentalidades.
Obriga-nos a passa de um Cristo «medido» com o metro da nossa humanidade, para o Cristo que julga a nossa humanidade; obriga-nos a passar do Cristo que é julgado pelos filósofos e pela História, para o Cristo que julga os filósofos e a História.
«Não foi Ele que, aceitando nascer e manifestar-se na Judeia, Se apresentou ao exame da História; Ele que é o Examinador, e a Sua vida é o exame ao qual é submetida não só a Sua geração, mas também todo o género humano» [xxi].


(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] 1Cor 15,45sss.; Rm 4,14
[ii] Ef 4,26; Col 3,10
[iii] Cfr. Gn 1,26
[iv] Diadoco de Fotica, Discursos Ascéticos, 4 (SCh 5 bis. Pp. 108sss
[v] «Projecto» é a categoria central com que se trata do homem em «ser e tempo» de M. Heidegger em «O ser e o nada» de J. –P. Sartre
[vi] Cl 1,15
[vii] Rm 8,29
[viii] Gaudium et Spes, n. 22
[ix] Gn 1,2
[x] Col 1,15
[xi] Stº. Ireneu, Demonstração da Pregação Apostólica, 22
[xii] Cl 1,15
[xiii] Jo 1,3
[xiv] Cabasillas, Vida em Cristo, V2 (PG 150,629)
[xv] K. Barth, Dogmática Eclesiástica, 9,12 (CC 41,131sss
[xvi] Hb 4,15
[xvii] Santo Agostinho, Sermo, 9,12 (CC 41,131sss
[xviii] São Leão Magno, Tomus ad Flavianum, I 3 (PL. 54,757sss
[xix] Cfr. 2Cor 10,4-6
[xx] S. Kierkegaard, Diário, II, A, 110
[xxi] S. Kierkegaard, Exercício do Cristianismo, I, in Obras, op. Cit., p. 708