27/12/2017

Calma, deixa correr o tempo

Estás intranquilo. – Olha: aconteça o que acontecer na tua vida interior ou no mundo que te rodeia, nunca te esqueças de que a importância dos acontecimentos ou das pessoas é muito relativa. – Calma. Deixa correr o tempo; e, depois, olhando de longe e sem paixão os factos e as pessoas, adquirirás a perspectiva, porás cada coisa no seu lugar e de acordo com o seu verdadeiro tamanho. Se assim fizeres, serás mais justo e evitarás muitas preocupações. (Caminho, 702)


Não vos assusteis nem temais nada, mesmo que as circunstâncias em que trabalheis sejam tremendas, piores que as de Daniel no fosso com aqueles animais vorazes. As mãos de Deus continuam a ser igualmente poderosas e, se fosse necessário, fariam maravilhas. Sede fiéis! Com uma fidelidade amorosa, consciente, alegre, à doutrina de Cristo, persuadidos de que os anos de agora não são piores do que os dos outros séculos e de que o Senhor é o mesmo de sempre.


Conheci um sacerdote já ancião, que afirmava, sorridente, de si mesmo: eu estou sempre tranquilo, tranquilo. E assim temos de nos encontrar sempre nós, metidos no mundo, rodeados de leões famintos, mas sem perder a paz: tranquilos! Com amor, com fé, com esperança, sem esquecer jamais que, se for conveniente, o Senhor multiplicará os milagres. (Amigos de Deus, 105)

Temas para meditar

A força do Silêncio, 203


Na Terra, o único silêncio que é preciso procurar é o que pertence a Deus.

Porque só o silêncio de Deus é vitorioso.

O silêncio pesado na morte de Cristo foi de curta duração, e gerou vida.



CARDEAL ROBERT SARAH

Evangelho e comentário

Tempo de Natal

São João – Apóstolo e Evangelista

Evangelho: Jo 20, 2-8

1 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava. 2 Correndo, foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e disse-lhes: «O Senhor foi levado do túmulo e não sabemos onde o puseram.» 3 Pedro saiu com o outro discípulo e foram ao túmulo. 4 Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. 5 Inclinou-se para observar e reparou que os panos de linho estavam espalmados no chão, mas não entrou. 6 Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver os panos de linho espalmados no chão, 7 ao passo que o lenço que tivera em volta da cabeça não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição. 8 Então, entrou também o outro discípulo, o que tinha chegado primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer

Comentário:


E, pela pena do próprio, relata como e porquê, acreditou em Jesus Cristo.

A humildade de São João é comovente porque, no final do versículo 8, parece querer dizer-nos que então – e só então – começou verdadeiramente a crer.

A intimidade que tinha pelo Mestre, que lhe retribuiria com especial carinho e confiança – entregou-lhe a Sua Mãe para que dela cuidasse – não o impedem, bem ao contrário, de se declarar um homem com dúvidas, hesitações, momentos de fraqueza.

São João: o Apóstolo da humildade! O Apóstolo do amor!

(AMA, comentário sobre Jo 20, 2-8, 16.09.2017)








Leitura espiritual

MARIA, A MÃE DE JESUS 4


A VIRGEM-MÃE

Penetremos, por uns momentos, num lar cristão. A família reunida está rezando. Cadenciadamente, sucedem-se as Ave-Marias do terço, como as notas de um cântico. “Cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós...” E também, como o refrão de uma canção: “Santa Maria, Mãe de Deus...”
Enquanto esses corações tornam a invocar Maria com a exclamação maravilhada de Isabel – “a Mãe do meu Senhor!” –, quase com certeza nem imaginam que, por trás dessa doce expressão – Mãe de Deus –, estão latejando os ecos apaixonados da mais antiga manifestação de devoção a Maria de toda a história do cristianismo.
Todo o amor tem horas de paz e horas de sobressalto.
Nas horas tranquilas, flui como um rio copioso e manso.
Nos momentos em que esse amor é agredido de qualquer forma, o coração “salta”, quer para defendê-lo com ardor, quer para externá-lo com paixão.
Foi isto o que sucedeu com o amor por Maria no coração dos cristãos dos primeiros séculos.
Já nos alvores do cristianismo, a figura da Mãe de Jesus era uma amável presença no dia-a-dia dos fiéis. Belo testemunho dessa presença é a imagem mural da Virgem com o Menino, em clara referência à profecia de Isaías sobre a Virgem-Mãe [i], desenhada por um devoto “grafiteiro” nas catacumbas de Priscilla, em Roma.
Porém, muito cedo – já a partir dos fins do século I – houve quem tentasse desvirtuar com interpretações heréticas o ensinamento transparente do Evangelho sobre a maternidade de Maria.
É verdade que os primeiros ataques foram desferidos diretamente contra o Filho, e só em consequência agrediam a Mãe. Mas é um facto também que a reacção dos primeiros cristãos mostrou que, para eles, o amor a Maria estava indissoluvelmente unido ao amor a Jesus Cristo. Esses ataques começaram através dos “ebionitas”, uma seita semi-cristã de raízes judaicas, que se recusava a admitir que Cristo fosse Filho de Deus, gerado pelo Espírito Santo no seio de uma Virgem. Uma velha heresia, que os racionalismos e os ceticismos de todas as épocas não deixam de desempoeirar. Para os ebonitas, Jesus teria nascido como qualquer outro homem: fruto da união de um homem e de uma mulher; no caso, de Maria e de José. Portanto, para eles, Cristo não seria de modo algum a segunda pessoa da Santíssima Trindade, que se encarnou “por obra do Espírito Santo” [ii], isto é, não seria Deus verdadeiro, mas apenas um homem. Em consequência, Maria não seria a Virgem Mãe de Deus.
Quase ao mesmo tempo, a literatura cristã dos séculos II e III via-se invadida por uma multidão de escritos de seitas denominadas “gnósticas”. Procedentes de ambientes e influências sincretistas – judaísmo, filosofia neoplatónica, etc. –, esses grupos proclamavam praticamente o contrário dos anteriores: negavam a humanidade de Cristo. Nosso Senhor jamais teria sido homem verdadeiro, e por isso a afirmação de São João de que “o Verbo se fez carne” [iii] careceria de sentido real.
Tais doutrinas ensinavam que Jesus era um ser exclusivamente espiritual de origem divina – embora distinto de Deus –, o qual teria vindo à terra através de uma Mãe Virgem, Maria, mas com um corpo irreal, fictício, aparente, que eles denominavam “corpo psíquico” [iv].
É evidente que, ao negar-se a humanidade de Cristo, ficava automaticamente anulada a verdadeira maternidade de Maria. Nossa Senhora não teria formado um Filho em suas entranhas – sangue do seu sangue –, mas teria sido apenas o canal de passagem de um ser espiritual. Como dizia um dos representantes dessas seitas gnósticas, Ptolomeu, Jesus ter-se-ia limitado a “passar por Maria como a água passa por um conduto” [v].
A fé e o amor dos primeiros cristãos estavam atingidos em cheio. E reagiram com força. Em face desses dois erros, os pastores e o povo fiel responderam reafirmando e vincando vigorosamente duas verdades essenciais do mistério de Maria Santíssima: que Ela foi verdadeira Mãe de Cristo; e que não concebeu por obra de varão, mas por obra de Deus, mantendo intacta a sua virgindade.
Estamos perante as primeiras manifestações colectivas da fé e da piedade marianas. Manifestações que já em fins do século I e no século II ficam plasmadas, esculpidas, com admirável nitidez, nos textos das mais antigas “profissões de fé” – o Credo – das igrejas cristãs: “Creio em Jesus Cristo, Filho de Deus, que nasceu pelo Espírito Santo da Virgem Maria”: natus est de Spiritu Sanctu ex Maria Virgine [vi].
A fé da Igreja – de todos os fiéis – era assim fixada em formulações cristalinas. Em primeiro lugar, Cristo é verdadeiro Homem, porque nasceu realmente de Maria, ex Maria Virgine. Maria é sua Mãe. Já o afirmara São Paulo, escrevendo aos Gálatas: Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher [vii].
Em segundo lugar, Jesus Cristo é Filho de Deus: nasceu do Espírito Santo, e a sua Mãe não concebeu de varão, mas foi Virgem: de Maria Virgem.
Já no começo do seu Evangelho, São Mateus declara sobriamente: «Maria achou-se tendo concebido do Espírito Santo» [viii]. Mais explicitamente ainda o ensina São Lucas, o evangelista que obteve de Maria as confidências das coisas que Ela «guardava no seu coração» [ix]. Quando o Anjo anuncia a Maria que «conceberá em seu seio e dará à luz um Filho», a Virgem responde com um pedido de esclarecimentos:
«Como se fará isto, pois eu não conheço varão?» Maria não duvida do que o Anjo lhe anuncia da parte de Deus. Mas precisa de uma explicação sobre “como se fará isso”. Estas palavras não teriam sentido algum, se a Virgem tivesse o projecto de realizar com José, com quem “estava desposada”, a constituição de uma união matrimonial como qualquer outra. Se Maria as pronunciou, foi porque tinha oferecido a Deus a sua virgindade, e possuía a consciência de que Deus queria e aceitava esse oferecimento para sempre. Por isso, não lhe foi fácil compreender como era possível que o mesmo Deus que a queria Virgem, a quisesse também Mãe. A resposta do Anjo dissipou todas as dúvidas:
«O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso, o santo que há de nascer de ti será chamado Filho de Deus» [x].
Desde o século I, a fé cristã entendeu que era uma verdade divinamente revelada que Maria foi virgem antes do parto, no parto e depois do parto [xi].
Estas são as verdades do Evangelho. Esta é a fé que os nossos irmãos dos primeiros séculos abraçavam com toda a sua alma, tal como o haveriam de fazer todos os que fielmente os seguiriam no decorrer da história.
Houve ainda um novo capítulo nessas “reações da fé e do coração”. Esse terceiro capítulo desenvolveu-se cerca de dois séculos mais tarde. Desta vez tratou-se de um teólogo de Antioquia, Nestório, que fora elevado à sede patriarcal de Constantinopla. Um belo dia, começou a pregar alto e bom som contra a maternidade divina de Maria. Dizia Nestório que Maria não deveria ser chamada “Mãe de Deus”, mas apenas “Mãe de Cristo”. Por quê? Porque o teólogo em questão achava necessário “dividir” Cristo, distinguindo nele duas “personalidades” diferentes, que – segundo afirmava – só estariam justapostas uma à outra: a humana e a divina. Por outras palavras, Cristo seria uma pessoa humana, à qual se teria unido – associado – uma pessoa divina. Conclusão: somente a pessoa humana seria filho de Maria. Com isso, além de desvirtuar o mistério de Cristo, recusava-se a proclamar que Maria é, verdadeiramente, “a Mãe do meu Senhor”, a Mãe de Deus.
A reacção dos fiéis, hierarquia e povo cristão, não se fez esperar. Brotou com o ímpeto de um incêndio, reafirmando em uníssono a verdade revelada por Deus: Cristo é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade que, sem deixar de ser Deus, assumiu nas entranhas virginais de Maria a natureza humana. N’Ele há uma só Pessoa, a divina, e duas naturezas distintas – humana e divina – unidas num só ser pessoal. Maria é, portanto, verdadeira Mãe de Deus, porque é a Mãe de uma Pessoa que é Deus.
Nenhuma mãe é apenas mãe do corpo do filho – embora só tenha gerado o corpo –, mas é mãe do filho inteiro, de alguém, de uma pessoa – mãe de João, de António, de Clara... –. Da mesma maneira, Maria é a Mãe de Jesus, que é uma Pessoa, uma pessoa divina. Por isso, é verdadeira Mãe de Deus. Esta foi a verdade reafirmada e definida, em 22 de Junho de 431, pelo Concílio de Éfeso em que a heresia de Nestório foi condenada.
É comovente ler a carta de São Cirilo de Alexandria, que foi a alma desse Concílio, relatando o que aconteceu na cidade de Éfeso nesse dia de verão: ao anoitecer, uma autêntica multidão atirou-se às ruas, depois que os bispos reunidos acabaram de proclamar a verdade da fé e de condenar o herege. Inflamado de entusiasmo, o povo acompanhou os Padres conciliares até os seus domicílios, com tochas acesas e cânticos, aclamando em grandes vozes: Theotókos, Theotókos!, o que quer dizer: Mãe de Deus, Mãe de Deus! [xii]
O amor a Maria arrebatou os corações dos fiéis, esfuziantes de ternura. Os ecos daquela noite memorável em Éfeso não se extinguiram nem se extinguirão jamais. Hoje, como ontem, como sempre, brotará das fibras mais íntimas da alma dos cristãos a alegria de dizer, saboreando-a, essa verdade de fé: “Santa Maria, Mãe de Deus...”

(cont)

FRANCISCO FAUS. [xiii]




[i] Is 8, 8; Mt 1, 22-23
[ii] Mt 1, 18
[iii] Jo 1, 14
[iv] cfr. José A. de Aldama, María en la patrística de los siglos I y II, BAC, Madrid, 1960, págs. 33 ss.
[v] cfr. Aldama, op. cit., pág. 47
[vi] cfr. Justo Collantes, La fe de la Iglesia Católica, BAC, Madrid, 1984, págs. 280-286;
[vii] Gal 4, 4
[viii] Mt 1, 18
[ix] cfr. Lc 2, 51
[x] cfr. Lc 1, 31-38
[xi] cfr. Aldama, op. cit., págs. 81 ss.
[xii] São Cirilo de Alexandria, Epistolae, XXIV; in Migne, Patrologia Graeca, 77, 138
[xiii] MARIA, A MÃE DE JESUS QUADRANTE, São Paulo Copyright © 1987 Quadrante, Sociedade de Publicações Culturais

Tratado da vida de Cristo 188

Questão 59: Do poder judiciário de Cristo


Art. 6 — Se o poder judiciário de Cristo se estende aos anjos.

O sexto discute-se assim. — Parece que o poder judiciário de Cristo não se estende aos anjos.

1. — Pois, os anjos, tanto os bons como os maus, foram julgados desde o princípio do mundo, quando uns caíram pelo pecado e os outros foram confirmados na beatitude. Ora, os que já foram julgados não precisam sê-lo de novo. Logo, o poder judiciário de Cristo não se estende aos anjos.

2. Demais. — Não pertence à mesma pessoa julgar e ser julgada. Ora, os anjos virão com Cristo para julgar, segundo o Evangelho: Quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com ele. Logo, parece que os anjos não devem ser julgados por Cristo.

3. Demais. — Os anjos são superiores às outras criaturas. Se, pois, Cristo é juiz não só dos homens, mas, também dos anjos, pela mesma razão será juiz de todas as criaturas. O que é falso, porque essa é uma atribuição própria da providência de Deus, donde o dizer a Escritura: A qual outro estabeleceu sobre a terra ou a quem pôs sobre o mundo que fabricou? Logo não é Cristo o juiz dos anjos.

Mas, em contrário, o Apóstolo: Não sabeis que havemos de julgar aos anjos? Ora, os santos não julgarão senão pela autoridade de Cristo. Logo, com maior razão, tem Cristo o poder judiciário sobre os anjos. 

Os anjos estão sujeitos ao poder judiciário de Cristo, não só pela natureza divina deste, enquanto Verbo de Deus, mas também em razão da sua natureza humana. O que resulta de três razões. — Primeiro, da proximidade que tem com Deus a natureza assumida, pois, como diz o Apóstolo, em nenhum lugar ele tomou aos anjos, mas tomou a descendência de Abraão. Por isso a alma de Cristo, mais que nenhum dos anjos, está cheia da virtude do Verbo de Deus. Daí vem que ilumina os anjos, como diz Dionísio e, portanto, pode julgá-los, — Segundo, porque, pelas humilhações da Paixão, a natureza humana mereceu ser exaltado, em Cristo acima dos anjos; de modo que, como diz o Apóstolo, ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, na terra e nos infernos. Por isso Cristo exerce o poder judiciário também sobre todos os anjos, tanto bons como maus. Em prova do que diz a Escritura: Todos os anjos estavam em pé ao derredor do trono. — Terceiro, em razão do que obram em relação aos homens, dos quais Cristo é, de certo modo especial, a cabeça. Donde o dizer o Apóstolo: Todos os espíritos são uns administradores enviados para exercer o seu ministério a favor daqueles que hão de receber a herança da salvação. Estão sujeitos, pois, ao juízo de Cristo, primeiro quanto à ministração das obras que devem ser feitas por eles. Ministração essa que também lhes advém do homem Cristo, a quem os anjos serviam, e a quem os demónios pediam lhes permitissem entrar nos porcos, como refere o Evangelho. — Segundo, quanto aos demais prémios acidentais dos bons anjos, que são o alegrarem-se com a salvação dos homens, segundo o Evangelho: Haverá júbilo entre os anjos de Deus por um pecador que faz penitência. E também quanto às penas acidentais do demónio, que os afligem na terra ou encerrados no inferno. O que também depende do homem Cristo. Por isso o Evangelho conta que o demónio clamava: Que tens tu connosco, Jesus Nazareno? Vieste a perder-nos antes do tempo? — Terceiro, quanto ao prémio essencial dos bons anjos, que é a beatitude eterna; e quanto à pena essencial dos maus anjos, que é a condenação eterna. O que tudo advém de Cristo enquanto Verbo de Deus, desde o princípio do mundo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A objecção colhe, quanto ao juízo concernente ao prémio essencial e à pena principal.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Como diz Agostinho, embora o espiritual julgue de todas as coisas, contudo pela verdade é ele julgado. Donde, embora os anjos, por serem espirituais, julguem, são, contudo, julgados por Cristo, enquanto é a Verdade.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Cristo tem o poder de julgar não só os anjos, mas também as actividades de todas as criaturas. Se, pois, como ensina Agostinho, os inferiores são, numa certa ordem, governados por Deus mediante os superiores, é necessário admitirmos que todos os seres são governados pela alma de Cristo, superior a todas as criaturas. Daí o dizer o Apóstolo: Deus não submeteu aos anjos o mundo vindouro, isto é, aquele de quem falamos, isto é, a Cristo. Nem, contudo, por causa disso, estabeleceu Deus outro sobre a terra. Porque Deus tem unidade e identidade de ser com Nosso Senhor Jesus Cristo homem. De cujo mistério da Encarnação basta o que até aqui dissemos.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.



Perguntas e respostas

A EUTANÁSIA


4. Porque está mal a eutanásia?



A eutanásia está mal por estes mesmos motivos: pela dignidade humana, a lei natural e o mandato do Criador. Não se deve matar ninguém.

Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?







26/12/2017

Ano litúrgico, Cristo no tempo

Ao oferecer-te aquela História de Jesus, pus como dedicatória: Que procures a Cristo. Que encontres a Cristo. Que ames a Cristo. – São três etapas claríssimas. Tentaste, pelo menos, viver a primeira? (Caminho, 382)


A história humana é e será sempre uma “história de salvação”, e é isto o que a Igreja celebra no ano litúrgico. As festas e tempos não são “aniversários”, uma mera repetição de alguns momentos históricos da vida do Senhor; são a celebração da sua presença, a actualização da salvação que o Padre, por Jesus Cristo, nos comunica no Espírito Santo.

A Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II apresenta o ano litúrgico com estas palavras: «A santa mãe Igreja considera seu dever celebrar, em determinados dias do ano, a memória sagrada da obra de salvação do seu divino Esposo» (Sacrosanctum Concilium, 102). Cada ano litúrgico é, pois, uma nova oportunidade de graça e de presença do Senhor da história na nossa própria história quotidiana, nos acontecimentos -também nos mais insignificantes- de cada dia.

Aquele que é o mesmo, que era e que será, vem a nós no tempo, aqui e agora, para viver o presente, o de cada um, com os seus irmãos os homens.

O ano litúrgico está impregnado pela presença de salvação do Senhor para que em cada tempo litúrgico -com as suas características concretas- os cristãos possamos ser mais semelhantes a Ele, não só no sentido moral de imitação, de mudança de costumes e de melhoramento na conduta, mas de verdadeira identificação sacramental -imediata- com a vida de Cristo. Assim, a nossa vida diária converte-se num culto agradável ao Pai por acção do Espírito (cfr. Rom. 12, 1-2).

Já a partir dos primeiros séculos, à celebração dos mistérios de Cristo, a Igreja uniu a celebração da Virgem e do dia da passagem para casa do Pai dos mártires e dos santos. Com a sua vida, souberam dar testemunho da vida de Cristo, especialmente da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão gloriosa ao Céu. Por isso ao longo do ano litúrgico são apresentados aos fiéis cristãos como exemplo de amor a Deus.


Frequentemente, o Senhor fala-nos do prémio que nos ganhou com a sua Morte e Ressurreição. Vou preparar um lugar para vós. Depois que Eu tiver ido e vos tiver preparado um lugar, virei novamente e tomar-vos-ei comigo para que, onde eu estou, estejais vós também (Cfr. Jo. XIV, 2-3). O Céu é a meta do nosso caminho terreno. Jesus Cristo precedeu-nos e ali, na companhia da Virgem e de S. José -a quem tanto venero- dos Anjos e dos Santos, aguarda a nossa chegada. (Amigos de Deus, 220)

Temas para meditar

A força do Silêncio, 167


O silêncio de Deus é inapreensível e inacessível.

Mas o homem que reza sabe que Deus o ouve da mesma maneira que compreendeu as últimas palavras de Jesus na Cruz.

A humanidade fala e Deus reponde pelo silêncio.


CARDEAL ROBERT SARAH

Evangelho e comentário

Tempo de Natal


Evangelho: Mt 10, 17-22

17 Tende cuidado com os homens: hão-de entregar-vos aos tribunais e açoitar-vos nas suas sinagogas; 18 sereis levados perante governadores e reis, por minha causa, para dar testemunho diante deles e dos pagãos. 19 Mas, quando vos entregarem, não vos preocupeis nem como haveis de falar nem com o que haveis de dizer; nessa altura, vos será inspirado o que tiverdes de dizer. 20 Não sereis vós a falar, mas o Espírito do vosso Pai é que falará por vós. 21 O irmão entregará o seu irmão à morte, e o pai, o seu filho; os filhos hão-de erguer-se contra os pais e hão-de causar-lhes a morte. 22 E vós sereis odiados por todos, por causa do meu nome. Mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.

Comentário:


No início da Oitava do Natal – tempo de festa, portanto – é-nos chamada a atenção para o que implica seguir esse Menino acabado de nascer.

Mais nos admiramos com esta decisão do nosso Deus e Senhor de Se encarnar num corpo humano para nos salvar a todos e ganhar-nos a vida eterna.

Desde a manjedoura de Belém, este Menino Deus sorri para o mundo que veio salvar e, nós, cristãos, prostramo-nos admirados e agradecidos e no mais íntimo dos nossos corações comprometemo-nos segui-lo sempre, custe o que custar.

(AMA, comentário sobre Mt 10, 17-22, 16.09.2017)






Leitura espiritual

MARIA, A MÃE DE JESUS 3


A VOCAÇÃO PARA A MATERNIDADE DIVINA A CHEIA DE GRAÇA

O louvor que o Espírito Santo inspirou a Isabel – «Bendita és tu entre as mulheres...» – vem ecoando ao longo dos séculos nos lábios dos cristãos, todas as vezes que recitam a Ave-Maria.

Antes, porém, desse louvor, esses mesmos lábios dirigem a Maria outras palavras, que também são de Deus: «Cheia de graça!»

Qual foi a grande “bênção” de Maria Santíssima, aquela que a faz «bendita entre todas as mulheres»?

Por que é Ela chamada «cheia de graça»?

No centro do mistério da vida de Maria, encontra-se a sua divina maternidade.
Deus escolheu-a para ser a Mãe do seu Filho, do Redentor dos homens. Esse é o grande dom com que Deus abençoou a Virgem: a sua vocação de Mãe de Jesus Cristo.

O Evangelho relata que um dia – alegre e esperançado como uma nova alvorada do mundo – Deus quis revelar a Maria essa sua escolha.
A narração de São Lucas tem um encanto delicado: o Anjo Gabriel, enviado por Deus à humilde casa de Nazaré, entrando onde ela estava, disse-lhe:

«Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo. A Virgem sentiu-se perturbada ao ouvir essas palavras, e o mensageiro do céu tranquilizou-A: Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Este será grande, será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai David; reinará sobre a casa de Jacob eternamente, e o seu Reino não terá fim» [i].

Através das palavras do Anjo, descortina-se aos olhos de Maria o plano de Deus a seu respeito.
Deus, por assim dizer, manifesta-lhe aquilo que eternamente “sonhara” para Ela.
Neste “sonho” da Santíssima Trindade, estava previsto o aparecimento de uma mulher, «cheia de graça», que haveria de surgir no mundo como a aurora da Salvação, a luz de um novo amanhecer que anunciaria e traria aos homens o Sol verdadeiro, o Salvador, que – como diz São João – «ilumina todo o homem que vem a este mundo» [ii].

Já nos primórdios da humanidade, quando o pecado dos nossos primeiros pais cavava um abismo entre o homem e Deus, o Senhor contrapunha ao mal do pecado o seu desígnio de Salvação: um “projecto” amoroso de Deus, fruto da sua infinita misericórdia, para resgatar e reerguer o homem, e atraí-lo de novo a si.
Pois bem, nesse projecto “acalentado” pelo amor eterno de Deus, já desde o começo estava presente Maria.
Assim fala Deus à serpente, a Satanás, após a queda original:
«Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela; esta te esmagará a cabeça» [iii].
Com estas palavras, Deus opõe ao Inimigo a imagem futura de uma “mulher” irreconciliavelmente enfrentada com o demónio e o pecado. Nela, Satanás jamais terá parte alguma.

Voltemos à Anunciação.
Neste momento, Deus dirige-se a Maria – por intermédio do Anjo – denominando-a, já no começo, «cheia de graça».

Tem-se feito notar que, no texto original do Evangelho, o Anjo, para dizer «cheia de graça», emprega uma só palavra (kekharitoméne), e que essa palavra tem o valor de um “nome novo” atribuído por Deus à Virgem [iv].
Seria como que o nome “verdadeiro” com que o Senhor a designa e define.
Para traduzi-lo adequadamente na nossa língua, teríamos que recorrer a perífrases:
“a que foi cumulada de graça e mantém essa plenitude”,
“a que foi feita gratíssima a Deus”,
“a muito amada por Deus”.

Deus Nosso Senhor, cumulando Maria de graça, preparou-a desde o primeiro instante da sua existência para ser a digna Mãe do seu Filho, a nova “Arca da Aliança”, toda pura e santa, capaz de acolher em seu seio a santidade infinita de Deus.
Maria foi escolhida e predestinada por um acto do amor eterno de Deus. E o amor de Deus é sempre criador; comunica às criaturas a sua bondade, fá-las participar da vida divina, da graça.
O amor de Deus por Maria foi único, e a Ela comunicou os seus dons também de modo único: em plenitude. Por isso Ela é a “cheia de graça”.

Bem podemos dizer que, em toda a história da humanidade – sem mencionarmos a alma de Jesus –, a alma de Maria foi a única em que o Amor de Deus agiu plenissimamente e sem o menor entrave. Com toda a razão foi dito, por isso, que Maria é a “obra prima de Deus” [v].
 «Cheia de graça»: este é o seu “verdadeiro nome” [vi].

Lê-se numa homilia do Papa Paulo VI:
“O aparecimento de Nossa Senhora no mundo (...) foi como o abrir-se sobre a terra, toda coberta da lama do pecado, da mais bela flor que jamais desabrochou no vasto jardim da humanidade: era o nascimento da criatura humana mais pura, mais perfeita, mais digna da definição que o próprio Deus tinha dado ao homem quando o criou: imagem de Deus, semelhança de Deus. Maria nos restitui a imagem da humanidade perfeita” [vii].
Em Maria, tudo é graça. Jamais pairou sobre Ela a sombra, sequer, do pecado.
Foi toda de Deus desde o primeiro instante da sua existência, de modo que a sua alma pura não conheceu nem a mancha do pecado original nem mancha alguma de pecado pessoal.

O dogma da Imaculada Conceição de Maria Santíssima outra coisa não fez senão explicitar uma das consequências dessa “plenitude de graça” que não tem no Evangelho restrição alguma de tempo nem de momento:

“Por uma graça e um privilégio especial de Deus todo-poderoso – reza a definição dogmática de Pio IX, em 8 de dezembro de 1854 – e em atenção aos méritos de Jesus Cristo, Salvador do género humano, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada de toda a mancha de pecado original desde o primeiro instante da sua concepção” [viii].

Maria Santíssima sabe que Deus fez n’Ela “coisas grandes”, e essas grandezas são motivo para que Ela glorifique a Deus, reconhecendo, com uma humildade cheia de alegria, que Ele pôs os olhos na baixeza da sua serva [ix].
Tudo é puro dom de Deus, e Maria o agradece comovida.

Ora, se tudo é dom de Deus, qual foi a parte de Maria?
Ter-se-ia Ela limitado a uma função de receptora passiva de tão grandes graças?
A cena evangélica da Anunciação dá-nos a resposta a essas perguntas:
Maria correspondeu à chamada e às graças que a acompanhavam com uma aceitação amorosa e uma entrega total.
A semente da graça encontrou na sua alma o solo acolhedor e fértil onde frutificar. Não esqueçamos que Deus sempre quer contar com a liberdade das criaturas.
O anúncio do Anjo a Maria, ao mesmo tempo que desvendava os planos de Deus sobre Ela, tinha o delicado acento de um convite.
Maria correspondeu livremente com total fidelidade: «Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» [x].
Essas palavras – “faça-se”, “sim” – mostram-nos maravilhosamente a alma de Maria. Voltada inteiramente para Deus, Ela é um “sim” perfeito ao Senhor, pronunciado com o coração, com os lábios e com as acções, sem a menor restrição nem limite. Há uma abertura completa da alma a Deus, que permite que o Espírito Santo, o Artista divino, modelador das almas, faça daquela criatura a sua obra perfeita.
Quantas coisas não fez Deus depender do “sim” de Maria! Desse “sim” dependeu o próprio “sonho” divino a respeito de Nossa Senhora. Pela sua fidelidade, Ela foi sempre, exactamente, como Deus a queria; e na sua alma inteiramente disponível à acção da graça divina, arraigaram e cresceram as virtudes que são o fruto maduro da santidade: a fé, a esperança, o amor, a humildade, a fortaleza, a mansidão...
Ao mesmo tempo, do seu “sim” dependeu o “projecto” divino da Redenção. Tão logo Maria disse “faça-se” – com amorosa liberdade –, «o Verbo se fez carne e habitou entre nós» [xi].
A partir desse instante, – para evocar as palavras do velho Simeão –, graças a Maria, os nossos olhos viram a salvação [xii].
Por último, quando Maria disse “sim” na Anunciação, não só começou a ser a Mãe de Deus, como começou a ser a Mãe daqueles a quem Cristo iria infundir a vida sobrenatural, tornando-os seus “irmãos” e membros do seu Corpo [xiii].
Este último aspecto convida-nos a aprofundar um pouco mais no mistério da maternidade de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.

(cont)

FRANCISCO FAUS. [xiv]




[i] Lc 1, 26-33
[ii] Jo 1, 9
[iii] Gén 3, 15
[iv] João Paulo II, Enc. Redemptoris Mater, n. 8.
[v] cfr. Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, 2ª. ed., Quadrante, São Paulo, 1979, págs. 229 ss.;.
[vi] Enc. Redemptoris Mater, n. 8
[vii] Paulo VI, Homilia, 08.09.1964
[viii] Pio XI, Bula Ineffabilis Deus; in Denzinger, Enchiridion Symbolorum, V. Herder, Friburgo-Barcelona, 1955, n. 1641
[ix] Lc 1, 48-49
[x] Lc 1, 38
[xi] Jo 1, 14
[xii] cfr. Lc 2, 30
[xiii] cfr. Rom 8, 29 e I Cor 12, 27
[xiv] MARIA, A MÃE DE JESUS QUADRANTE, São Paulo Copyright © 1987 Quadrante, Sociedade de Publicações Culturais