18/12/2017

Deus costuma procurar instrumentos fracos

– Estamos gostosamente, Senhor, na tua mão chagada. Aperta-nos com força!, espreme-nos!, de modo que percamos toda a miséria terrena!, que nos purifiquemos, que nos inflamemos, que nos sintamos empapados no teu Sangue! E depois, lança-nos longe!, longe, com fome de messe, para uma sementeira cada dia mais fecunda, por Amor de Ti. (Forja, 5)


Sem grande dificuldade, poderíamos encontrar na nossa família, entre os nossos amigos e companheiros – para não me referir já ao imenso panorama do mundo – tantas pessoas mais dignas do que nós de receber o chamamento de Cristo. Mais simples, mais sábias, mais influentes, mais importantes, mais gratas, mais generosas...

Eu, ao pensar nisto, fico envergonhado. Mas compreendo também que a nossa lógica humana não serve para explicar as realidades da graça. Deus costuma procurar instrumentos fracos para que se manifeste com evidente clareza que a obra é sua. O próprio S. Paulo evoca com estremecimento a sua vocação; e por último, depois de todos, foi também visto por mim, como por um aborto. Porque eu sou o mínimo dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Assim escreve Paulo de Tarso, homem de uma personalidade e de um vigor que a história não fez mais do que engrandecer.

Fomos chamados sem mérito algum da nossa parte, dizia-vos. Realmente, na base da nossa vocação está o conhecimento da nossa miséria, a consciência de que as luzes que iluminam a alma – a fé – o amor com que amamos – a caridade – e o desejo que nos mantém – a esperança – são dons gratuitos de Deus. Por isso, não crescer em humildade significa perder de vista o objectivo da escolha divina: ut essemus sancti, a santidade pessoal.


Agora, tomando como ponto de partida essa humildade, podemos compreender toda a maravilha da chamada divina. A mão de Cristo colheu-nos num trigal: o semeador aperta na sua mão chagada o punhado de trigo; o sangue de Cristo banha a semente, empapa-a. Depois, o Senhor lança ao ar esse trigo, para que, morrendo, seja vida e, afundando-se na terra, seja capaz de multiplicar-se em espigas de oiro. (Cristo que passa, 3)

Temas para meditar

A força do Silêncio, 118


No silêncio, a alegria de Deus torna-se a nossa alegria.


Estar em silêncio diante de Deus é quase como ser semelhante a Deus.



CARDEAL ROBERT SARAH

Evangelho e comentário

Tempo do Advento


Evangelho: Mt 1, 18-25

18 Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido pelo poder do Espírito Santo. 19 José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente. 20 Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.» 22 Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: 23 Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão-de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco. 24 Despertando do sono, José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor, e recebeu sua esposa. 25 E, sem que antes a tivesse conhecido, ela deu à luz um filho, ao qual ele pôs o nome de Jesus.

Comentário:


Entre muitas outras o Senhor usa-os para transmitir aos homens assuntos de suma importância como neste caso, com São José.

Sem pretender especular pode perceber-se que não conhecendo Deus, isto é, como é Deus, seria difícil a qualquer um aceitar uma mensagem dada directamente, mas, um Anjo tem uma identidade que o ser humano reconhece quase imediatamente.

Depois, pelo teor da mensagem, melhor se convence que quem lhe fala ou inspira o faz por expressa ordem recebida directamente de Deus.

(AMA, comentário sobre Mt 1, 18-25, 12.09.2017)








Leitura espiritual

A PAZ NA FAMÍLIA

A HORA E A VEZ DOS MARIDOS

…/2

Mais suave, mas não menos perturbador, é o caso do marido que não pode prescindir de bater bola, mas pode prescindir de dedicar-se à mulher e aos filhos. Acabado o jogo, diz ter necessidade de hidratar-se com uma cervejinha (ponham-se de cinco a sete garrafas), o que o leva também à sesta reparadora e a uns resultados muito parecidos com o do caso anterior.
O egoísmo, às vezes, chega a ser tamanho, que a mulher percebe que o marido não a considera senão como um objecto utilitário e um meio de prazer. Ela garante mesa, roupa limpa, crianças cuidadas, cama e satisfação do apetite sexual.
O sultão deixa-se cuidar, exigente e mal-humorado. Só fica carinhoso e amável quando quer sexo, e então a mulher – com toda a razão – se arrasa toda por dentro, porque se sabe e se sente simplesmente usada, não amada.
Não será sanha excessiva mencionar ainda mais um tipo de egoísmo masculino bem comum?
Para suavizar, falaremos dele literariamente. Tolstoi descreve-o muito bem na famosa novela A morte de Ivan Ilitch.
O magistrado que protagoniza a história percebe, após o nascimento do primeiro filho, que a esposa se está tornando azeda, exigente e rabugenta. Não lhe ocorre perguntar-se como compreendê-la e ajudá-la, mas como livrar-se o mais possível das irritações dela (naquela época, o divórcio ainda não era moeda corrente).
“À medida que aumentavam a irascibilidade e as exigências da mulher – escreve Tolstoi –, Ivan Ilitch ia transportando o centro de gravidade da sua vida para o trabalho [...].
Exigia da vida familiar tão só as comodidades que esta podia dar-lhe [...]. Se tropeçava com alguma resistência ou mau-humor, imediatamente seguia para o seu mundo particular, o do serviço, em que se achava à vontade [...].
Todo o interesse da sua vida se concentrava no mundo do serviço. E esse interesse o absorvia por inteiro” [i].
Não parece necessário acrescentar mais nada: essa fuga do lar, refugiando-se no trabalho, é tão atual neste século como no passado.
E, com isto, encerramos a primeira parte desta obra. Como é lógico, uma descida aos porões nunca é muito agradável, sobretudo se os porões são sombrios, como os que acabamos de visitar. Mas, como essa visita foi apenas um passo prévio para subir aos cimos, vamos guardar, de tudo o que vimos até aqui, um pensamento muito claro.
Tanto o orgulho como o egoísmo comodista coincidem num ponto essencial: no culto ao “eu”, na colocação do “eu” como centro da vida familiar. E, quando isso acontece, a paz familiar torna-se impossível. Esta constatação servir-nos-á de pista de decolagem para a segunda parte, em que procuraremos ganhar altura e adquirir uma perspectiva cristã sobre a vida familiar.

A FAMÍLIA EM PERSPECTIVA

EGOÍSMO E REALIZAÇÃO

Como acabamos de ver, o egoísmo é o rumo errado da família. Sob a tirania do “eu”, a paz familiar torna-se impossível.
À primeira vista, essa afirmação parece óbvia, sobretudo depois de termos contemplado os efeitos devastadores do egoísmo no lar. No entanto, para muitas pessoas, não parece tão óbvia assim.
Por que o egoísmo haveria de ser o rumo errado do casamento e da família? É um facto incontestável que um número elevadíssimo de pessoas julga hoje, na prática, que o egoísmo não só não é errado, como é e deve ser o rumo natural da vida familiar e da vida em geral. Só que, em vez de falarem em egoísmo, falam em realização. Detestam a palavra egoísmo e adoram a palavra realização.
Há, porém, um pequeno detalhe: dentro da sua filosofia de vida, egoísmo e realização significam exactamente a mesma coisa.
Para a maioria das pessoas, com efeito, o casamento, a família – algum tipo de família –, faz parte importante do seu programa de realização pessoal. É natural que os jovens pensem no futuro e planejem o que julgam que os poderá “realizar”, trazendo-lhes bem-estar, crescimento, auto-estima e felicidade. Propõem-se, para isso, umas metas profissionais, e também a meta de um amor humano, da constituição de uma família que encarne os seus sonhos e aspirações.
Até aqui, não há nada a objectar. Acontece, contudo, que esses rapazes e moças – sem nem darem por isso – situam a família dentro de um programa de realização pessoal que está viciado na sua própria raiz pela mentalidade materialista, característica do mundo actual.
Cada vez mais, o mundo desliza para uma civilização utilitarista e hedonista, que entende a realização do indivíduo como o máximo acúmulo de benefícios úteis e de prazeres, com a mínima despesa possível de renúncias e sacrifícios; um mundo em que o relacionamento com as outras pessoas visa, principalmente, o “proveito” e o “prazer” pessoal; em suma, um mundo em que o relacionamento interpessoal tem a forma, o peso e a medida do interesse individual.
O “utilitarismo hedonista”, conhecido vulgarmente com o nome de “direito-de-ser-feliz”, acaba, então, por justificar tudo: larga-se abruptamente o marido ou a mulher, quando manter-se fiel “custa”; parte-se facilmente para uma nova união, à caça da felicidade (de “sentir-se bem”, de encontrar-se “a si mesmo”), ainda que, com isso, se deixem os filhos privados de um verdadeiro lar e machucados com traumas irreversíveis; ou, então, foge-se do sacrifício de ter que criá-los, como faz o chupim, pelo simples sistema de não tê-los ou de matá-los no ventre materno quando, ainda dentro dele, começam a incomodar.
No meio desse radical egoísmo, subsiste, contudo, em muitos casos o desejo de ter uma família..., mas só na medida em que for útil para a realização pessoal; subsiste o desejo de ter filhos, mas somente se isso dá gosto aos pais; e o de não tê-los – este é bem mais frequente –, se há o receio de que perturbem as ascensões profissionais (especialmente a “realização independente” da mulher), ou o lazer, ou as viagens internacionais, ou a posse e consumo de mais bens materiais.
Com que pena ouvia eu, recentemente, o que me contava um rapaz recém-casado, entusiasmado com a ideia de ter logo um filho. Uma jovem vizinha de apartamento, recém-casada também, ao saber do seu entusiasmo, fez um trejeito de nojo e comentou:
“Filhos? Nunca! Só «enchem»!”

TRÊS DESVIOS E UM BRADO DE ALERTA

Se pensarmos bem, perceberemos que esses egoístas procuram a paz e a felicidade por três vias tortas – desvios e não caminhos –, que não podem proporcionar a paz simplesmente porque são uma radical inversão dos valores, porque são uma “desordem”, no sentido mais profundo dessa palavra.
Lembremo-nos de que a paz, como dizia Santo Agostinho, é a tranquilidade na ordem.
A paz, com efeito, vem da harmonia, da ordem equilibrada e certa, quer no interior do ser humano, quer nas suas relações com Deus e com o próximo: da ordem dos valores, dos amores, dos deveres, da ordem entre o que é apenas um meio e o que é um fim, entre o que tem valor absoluto e o que tem valor relativo, entre o que é eterno e o que é transitório.
Pois bem, a verdadeira ordem “humana” postula três coisas: colocar o amor acima do prazer, o dever moral acima do gosto pessoal, e Deus e o próximo acima dos interesses mesquinhos do “eu”. A sociedade utilitarista e hedonista, no entanto, preconiza o contrário:
apregoa que deve colocar-se o prazer acima do amor, o gosto acima do dever moral, e o “eu” acima de Deus e dos outros. Nesse quadro de valores invertidos, a paz da alma, que precisa do ar saudável da ordem para subsistir, não acha como respirar e se extingue.
São muito ilustrativas as biografias de grandes desfrutadores (gente famosa na tela dos cinemas e das televisões, e nos cadernos especiais dos jornais e revistas), que – após terem feito a experiência de seis, sete ou mais casamentos, todos esfrangalhados – acabam procurando em vão nas drogas ou no álcool a paz que destruíram com o seu egoísmo.
É natural que, em face dessa civilização do interesse e da fruição, o Papa João Paulo II erga a sua voz – como um brado de alerta e de esperança – em defesa da “civilização do amor”. O diagnóstico que faz na sua Carta às famílias é de uma lucidez transparente: “O utilitarismo é uma civilização da produção e do desfrute, uma civilização das «coisas» e não das «pessoas»; uma civilização em que as pessoas se usam como se usam as coisas.
No contexto da civilização do desfrute, a mulher pode tornar-se para o homem um objecto, os filhos um obstáculo para os pais, a família uma instituição embaraçosa para a liberdade dos membros que a compõem [...].
Na base do utilitarismo ético, está, como se sabe, a procura desenfreada do «máximo» de felicidade: mas de uma felicidade utilitarista, vista apenas como prazer, como imediata satisfação e vantagem exclusiva do próprio indivíduo, fora das exigências objetivas do verdadeiro bem ou mesmo contra elas”  [ii].

(cont)

FRANCISCO FAUS [iii]




[i] Leão Tolstoi, Obra completa, vol. III, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1993, págs. 917-918;
[ii] Carta às famílias, n. 13;
[iii] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, os títulos:
O valor das dificuldades; O homem bom; Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens; A língua; A paciência; A voz da consciência.

Diálogos apostólicos - II Parte

O JUÍZO PARTICULAR E FINAL – 7 


Pergunto:

No juízo final saber-se-á tudo? 

Respondo:

No juízo final sairão à luz pública as obras boas e más de cada pessoa com as suas consequências. Incluídas as omissões ou obras boas que se deixaram de fazer.
Os bons receberão a honra pública pelas suas boas acções, ainda que na terra tenha passado ocultas. Os seus pecados já confessados e purificados não terão importância salvo para aplaudir a sua contrição e a misericórdia divinas. Por exemplo, são Pedro será muito celebrado por ser a pedra sobre a qual se edificou a Igreja; as suas negações não têm nem terão nenhuma relevância: o seu arrependimento é o que conta.

Os condenados sofrerão a confusão e desonra pública que a sua obstinação merece.

Bento XVI – Pensamentos espirituais 167

Jesus e a Igreja

Koinonía

A comunhão é um dom que também tem consequências muito reais: faz-nos sair da solidão e de nós mesmos e torna-nos participantes no amor que nos une a Deus e uns aos outros. Se pensarmos nas divisões e nos conflitos que afligem as relações entre as pessoas, os grupos e os povos, facilmente compreenderemos a grandeza deste dom [...].

A «comunhão» é realmente a Boa Nova, o remédio que o Senhor nos dá contra a solidão que hoje a todos ameaça, o dom precioso que nos faz sentir acolhidos e amados em Deus, na unidade do seu povo reunido em nome da Trindade.

Catequese da audiência geral, (29.Mar.06)

 (in “Bento XVI, Pensamentos Espirituais”, Lucerna 2006)

Pequena agenda do cristão

SeGUNDa-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





17/12/2017

Oxalá te não falte a simplicidade

Repara: os apóstolos, com todas as suas misérias patentes e inegáveis, eram sinceros, simples... transparentes. Tu também tens misérias patentes e inegáveis. – Oxalá te não falte a simplicidade. (Caminho, 932)


Aqueles primeiros doze apóstolos – a quem tenho grande devoção e carinho – eram, segundo os critérios humanos, bem pouca coisa. Quanto à posição social, com excepção de Mateus – que com certeza ganhava bem a vida e deixou tudo quando Jesus lhe pediu – eram pescadores; viviam do dia-a-dia, trabalhando até de noite para poderem alcançar o seu sustento.

Mas a posição social é o de menos. Não eram cultos, nem sequer muito inteligentes, pelo menos no que diz respeito às realidades sobrenaturais. Até os exemplos e as comparações mais simples lhes eram incompreensíveis e pediam ao Mestre: Domine, edissere nobis parabolam, Senhor, explica-nos a parábola. Quando Jesus, com uma imagem, alude ao fermento dos fariseus, supõem que os está a recriminar por não terem comprado pão.

Pobres, ignorantes. E nem sequer eram simples, humildes. Dentro das suas limitações, eram ambiciosos. Muitas vezes discutem sobre quem seria o maior, quando – segundo a sua mentalidade – Cristo instaurasse na terra o reino definitivo de Israel. Discutem e excitam-se até naquela hora sublime em que Jesus está prestes a imolar-se pela humanidade, na intimidade do Cenáculo.

Fé? Pouca. O próprio Jesus Cristo o diz. Viram ressuscitar mortos, curar todo o tipo de doenças, multiplicar o pão e os peixes, acalmar tempestades, expulsar demónios. Pois S. Pedro, escolhido como cabeça, é o único que sabe responder com prontidão: Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo. Mas é uma fé que ele interpreta à sua maneira; por isso atreve-se a enfrentar Jesus Cristo, a fim de que Ele não se entregue pela redenção dos homens. E Jesus tem de responder-lhe: Retira-te de mim, Satanás; tu serves-me de escândalo, porque não tens a sabedoria das coisas de Deus mas das coisas dos homens. Pedro raciocinava humanamente, comenta S. João Crisóstomo, e concluía que tudo aquilo (a Paixão e a Morte) era indigno de Cristo, reprovável. Por isso Jesus repreende-o e diz-lhe: não, sofrer não é coisa indigna de Mim; tu pensas assim porque raciocinas com ideias carnais, humanas.


Em que sobressaem então aqueles homens de pouca fé? Talvez no amor a Cristo? Sem dúvida que O amavam, pelo menos de palavra. (…) São homens correntes, com defeitos, com debilidades, com palavras maiores do que as suas obras. E, contudo, Jesus chama-os para fazer deles pescadores de homens, corredentores, administradores da graça de Deus. (Cristo que passa, 2)

Temas para meditar

A força do Silêncio, 117




Há almas que reivindicam a solidão parasse encontrarem a si mesmas, e outras que a procuram para se darem a Deus e aos outros.



CARDEAL ROBERT SARAH

Evangelho e comentário

Tempo do Advento


Evangelho: Jo 1, 6-8. 19-28

6 Apareceu um homem, enviado por Deus, que se chamava João. 7 Este vinha como testemunha, para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele. 8 Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz.
19 Este foi o testemunho de João, quando as autoridades judaicas lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para lhe perguntarem: «Tu quem és?» 20 Então ele confessou a verdade e não a negou, afirmando: «Eu não sou o Messias.» 21 E perguntaram-lhe: «Quem és, então? És tu Elias?» Ele disse: «Não sou.» «És tu o profeta?» Respondeu: «Não.» 22 Disseram-lhe, por fim: «Quem és tu, para podermos dar uma resposta aos que nos enviaram? Que dizes de ti mesmo?» 23 Ele declarou: ‘«Eu sou a voz de quem grita no deserto: Rectificai o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías.» 24 Ora, havia enviados dos fariseus que lhe perguntaram: 25 «Então porque baptizas, se tu não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?» 26 João respondeu-lhes: «Eu baptizo com água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis. 27 É aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias.» 28 Isto passou-se em Betânia, na margem além do Jordão, onde João estava a baptizar.

Comentário:

Infere-se deste trecho de São João que a acção de João Baptista tinha atingido tal notoriedade e importância que os chefes do povo sentiram a necessidade de se inteirarem sobre ele.

Muito provavelmente, também, sentiam que, de alguma forma, um número crescente de judeus se lhes “escapava das mãos” para seguir o Profeta.

Como mais tarde se verá em relação ao próprio Messias, não acreditam nos sinais que muito bem conhecem pelas Escrituras e, em lugar de aprofundarem a verdade dos factos tão evidentes preferem manobrar dilatoriamente, levan­tando dúvidas e questões que não têm outro objectivo que desacreditar o Per­cursor.

(AMA, comentário sobre 1, 6-8, 19-28, 29.11.2005)







Leitura espiritual

A PAZ NA FAMÍLIA

AS CORDAS DO CORAÇÃO

CASOS DA VIDA REAL

Contemplemos, para começar, uma mãe enervada mal começa a manhã.
Uma hora depois, vemo-la ainda mais enervada. No fim do dia, já a contemplamos com os nervos em frangalhos. Que houve com ela?
Podem ter-se acumulado várias contrariedades inesperadas, que a deixaram reduzida a um feixe de nervos. Mas pode muito bem dar-se o caso de não ter havido nenhuma surpresa desagradável.
Simplesmente, houve, pela centésima vez, a constatação amarga de que – apesar das súplicas e reclamações dela – os filhos continuam a praticar um descarado desleixo nas coisas de uso pessoal e nas coisas do lar, desmazelo que se traduz em desconforto para todos e em trabalho multiplicado para a mãe. E, como se isso fosse pouco, ainda por cima sentem-se agredidos pelas recriminações, mais do que justas, da mãe: “Ela anda tão nervosa! Está insuportável!”
Esses meninos e meninas, não só não têm razão, como deveriam compreender que o problema são eles, que – com a sua desordem – infernizam a vida do lar. Precisariam é de ter ordem e acabar com essa história egoísta de largar nas mãos da mãe a arrumação de tudo quanto eles, por mole comodismo, vão desarrumando por onde quer que passem.
Volta e meia, um orientador espiritual que cuide da formação cristã de estudantes, escuta o seguinte comentário de alguma mocinha, num linguajar hoje já consagrado: “Ai, padre, o meu quarto, o meu guarda-roupa, o meu armário estão uma zona!”
Se lhe pergunta: “Você arruma todos os dias a sua cama?”, responderá, com o ar mais natural do mundo: “Não, nunca arrumo”. “Então, quem é que o faz?” “Ah! Minha mãe, ou a empregada, lógico”.
Nem sempre é inútil lembrar a essas meninas (podem ter entre 12 e 25 anos) que o que elas fazem, de lógico não tem nada, e, pelo contrário, tem tudo de moleza egoísta.
Passemos ao quarto do menino (colegial ou universitário). Para avançar meio metro, é preciso abrir uma picada entre objectos diversíssimos espalhados pelo chão: desde revistas de futebol e outras bem menos esportivas, passando por ténis sujos, até camisetas suadas, um bermudão largado com ar de defunto, três livros desencadernados e várias folhas de bloco rasgadas, pedaços de aparelhos eletrónicos, dois chicletes mascados, um regulador de tensão com um fio solto e descascado, o travesseiro amolgado num canto e mais outros espécimes da mais selvagem desordem.
Isso é tudo? Não. Está o som. Um enorme aparelho, ligado à máxima potência, ensurdece os moradores dos dez apartamentos mais próximos e enlouquece os do próprio lar.
Mas, se o pai ou a mãe reclamam de tamanha desordem e tão desaforado estrondo, o moço roqueiro, agitando o brinco e o rabo de cavalo, reclamará da falta “absoluta” de compreensão dos velhos, que já não dá mais para aturar.
Depois, o menino e a menina não hesitarão em passar horas e horas grudados à televisão, na posição definitória do tipo de carácter que possuem: deitados no chão como seres invertebrados, esparramados num sofá, com a moleza gelatinosa de quem desconhece totalmente o que é a posição vertical. As idas e vindas da mãe, cansada de tanta labuta, com a louça na pia à espera de uma mão que a ajude a lavar, com a mesa por arrumar, a roupa por passar, etc. etc., tudo isso, serão coisas que o egoísmo comodista das “crianças” nem perceberá. E irão embora da sala, de alma lavada, enquanto deixam o televisor ligado, a luz acesa, e – atravancando a passagem – uns patins, uma mochila e uma garrafa de Coca-Cola meio vazia sobre o tapete.
O rapaz ou a moça pensam que lá em casa não os compreendem, e não percebem que eles é que são a imagem perfeita do chupim. Por maldade? Não. Por preguiça, pelo mais gordurento egoísmo. Primeiro eu, depois eu e sempre eu.
ACONTECE QUE TAMBÉM AS MÃES...
Mas será que a mãe é sempre a vítima?
Devemos dizer que nem sempre, para sermos justos e objectivos. Quantos lares se vão tornando insuportáveis, irrespiráveis, porque a mulher, desde que acorda até que vai dormir, não pára de reclamar, de queixar-se, de gemer, de tocar o seu chorinho insofrível de cavaquinho desafinado.
Há mulheres que se parecem com uma emissora de rádio em permanente vigília de informação: não se passam quinze minutos sem que “transmitam” a todos os que estão em casa as notícias detalhadas do que lhes dói (fígado, cabeça, costas, rins, ombro), das suas horríveis insónias, das doenças que estão acabando com elas, das indizíveis contrariedades e das pessoas desconsideradas que têm de suportar... E, quando o marido pede: “Pare com isso, já chega de gemer”, a “vítima profissional”, que no fundo passa o dia pensando em si mesma, reage com o grito da mártir trucidada pela incompreensão daqueles pelos quais não pára de sacrificar-se.
Vamos continuar falando das mazelas das mães?
Só um pouquinho, e pedindo-lhes desculpas, porque, no mais íntimo de nós, pensamos que elas são figuras adoráveis, que merecem toda a ternura e agradecimento do nosso coração.
Porém... Há alguns pequenos poréns, não muitos.
É. Existe um tipo de egoísmo que tem muito a ver com o consumismo, e que leva a mulher à compulsão incontrolável de gastar.
Diante dos balcões do supermercado ou das vitrines do shopping, um pano preto lhe tapa de repente a sensatez, ao mesmo tempo que uma luz cintilante lhe sobe aos olhos: quase tudo o que está ali fica sendo, subitamente, “necessário”, ou “muito útil”, ou “uma ocasião que não se pode perder”.
Será preciso dizer que, em decorrência disso, pipocam os problemas de cheques sem fundos, de cartões de crédito estourados e de falta de caixa no fim do mês?
Será necessário lembrar que esse descontrole cego nos gastos é uma das maiores causas de brigas familiares?
Alguém já adivinhou por que muitos maridos têm, entre as amigas da esposa, a negra e injusta fama de avarentos?
Ainda poderíamos mencionar a deterioração do ambiente do lar – por vezes tremenda, e até fatal – causada pelas mulheres desleixadas, descuidadas na limpeza, no vestuário, na ordem da casa, nos horários das refeições. Ou, o que é o pior, péssimas “chefes de cozinha” – sem sinais de querer aprender e corrigir-se –, que torturam marido e filhos com comidas monótonas e intragáveis.
Mas peçamos perdão às mães..., e viremos a folha.

A HORA E A VEZ DOS MARIDOS

Também os honestos pais de família deveriam enfiar humildemente a carapuça e fazer um exame de consciência, perguntando-se: “A irritabilidade, o mal-estar, as brigas que há lá em casa, são devidas apenas ao temperamento, às manias e às implicâncias da mulher, à irresponsabilidade e às rebeldias malcriadas dos filhos? Não será que eu, com o «meu» comodismo egoísta, não tenho também uma elevada cota de culpa na deterioração da paz familiar?”
Em noventa por cento dos casos, a resposta sincera a essa pergunta deverá ser:
“Sim”. E, após a resposta, convirá fazer um exame de consciência para desmascarar o comodismo.
É muito cómodo, por exemplo, regressar a casa após um dia de trabalho com a consciência de que “agora chegou a hora merecida de descansar”.
O pai entra no lar. A carranca de “fatigado profissional” não convida muito a pedir-lhe coisa alguma ou a contar com ele para nada. Entrincheira-se na poltrona, por trás de um jornal, ou com os olhos perdidos no televisor, se não vai para o micro e começa a navegar na Internet com a mesma avidez com que um garoto mergulha no último jogo eletrônico japonês. Não escuta o que lhe dizem. Solta um grunhido quando a mulher vai contar-lhe as tribulações do dia.
Esquece-se de que ela tem uma necessidade louca de desabafar, de ser compreendida, que precisaria de que o marido a convidasse a dar uma voltinha, a conversar, a arejar-se, a ir ao cinema ou a um teatro interessante.
Pior ainda quando esse “direito de descansar” consiste em apanhar garrafa e copo e iniciar no sábado, à hora do almoço, a série de aperitivos que já se sabe como vão terminar:
com brigas e lágrimas da mulher, com cenas traumatizantes para todos, por vezes violentas; com angústia e desprezo por parte dos filhos (como me doeu na alma ouvir de uma boa menina, com vozinha aflita: – “Sabe, padre, o meu pai não presta, ele bebe”!).
O “profissional fatigado” bebe, vai cambaleante para a cama, onde passará, no mínimo, uma tarde inteira dormindo a sesta etílica. Depois, com ressaca e tontura, acabará de matar o fim de semana, sem diálogo, sem passeio, sem carinho e sem alegria.
O quadro – reconheço – é carregado, mas reconheça também o leitor que não é totalmente irreal.

(cont)

FRANCISCO FAUS [i]




[i] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, os títulos:
O valor das dificuldades; O homem bom; Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens; A língua; A paciência; A voz da consciência.

Pequena agenda do cristão

DOMINGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

16/12/2017

O Advento

Olhai e levantai as vossas cabeças porque está próxima a vossa redenção (Lc 21, 28), lemos no Evangelho. O tempo do Advento é o tempo da esperança. Todo o panorama da nossa vocação cristã, a unidade de vida que tem como nervo a presença de Deus, Nosso Pai, pode e deve ser uma realidade diária. (Cristo que passa, 11, 4)


Procura a união com Deus e enche-te de esperança – virtude segura! –, porque Jesus te iluminará, mesmo na noite mais escura, com a luz da sua misericórdia. (Forja, 293)


Jesus Christus, Deus Homo, Jesus Cristo, Deus-Homem! Eis uma magnalia Dei (Act. II, 11), uma das maravilhas de Deus em que temos de meditar e que temos de agradecer a este Senhor que veio trazer a paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2, 14), a todos os homens que querem unir a sua vontade à Vontade boa de Deus. Não só aos ricos, nem só aos pobres! A todos os homens, a todos os irmãos! Pois irmãos somos todos em Jesus; filhos de Deus, irmãos de Cristo. Sua Mãe é nossa Mãe.


É preciso ver o Menino, nosso Amor, no seu berço. Olhar para Ele, sabendo que estamos perante um mistério. Precisamos de aceitar o mistério pela fé, aprofundar o seu conteúdo. Para isso necessitamos das disposições humildes da alma cristã: não pretender reduzir a grandeza de Deus aos nossos pobres conceitos, às nossas explicações humanas, mas compreender que esse mistério, na sua obscuridade, é uma luz que guia a vida dos homens. (Cristo que passa, 13)

Temas para meditar

A força do Silêncio, 116


O silêncio contemplativo é um silêncio de oração e de escuta de um homem que se coloca diante de Deus.
Colocar-se silenciosamente diante de Deus é orar.
A oração pede-nos que façamos silêncio para ouvir e escutar Deus.
O silêncio exige uma disponibilidade absoluta em relação à vontade de Deus.
O homem deve voltar-se inteiramente para Deus e para os seus irmãos.
O silêncio é uma busca e uma caridade em que os olhos de Deus se tornam os nossos olhos e o coração de Deus um enxerto do nosso coração.

Não podemos ficar diante do fogo divino sem nos queimarmos. (…)



CARDEAL ROBERT SARAH

Evangelho e comentário

Tempo do Advento


Evangelho: Mt 17, 10-13

10 Os discípulos fizeram a Jesus esta pergunta: «Então, porque é que os doutores da Lei dizem que Elias há-de vir primeiro?» 11 Ele respondeu: «Sim, Elias há-de vir e restabelecerá todas as coisas. 12 Eu, porém, digo-vos: Elias já veio, e não o reconheceram; trataram-no como quiseram. Também assim hão-de fazer sofrer o Filho do Homem.» 13 Então, os discípulos compreenderam que se referia a João Baptista.

Comentário:


Pelo seu exemplo, a sua conduta, a forma de se apresentar em público, o Percursor arrastou multidões e tinha numerosos seguidores atraídos por uma mensagem absolutamente nova.

O apelo à conversão e revisão de vida, o Baptismo para remissão dos pecados são o prelúdio absolutamente necessário para receber Aquele que está para chegar.

A sua humilíssima figura de homem austero e de vida frugal tem tudo menos a de um “pregador” de palavra inflamada e gestos grandiloquentes.

Considera-se indigno de desatar as correias das sandálias ao Salvador, ou seja, indigno de um trabalho reservado aos escravos e, no entanto, a sua palavra tem tal autoridade e convicção que arrasta e atrai muitos que procuram uma vida nova, um rumo diferente, uma esperança renascida.

Jesus Cristo, irá, assim, encontrar muitas almas predispostas a ouvir a Sua doutrina e a segui-lo no Seu caminho.

(AMA, comentário sobre Mt 17, 10-13, 12.09.2017)