16/12/2017

O Advento

Olhai e levantai as vossas cabeças porque está próxima a vossa redenção (Lc 21, 28), lemos no Evangelho. O tempo do Advento é o tempo da esperança. Todo o panorama da nossa vocação cristã, a unidade de vida que tem como nervo a presença de Deus, Nosso Pai, pode e deve ser uma realidade diária. (Cristo que passa, 11, 4)


Procura a união com Deus e enche-te de esperança – virtude segura! –, porque Jesus te iluminará, mesmo na noite mais escura, com a luz da sua misericórdia. (Forja, 293)


Jesus Christus, Deus Homo, Jesus Cristo, Deus-Homem! Eis uma magnalia Dei (Act. II, 11), uma das maravilhas de Deus em que temos de meditar e que temos de agradecer a este Senhor que veio trazer a paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2, 14), a todos os homens que querem unir a sua vontade à Vontade boa de Deus. Não só aos ricos, nem só aos pobres! A todos os homens, a todos os irmãos! Pois irmãos somos todos em Jesus; filhos de Deus, irmãos de Cristo. Sua Mãe é nossa Mãe.


É preciso ver o Menino, nosso Amor, no seu berço. Olhar para Ele, sabendo que estamos perante um mistério. Precisamos de aceitar o mistério pela fé, aprofundar o seu conteúdo. Para isso necessitamos das disposições humildes da alma cristã: não pretender reduzir a grandeza de Deus aos nossos pobres conceitos, às nossas explicações humanas, mas compreender que esse mistério, na sua obscuridade, é uma luz que guia a vida dos homens. (Cristo que passa, 13)

Temas para meditar

A força do Silêncio, 116


O silêncio contemplativo é um silêncio de oração e de escuta de um homem que se coloca diante de Deus.
Colocar-se silenciosamente diante de Deus é orar.
A oração pede-nos que façamos silêncio para ouvir e escutar Deus.
O silêncio exige uma disponibilidade absoluta em relação à vontade de Deus.
O homem deve voltar-se inteiramente para Deus e para os seus irmãos.
O silêncio é uma busca e uma caridade em que os olhos de Deus se tornam os nossos olhos e o coração de Deus um enxerto do nosso coração.

Não podemos ficar diante do fogo divino sem nos queimarmos. (…)



CARDEAL ROBERT SARAH

Evangelho e comentário

Tempo do Advento


Evangelho: Mt 17, 10-13

10 Os discípulos fizeram a Jesus esta pergunta: «Então, porque é que os doutores da Lei dizem que Elias há-de vir primeiro?» 11 Ele respondeu: «Sim, Elias há-de vir e restabelecerá todas as coisas. 12 Eu, porém, digo-vos: Elias já veio, e não o reconheceram; trataram-no como quiseram. Também assim hão-de fazer sofrer o Filho do Homem.» 13 Então, os discípulos compreenderam que se referia a João Baptista.

Comentário:


Pelo seu exemplo, a sua conduta, a forma de se apresentar em público, o Percursor arrastou multidões e tinha numerosos seguidores atraídos por uma mensagem absolutamente nova.

O apelo à conversão e revisão de vida, o Baptismo para remissão dos pecados são o prelúdio absolutamente necessário para receber Aquele que está para chegar.

A sua humilíssima figura de homem austero e de vida frugal tem tudo menos a de um “pregador” de palavra inflamada e gestos grandiloquentes.

Considera-se indigno de desatar as correias das sandálias ao Salvador, ou seja, indigno de um trabalho reservado aos escravos e, no entanto, a sua palavra tem tal autoridade e convicção que arrasta e atrai muitos que procuram uma vida nova, um rumo diferente, uma esperança renascida.

Jesus Cristo, irá, assim, encontrar muitas almas predispostas a ouvir a Sua doutrina e a segui-lo no Seu caminho.

(AMA, comentário sobre Mt 17, 10-13, 12.09.2017)






Leitura espiritual

A PAZ NA FAMÍLIA

AS CORDAS DO CORAÇÃO

MAIS CORDAS DESAFINADAS

Existem outras cordas malsoantes do orgulho. Seria difícil lembrá-las todas. Mas, para ficarmos prevenidos e tentarmos melhorar, talvez seja útil examinar ainda mais três ou quatro delas.
Uma corda, um defeito muito aparentado com a crítica, é a mania de fiscalizar, partindo da base de que sempre existe “coelho no mato”. O paradigma pitoresco desse espírito de suspeita é a figura lendária do marido que, todos os dias, ao chegar a casa, aplica uma homérica surra na mulher e nos filhos, e esclarece depois: “Não sei o que eles fizeram, mas eles sabem...”
Há pais que parecem estar sempre a fazer uma auditoria na mulher e nos filhos, com um bloco de multas e o Código Penal na mão. A alguns deles, costumo chamá-los, brincando, “Catão, o Censor” [i].
E o mesmo se poderia dizer de certas mães, que mostram uma eterna desconfiança para com os filhos. Interrogam policialmente a todos sobre todas as coisas; vasculham gavetas, papéis e armários à procura de “algo errado”; não acreditam no que eles dizem; fazem complicadas pesquisas telefónicas para se certificar de que estiveram mesmo lá onde disseram que iam; perguntam mil vezes a mesma coisa, para ver se os apanham em contradição. Em consequência, os filhos exasperam-se, ficam fora de casa o mais que podem e acabam caindo na teia de aranha das mentiras, provocadas pela desconfiança dos pais.
Quando essa desconfiança se dá entre marido e mulher, e degenera na doença mortal dos ciúmes, então a paz familiar está à beira do naufrágio. O lar torna-se uma câmara de gás, cada vez mais venenoso e asfixiante. O homem ou a mulher que se torturam, e torturam o cônjuge, com a máquina mortífera dos ciúmes, deveriam compreender que só têm duas saídas para esse beco letal: ou reconhecem que o ciúme é fruto de um requintado orgulho (o da pessoa que se sente como uma divindade nunca suficientemente adorada); ou aceitam o facto de que estão doentes, e vão-se tratar com um bom especialista.
O que não é possível é dizer “Eu sou ciumento” e continuar a transformar o lar num inferno.
Também é manifestação clara de orgulho a mania de ter razão.
Como é desagradável conviver com uma pessoa que, por princípio, não aceita que a contradigam, ainda que o façam serenamente e com bons argumentos; que não é capaz de ceder – até mesmo quando já não tem mais o que retrucar –, mas sente a necessidade de dizer a última palavra, porque não quer dar o braço a torcer. “Eu tenho razão, e pronto!”
É tão bom ceder! Só é preciso ter um pouco de humildade, ungida com um pouco de caridade.
São Josemaria Escrivá aconselhava sempre aos casais – e a todas as pessoas de boa vontade – a não discutir. “Da discussão – escrevia – não costuma sair a luz,
porque é apagada pela paixão” [ii].
E punha um minúsculo exemplo prático, com palavras semelhantes a estas: – Para que discutir com a mulher, que afirma que a prima Fulana tem trinta anos, teimando em dizer que “já tem trinta e dois”? É melhor ceder, e não atear uma discussão por uma insignificância. Que importância têm dois ou três anos a mais ou a menos?
Às vezes, para ajudar algum obstinado discutidor a abaixar as armas, costumo dizer-lhe:
“Você já pensou que ninguém vai para o Céu pelo facto de «ter tido razão» nas discussões? No dia do Juízo, ninguém vai perguntar-lhe se, na vida, você «teve razão». Pelo contrário, vão perguntar-lhe se soube compreender os outros, se soube perdoar, aparar arestas e espinhos no convívio e evitar conflitos por minúcias tolas”.
Por último, para não fazer uma enumeração interminável de cordas do orgulho, vou lembrar algo que me dizia recentemente um velho amigo, e que me deixou pensativo e comovido.
Eu vinha meditando sobre o que agora estou a escrever, e ocorreu-me perguntar a esse amigo (pai de uma família unida e exemplar, que acabava de celebrar as Bodas de Ouro do seu felicíssimo casamento): “Fulano, qual acha que é o segredo da paz familiar?”
Confesso que esperava umas palavras um tanto românticas. Por isso, surpreendeu-me a resposta: “Eu diria que o segredo da paz na família é a educação”.
Reconheci, depois, que há nessa resposta uma enorme dose de sabedoria cristã, acrisolada pela experiência. A grosseria, com efeito, não resulta só da deficiência de formação de berço. É sempre um acto de orgulho, porque constitui uma falta de respeito para com a pessoa rudemente tratada, um rebaixamento, uma humilhação.
Na terceira parte desta obra, ao falar dos bons caminhos que levam à paz, deveremos mencionar o respeito – feito de humildade, compreensão e grandeza de coração –, como base indispensável para o amor e, portanto, para a harmonia e a paz. Mas, por ora, vamos deixar este assunto por aqui.

SEGUNDO PORÃO: O EGOÍSMO COMODISTA

HISTÓRIA TRISTE DE CHUPIM

Rubem Braga tem uma crónica deliciosa, intitulada História triste de Tupim.
Vamos começar este novo item com uma crónica nada deliciosa, que poderíamos chamar História triste de chupim.
Na casa onde moro, há um pedacinho de jardim na frente e um quintal nos fundos. O ano inteiro é visitada por pássaros os mais diversos, que enchem o quintal de cores e alegria.
Na primavera, fervilham: lá faz ninho o sabiá, cria a corruíra e se multiplica a rolinha. Mas, ano após ano, uma sombra escura desce sobre esse pequenino paraíso alegre.
Um dia qualquer, observa-se bicando o chão, com ar distraído e olhar sorrateiro, um casal de chupins, pretos como o azeviche. Por mais que disfarcem, ninguém se ilude sobre os seus propósitos. Estão a espiar a ingenuidade com que o tico-tico prepara, laboriosamente, o seu ninho. Aproveitando um descuido dos inocentes passarinhos, a fêmea do chupim depositará no ninho deles um ou dois de seus ovos, e desaparecerá, lavando as mãos – ou o bico – dos trabalhos aborrecidos de ter que construir um ninho, chocar os ovos e alimentar os filhotes.
Só quer vida livre, e os tico-ticos que aguentem o tranco!
Mas isso não é o pior. Correm os dias e nascem as crias. No ninho, começam a conviver pequenos tico-ticos e o ainda pequenino chupim. A mãe tico-tico, numa azáfama incansável, vai levando comida para aqueles quatro ou cinco biquinhos abertos. Passam-se mais uns dias, e o filhote de chupim já cresceu. Logo vai crescendo mais, ocupa quase todo o ninho, lá mal cabem todos. Até que, numa manhã, descobre-se com o coração cortado o gordo filhote de chupim refestelado no ninho e, no chão, mortos ou agonizantes, os filhos legítimos do tico-tico, que foram sendo empurrados para fora porque o chupim precisava do espaço inteiro do ninho.
A imagem do chupim não é nada obscura, parece-me, quando aplicada aos conflitos do lar.
Porque o chupim é um símbolo claríssimo do egoísmo na vida familiar. Em casa e fora dela, se as pessoas não dominam a tendência para o egoísmo e o comodismo que todos trazemos dentro, esses defeitos vão crescendo cada vez mais e, gordos como o chupim, acabam por repelir ou machucar seriamente os outros.
Convençamo-nos de que não é só com a agressão, a ofensa, a irritação, a crítica e a prepotência que se criam conflitos familiares. Muitos, muitíssimos deles, são fruto da hipertrofia do comodismo egoísta.
Na sua Carta às famílias, São João Paulo II convida-nos a perguntar-nos se o egoísmo que, como diz, “se esconde inclusive no amor”, não acaba por ser “mais forte do que este amor” [iii].
Vamos agora fazer-nos essa pergunta, ao mesmo tempo que procuramos identificar manifestações de egoísmo e comodismo que não raro grassam na vida familiar.

(cont)

FRANCISCO FAUS [iv]




[i] Marco Pórcio Catão (234-149 a.C.), personalidade pública de Roma que recebeu o apelido de censorius pelo rigor inflexível com que criticou o relaxamento de costumes, devido à influência grega.
[ii] Josemaría Escrivá, Caminho, 8a. ed., Quadrante, 1995, n. 25.
[iii] São João Paulo II, Carta às famílias, n. 7.
[iv] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, os títulos:
O valor das dificuldades; O homem bom;  Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens; A língua; A paciência; A voz da consciência.

Hoy el reto del amor es hacer tú el reto

HAZ TÚ EL RETO



Estoy segura de que estas esperando ver qué te cuento hoy y dónde he visto al Señor, para que luego te proponga vivir de Cristo en algo concreto para el día que comenzamos.

Pues, cuando esta mañana bajaba a Laudes, le preguntaba al Señor que de qué quería que escribiera en el reto, y he sentido en el corazón que hoy te tengo que invitar a descubrir al Señor y hacer tú el reto.

Lo primero que vamos a hacer es parar de leer y orar un minuto. En esa oración quiero que le pidas al Señor poderle descubrir vivo y real en tu día. Él nos dijo que estaría con nosotros todos los días hasta el fin del mundo. Por ello, si no vemos al Señor en nuestro día, es porque no tenemos los ojos abiertos. Por eso, lo primero al empezar el día es pedirle al Señor unos ojos nuevos para reconocerle, porque siempre actúa; somos nosotros los que no le vemos.

Y ahora, una vez que ya has orado, lo que nos toca es vivir de Él. Pero, ¡atento!, en el día hay una trampa en la cual puedes caer y que se llama... casualidad. Cristo va a actuar, pero muchas veces lo llamamos "casualidad", o  "potra", o "coincidencia"... ¿Te suena?

Y muy importante es que, cuando Le descubras, Le des las gracias. El descubrirle te va a llevar a experimentar que el amor te llena el corazón y querrás animar a otros a vivir desde ello.

Y, ¡cómo no!, el ultimo reto de hoy es que te invito a que lo pongas por escrito. Al escribir descubrirás cómo no ha sido cosa tuya, sino de Él actuando en ti. Y, si quieres, puedes mandarnos tu reto a retovivedecristo@gmail.com

Hoy el reto del amor es hacer tú el reto, descubrirle vivo a Él en tu día y compartir con alguien dónde has visto al Señor.

Cristo te ama y quiere que seas feliz; para ello, saldrá a tu encuentro un montón de veces a lo largo del día. Disfruta de Él, que es la felicidad. Feliz día y... no te asustes, ¡¡mañana seguiremos escribiendo nosotras!!


VIVE DE CRISTO

Pequena agenda do cristão

SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





15/12/2017

Acabar bem as tarefas

A santidade compõe-se de heroísmos. Por isso, no trabalho pede-se-nos o heroísmo de rematar bem as tarefas que nos cabem, dia após dia, embora se repitam as mesmas ocupações. Se não, não queremos ser santos! (Sulco, 529)


Perguntaste-me o que podes oferecer ao Senhor. Não necessito de pensar na resposta: as mesmas coisas de sempre, mas mais bem acabadas, com um remate de amor, que te leve a pensar mais n'Ele e menos em ti. (Sulco, 495)


Ao retomar as tuas ocupações normais, escapou-te uma espécie de grito de protesto: sempre a mesma coisa!

E eu disse-te: – Sim, sempre a mesma coisa. Mas essa actividade vulgar, igual à dos teus companheiros de profissão, há-de ser para ti uma oração contínua, com as mesmas palavras íntimas, mas cada dia com música diferente.

É missão muito nossa transformar a prosa desta vida em decassílabos, em poesia heróica. (Sulco, 500)


Coloca na tua mesa de trabalho, no teu quarto, na tua carteira... uma imagem de Nossa Senhora, e dirige-Lhe o olhar ao começar as tuas tarefas, enquanto as realizas, e ao terminá-las. Ela te alcançará – eu to garanto – a força necessária para fazeres da tua ocupação um diálogo amoroso com Deus. (Sulco, 531)


Temas para meditar

A força do Silêncio, 115



Invariavelmente o silêncio conduz a Deus, desde que o homem deixe de olhar para si próprio.

Porque, mesmo na experiência do silêncio há uma armadilha: o narcisismo e o egoísmo.



CARDEAL ROBERT SARAH

Evangelho e comentário

Tempo do Advento


Evangelho: Mt 11, 16-19

16 «Com quem poderei comparar esta geração? É semelhante a crianças sentadas na praça, que se interpelam umas às outras, 17 dizendo: ‘Tocámos flauta para vós e não dançastes; entoámos lamentações e não batestes no peito!’ 18 Na verdade, veio João, que não come nem bebe, e dizem dele: ‘Está possesso!’ 19 Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: ‘Aí está um glutão e bebedor de vinho, amigo de cobradores de impostos e pecadores!’ Mas a sabedoria foi justificada pelas suas próprias obras.»

Comentário:


Qualquer pessoa é avaliada pelo que faz e não pelo que apregoa ou sugere.

Porquê?

Porque o exemplo vem das acções e não das intenções e, para arrastar outros há que dar o exemplo.

(AMA, comentário sobre Mt 11, 16-19, 12.09.2017)





Leitura espiritual

A PAZ NA FAMÍLIA

AS CORDAS DO CORAÇÃO

…/2

Os outros, quer sejam amáveis ou grosseiros, quer sejam pacientes ou irritadiços, farão soar dentro do nosso coração uma nota conforme as nossas cordas.
Se a corda da generosidade anda fraca, qualquer atitude da esposa, do marido, do filho ou do pai que exija algum sacrifício fará vibrar a nota desafinada do mau-humor.
Pelo contrário, se o coração for grande e a corda da generosidade estiver “bem temperada”, mesmo as agressões mais desagradáveis dos outros farão ressoar a nota da compreensão, da afabilidade que desvia a discussão, da grandeza de alma que finge nem ter reparado na ofensa.
E, então, haverá paz.

Vale a pena, portanto, insistir em que a primeira causa das desavenças, brigas e desarmonias, não convém buscá-la no que “os outros fazem ou dizem”, mas na maneira como isso que fazem ou dizem – quer seja bom, quer ruim – repercute no nosso coração.
Lembremo-nos do exemplo de Cristo.
Ele – cujo coração de Homem-Deus tinha as cordas das virtudes divinamente afinadas – espalhava à sua volta uma paz imensa, não só quando pregava aprazivelmente nas margens do lago de Genesaré, e todos se encantavam com as suas palavras, mas também quando agonizava no alto da cruz, cercado de impropérios, zombarias e tormentos atrozes.

Do coração é que sai tudo, dizia Cristo [i].

Tudo depende do coração, do amor, da bondade e das virtudes que nele se enraízam. Boas virtudes são geradoras de paz.

Defeitos arraigados são provocadores de guerra.
Como entendia bem São Paulo o ensinamento de Cristo!

Bastará, por ora, lembrar apenas dois trechos das suas cartas, que põem à mostra as cordas da paz e as cordas da guerra:
– Cordas da paz: Revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, mansidão, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se um tiver contra outro motivo de queixa [...]. Mas, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição. Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados [ii].

– Cordas da guerra: Nenhuma palavra má saia da vossa boca [...]. Toda a amargura, indignação, cólera, gritos, injúrias, e toda a espécie de malícia, sejam banidos dentre vós [iii].

Guerra e paz, sim. Vale a pena encará-las ambas.
E, para que a nossa reflexão seja como uma escada, que vai subindo dos fundões até as cumeadas, assim como Dante começou a Divina Comédia pelo Inferno, também vamos iniciar estas simplicíssimas meditações entrando, primeiro, nos porões onde fermentam os conflitos familiares, para depois subir, contemplar com perspectiva cristã o ideal familiar, e procurar, enfim, os caminhos que podem conduzir a família à paz.

UMA DESCIDA AOS PORÕES

PRIMEIRO PORÃO: O ORGULHO

O “EU” SOBRE O ALTAR

De todas as cordas desafinadas do coração, a pior é a do orgulho.
Este vício capital é o primeiro inimigo da paz familiar; o orgulho que, de resto, é o inimigo número um de toda a bondade e de toda a alegria. Não é em vão que a Bíblia diz, no livro do Eclesiástico, que o orgulho é o princípio de todo o pecado [iv].

Mas, o que é o orgulho?

Uma definição clássica reza assim: “O orgulho é o apetite desordenado da própria excelência”.

Trocando a frase em miúdos, significa: é o desejo exorbitado de sobressair, de ficar por cima, de ser valorizado, acatado e estimado; é a ânsia de sentir-se superior aos outros, ou pelo menos nunca inferiorizado; é a incapacidade de aceitar qualquer coisa que fira o nosso amor-próprio ou rebaixe a nossa imagem.
O orgulho cega.
Essa supervalorização do nosso “eu” impede-nos de enxergar a verdade sobre os nossos defeitos e culpas, porque não suportamos que essa verdade nos situe abaixo do alto conceito que fazemos de nós mesmos ou nos coloque por baixo dos outros.
Poderíamos dizer que a pessoa orgulhosa construiu um altar dentro do seu coração, onde entronizou o seu próprio “eu” como um ídolo intocável, que constantemente defende e adora.
Qualquer coisa que atinja esse falso “deus”, qualquer coisa que tente questioná-lo ou ameace rebaixá-lo, provoca no orgulhoso uma reação imediata, violenta como uma descarga elétrica, ou abafada e surda (por exemplo, um mutismo sufocante, um ar carrancudo de dignidade ofendida, etc.), que acaba com a paz.

Não há dúvida de que o orgulho é a corda mais desafinada do coração.
Melhor dizendo, o orgulho é todo um conjunto de cordas desafinadas. Procuraremos agora ouvir o som de algumas delas.
Não será agradável a música, mas pode ser bom escutá-la, não, evidentemente, pelo prazer maldoso de ver retratadas nela as falhas das pessoas da nossa casa (“É o vivo retrato do meu marido”, “Acho que o autor deste livro fez a radiografia da minha mulher”, “É, chapado, o meu irmão”, “Olhe aí a cara da minha sogra”...);

Não, não vamos procurar esse prazer ruim...
Pelo contrário, vamos tentar fazer um reconhecimento humilde dos porões escuros da nossa própria alma – das nossas cordas desafinadas –, com o intuito positivo de ajustar-lhes as cravelhas, de afinar, em suma, o instrumento poderoso que é o nosso coração e, com a ajuda de Deus, conseguir que ele vibre com notas cada vez mais puras e harmoniosas.
Vejamos, pois, essas cordas, sem pretender falar de todas, nem colocá-las numa determinada ordem de importância. Pensemos simplesmente nos atritos familiares que nos são mais conhecidos e deixemos a reflexão correr.

Facilmente salta à vista uma primeira corda bem mal ajustada: a crítica.
A pessoa orgulhosa tem muito aguçado o espírito crítico.
Não por rigor filosófico ou científico, mas por “superioridade” arrogante.
O orgulho só lhe deixa ver o lado ruim dos outros, que ele contempla de cima para baixo, com ar de desaprovação, com um desprezo prévio, preconceituoso, que é parecido com o do fariseu da parábola de Cristo:
Eu não sou como os outros homens [...], nem como este publicano [v].

Como pode haver paz e harmonia num lar onde o pai, ou a mãe, ou o filho adolescente, ou a filha universitária..., passam a vida criticando, reclamando, resmungando e “pondo defeitos” em todas as coisas dos outros?
Para o irmão, o que a irmã disse é estúpido, e assim o proclama em voz alta; para o pai, os ideais e sonhos do filho são tolices, que lhe lavam o cérebro e o afastam da única coisa que interessa: ganhar dinheiro; a comida – responsabilidade directa da mulher – sempre está ruim: ou é salgada demais, ou é insossa, ou é uma fábrica de colesterol, ou parece ração de quintal.
Uns e outros só vêem que os demais falam alto, ou chegam tarde, ou não respondem, ou olham torto, ou não ligam nem um pouco para o que se lhes diz, ou têm amizades intratáveis, ou escolhem os piores momentos para fazer as coisas...
Em resumo:
críticas, críticas e mais críticas. Como se o “criticão” tivesse um sensor que só fosse capaz de captar o negativo.

Só a título ilustrativo, vou contar uma pequena e divertida história da vida real.
Um casal de velhos. Ele, arrastando a perna, vai fazer as compras para a geladeira e a despensa (não no supermercado, mas na quitanda, como corresponde a um homem de outros tempos). Ela, boa pessoa, tem, no entanto, o vício de criticar. Volta ele da quitanda com o carro cheio: lá tem de tudo e um pouquinho mais. Mas a cara-metade, em vez de agradecer, só se lembra de gritar, com um rangido de arranhar a alma: “E o jiló? Onde está o jiló? Você se esqueceu do jiló!”

Essa corda da crítica fica ainda mais desafinada quando se transforma, por um pior desajuste, na corda da ironia ou do sarcasmo. Nestes casos, o desprezo é mais ferino.
Ironizar é quase sempre diminuir e humilhar o outro. Às vezes, é pisar em cima dele até deixá-lo esmagado no chão. Uma ironia bem aplicada é um dos golpes mais baixos que o nosso orgulho pode desferir nos outros.
– Bolas, desta vez, de cada três palavras que disse aos convidados, só quatro eram asneiras. Parabéns, está melhorando! – espeta o marido, sarcasticamente, na cara da mulher.
– Fulano (colega do marido) já foi promovido faz um ano, e tu ainda pastando lá em baixo. Deve ser porque o ar daquele escritório de pé-rapado te faz bem... – ridiculariza a mulher, mexendo com um marido já complexado pela falta de sucesso profissional.
– Sabem de que sofre “o” neurónio da loira? – pergunta ironicamente o menino convencido, olhando com desprezo para a irmã. – Sofre de solidão!
No dia seguinte vem com outras duas piadas, que ele acha melhores ainda: – A loira burra (que, por sinal, é bem mais inteligente do que ele) só tem três neurónios no cérebro:
Um receptor, um emissor..., e o terceiro para atrapalhar os outros dois!
E tem mais!
Como é que a gente sabe que a loira usou o computador?
Quando tem líquido corrector na tela!
Deus nos livre da ironia corrosiva, que é a escória da nossa vaidade e da nossa arrogância.
Não poucas vezes, achando-nos “engraçadinhos”, estamos esfaqueando os outros.

Peçamos a Deus que, em casa e fora de casa, saibamos praticar somente a ironia amável, simpática, aquela que não fere ninguém, mas alegra os corações e faz rir com gosto.

(cont)

FRANCISCO FAUS [vi]




[i] Mc 7, 21
[ii] Col 3, 12-15
[iii] Ef 4, 29.31
[iv] Ecle 10, 15
[v] Lc 18, 11
[vi] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, os títulos:
O valor das dificuldades;
O homem bom;
Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens;
A língua;
A paciência;
A voz da consciência.

Doutrina – 384

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO TERCEIRO

CREIO NA SANTA IGREJA CATÓLICA

A Igreja é una, santa, católica e apostólica

162. Onde subsiste a única Igreja de Cristo?



A única Igreja de Cristo, como sociedade constituída e organizada no mundo, subsiste (subsistit in) na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele. Só por meio dela se pode obter toda a plenitude dos meios de salvação, pois o Senhor confiou todos os bens da Nova Aliança ao único colégio apostólico, cuja cabeça é Pedro.

Perguntas e respostas

A EUTANÁSIA


1. O que é a eutanásia? 


Chamamos eutanásia ao acto de provocar a morte a um doente, porque está em fase terminal ou tem uma doença difícil de suportar. 

É correcto matar quem o pede ou está numa situação clínica grave? 

Sabemos bem que não se deve matar ninguém, mas em casos complexos pode surgir a dúvida e convém estudar o tema.