16/09/2014

Adormeceu a Mãe de Deus

Esta é a chave para abrir a porta e entrar no Reino dos Céus: "qui facit voluntatem Patris mei qui in coelis est, ipse intrabit in regnum coelorum" – quem faz a vontade de meu Pai..., esse entrará! (Caminho, 754)

Assumpta est Maria in coelum gaudent angeli! – Maria foi levada por Deus, em corpo e alma, para o Céu. E os Anjos rejubilam!
Assim canta a Igreja. – E é assim, com este clamor de regozijo, que começamos a contemplação, desta dezena do Santo Rosário.
Adormeceu a Mãe de Deus. – Em volta do seu leito encontram-se os doze Apóstolos.
– Matias substituiu Judas.
E nós, por graça que todos respeitam, estamos também a seu lado.
Mas Jesus quer ter Sua Mãe, em corpo e alma, na Glória. – E a Corte celestial ostenta todo o seu esplendor, para receber a Senhora. – Tu e eu – crianças, afinal – pegamos na cauda do esplêndido manto azul da Virgem e assim podemos contemplar aquela maravilha.
A Trindade Santíssima recebe e cumula de honras a Filha, Mãe e Esposa de Deus... – E é tamanha a majestade da Senhora, que os Anjos perguntam Quem é esta? (Santo Rosário, 4º mistério Glorioso).


Temas para meditar - 238

Dignidade da Vida Humana

Disse-se que a Igreja teria ficado derrotada porque não conseguiu fazer aceitar a sua norma moral. Mas eu penso que neste fenómeno tristíssimo e involutivo quem foi verdadeiramente derrotado foi o homem, foi a mulher. Foi derrotado o médico que renegou o juramento e o título mais nobre da medicina: o de defender e salvar a Vida Humana; verdadeiramente foi o estado «secularizado», que renunciou à protecção fundamental e ao sacrossanto direito à vida para se converter num instrumento de um presumível interesse da colectividade, e por vezes se mostra incapaz de defender a observância das suas próprias leis permissivas.


(btº joão Paulo IIDiscurso aos participantes no VI Simpósio do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, 1985.10.11)

Bento VXI – Pensamentos espirituais 16


Perdão


Se não comunicarmos uns com os outros, não poderemos comunicar com Deus. Se queremos apresentar-nos diante dele, devemos também ir ao encontro uns dos outros.
E para isso é preciso aprender a grande lição do perdão: não deixar que o ressentimento nos domine, mas abrir o coração à magnanimidade da escuta do outro, à compreensão dele, à eventual aceitação das suas desculpas ou, quando for caso disso, dispor-nos generosamente a apresentar-lhe as nossas.

(Homilia da Missa de encerramento do XXIV Congresso Eucarístico Nacional italiano. (Bari, 29.Mai.05)


(in “Bento XVI, Pensamentos Espirituais”, Lucerna 2006)

Senhor, Tu és a minha alegria!

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Inclino-me perante Ti,
deixo que as minhas pernas se dobrem,
caio de joelhos,
e …
sorrio!

Sorrio,
porque sinto a Tua presença,
porque sinto o Teu olhar,
porque ouço a Tua voz,
como um calmo rio,
que se espraia,
enchendo todo o meu mar.

Abro-me todo a Ti,
deixo que me preenchas,
todo eu sou mar aberto,
a receber a Tua água,
a água que purifica,
que me acalma o deserto,
e que em tudo o vivifica.

Já não sorrio,
mas rio,
abandono-me ao Teu existir,
que faz da minha longa noite,
o meu mais brilhante dia,
e grito bem alto,
para que todos possam ouvir:
Senhor,
Tu és a minha alegria!


Joaquim Mexia Alves
Monte Real, 27 de Agosto de 2014
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Os "gostos" e "likes" em imagens/frases nas redes sociais

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Surgem bastantes vezes nas redes sociais, imagens e frases cristãs, pedindo a colocação de um “gosto” ou de um “ámen”, àqueles que visitam essas páginas.
Obviamente que, desde que colocadas com boa intenção, não fazem mal nenhum, nem a colocação das ditas imagens/frases, nem os “gostos” ou “amens”, mas verdadeiramente, quanto a mim, não servem para nada, a não ser, muitas vezes, um desejo de ter muitos “gostos” e “amens”, como num qualquer concurso de uma possível popularidade.

Reparemos que não é por eu colocar um “gosto” ou um “amen”, numa essas imagens/frases, que a minha fé aumenta, ou sequer, que assim eu testemunho a minha fé em Deus.
Podemos até, com a maior simplicidade, servirmo-nos das palavras em causa para perceber isso mesmo.
Com efeito, gostar não é amar, e a Deus ama-se, adora-se, não se gosta, ou seja, não se fica pelo gostar, porque é pouco, muito pouco, para tudo o que Deus é, deve ser, para aqueles que n’Ele acreditam.
A palavra ámen vai ainda mais longe, ou seja, é um “assim seja”, que implica uma adesão, que implica o assentimento ao que foi dito, mostrado, que implica o acreditar.
Ora o acreditar em Deus e em tudo aquilo que O envolve, está “inscrito” no Dom da Fé, (graça do próprio Deus), e vai para além da simples adesão ou assentimento, porque se torna, ou deve tornar, vida, modo de vida, naquele que acredita, naquele que vive a Fé.

Esta vivência da fé não se “demonstra” com “gostos” ou “amens” colocados nas redes sociais a propósito da publicação das tais imagens/frases, que podem ser lindíssimas, cheias de significado, mas que não passam de algo estático, que pode até roçar a superstição, a superstição do tipo, «se eu não puser lá nada pode acontecer-me algo de mal!»
Sobretudo quando essas imagens/frases vêm acompanhadas com “sentenças” do tipo, «se acreditas coloca “gosto” ou “ámen”», quase como que a dizer que «se não colocas nada é porque não acreditas.»
E há ainda que ter o cuidado de perceber que muitas dessas imagens não são verdadeiramente cristãs e sobretudo genuinamente católicas, porque mostram conceitos que não são os da Doutrina da Igreja, como as “energias” e as “luzes”, etc., etc., bem como algumas frases que subtilmente contêm erros de sentido doutrinal, ou “endeusam” figuras que não devem ser “endeusadas”, até da própria Virgem Maria, nossa querida Mãe do Céu.

Com certeza que esmagadora maioria das pessoas que colocam estas imagens/frases o fazem com a melhor das intenções e sem segundos sentidos, mas são muitas vezes aqueles que as fazem e as lançam ao público, que se aproveitam da boa vontade daqueles que as colocam.

Verdadeiramente, e desculpem a “brutalidade” das palavras, este tipo de publicações leva a que se viva uma fé “oca”, assente em coisas exteriores, assente nos nossos interesses e desejos, nos nossos pedidos de ajuda, etc., e não numa verdadeira entrega a Deus, procurando e vivendo a sua vontade, em oração diária e comprometida.
Nunca um “gosto” ou um “ámen” deste tipo pode substituir um Pai Nosso, uma Avé Maria, um Glória, uma recitação do Rosário, para já não dizer, uma celebração Eucarística.
E o problema é que muitas vezes se fica apenas por esses “gostos”, esses “amens”, julgando assim que se vive uma vida com Deus, para Deus e em Deus.

O meu intuito não é magoar ninguém, nem criticar ninguém, mas chamar a atenção para algumas práticas que, não sendo propriamente erros de vivência cristã católica, também para nada servem, nem constroem as nossas vidas com e para Deus.

Eu próprio já coloquei “gostos” e “amens” em algumas coisas desse tipo, mas é muito raro que não aproveite para reflectir, meditar sobre o que essas imagens/frases dizem à minha vivência da fé, e dá-lo a conhecer aos outros, partilhando assim, aquilo que, quero acreditar Deus me vai colocando no coração.

Vivamos verdadeiramente a Fé que nos foi dada em união de oração com toda a Igreja, testemunhando não só com palavras, mas também com gestos e actos, o amor com que Deus permanente e infinitamente nos ama.

Sempre, sempre para a maior glória de Deus!


Marinha Grande, 18 de Agosto de 2014
Joaquim Mexia Alves


Nota:
E tenhamos muito cuidado com algum tipo de imagens e frases que envolvem “energias” e “luzes”, frases do Papa Francisco e de outros que afinal nunca as disseram, bem como nomes de anjos, lembrando-nos que a Bíblia apenas nos refere três nomes de anjos: Gabriel, Rafael e Miguel.
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Evang., Coment. Leit. Espiritual (Cong. Dout. da Fé Decl. Teologia da libertação)

Tempo comum XXIV Semana

Evangelho: Lc 7, 11-17

11 No dia seguinte foi para uma cidade, chamada Naim. Iam com Ele os Seus discípulos e muito povo. 12 Quando chegou perto da porta da cidade, eis que era levado a sepultar um defunto, filho único de uma viúva; e ia com ela muita gente da cidade. 13 Tendo-a visto, o Senhor, movido de compaixão para com ela, disse-lhe: «Não chores». 14 Aproximou-Se, tocou no caixão, e os que o levavam pararam. Então disse: «Jovem, Eu te ordeno, levanta-te». 15 E o que tinha estado morto sentou-se, e começou a falar. Depois, Jesus, entregou-o à sua mãe. 16 Todos ficaram possuídos de temor e glorificavam a Deus, dizendo: «Um grande profeta apareceu entre nós, e Deus visitou o Seu povo». 17 Esta opinião a respeito d'Ele espalhou-se por toda a Judeia e por toda a região circunvizinha.

Comentário:

Constantemente, o Senhor diz-nos: «Não chores»!

Tu que estás aí, esmagado pela dor física ou moral, sem saber o que fazer ou a quem recorrer; tu que de deixas vencer pelos infortúnios da vida, atordoado pelas dificuldades, sim tu… «Não chores»!

Eu, o teu Senhor e teu Deus, estou aqui, pronto a socorrer-te, desejoso de te ajudar a levantares-te, a prosseguir a tua vida!

Confia em Mim!

(ama, comentário sobre Lc 7, 11-17, V. Moura, 2013.09.17)


Leitura espiritual


Documentos do Magistério

SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

INSTRUÇÃO
SOBRE ALGUNS ASPECTOS DA
«TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO”

XI – ORIENTAÇÕES

10. A queda, por meio da violência revolucionária, de estruturas geradoras de injustiças não é pois ipso facto o começo da instauração de um regime justo. Um facto marcante da nossa época deve ocupar a reflexão de todos aqueles que desejam sinceramente a verdadeira libertação dos seus irmãos. Milhões de nossos contemporâneos aspiram legitimamente a reencontrar as liberdades fundamentais de que estão privados por regimes totalitários e ateus, que tomaram o poder por caminhos revolucionários e violentos, exactamente em nome da libertação do povo. Não se pode desconhecer esta vergonha do nosso tempo: pretendendo proporcionar-lhes liberdade, mantêm-se nações inteiras em condições de escravidão indignas do homem. Aqueles que, talvez por inconsciência, se tornam cúmplices de semelhantes escravidões, traem os pobres que eles quereriam servir.

11. A luta de classes como caminho para uma sociedade sem classes é um mito que impede as reformas e agrava a miséria e as injustiças. Aqueles que se deixam fascinar por este mito deveriam reflectir sobre as experiências históricas amargas às quais ele conduziu. Compreenderiam então que não se trata, de modo algum, de abandonar uma via eficaz de luta em prol dos pobres em troca de um ideal desprovido de efeito. Trata-se, pelo contrário, de libertar-se de uma miragem para se apoiar no Evangelho e na sua força de realização.

12. Uma das condições para uma necessária rectificação teológica é a revalorização do magistério social da Igreja. Este magistério não é, de modo algum, fechado. É, ao contrário, aberto a todas as novas questões que não deixam de surgir no decorrer dos tempos. Nesta perspectiva, a contribuição dos teólogos e dos pensadores de todas as regiões do mundo para a reflexão da Igreja é hoje indispensável.

13. Do mesmo modo, a experiência daqueles que trabalham directamente na evangelização e na promoção dos pobres e dos oprimidos é necessária à reflexão doutrinal e pastoral da Igreja. Neste sentido é preciso tomar consciência de certos aspectos da verdade a partir da praxis, se por praxis se entende a prática pastoral e uma prática social que conserva sua inspiração evangélica.

14. O ensino da Igreja em matéria social proporciona as grandes orientações éticas. Mas para que possa atingir directamente a acção, precisa de pessoas competentes, do ponto de vista científico e técnico, bem como no domínio das ciências humanas e da política. Os pastores estarão atentos à formação destas pessoas competentes, profundamente impregnadas pelo Evangelho. São aqui visados, em primeiro lugar, os leigos, cuja missão específica é a de construir a sociedade.

15. As teses das “teologias da libertação” estão sendo largamente difundidas, sob uma forma ainda simplificada, nos cursos de formação ou nas comunidades de base, que carecem de preparação catequética e teológica e de capacidade de discernimento. São assim aceites, por homens e mulheres generosos, sem que seja possível um juízo crítico.

16. É por isso que os pastores devem vigiar sobre a qualidade e o conteúdo da catequese e da formação que devem sempre apresentar a integralidade da mensagem da salvação e os imperativos da verdadeira libertação humana, no quadro desta mensagem integral.

17. Nesta apresentação integral do mistério cristão, será oportuno acentuar os aspectos essenciais que as “teologias da libertação” tendem especialmente a desconhecer ou eliminar: transcendência e gratuidade da libertação em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem; soberania de sua graça; verdadeira natureza dos meios de salvação, e especialmente da Igreja e dos sacramentos.
Tenham-se presentes o verdadeiro significado da ética, para a qual a distinção entre o bem e o mal não pode ser relativizada; o sentido autêntico do pecado; a necessidade da conversão e a universalidade da lei do amor fraterno.
Chame-se a atenção contra uma politização da existência, que, desconhecendo ao mesmo tempo a especificidade do Reino de Deus e a transcendência da pessoa, acaba sacralizando a política e abusando da religiosidade do povo em proveito de iniciativas revolucionárias.

18. É frequente dirigir aos defensores da «ortodoxia» a acusação de passividade, de indulgência ou de cumplicidade culpáveis frente a situações intoleráveis de injustiça e de regimes políticos que mantêm estas situações. A conversão espiritual, a intensidade do amor a Deus e ao próximo, o zelo pela justiça e pela paz, o sentido evangélico dos pobres e da pobreza, são exigidos a todos, especialmente aos pastores e aos responsáveis.
A preocupação pela pureza da fé não subsiste sem a preocupação de dar a resposta de um testemunho eficaz de serviço ao próximo e, em especial, ao pobre e ao oprimido, através de uma vida teologal integral. Pelo testemunho de sua capacidade de amar, dinâmica e construtiva, os cristãos lançarão, sem dúvida, as bases desta «civilização do amor» de que falou, depois de Paulo VI, a Conferência de Puebla. [34] De resto, são numerosos os sacerdotes, religiosos ou leigos, que se consagram de um modo verdadeiramente evangélico à criação de uma sociedade justa.

CONCLUSÃO

As palavras de Paulo VI, na Profissão de fé do povo de Deus, exprimem, com meridiana clareza, a fé da Igreja, da qual ninguém pode afastar-se sem provocar, juntamente com a ruína espiritual, novas misérias e novas escravidões.

«Nós professamos que o Reino de Deus iniciado aqui na terra, na Igreja de Cristo, não é deste mundo, cuja figura passa, e que o seu crescimento próprio não se pode confundir com o progresso da civilização, da ciência ou da técnica humanas, mas consiste em conhecer cada vez mais profundamente as insondáveis riquezas de Cristo, em esperar cada vez mais corajosamente os bens eternos, em responder cada vez mais ardentemente ao amor de Deus e em difundir cada vez mais amplamente a graça e a santidade entre os homens.
Mas é este mesmo amor que leva a Igreja a preocupar-se constantemente com o bem temporal dos homens. Não cessando de lembrar aos seus filhos que eles não têm aqui na terra uma morada permanente, anima-os também a contribuir, cada qual segundo a sua vocação e os meios de que dispõem, para o bem de sua cidade terrestre, a promover a justiça, a paz e a fraternidade entre os homens, a prodigalizar-se na ajuda aos irmãos, sobretudo aos mais pobres e mais infelizes.
A intensa solicitude da Igreja, esposa de Cristo, pelas necessidades dos homens, as suas alegrias e esperanças, os seus sofrimentos e os seus esforços, não é mais que o seu grande desejo de estar presente para os iluminar com a luz de Cristo e reuni-los todos nele, seu único Salvador.
Esta solicitude não pode, em hipótese alguma, comportar que a própria Igreja se conforme às coisas deste mundo, nem que diminua o ardor da espera pelo seu Senhor e pelo Reino eterno ». [35]

O Sumo-Pontífice João Paulo 11, no decorrer de uma Audiência concedida ao Cardeal Prefeito que subscreve este documento, aprovou a presente Instrução, deliberada em reunião ordinária da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, e ordenou que a mesma fosse publicada.

Roma, Sede da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, 6 de Agosto de 1984, na Festa da Transfiguração do Senhor.

Joseph Card. Ratzinger
Prefeito

SB Alberto Bovone
Arcebispo tit. de Cesárea de Numidia
Secretário

(revisão da versão portuguesa por ama)
______________________________________________
Notas:
[34] Cf. Doc. de Puebla, IV, 2, n. 2. 4.
[35] Paulo PP. VI, Profissão de Fé do Povo de Deus, 30 de Junho de 1968: AAS 60, 1968, pp. 443-444.




15/09/2014

Se formos humildes, Deus não nos abandonará nunca

Essas depressões por veres ou por outros descobrirem os teus defeitos, não têm fundamento... Pede a verdadeira humildade. (Sulco, 262)

Quanto maior és, mais te deves humilhar em todas as coisas, e acharás graça diante de Deus. Se formos humildes, Deus não nos abandonará nunca. Ele humilha a altivez do soberbo, mas salva os humildes. Ele liberta o inocente, que pela pureza das suas mãos será resgatado. A infinita misericórdia do Senhor não tarda em vir socorrer quem o chama com humildade. E então actua como quem é: como Deus omnipotente. Ainda que haja muitos perigos, ainda que a alma pareça acossada, ainda que se encontre cercada por todos os lados pelos inimigos da sua salvação, não perecerá. E isto não é apenas tradição doutros tempos, pois continua a acontecer agora.
(…) Nós, sem manifestações espectaculares, com a normalidade da vida cristã corrente, com uma sementeira de paz e de alegria, temos também de destruir muitos ídolos: o da incompreensão, o da injustiça, o da ignorância, o da pretensa suficiência humana que volta com arrogância as costas a Deus.
Não vos assusteis nem temais nada, mesmo que as circunstâncias em que trabalheis sejam tremendas, piores que as de Daniel no fosso com aqueles animais vorazes. As mãos de Deus continuam a ser igualmente poderosas e, se fosse necessário, fariam maravilhas. (Amigos de Deus, 104)


Temas para meditar - 237


Paz



As autoridades que, em lugar de fazer o que está em suas mãos para promover eficazmente a paz, fomentam nos cidadãos sentimentos de hostilidade relativamente a outras nações, assumem uma gravíssima responsabilidade.
Que dizer, também, dos governos que se apoiam nas armas nucleares para garantir a segurança do seu país? Junto com inumeráveis pessoas de boa vontade, pode afirmar-se que esta solução, além de funesta, é totalmente falaz. Com efeito, numa guerra nuclear não haveria vencedores, mas apenas vítimas. A verdade da paz exige que todos - tanto os governos que de maneira declarada ou oculta possuem armas nucleares, como os que querem possuí-las - invertam conjuntamente a sua orientação com opções claras e firmes, encaminhando-se para um desarme nuclear progressivo e acordado. Os recursos poupados deste modo poderiam empregar-se em projectos de desenvolvimento a favor de todos os habitantes e, em primeiro lugar, dos mais pobres.
A este propósito, tem de mencionar-se com amargura os dados sobre um aumento preocupante dos gastos militares e do comércio sempre próspero de armas, enquanto ficam como estancadas no pântano de uma indiferença quase geral o processo político e jurídico empreendido pela Comunidade Internacional para consolidar o caminho do desarmamento.

(bento xviMensag. no dia mundial da paz, 2006.01.01)

Lacrimosa



Evang., Coment. Leit. Espiritual (Cong. Dout. da Fé Decl. Teologia da libertação)

Tempo comum XXIV Semana

Nossa Senhora das Dores

Evangelho: Jo 19, 25-27

«25 Estavam, de pé, junto à cruz de Jesus, Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. 26 Jesus, vendo Sua mãe e, junto dela, o discípulo que amava, disse a Sua mãe: «Mulher, eis o teu filho». 27 Depois disse ao discípulo: «Eis a tua mãe». E, desde aquela hora, o discípulo recebeu-a na sua casa.»

Comentário:

Ó Mater dolorosa junto da Cruz donde o Filho pendia
Estoicamente participando
No Sacrifício supremo, lacrimosa
Mas orando
Ao Pai que tal consente.
Ó Mater dolorosa
Que te traz aqui, Senhora minha?
Não sabes que Ele morreu?
Esse Filho teu
Teve uma morte gloriosa
Que na Cruz
Nos salvou a todos
Da morte mais horrorosa
A que ao pecado conduz.
Ó Mater Dolorosa
Como é bela a tua dor
Que torna mais preciosa
A morte do Salvador.

(ama, meditação sobre Lc 2, 32-15, Convento de Monte Real 2010.09.15)

Leitura espiritual


Documentos do Magistério
SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

INSTRUÇÃO
SOBRE ALGUNS ASPECTOS DA
TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO”

X - UMA NOVA HERMENÊUTICA

1. A concepção partidarista da verdade, que se manifesta na praxis revolucionária de classe, corrobora esta posição. Os teólogos que não compartilham as teses da “teologia da libertação”, a hierarquia e sobretudo o Magistério romano são assim desacreditados a priori, como pertencentes à classe dos opressores. A teologia deles é uma teologia de classe. Os argumentos e ensinamentos não merecem pois ser examinados em si mesmos, uma vez que reflectem simplesmente os interesses de uma classe. Por isso, decreta-se que o discurso deles é, em princípio, falso.

2. Aparece aqui o carácter global e totalizante da “teologia da libertação”. Por isso mesmo, deve ser criticada não nesta ou naquela afirmação que ela faz, mas a partir do ponto de vista de classes que ela adopta a priori e que nela funciona como princípio hermenêutico determinante.

3. Por causa deste pressuposto classista, torna-se extremamente difícil, para não dizer impossível, conseguir com alguns “teólogos da libertação” um verdadeiro diálogo, no qual o interlocutor seja ouvido e seus argumentos sejam discutidos objetivamente e com atenção. Com efeito estes teólogos mais ou menos conscientemente, partem do pressuposto de que o ponto de vista da classe oprimida e revolucionária, que seria o mesmo deles constitui o único ponto de vista da verdade. Os critérios teológicos da verdade, vêem-se, deste modo, relativizados e subordinados aos imperativos da luta de classes. Nesta perspectiva substitui-se a ortodoxia como regra correcta da fé pela ideia da ortopráxis, como critério de verdade. A este respeito, é preciso não confundir a orientação prática, própria à teologia tradicional, do mesmo modo e pelo mesmo título que lhe é própria também a orientação especulativa, com um primado privilegiado, conferido a um determinado tipo de praxis. Na realidade esta última é a praxis revolucionária que se tornaria assim critério supremo da verdade teológica. Uma metodologia teológica sadia toma em consideração, sem dúvida, a praxis da Igreja e nela encontra um dos seus fundamentos, mas isto porque essa praxis é decorrência da fé e constitui uma expressão vivenciada dessa fé.

4. A doutrina social da Igreja é rejeitada com desdém. Esta procede, afirma-se, da ilusão de um possível compromisso, próprio das classes médias, destituídas de sentido histórico.

5. A nova hermenêutica inserida nas “teologias da libertação” conduz a uma releitura essencialmente política da Escritura. É assim que se atribui a máxima importância ao acontecimento do Êxodo, enquanto libertação da escravidão política. Propõe-se igualmente una leitura política do Magnificat. O erro aqui não está em privilegiar uma dimensão política das narrações bíblicas; mas em fazer desta dimensão a dimensão principal e exclusiva, o que leva a uma leitura redutora da Escritura.

6. Quem assim procede, coloca-se por isso mesmo na perspectiva de um messianismo temporal, que é uma das expressões mais radicais da secularização do Reino de Deus e de sua absorção na imanência da história humana.

7. Privilegiar deste modo a dimensão política, é o mesmo que ser levado a negar a radical novidade do Novo Testamento e, antes de tudo, a desconhecer a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, bem como o carácter específico da libertação que Ele nos traz e que é fundamentalmente libertação do pecado, fonte de todos os males.

8. Aliás, pôr de lado a interpretação autorizada do Magistério, denunciada como interpretação de classe, é afastar-se automaticamente da Tradição. É, por isso mesmo, privar-se de um critério teológico essencial para a interpretação e acolher no vazio assim criado, as teses mais radicais da exegese racionalista. Retoma-se, então, sem espírito crítico, a oposição entre o “Jesus da história” e o “Jesus da fé”.

9. Conserva-se, sem dúvida, a letra das fórmulas da fé, especialmente a de Calcedónia, mas atribui-se a essas fórmulas um novo significado, que constitui uma negação da fé da Igreja. De um lado, rejeita-se a doutrina cristológica apresentada pela Tradição, em nome do critério de classe; e de outro lado, pretende-se chegar ao “Jesus da história” a partir da experiência revolucionária da luta dos pobres pela sua libertação.

10. Pretende-se reviver uma experiência análoga à que teria sido a de Jesus. A experiência dos pobres lutando pela sua libertação, que teria sido a de Jesus, e só ela, revelaria assim o conhecimento do verdadeiro Deus e do Reino.

11. É claro que a fé no Verbo encarnado, morto e ressuscitado por todos os homens, a Quem “Deus fez Senhor e Cristo” [25] é negada. Toma o seu lugar uma “figura” de Jesus, uma espécie de símbolo que resume em si mesmo as exigências da luta dos oprimidos.

12. Propõe-se assim uma interpretação exclusivamente política da morte de Cristo. Nega-se desta maneira o seu valor salvífico e toda a economia da redenção.

13. A nova interpretação atinge assim todo o conjunto do mistério cristão.

14. De um modo geral, ela opera o que se poderia chamar de inversão dos símbolos. Assim, em lugar de ver no Êxodo com São Paulo, uma figura do batismo, [26] se tenderá ao extremo de fazer deste um símbolo da libertação política do povo.

15. Pelo mesmo critério hermenêutico, aplicado à vida eclesial e à constituição hierárquica da Igreja, as relações entre a hierarquia e a “base” tornam-se relações de dominação que obedecem à lei da luta de classes. A sacramentalidade, que está na raiz dos ministérios eclesiásticos e que faz da Igreja uma realidade espiritual que não se pode reduzir a uma análise puramente sociológica, é simplesmente ignorada.

16. Verifica-se ainda a inversão dos símbolos no domínio dos sacramentos. A Eucaristia não é mais entendida na sua verdade de presença sacramental do sacrifício reconciliador e como dom do Corpo e do Sangue de Cristo. Torna-se celebração do povo na sua luta. Por conseguinte, a unidade da Igreja é radicalmente negada. A unidade, a reconciliação, a comunhão no amor não mais são concebidas como um dom que recebemos de Cristo. [27] É a classe histórica dos pobres que, mediante o combate, construirá a unidade. A luta de classes é o caminho desta unidade. A Eucaristia torna-se, deste modo, Eucaristia de classe. Nega-se também, ao mesmo tempo a força triunfante do amor de Deus que nos é dado.

XI - ORIENTAÇÕES

1. Chamar a atenção para os graves desvios que algumas “teologias da libertação” trazem consigo não deve, de modo algum, ser interpretado como uma aprovação, ainda que indirecta, aos que contribuem para a manutenção da miséria dos povos, aos que dela se aproveitam, aos que se acomodam ou aos que ficam indiferentes perante esta miséria. A Igreja, guiada pelo Evangelho da Misericórdia e pelo amor ao homem, escuta o clamor pela justiça [28] e deseja responder com todas as suas forças.

2. Um imenso apelo é assim dirigido à Igreja. Com audácia e coragem, com clarividência e prudência, com zelo e força de ânimo, com um amor aos pobres que vai até ao sacrifício, os pastores, como muitos já fazem, hão-de considerar como tarefa prioritária responder a este apelo.

3. Todos aqueles, sacerdotes, religiosos e leigos que, auscultando o clamor pela justiça, quiserem trabalhar na evangelização e na promoção humana, fá-lo-ão em comunhão com seu bispo e com a Igreja, cada um na linha de sua vocação eclesial específica.

4. Conscientes do carácter eclesial de sua vocação, os teólogos colaborarão lealmente e em espírito de diálogo com o Magistério da Igreja. Saberão reconhecer no Magistério um dom de Cristo à sua Igreja [29] e acolherão a sua palavra e as suas orientações com respeito filial.

5. Somente a partir da tarefa evangelizadora, tomada na sua integralidade, se compreendem as exigências de uma promoção humana e de uma libertação autênticas. Esta libertação tem como pilares indispensáveis, a verdade sobre Jesus Cristo, o Salvador, a verdade sobre a Igreja, a verdade sobre o homem e sobre a sua dignidade. [30] É à luz das bem-aventuranças, da bem-aventurança dos pobres de coração em primeiro lugar, que a Igreja, desejosa de ser no mundo inteiro a Igreja dos pobres, quer servir a nobre causa da verdade e da justiça. Ela dirige-se a cada homem e, por isso mesmo, a todos os homens. Ela é a “Igreja universal. A Igreja do mistério da encarnação. Não é a Igreja de uma classe ou de uma só casta. Ela fala em nome da própria verdade. Esta verdade é realista”. Ela leva a ter em conta “cada realidade humana, cada injustiça, cada tensão, cada luta”. [31]

6. Uma defesa eficaz da justiça deve apoiar-se na verdade do homem, criado à imagem de Deus e chamado à graça da filiação divina. O reconhecimento da verdadeira relação do homem com Deus constitui o fundamento da justiça, enquanto regula as relações entre os homens. Esta é a razão pela qual o combate pelos direitos do homem, que a Igreja não cessa de promover, constitui o autêntico combate pela justiça.

7. A verdade do homem exige que este combate seja conduzido por meios que estejam de acordo com a dignidade humana. Por isso o recurso sistemático e deliberado à violência cega, venha de um lado ou de outro, deve ser condenado. [32] Pôr a confiança em meios violentos na esperança de instaurar uma maior justiça é ser vítima de uma ilusão fatal. Violência gera violência e degrada o homem. Rebaixa a dignidade do homem na pessoa das vítimas e avilta esta mesma dignidade naqueles que a praticam.

8. A urgência de reformas radicais que incidam sobre estruturas que segregam a miséria e constituem, por si mesmas, formas de violência, não podem fazer perder de vista que a fonte da injustiça se encontra no coração dos homens. Não se obterão pois mudanças sociais que estejam realmente ao serviço do homem senão fazendo apelo às capacidades éticas da pessoa e à constante necessidade de conversão interior. [33] Pois na medida em que colaborarem livremente, por sua própria iniciativa e em solidariedade, nestas necessárias mudanças, os homens, despertados no sentido de sua responsabilidade, crescerão em humanidade. A inversão entre moralidade e estruturas é própria de uma antropologia materialista, incompatível com a verdade do homem.

9. É pois igualmente ilusão fatal crer que novas estruturas darão origem por si mesmas a um “homem novo”, no sentido da verdade do homem. O cristão não pode desconhecer que o Espírito Santo que nos foi dado é a fonte de toda verdadeira novidade e que Deus é o senhor da história.

(cont)
(revisão da versão portuguesa por ama)

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Notas:
[25] Cf. At 2, 36.
[26] Cf. 1 Cor 10, 1-2.
[27] Cf. Ef 2, 11-12.
[28] Cf. Doc. de Puebla, I, 2, n. 3. 3.
[29] Cf. Lc 10, 16.
[30] Cf. João Paulo PP. II, Discurso na abertura da Conferência de Puebla: AAS 71, 1979, pp. 188-186.
[31] Cf. João Paulo PP. II, Discurso na Favela “Vidigal”, no Rio de Janeiro, 2 de Julho de 1980: AAS 72, 1980, pp. 852-858.
[32] Cf. Doc. de Puebla, II, 2, n. 5. 4.
[33] Cf. Doc. de Puebla, IV, 3, n. 3. 3.





14/09/2014

Temas para meditar 236


Amor humano



O amor humano autêntico é um reflexo fiel do amor de Deus. Por isso, o amor está caracterizado por um profundo respeito para todos os homens, prescindindo de que a sua raça, o seu credo ou qualquer outra coisa os torne diferentes. O amor responde generosamente às necessidades dos pobres e está caracterizado pela piedade para com os que sofrem. O amor está disposto a oferecer hospitalidade e é fiel nos tempos difíceis. Está sempre disposto a perdoar, a esperar e a corresponder a uma blasfémia com uma bênção.

(SÃO JOÃO PAULO IIHomília em Singapura, 1986.11.22)

Evang., Coment. Leit. Espiritual (Cong. Dout. da Fé Decl. Teologia da libertação)

Tempo comum XXIV Semana

Exaltação da Santa Cruz

Evangelho: Jo 3, 13-17

13 Ninguém subiu ao céu, senão Aquele que desceu do céu, o Filho do Homem, que está no céu. 14 E como Moisés levantou no deserto a serpente, assim também importa que seja levantado o Filho do Homem, 15 a fim de que todo o que crê n'Ele tenha a vida eterna. 16 «Porque Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu Seu Filho Unigénito, para que todo aquele que crê n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. 17 Porque Deus não enviou Seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele.

Comentário:

Como consolam estas palavras do Senhor: «Deus não enviou Seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele»!
Não obstante as nossas fraquezas e debilidades Ele, o Filho de Deus, é o Salvador.
Olhando para a Cruz não podemos deixar de abismar-nos com a dimensão extraordinária, absoluta, da Misericórdia Divina!

É o nosso ‘talismã’, o ‘passaporte’ para a Vida Eterna.

Contemplar a Cruz é realizar o maior desejo do homem: Ser salvo!

(ama, comentário sobre Jo 3, 13-17, 2013.09.14)


Leitura espiritual


Documentos do Magistério

SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

INSTRUÇÃO
SOBRE ALGUNS ASPECTOS DA
TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

VIII - SUBVERSÃO DO SENSO DA VERDADE E VIOLÊNCIA

1. Esta concepção totalizante impõe assim a sua lógica e leva as “teologias da libertação” a aceitar um conjunto de posições incompatíveis com a visão cristã do homem. Com efeito, o núcleo ideológico, tomado do marxismo e, que serve de ponto de referência, exerce a função de princípio determinante. Este papel é-lhe confiado em virtude da qualificação de científico, quer dizer, de necessariamente verdadeiro, que lhe é atribuída. Neste núcleo podem distinguir-se diversos componentes.

2. Na lógica do pensamento marxista, a “análise” não é dissociável da praxis e da concepção da história à qual esta praxis está ligada, A análise é pois um instrumento de crítica e a crítica não passa de uma etapa do combate revolucionário. Este combate é o da classe do Proletariado investido de sua missão histórica.

3. Em consequência, somente quem participa deste combate pode fazer uma análise correcta.

4. A consciência verdadeira é pois uma consciência “partidarista”. Pelo que se vê, é a própria concepção da verdade que aqui está em causa e que se encontra totalmente subvertida: não existe verdade – afirma-se – a não ser na e pela praxis “partidarista”.

5. A praxis e a verdade que dela deriva, são praxis e verdade partidaristas, porque a estrutura fundamental da história está marcada pela luta de classes. Existe pois uma necessidade objectiva de entrar na luta de classes (que é o reverso dialético da relação de exploração que se denuncia). A verdade é a verdade de classe – não há verdade senão no combate da classe revolucionária.

6. A lei fundamental da história, que é a lei da luta de classes, implica que a sociedade esteja fundada sobre a violência. À violência que constitui a relação de dominação dos ricos sobre os pobres deverá responder a contra-violência revolucionária, mediante a qual esta relação será invertida.

7. A luta de classes é pois apresentada como uma lei objectiva e necessária. Ao entrar no seu processo, do lado dos oprimidos, “faz-se” a verdade, age-se “cientificamente”. Em consequência, a concepção da verdade vai a par com a afirmação da violência necessária e, por isso, com a do amoralismo político. Nesta perspectiva, a referência a exigências éticas, que prescrevam reformas estruturais e institucionais radicais e corajosas perde totalmente o sentido.

8. A lei fundamental da luta de classes tem um carácter de globalidade e de universalidade. Ela reflete-se em todos os domínios da existência, religiosos, éticos, culturais e institucionais. Em relação a esta lei, nenhum destes domínios é autónomo. Em cada um esta lei constitui o elemento determinante.

9. Quando se assumem estas teses de origem marxista é, em particular, a própria natureza da ética que é radicalmente questionada. De faxto, o caráxter transcendente da distinção entre o bem e o mal, princípio da moralidade, encontra-se implicitamente negado na óptica da luta de classes.

IX - TRADUÇÃO “TEOLÓGICA” DESTE NÚCLEO IDEOLÓGICO

1. As posições aqui expostas encontram-se às vezes enunciadas com todos os seus termos em alguns escritos de “teólogos da libertação”. Noutros, elas deduzem-se logicamente das premissas colocadas. Em outros ainda, são pressupostas em certas práticas litúrgicas (como por exemplo a “Eucaristia” transformada em celebração do povo em luta), embora quem participa destas práticas não esteja plenamente consciente disso. Estamos pois diante de um verdadeiro sistema, mesmo quando alguns hesitam em seguir a sua lógica até o fim. Como tal, este sistema é uma perversão da mensagem cristã, como esta foi confiada por Deus à Igreja. Esta mensagem encontra-se pois posta em xeque, na sua globalidade, pelas “teologias da libertação”.

2. Não é o facto das estratificações sociais, com as conexas desigualdades e injustiças, é a teoria da luta de classes como lei estrutural fundamental da história que é recebida por estas “teologias da libertação”, na qualidade de princípio. A conclusão a que se chega é que a luta de classes, entendida deste modo, divide a própria Igreja e em função dela se devem julgar as realidades eclesiais. Pretende-se ainda que afirmar que o amor, na sua universalidade, é um meio capaz de vencer aquilo que constitui a lei estrutural primária da sociedade capitalista, seria manter, de má-fé, uma ilusão falaz.

3. Dentro desta concepção, a luta de classes é o motor da história. A história torna-se assim uma noção central. Afirmar-se-á que Deus se fez história. Acrescentar-se-á que não existe senão uma única história, na qual já não é preciso distinguir entre história da salvação e história profana. Manter a distinção seria cair no “dualismo”. Semelhantes afirmações reflectem um imanentismo historicista. Tende-se deste modo a identificar o Reino de Deus e o seu advento com o movimento de libertação humana e a fazer da mesma história o sujeito de seu próprio desenvolvimento como processo da auto-redenção do homem por meio de luta de classes. Esta identificação está em oposição com a fé da Igreja, como foi relembrada pelo Concílio Vaticano II. [23]

4. Nesta linha, alguns chegam até ao extremo de identificar o próprio Deus com a história e a definir a fé como “fidelidade à história”, o que significa fidelidade comprometida com uma prática política, afinada com a concepção do devir da humanidade concebido no sentido de um messianismo puramente temporal.

5. Por conseguinte, a fé, a esperança e a caridade recebem um novo conteúdo: são “fidelidade à história”, “confiança no futuro”, “opção pelos pobres”. É o mesmo que dizer que são negadas na sua realidade teologal.

6. Desta nova concepção deriva inevitavelmente uma politização radical das afirmações da fé e dos juízos teológicos. Já não se trata somente de chamar a atenção para as consequências e incidências políticas das verdades de fé que seriam respeitadas antes de tudo no seu valor transcendente. Toda e qualquer afirmação de fé ou de teologia vê-se subordinada a um critério político, que, por sua vez, depende da teoria da luta de classes, como motor da história.

7. Apresenta-se por conseguinte o ingresso na luta de classes como uma exigência da própria caridade; denuncia-se como atitude desmobilizadora e contrária ao amor pelos pobres a vontade de amar, de saída, todo homem, qualquer que seja a classe a que pertença, e de ir ao seu encontro pelas vias não-violentas do diálogo e da persuasão. Mesmo afirmando que ele não pode ser objecto de ódio, afirma-se com a mesma força que, pelo facto de pertencer objectivamente ao mundo dos ricos, ele é, antes de tudo, um inimigo de classe a combater. Como consequência, a universalidade do amor ao próximo e a fraternidade transformam-se num princípio escatológico que terá valor somente para o “homem novo”, que surgirá da revolução vitoriosa.

8. Quanto à Igreja, a tendência é de encará-la simplesmente como uma realidade dentro da história, sujeita ela também às leis que, segundo se pensa, governam o devir histórico na sua imanência. Esta redução esvazia a realidade específica da Igreja, dom da graça de Deus e mistério da fé. Contesta-se, igualmente, que a participação na mesma Mesa eucarística de cristãos que, por acaso, pertençam a classes opostas, tenha ainda algum sentido.

9. No seu significado positivo, a Igreja dos pobres indica a preferência, sem exclusivismo, dada aos pobres, segundo todas as formas de miséria humana, porque eles são os predilectos de Deus. A expressão significa ainda que a Igreja, como comunhão e como instituição, assim como os membros da mesma Igreja, tomam consciência, no nosso tempo, das exigências da pobreza evangélica.

10. Mas as “teologias da libertação”, que têm o mérito de haver revalorizado os grandes textos dos profetas e do Evangelho acerca da defesa dos pobres, passam a fazer uma amálgama perniciosa entre o pobre da Escritura e o proletariado de Marx. Perverte-se deste modo o sentido cristão do pobre e o combate pelos direitos dos pobres transforma-se em combate de classes na perspectiva ideológica da luta de classes. A Igreja dos pobres significa então Igreja classista, que tomou consciência das necessidades da luta revolucionária como etapa para a libertação e que celebra esta libertação na sua liturgia.

11. É necessário fazer uma observação análoga a respeito da expressão Igreja do povo. Do ponto de vista pastoral, pode entender-se com essa expressão os destinatários prioritários da evangelização, aqueles para os quais, em virtude de sua condição, se volta primeiro que tudo o amor pastoral da Igreja. É possível referir-se também à Igreja como “povo de Deus”, ou seja, como o povo da Nova Aliança realizada em Cristo. [24]

12. As “teologias da libertação”, a que aqui nos referimos, porém, entendem por Igreja do povo a Igreja da luta libertadora organizada. O povo assim entendido chega mesmo a tornar-se, para alguns, objecto de fé.

13. A partir de semelhante concepção da Igreja do povo, elabora-se uma crítica das próprias estruturas da Igreja. Não se trata apenas de uma correcção fraterna dirigida aos pastores da Igreja, cujo comportamento não reflicta o espírito evangélico de serviço e se apegue a sinais anacrónicos de autoridade que escandalizam os pobres. Trata-se, sim, de pôr em xeque a estrutura sacramental e hierárquica da Igreja, tal como a quis o próprio Senhor. São denunciados na Hierarquia e no Magistério os representantes objectivos da classe dominante, que é preciso combater. Teologicamente, esta posição equivale a afirmar que o povo é a fonte dos ministérios e portanto pode dotar-se de ministros à sua escolha, de acordo com as necessidades de sua missão revolucionária histórica.

(cont)
(revisão da versão portuguesa por ama)
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Notas:
[23] Cf. Lumen gentium, nn. 9-17.
[24] Cf. Gaudium et spes, n. 39.