03/09/2014

Temas para meditar 225


Visita ao Santíssimo Sacramento


Senhor Jesus! Apresentamo-nos perante Ti sabendo que nos chamas e que nos amas tal como somos. Tu tens palavras de vida eterna e nós acreditámos e conhecemos que Tu és o Filho de Deus (Jo 6, 69). A Tua presença na Eucaristia começou com o sacrifício da Última Ceia e continua como comunhão e doação de tudo quanto és. Aumenta a nossa fé (…). Tu és a nossa esperança, a nossa paz, o nosso Mediador, irmão e amigo. O nosso coração enche-se de gozo e de esperança ao saber que vives sempre intercedendo por nós (Heb 7, 25). A nossa esperança traduz-se em confiança, gozo de Páscoa e caminho apressado contigo para o Pai.
Queremos sentir como Tu e valorizar as coisas como Tu as valorizas, Porque Tu és o centro, o princípio e o fim de tudo. Apoiados nesta esperança, queremos infundir no mundo esta escala de valores evangélicos, pela qual Deus e os seus dons salvíficos ocupam o primeiro lugar no coração e nas atitudes da vida concreta.
Queremos amar como Tu, que dás a vida e Te comunicas com tudo quanto és. Queríamos dizer como S. Paulo: A minha vida é Cristo (Flp 1, 21). A nossa vida não tem sentido sem Ti. Queremos aprender a “estar com quem sabemos que nos ama”, porque “com tão bom amigo presente nada se pode sofrer” (…).
Deste-nos a Tua Mãe como nossa, para que nos ensine a meditar e a orar no coração, Ela, recebendo a Palavra e pondo-a em prática, tornou-se a Mãe mais perfeita.


(são joão paulo ii, Alocução, Madrid, 1982.10.31)

O amor casto entre um homem e uma mulher

Admira a bondade do nosso Pai Deus: não te enche de alegria a certeza de que o teu lar, a tua família, o teu país, que amas com loucura, são matéria de santidade? (Forja, 689)

E agora, meus filhos e minhas filhas, permiti que me detenha noutro aspecto – particularmente querido – da vida comum. Refiro-me ao amor humano, ao amor casto entre um homem e uma mulher, ao noivado, ao matrimónio. Devo dizer uma vez mais que esse amor humano santo não é algo de permitido, de tolerado, à margem das verdadeiras actividades do espírito, como poderiam insinuar os falsos espiritualismos a que antes aludia. Há quarenta anos que venho pregando exactamente o contrário, através da palavra e da escrita, e os que não compreendiam já o vão entendendo.


O amor que conduz ao matrimónio e à família pode ser também um caminho divino, vocacional, maravilhoso, meio para uma completa dedicação ao nosso Deus. Realizai as coisas com perfeição, tenho-vos recordado, ponde amor nas pequenas actividades da jornada, descobri – insisto – esse quê divino que se oculta nos pormenores: toda esta doutrina encontra um lugar especial no espaço vital em que o amor humano se enquadra. (Temas Actuais do Cristianismo, 121)

Evang., Coment. Leit. Espiritual (Instr. Libertatis Conscientia)

Tempo comum XXII Semana

São Gregório Magno – Papa e Doutor da Igreja

Evangelho: Lc 4, 38-44

38 Saindo Jesus da sinagoga, entrou em casa de Simão. Ora a sogra de Simão estava com febre muito alta. Pediram-Lhe por ela. 39 Ele, inclinando-Se para ela, ordenou à febre, e a febre deixou-a. Ela, levantando-se logo, servia-os. 40 Quando foi sol-posto, todos os que tinham doentes de diversas moléstias, traziam-Lhos. E Ele, impondo as mãos sobre cada um, curava-os. 41 De muitos saíam os demónios, gritando: «Tu és o Filho de Deus». Mas Ele repreendia-os severamente e impunha-lhes silêncio, porque sabiam que Ele era o Cristo. 42 Quando se fez dia, tendo saído, foi para um lugar solitário. As multidões foram à Sua procura e, tendo-O encontrado, tentavam retê-l'O para que não se afastasse deles. 43 Mas Ele disse-lhes: «É necessário que Eu anuncie também às outras cidades a boa nova do reino de Deus, pois para isso é que fui enviado». 44 E andava pregando nas sinagogas da Judeia.

Comentário:

O Evangelista não refere que a sogra de Pedro tenha rompido, como muitos outros, em louvores e acções de graças pela cura alcançada.
Diz que ela «levantando-se logo, servia-os».
O serviço, mesmo simples e sem notoriedade é verdadeira Acção de Graças porque nada é mais agradável ao Senhor – o Servo por excelência – que imitá-lo servindo.

(ama, comentário sobre Lc 4, 38-44, 2013.09.05)


Leitura espiritual


Documentos do Magistério
CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

INSTRUÇÃO
LIBERTATIS CONSCIENTIA
SOBRE A LIBERDADE CRISTÃ E A LIBERTAÇÃO

CAPÍTULO V

A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA: POR UMA PRAXIS CRISTÃ DA LIBERTAÇÃO

II. Exigências evangélicas de transformações em profundidade

Necessidade de uma transformação cultural

81. Um desafio sem precedente é hoje lançado aos cristãos que se esforçam por realizar aquela «civilização do amor» que reúne toda a herança ético-social do Evangelho. Essa tarefa exige uma reflexão nova sobre aquilo que constitui a relação entre mandamento supremo do amor e ordem social, compreendida em toda a sua complexidade.

Finalidade directa de tal reflexão em profundidade é a elaboração e actuação de programas de acção audaciosos, com vista à libertação socioeconómica de milhões de homens e mulheres, cuja situação de opressão económica, social e política é intolerável.

Essa acção deve começar por um imenso esforço de educação: educação para a civilização do trabalho, educação para a solidariedade, acesso de todos à cultura.

Evangelho do trabalho

82. A vida de Jesus em Nazaré, verdadeiro «Evangelho do trabalho», oferece-nos um vivo exemplo e o princípio da radical transformação cultural indispensável para resolver os graves problemas que a nossa época deve enfrentar. Aquele que, sendo Deus, se fez semelhante a nós em tudo, durante a maior parte de sua vida terrena entregou-se a um trabalho manual. 123 A cultura que a nossa época espera, será caracterizada pelo pleno reconhecimento da dignidade do trabalho humano, que aparece em toda a sua nobreza e fecundidade à luz dos mistérios da Criação e da Redenção. 124 Reconhecido como expressão da pessoa, o trabalho torna-se fonte de sentido e esforço criador.

Uma verdadeira civilização do trabalho

83. Dessa forma, a solução da maioria dos gravíssimos problemas da miséria encontra-se na promoção de uma verdadeira civilização do trabalho. De certa forma, o trabalho é a chave de toda a questão social. 125

É, pois, no campo do trabalho que deve ser empreendida, prioritariamente, uma acção evangelizadora na liberdade. Uma vez que a, relação entre pessoa humana e trabalho é radical e vital, as formas e modalidades que regulamentam tal relação exercerão uma influência positiva, em vista da solução do conjunto de problemas sociais e políticos que se apresentam a cada povo. Relações de trabalho justas prefigurarão um sistema de comunidade política apto a favorecer o desenvolvimento integral de toda a pessoa humana.

Se o sistema das relações de trabalho, posto em funcionamento pelos protagonistas directos, trabalhadores e empregadores, com o indispensável apoio dos poderes públicos, consegue dar origem a uma civilização do trabalho, produzir-se-á, então, na maneira de ver dos povos e até nas bases institucionais e políticas, uma profunda revolução pacífica.

Bem comum nacional e internacional

84. Uma tal cultura do trabalho deverá supor e pôr em acção um certo número de valores essenciais. Ela reconhecerá que a pessoa do trabalhador é princípio, sujeito e fim da actividade laboriosa. Afirmará a prioridade do trabalho sobre o capital e a destinação universal dos bens materiais. Será animada pelo senso de uma solidariedade que não comporta apenas direitos a reivindicar, mas também deveres a cumprir. Implicará a participação, visando promover o bem comum nacional e internacional e não apenas a defesa de interesses individuais ou corporativos. Ela assimilará o método do confronto pacífico e do diálogo franco e vigoroso.

Por seu lado, as autoridades políticas tornar-se-ão sempre mais capazes de agir no respeito às legítimas liberdades dos indivíduos, das famílias, dos grupos subsidiários, criando assim as condições necessárias para que o homem possa alcançar o seu bem verdadeiro e integral, inclusive o seu fim espiritual 126.

O valor do trabalho humano

85. Uma cultura que reconheça a eminente dignidade do trabalhador, evidenciará a dimensão subjectiva do trabalho. 127 O valor de cada trabalho humano não se deduz, em primeiro lugar, do trabalho realizado; ele tem o seu fundamento no facto de que quem o executa é uma pessoa.1 28 Trata-se, portanto, de um critério ético, cujas exigências são evidentes.

Assim, todo homem tem direito ao trabalho, direito esse que deve ser reconhecido de forma prática, através de um efectivo empenho em vista de se resolver o dramático problema do desemprego. É intolerável que este mantenha em uma situação de marginalização amplas parcelas da população, e, notadamente, da juventude. Por isso, a criação de postos de trabalho é uma tarefa social primordial, que se impõe aos indivíduos e à iniciativa privada, mas igualmente ao Estado. Como regra geral, aqui como em outros campos, o Estado tem uma função subsidiária; mas frequentemente pode ser chamado a intervir directamente, como no caso de acordos internacionais entre diversos Estados. Tais acordos devem respeitar o direito dos emigrantes e de suas famílias. 129

Promover a participação

86. O salário, que não pode ser concebido como uma simples mercadoria, deve permitir ao trabalhador e à sua família terem acesso a um nível de vida verdadeiramente humano na ordem material, social, cultural e espiritual. É a dignidade da pessoa que constitui o critério para julgar o trabalho, e não o contrário. Seja qual for o tipo de trabalho, o trabalhador deve poder vivê-lo como expressão da sua personalidade. Daí decorre a exigência de uma participação que, muito mais que uma partilha dos frutos do trabalho, deveria comportar uma verdadeira dimensão comunitária em nível de projectos, de iniciavas e de responsabilidades. 130

Prioridade do trabalho sobre o capital

87. A prioridade do trabalho sobre o capital faz com que os empresários tenham o dever de justiça de considerar o bem dos trabalhadores antes do aumento dos lucros. Eles têm a obrigação moral de não manter capitais improdutivos, e de procurar, nos investimentos, antes de tudo, o bem comum. Este último exige que se busque, como prioridade, a consolidação ou a criação de novos postos de trabalho, na produção de bens realmente úteis.

O direito à propriedade privada não é concebível sem os seus deveres para com o bem comum. Ele é subordinado ao princípio superior da destinação universal dos bens. 131

Reformas em profundidade

88. Esta doutrina deve inspirar reformas, antes que seja tarde demais. O acesso de todos aos bens requeridos por uma vida humana, pessoal e familiar, digna desse nome, é uma exigência primária da justiça social. Sua aplicação deve abranger a área do trabalho industrial e, de um modo todo especial, a do trabalho agrícola. 132 Com efeito, os camponeses, sobretudo no Terceiro Mundo, formam a massa preponderante dos pobres. 133

III. Promoção da solidariedade

Uma nova solidariedade

89. A solidariedade é uma exigência directa da fraternidade humana e sobrenatural. Os graves problemas socio-económicos, que hoje se apresentam, só poderão ser resolvidos se novas frentes de solidariedade forem criadas: solidariedade dos pobres entre si; solidariedade com os pobres, para a qual os ricos são convocados; solidariedade dos trabalhadores e com os trabalhadores. As instituições e organizações sociais, em diferentes níveis, como também o Estado, devem participar de um movimento geral de solidariedade. Ao fazer este apelo, a Igreja sabe que também ela encontra-se envolvida nele de um modo todo particular.

A destinação universal dos bens

90. O princípio da destinação universal dos bens, juntamente com o da fraternidade humana e sobrenatural, impõe aos países mais ricos deveres para os países pobres. Deveres que são de solidariedade na ajuda aos países em vias de desenvolvimento; de justiça social, mediante uma revisão, em termos correios, das relações comerciais entre Norte e Sul e pela promoção de um mundo mais humano para todos, onde cada um possa dar e receber, e onde o progresso de uns não seja mais um obstáculo ao desenvolvimento de outros, nem um pretexto para a sua sujeição. 134

Ajuda ao desenvolvimento

91. A solidariedade internacional é uma exigência de ordem moral. Ela não se impõe unicamente nos casos de extrema urgência, mas também como ajuda ao verdadeiro desenvolvimento. Trata-se de uma obra comum, que requer um esforço convergente e constante para se encontrarem as soluções técnicas concretas, mas também para criar uma nova mentalidade nos homens deste tempo. A paz mundial, em grande parte, depende disso. 135

(cont)
(Revisão da versão portuguesa por ama)
____________________________________
Notas:
123 Cfr. João Paulo II, Enc.Laborem Exercem, n. 6: AAS 73 (1981), 589-592.
124 Cfr. Loc. cit., cap. V: ibid., 637-647.
125 Cfr. Loc. cit., n. 3: ibid., 583-584; Alocução em Loreto, 10 de maio de 1985: AAS 77 (1985), 967-969.
126 Cfr. Paulo VI, Carta apost. Octogesima Adveniens, n. 46: AAS 63 (1971), 633-635.
127 Cfr. João Paulo II, Enc. Laborem Exercem, n. 6: AAS 73 (1981), 589-592.
128 Cfr. Ibid.
129 Cfr. João Paulo II, Exort. apost. Familiaris Consortio, n. 46: AAS 74 (1982), 137-139; Enc. Laborem Exercens, n. 23: AAS 73 (1981), 635-637; Santa Sé, Carta dos direitos da família, art. 12: L’Osservatore Romano, 25 de novembro de 1983.
130 Cfr. Const. past. Gaudium et Spes, n. 68; João Paulo II, Enc. Laborem Exercem, n. 15: AAS 73 (1981), 616-618; Discurso de 3 de julho de 1980: L’Osservatore Romano, 5 de julho de 1980, 1-2.
131 Cfr. Const. past. Gaudium et Spes, n. 69; João Paulo II, Enc. Laborem Exercens, nn. 12. 14: AAS 73 (1981), 605-608. 612-616.
132 Cfr. Pio XI, Enc. Quadragesimo Anno, n. 72: AAS 23 (1931), 200; João Paulo II, Enc. Laborem Exercens, n. 19: AAS 73 (1981), 625-629.
133 Cfr. Documento da 2a Conferência do Episcopado latino-americano em Medellin, Justiça, I. 9; Documento da 3a Conferência do Episcopado latino-americano em Puebla, nn. 31. 35. 1245.
134 Cfr. João XXII, Enc. Mater et Magistra, n. 163: AAS 53 (1961), 443; Paulo VI, Enc. Populorum Progressio, n. 51: AAS 59 (1967), 282; João Paulo II, Discurso ao Corpo Diplomático, 11 de janeiro de 1986: L’Osservatore Romano, 12 de janeiro de 1986, 4-5.
135 Cfr. Paulo VI, Enc. Populorum Progressio, n. 55: AAS 59 (1967), 284.





02/09/2014

Bento VXI – Pensamentos espirituais 14


Um deserto grande e assustador


Do ponto de vista espiritual, o mundo em que nos encontramos, muitas marcado pelo consumismo desenfreado, pela indiferença religiosa por um secularismo que se fecha à transcendência, pode parecer um deserto tão inóspito como aquele de que nos fala a primeira leitura, tirada do Livro do Deuteronómio (Dt 8, 15).



(BENTO XVI, Homilia da Missa de encerramento do XXIV Congresso Eucarístico Nacional italiano, Bari, 2005.05.29)


Temas para meditar 224


Celibato



O celibato e a castidade perfeita dão à alma, ao coração e à vida externa de quem os professa, aquela liberdade de que tanta necessidade tem o apóstolo para se poder dedicar ao bem das outras almas. Esta virtude, que torna os homens espirituais e fortes, livres e ágeis, habitua-os ao mesmo tempo a ver ao seu redor almas e não corpos, almas que esperam a luz da sua palavra e da sua oração, e a caridade do seu tempo e do seu afecto.


(salvatore canalsAscética Meditada, Col. Éfeso, 4ª Ed., pg. 92)

Os filhos são o que há de mais importante

Há dois pontos capitais na vida dos povos: as leis acerca do matrimónio e as leis acerca do ensino; e aí têm de estar firmes os filhos de Deus, lutando bem e com nobreza, por amor a todas as criaturas. (Forja, 104)

A paternidade e a maternidade não terminam com o nascimento; essa participação no poder de Deus, que é a faculdade de gerar, há-de prolongar-se na cooperação com o Espírito Santo, para que culmine com a formação de autênticos homens cristãos e autênticas mulheres cristãs.

Os pais são os principais educadores dos seus filhos, tanto no aspecto humano como no sobrenatural, e hão-de sentir a responsabilidade dessa missão, que exige deles compreensão, prudência, saber ensinar e, sobretudo, saber amar; e devem preocupar-se por dar bom exemplo. A imposição autoritária e violenta não é caminho acertado para a educação. O ideal para os pais é chegarem a ser amigos dos filhos; amigos a quem se confiam as inquietações, a quem se consulta sobre os problemas, de quem se espera uma ajuda eficaz e amável.


É necessário que os pais arranjem tempo para estar com os filhos e falar com eles. Os filhos são o que há de mais importante; mais importante do que os negócios, do que o trabalho, do que o descanso. Nessas conversas, convém escutá-los com atenção, esforçar-se por compreendê-los, saber reconhecer a parte de verdade – ou a verdade inteira – que possa haver em algumas das suas rebeldias. E, ao mesmo tempo, apoiar as suas aspirações, ensiná-los a ponderar as coisas e a raciocinar; não lhes impor uma conduta, mas mostrar-lhes os motivos, sobrenaturais e humanos, que a aconselham. Numa palavra, respeitar a sua liberdade, já que não há verdadeira educação sem responsabilidade pessoal, nem responsabilidade sem liberdade. (Cristo que passa, 27)

Evang., Coment. Leit. Espiritual (Instr. Libertatis Conscientia)

Tempo comum XXII Semana

Evangelho: Lc 4, 31-37

31 Foi a Cafarnaum, cidade da Galileia, e ali ensinava aos sábados. 32 Admiravam-se da Sua doutrina, porque falava com autoridade. 33 Estava na sinagoga um homem possesso de um demónio imundo, o qual exclamou em alta voz: 34 «Deixa-nos. Que tens Tu que ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder? Sei quem és: o Santo de Deus». 35 Jesus o repreendeu, dizendo: «Cala-te e sai desse homem». E o demónio, depois de o ter lançado por terra no meio de todos, saiu dele sem lhe fazer nenhum mal. 36 Todos se atemorizaram e falavam uns com os outros, dizendo: «Que é isto, Ele manda com autoridade e poder aos espíritos imundos, e estes saem?» 37 E a Sua fama ia-se espalhando por todos os lugares da região.

Comentário:

As pessoas que ouviam Jesus admiravam-se da «Sua doutrina, porque falava com autoridade».
No apostolado – missão de todo o cristão – não se pode falar sem a certeza absoluta que o que se diz é correcto. A Doutrina bem estruturada é fundamental para que os outros possam acreditar em nós e, como pretendemos, ser convencidos a acreditar em Jesus Cristo Nosso Senhor.
Até ao fim da nossa vida não deve passar um dia sem que aprofundemos a Doutrina que enforma a nossa Fé.

(ama, comentário sobre Lc 4, 31-37, 2012.09.04)

Leitura espiritual


Documentos do Magistério
CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

INSTRUÇÃO
LIBERTATIS CONSCIENTIA
SOBRE A LIBERDADE CRISTÃ E A LIBERTAÇÃO

CAPÍTULO V

A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA: POR UMA PRAXIS CRISTÃ DA LIBERTAÇÃO

I. Natureza da doutrina social da Igreja

Princípios fundamentais

Critérios de julgamento

74. Esses princípios estabelecem critérios para efectuar um julgamento acerca das situações, das estruturas e dos sistemas sociais.

Assim, a Igreja não hesita em denunciar as situações de vida que lesem a dignidade e a liberdade do homem.

Tais critérios permitem também julgar o valor das estruturas. Estas são o conjunto das instituições e das práticas que os homens já encontram em acção ou criam, em plano nacional e internacional, e que orientam ou organizam a vida económica, social e política. Em si necessárias, elas tendem, frequentemente, a fixarem-se e enrijecerem-se em mecanismos relativamente independentes da vontade humana, paralisando ou pervertendo assim o desenvolvimento social e gerando a injustiça. No entanto, elas dependem sempre da responsabilidade do homem, que pode modificá-las, e não de um pretenso determinismo da história.

As instituições e as leis, quando são conformes à lei natural e ordenadas ao bem comum, são a garantia da liberdade das pessoas e da sua promoção. Não se pode condenar todos os aspectos coercitivos da estabilidade de um estado de direito digno desse nome. Pode-se falar, portanto, de estruturas marcadas pelo pecado, mas não se pode condenar as estruturas enquanto tais.

Os critérios de julgamento dizem respeito também aos sistemas econômicos, sociais e políticos. A doutrina social da Igreja não propõe algum sistema particular, mas à luz dos seus princípios fundamentais, permite ver em que medida os sistemas existentes são ou não conformes às exigências da dignidade humana.

Primado das pessoas sobre as estruturas

75. A Igreja tem certamente consciência da complexidade dos problemas que as sociedades devem enfrentar e das dificuldades de se encontrar soluções adequadas. No entanto, ela pensa ser necessário, antes de tudo, apelar para as capacidades espirituais e morais da pessoa e para a exigência permanente de conversão interior, se se quiser obter mudanças económicas e sociais que estejam realmente ao serviço do homem.

O primado atribuído às estruturas e à organização técnica e não à pessoa e às exigências da sua dignidade, é a expressão de uma antropologia materialista, contrária à edificação de uma ordem social justa. 112

Entretanto, a prioridade reconhecida à liberdade e à conversão do coração não elimina, de forma alguma, a necessidade de uma mudança das estruturas injustas. É, portanto, plenamente legítimo que aqueles que sofrem opressão por parte dos detentores da riqueza ou do poder político ajam, por meios moralmente lícitos, a fim de obter estruturas e instituições nas quais os seus direitos sejam verdadeiramente respeitados.

A verdade, porém, é que as estruturas instauradas para o bem das pessoas, por si mesmas são incapazes de realizá-lo e de garanti-lo. Prova-o a corrupção que, em certos países, atinge dirigentes e burocracia de Estado, destruindo qualquer vida social honesta. A rectidão dos costumes é condição indispensável para a saúde da sociedade. É preciso, pois, trabalhar, ao mesmo tempo, pela conversão dos corações e pela melhoria das estruturas, pois o pecado que se encontra na origem das situações injustas é, em sentido próprio e primário, um acto voluntário que tem a sua origem na liberdade da pessoa. É só num sentido derivado e secundário que é aplicado às estruturas e que se pode falar de «pecado social». 113

Por outro lado, no processo de libertação, não se pode fazer abstracção da situação histórica da nação, nem atentar contra a identidade cultural do povo. Por conseguinte, não se pode aceitar passivamente – e menos ainda activamente apoiar – grupos que, pela força ou pela manipulação da opinião, se apoderem do aparelho estatal para impor abusivamente à colectividade uma ideologia importada, oposta aos verdadeiros valores culturais do povo. 114 A esse propósito, convém recordar a grave responsabilidade moral e política dos intelectuais.

Diretrizes de acção

76. Os princípios fundamentais e os critérios de julgamento inspiram directrizes de acção: uma vez que o bem comum da sociedade humana está ao serviço das pessoas, os meios de acção devem ser conformes à dignidade do homem e favorecer a educação da sua liberdade. Este é um critério seguro de julgamento e de acção: não haverá verdadeira libertação se, desde o princípio, não forem respeitados os direitos da liberdade.

É preciso denunciar, no recurso sistemático à violência apresentado como caminho necessário da libertação, uma ilusão destruidora, que abre estrada a novas servidões. Deve condenar-se, com o mesmo vigor, a violência contra os pobres, exercida pelos que têm posses, o arbítrio policial, como também toda forma de violência transformada em sistema de governo. Nesses campos, é preciso saber aprender das lições de trágicas experiências que a história do nosso século conheceu e conhece ainda. Não se pode tampouco admitir a culpável cumplicidade dos poderes públicos nas democracias em que a situação social de um grande número de homens e mulheres está longe de corresponder ao que exigem os direitos individuais e sociais constitucionalmente garantidos.

Uma luta pela justiça

 77 . Quando encoraja a criação e a acção de associações como os sindicatos, que lutam pela defesa dos direitos e dos interesses legítimos dos trabalhadores e pela justiça social, nem por isso a Igreja admite a teoria que vê na luta de classes o dinamismo estrutural da vida social. A acção que preconiza não é a luta de uma classe contra outra, em vista de obter a eliminação do adversário; ela não procede da submissão aberrante a uma pretensa lei da história. Trata-se, antes, de uma luta nobre e ponderada, visando a justiça e a solidariedade sociais. 115 O cristão preferirá sempre a via do diálogo e do acordo.

Cristo deu-nos o mandamento do amor aos inimigos. 116 No espírito do Evangelho, a libertação é, portanto, incompatível com o ódio pelo outro, considerado individual ou colectivamente, inclusive com o ódio ao inimigo.

O mito da revolução

78. Situações de grave injustiça requerem a coragem de reformas em profundidade e a supressão de privilégios injustificáveis. Porém, os que descreem do caminho das reformas em proveito do mito da revolução, não apenas alimentam a ilusão de que a abolição de uma situação iníqua basta por si mesma para criar uma sociedade mais humana, mas ainda favorecem o advento de regimes totalitários. 117 A luta contra as injustiças só tem sentido se for conduzida para a instauração de uma nova ordem social e política conforme às exigências da justiça. Esta deve determinar as etapas da sua instauração, já desde o início. Existe uma moralidade dos meios. 118

Um recurso extremo

79. Esses princípios devem ser aplicados especialmente no caso extremo do recurso à luta armada, indicado pelo Magistério como remédio último para pôr fim a uma «tirania evidente e prolongada, que atingisse gravemente os direitos fundamentais das pessoas e prejudicasse perigosamente o bem comum de um país». 119 Entretanto, a aplicação concreta desse meio não pode ser encarnada, senão após uma análise muito rigorosa da situação. Com efeito, por causa do contínuo desenvolvimento das técnicas empregues e da crescente gravidade dos perigos implicados no recurso à violência, o que hoje vem sendo chamado de «resistência passiva» abre um caminho mais conforme aos princípios morais e não menos prometedor de êxito.

Jamais poderia admitir-se, nem por parte do poder constituído nem por parte dos grupos sublevados, o recurso a meios criminosos como as represálias feitas contra a população, a tortura, os métodos do terrorismo e a provocação calculada para acarretar a morte de pessoas durante manifestações populares. São igualmente inadmissíveis as odiosas campanhas de calúnia, capazes de destruir uma pessoa, psíquica e moralmente.

O papel dos leigos

80. Não compete aos Pastores da Igreja intervir directamente na construção política e na organização da vida social. Tal tarefa faz parte da vocação dos leigos, agindo por sua própria iniciativa, juntamente com seus concidadãos. 120 Eles devem realizá-la, conscientes que a finalidade da Igreja é difundir o Reino de Cristo para que todos os homens sejam salvos e que, por eles, o mundo seja efectivamente ordenado a Cristo. 121

A obra da salvação aparece, pois, indissoluvelmente unida à missão de melhorar e elevar as condições da vida humana neste mundo.

A distinção entre ordem sobrenatural da salvação e ordem temporal da vida humana deve ser vista sob o prisma de um único desígnio de Deus, o de recapitular todas as coisas em Cristo. É por isso que, num e outro campo, o leigo, ao mesmo tempo fiel e cidadão, deve deixar-se guiar constantemente pela consciência cristã. 122

A acção social, que pode comportar uma pluralidade de caminhos concretos, terá sempre em vista o bem comum e será conforme à mensagem e ao ensinamento da Igreja. Evitar-se-á que a diferença de opiniões prejudique o sentido da colaboração, conduza à paralisia dos esforços ou produza desorientação no povo cristão.

A orientação dada pela doutrina social da Igreja deve estimular a aquisição das competências técnicas e científicas indispensáveis. Ela estimulará também a busca da formação moral do carácter e o aprofundamento da vida espiritual. Fornecendo princípios e conselhos de sabedoria, essa doutrina não dispensa a educação para a prudência política, indispensável para o governo e gestão das realidades humanas.

(cont)
(Revisão da versão portuguesa por ama)
____________________________________
Notas:
112 Cfr. Paulo VI, Exort. apost. Evangelii Nuntiandi, n. 18: AAS 68 (1976), 17-18; Instr. Libertatis Nuntius, XI, 9: AAS 76 (1984), 901.
113 Cfr. João Paulo II, Exort. apost. Reconciliatio et Poenitentia, n. 16: AAS 77 (1985), 213-217.
114 Cfr. Paulo VI, Carta apost. Octogesima Adveniens, n. 25: AAS 63 (1971), 419-420.
115 Cfr. João Paulo II, Enc. Laborem Exercem, n. 20: AAS 73 (1981), 629-632; Instr. Libertatis Nuntius, VII, 8; VIII, 5-9; XI, 11-14: AAS 76 (1984), 891-892. 894-895. 901-902.
116 Cfr. Mt 5, 44; Lc 6, 27-28. 35.
117 Cfr. Instr. Libertatis Nuntius, XI, 10: AAS 76 (1984), 905-906.
118 Cfr. João Paulo II, Homilia em Drogheda, 30 de setembro de 1979: AAS 71 (1979), 1076-1085; Documento da 3a Conferência do Episcopado latino-americano em Puebla, nn. 533-534.
119 Paulo VI, Enc. Populorum Progressio, n. 31: AAS 59 (1967), 272-273; cfr. PIO XI, Carta enc. Nos es muy conocida: AAS 29 (1937), 208-209.
120 Cfr. Const. past. Gaudium et Spes, n. 76 § 3; Decr. Apostolicam Actuositatem, n. 7.
121 Cfr. Loc. cit., n. 20.
122 Cfr. Loc. cit., n. 5.





01/09/2014

Temas para meditar 223


Palavra da vida



A palavra da vida não espera; se não nos apropriamos dela levá-la-á o demónio. Ele não é preguiçoso, antes tem os olhos sempre abertos e está sempre preparado para saltar, e levar consigo o Dom que vós não usais.


(Btº. j. h. newman Sermão para o Domingo da Sexagésima: Chamadas da Graça)

Temas para meditar 223


Sinais


Ao curar, ao curar a lepra, o Senhor realiza grandes sinais. Estes sinais serviam para manifestar a potência de Deus ante as doenças da alma: ante o pecado. A mesma reflexão se desenvolve no Salmo responsorial, que proclama precisamente a bem-aventurança do perdão dos pecados: Ditoso o que foi absolvido da sua culpa… (Sal 31, 1). Jesus cura a doença física, mas ao mesmo tempo liberta do pecado. Revela-Se desta forma com o Messias anunciado pelos Profetas, que tomou sobre si as nossas enfermidades e assumiu os nossos pecados (cfr. Is 53,3-12) para nos libertar de toda a doença espiritual e material.


(Btº JOÃO PAULO IIHomília no estádio de Maracanã, Rio de Janeiro, 1980.07.02)

Temas para meditar 223


Comunhão



A oração e a comunhão não são para se fazer ou desejar pela devoção que nelas sentimos, porque isso é procurar-se a si mesmo e não a Deus; mas devemos ser assíduos numa e noutra para nos tornarmos humildes, obedientes, gentis e pacientes.



(S. FILIPE DE NERI Maxim’s F.W.Faber Cromwell Press SN12 8PH nr. 4 -35)

O descanso não é não fazer nada

Todos os pecados – disseste-me – parece que estão à espera do primeiro momento de ócio. O próprio ócio já deve ser um pecado! – Quem se entrega a trabalhar por Cristo não há-de ter um momento livre, porque o descanso não é não fazer nada; é distrair-se em actividades que exigem menos esforço. (Caminho, 357)

Hás-de ser um carvão ardente que pegue fogo por toda a parte. E, onde o ambiente for incapaz de arder, hás-de aumentar a sua temperatura espiritual.
Se não, estás a perder o tempo miseravelmente e a fazê-lo perder aos que te rodeiam. (Sulco, 194)

Tudo o que se acaba e não contenta Deus, é nada e menos que nada. Compreendem porque é que uma alma deixa de saborear a paz e a serenidade quando se afasta do seu fim, quando se esquece de que Deus a criou para a santidade? Esforcem-se por nunca perder este ponto de mira sobrenatural, nem sequer nos momentos de diversão ou de descanso, tão necessários como o trabalho na vida de cada um. (Amigos de Deus, 10)


Evang., Coment. Leit. Espiritual (Instr. Libertatis Conscientia)

Tempo comum XXII Semana

Evangelho: Lc 4, 16-30

16 Foi a Nazaré, onde Se tinha criado, entrou na sinagoga, segundo o Seu costume, em dia de sábado, e levantou-Se para fazer a leitura. 17 Foi-Lhe dado o livro do profeta Isaías. Quando desenrolou o livro, encontrou o lugar onde estava escrito: 18 “O Espírito do Senhor repousou sobre Mim; pelo que Me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres; Me enviou para anunciar a redenção aos cativos, e a recuperação da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, 19 a pregar um ano de graça da parte do Senhor”. 20 Tendo enrolado o livro, deu-o ao encarregado, e sentou-Se. Os olhos de todos os que se encontravam na sinagoga estavam fixos n'Ele. 21 Começou a dizer-lhes: «Hoje cumpriu-se este passo da Escritura que acabais de ouvir». 22 E todos davam testemunho em Seu favor, e admiravam-se das palavras de graça que saíam da Sua boca, e diziam: «Não é este o filho de José?». 23 Então disse-lhes: «Sem dúvida que vós Me aplicareis este provérbio: “Médico, cura-te a ti mesmo”. Todas aquelas grandes coisas que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum, fá-las também aqui na Tua terra». 24 Depois acrescentou: «Em verdade vos digo que nenhum profeta é bem recebido na sua terra. 25 Em verdade vos digo que muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando foi fechado o céu durante três anos e seis meses e houve uma grande fome por toda a terra; 26 e a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma mulher viúva de Sarepta, do território de Sidónia. 27 Muitos leprosos havia em Israel no tempo do profeta Eliseu; e nenhum deles foi curado, senão o sírio Naaman». 28 Todos os que estavam na sinagoga, ouvindo isto, encheram-se de ira. 29 Levantaram-se, lançaram-n'O fora da cidade, e conduziram-n'O até ao cume do monte sobre o qual estava edificada a cidade, para O precipitarem. 30 Mas, passando no meio deles, retirou-Se.

Comentário:

O preconceito é um dos mais terríveis defeitos que se podem ter. O preconceituoso tem o entendimento como que cerrado a qualquer outra coisa que não seja o que se “encaixa” perfeitamente no seu modo de ver e avaliar as coisas.
Por vezes, atinge tal dimensão que impede ver e ouvir e, não ouvindo nem vendo não pode entender e, se não entende, como poderá aceitar?

(ama, comentário sobre Lc 4, 16-30, 2014.05.30)

Leitura espiritual


Documentos do Magistério

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

INSTRUÇÃO
LIBERTATIS CONSCIENTIA
SOBRE A LIBERDADE CRISTÃ E A LIBERTAÇÃO
CAPÍTULO IV

A MISSÃO LIBERTADORA DA IGREJA

II. O amor preferencial pelos pobres

Jesus e a pobreza

66. Cristo Jesus, sendo rico, fez-se pobre para nos enriquecer por meio da sua pobreza. 95 São Paulo fala, aqui, do mistério da Encarnação do Filho eterno, que veio assumir a natureza humana mortal para salvar o homem da miséria na qual o pecado o tinha mergulhado.
Mais ainda, na condição humana, Cristo escolheu um estado de pobreza e de despojamento, 96 a fim de mostrar em que consiste a verdadeira riqueza a ser buscada, a da comunhão de vida com Deus. Ele ensinou o desapego das riquezas da terra para que se deseje as riquezas do céu. 97
Os Apóstolos que escolheu também tiveram que abandonar tudo e participar do seu despojamento. 98
Anunciado pelo Profeta como o Messias dos pobres, 99 é entre eles, os humildes, os «pobres de Javé» sedentos da justiça do Reino, que ele encontrou corações capazes de acolhê-lo.
Mas quis também estar perto daqueles que, mesmo ricos dos bens deste mundo, eram excluídos da comunidade, como «publicanos e pecadores», pois ele tinha vindo chamá-los à conversão. 100
É uma tal pobreza, feita de desapego, de confiança em Deus, de sobriedade, da disposição à partilha, que Jesus declarou bem-aventurada.

Jesus e os pobres

67. Mas Jesus não trouxe apenas a graça e a paz de Deus; também curou inúmeros enfermos; teve compaixão da multidão que não tinha o que comer, alimentando-a; com os discípulos que o seguiam, praticou a esmola. 101.
A Bem-aventurança da pobreza que proclamou não significa, pois, absolutamente, que os cristãos podem desinteressar-se dos pobres desprovidos do necessário à vida humana neste mundo. Fruto e consequência do pecado dos homens e da sua fragilidade natural, essa miséria é um mal de que é preciso, tanto quanto possível, libertar os seres humanos.

O amor preferencial pelos pobres
68. Sob as suas múltiplas formas – extrema privação material, opressão injusta, enfermidades físicas e psíquicas e, por fim, a morte – a miséria humana é o sinal manifesto da condição nativa de fraqueza na qual o homem se encontra após o primeiro pecado e da necessidade de uma salvação.
É por isso que ela atrai a compaixão de Cristo Salvador, que quis assumi-la sobre si, 102 identificando-se com os «mais pequeninos entre os seus irmãos» (Mt 25, 40. 45).
É também por isso que todos aqueles que ela atinge são objecto de um amor preferencial por parte da Igreja que, desde as suas origens, apesar das falhas de muitos dos seus membros, não deixou nunca de se esforçar por aliviá-los, defendê-los e libertá-los. Ela fá-lo através de inúmeras obras de beneficência, que continuam a ser, sempre e por toda a parte, indispensáveis. 103
Depois, através da sua doutrina social que se esforça por aplicar, procurou promover mudanças estruturais na sociedade, a fim de se alcançar condições de vida dignas da pessoa humana.
Pelo desapego das riquezas, que possibilita a partilha e abre ao Reino, 104 os discípulos de Jesus testemunham; através do amor aos pobres e aos infelizes, o próprio amor do Pai, que se manifestou no Salvador.
Esse amor vem de Deus e leva a Deus.
Os discípulos de Cristo sempre reconheceram nos dons depositados sobre o altar um dom oferecido ao próprio Deus.
Amando os pobres, enfim, a Igreja testemunha a dignidade do homem. Ela afirma claramente que este vale mais pelo que é do que pelo que possui. Ela testemunha que essa dignidade não pode ser destruída, seja qual for a situação de miséria, de desprezo, de rejeição e de impotência a que o homem foi reduzido.
Mostra-se solidária com aqueles que não contam para uma sociedade da qual se veem espiritual e às vezes até mesmo fisicamente rejeitados.
 De modo particular, a Igreja volta-se com afecto materno para os filhos que, por causa da maldade humana, nunca virão à luz, como também para as pessoas idosas, sós ou abandonadas.
A opção privilegiada pelos pobres, longe de ser um sinal de particularismo ou de sectarismo, manifesta a universalidade do ser e da missão da Igreja. Tal opção não é exclusiva nem excludente.

É por essa razão que a Igreja não pode exprimi-la com a ajuda de categorias sociológicas e ideológicas redutoras, que fariam de tal preferência uma opção partidária e de natureza conflituosa.

Comunidades de base e movimentos eclesiais
69. As novas comunidades de base e outros grupos de cristãos, formados para serem testemunhas deste amor evangélico, são um motivo de grande esperança para a Igreja.
Se viverem verdadeiramente em unidade com a Igreja local e a Igreja universal, serão uma autêntica expressão da comunhão e um meio de se construir uma comunhão mais profunda. 105
Serão fiéis à sua missão na medida em que tiverem o cuidado de educar os seus membros na integralidade da fé cristã, pela escuta da Palavra de Deus, pela fidelidade ao ensinamento do Magistério, à ordem hierárquica da Igreja e à vida sacramental.
Sob tais condições, a sua experiência, radicada num empenho pela libertação integral do homem, torna-se uma riqueza para a Igreja inteira.

A reflexão teológica
70. De maneira semelhante, uma reflexão teológica desenvolvida a partir de uma experiência particular pode constituir uma contribuição muito positiva, já que permite pôr em evidência aspectos da Palavra de Deus cuja riqueza total ainda não tinha sido plenamente percebida.
Mas para que tal reflexão seja verdadeiramente uma leitura da Escritura e não uma projecção sobre a Palavra de Deus de um sentido que ela não contém, o teólogo estará atento a interpretar a experiência, da qual ele parte, à luz da tradição e da experiência da própria Igreja. Essa experiência da Igreja brilha, com uma luminosidade singular e em toda a sua pureza, na vida dos santos.
Compete aos Pastores da Igreja, em comunhão com o Sucessor de Pedro, discernir a autenticidade de tais experiências.

CAPÍTULO V

A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA: POR UMA PRAXIS CRISTÃ DA LIBERTAÇÃO

A praxis cristã da libertação

71. A dimensão soteriológica da libertação não pode ser reduzida à dimensão socio-ética, que é uma consequência sua. Restituindo ao homem a verdadeira liberdade, a libertação radical realizada por Cristo atribui ao mesmo homem uma tarefa: a praxis cristã, que é a execução do grande mandamento do amor.
Este último é o princípio supremo da moral social cristã, fundada sobre o Evangelho e sobre toda a tradição desde os tempos apostólicos e a época dos Padres da Igreja até às recentes intervenções do Magistério.
Os consideráveis desafios de nossa época constituem um apelo urgente para se pôr em prática esta doutrina de acção.

I. Natureza da doutrina social da Igreja
Mensagem evangélica e vida social
72. O ensinamento social da Igreja nasceu do encontro da mensagem evangélica e de suas exigências, resumidas no mandamento supremo do amor, 106 com os problemas que emanam da vida da sociedade. Ele constituiu-se como uma doutrina, usando os recursos da sabedoria e das ciências humanas, diz respeito ao aspecto ético desta vida e leva em consideração os aspectos técnicos dos problemas, mas sempre para julgarmos do ponto de vista moral.
Essencialmente orientado para a acção, esse ensinamento desenvolve-se em função das circunstâncias mutáveis da história.
É por essa razão que, com princípios sempre válidos, ele comporta também juízos contingentes.
Longe de constituir um sistema fechado, permanece constantemente aberto às questões novas que não cessam de se apresentar; requer a contribuição de todos os carismas, experiências e competências.
Perita em humanidade, a Igreja oferece, na sua doutrina social, um conjunto de princípios de reflexão, de critérios de julgamento, 107 como também de directrizes de acção, 108 para que sejam realizadas as mudanças profundas que as situações de miséria e de injustiça estão a exigir e isso de uma maneira que sirva ao verdadeiro bem dos homens.

Princípios fundamentais
73, O mandamento supremo do amor conduz ao pleno reconhecimento da dignidade de cada homem, criado à imagem de Deus. Dessa dignidade decorrem direitos e deveres naturais.
À luz da imagem de Deus, a liberdade, prerrogativa essencial de pessoa humana, manifesta-se em toda a sua profundidade. As pessoas são o sujeito activo e responsável da vida social. 109
Ao fundamento, que é a dignidade do homem, estão intimamente ligados o princípio de solidariedade e o princípio de subsidiariedade.
Em virtude do primeiro, o homem deve contribuir, com os seus semelhantes, para o bem comum da sociedade, em todos os seus níveis. 110 Sob este ângulo, a doutrina da Igreja opõe-se a todas as formas de individualismo social ou político.
Em virtude do segundo, nem o Estado, nem sociedade alguma, jamais devem substituir-se à iniciativa e à responsabilidade das pessoas e das comunidades intermediárias, no nível em que essas possam agir, nem destruir o espaço necessário à liberdade das mesmas. 111
Por este lado, a doutrina social da Igreja opõe-se a todas as formas de colectivismo.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)
____________________________________
Notas:
95 Cfr. 2 Cor 8, 9.
96 Cfr. Lc 2, 7; 9, 58.
97 Cfr. Mt 6, 19-20. 24-34; 19-21.
98 Cfr. Lc 5, 11. 28; Mt 19, 27.
99 Cfr. Is 11, 4; 61, 1; Lc 4, 18.
100 Cfr. Mc 2, 13-17; Lc 19, 1-10.
101 Cfr. Mt 8, 16; 14, 13-21; Jo 13, 29.
102 Cfr. Mt 8, 17.
103 Cfr. Paulo VI, Enc. Populorum Progressio, nn. 12. 46: AAS 59 (1967), 262-263. 280; Documento da 3a Conferência do Episcopado latino-americano em Puebla, n. 476.
104 Cfr. At 2, 44-45.
105 Cfr. 2o Sínodo Extraordinário, Relatio finalis, II, C, 6: L’Osservatore Romano, 10 de dezembro de 1985, 7; Paulo VI, Exort. apost. Evangelii Nuntiandi, n. 58: AAS 68 (1976), 46-49; João Paulo II, Mensagem às Comunidades de Base, entregue em Manaus, 10 de julho de 1980.
106 Cfr. Mt 22, 37-40; Rm 13, 8-10.
107 Cfr. Paulo VI, Carta apost. Octogesima Adveniens, n. 4: AAS 63 (1971), 403-404; João Paulo II, Discurso inaugural de Puebla, III, 7: AAS 71 (1979), 203.
108 Cfr. João XXIII, Enc. Mater et Magistra, n. 235: AAS 53 (1961), 461.
109 Cfr. Const. past.Gaudium et Spes, n. 25.
110 Cfr. João XXIII, Enc. Mater et Magistra, nn. 132-133: AAS 53 (1961), 437.
111 Cfr. Pio XI, Enc. Quadragesimo Anno, nn. 79-80: AAS 23 (1931), 203; João XXIII, Enc. Mater et Magistra, n. 138: AAS 53 (1961), 439; Enc. Pacem in Terris, n. 74: AAS 55 (1963), 294-295.