13/09/2018

Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá


Cristo que passa 

71
         
Colírio nos olhos

O pecado dos fariseus não consistia em não verem Deus em Cristo, mas em encerrarem-se voluntariamente em si mesmos, em não tolerarem que Jesus, que é luz, lhes abrisse os olhos.
Este ensimesmamento tem resultados imediatos na vida de relação com os nossos semelhantes.
O fariseu que, por se considerar a si próprio como luz, não deixa que Deus lhe abra os olhos é o mesmo que trata soberba e injustamente o próximo: graças te dou, ó Deus, porque não sou como os outros homens: ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano, reza ele.
E ao cego de nascença, que persiste em contar a verdade da cura milagrosa, ofendem-no: Tu nasceste coberto de pecados e queres ensinar-nos? E lançaram-no fora.

Entre os que não conhecem Cristo há muitos homens honrados que, por elementar circunspecção, sabem comportar-se com delicadeza. São sinceros, cordiais, educados.
Se eles e nós não nos opusermos a que Cristo cure a cegueira que ainda existe nos nossos olhos, se permitirmos que o Senhor nos aplique esse lama que, nas suas mãos, se converte no mais eficaz colírio, compreenderemos as realidades terrenas, vislumbraremos as eternas com uma luz nova, a luz da fé, e adquiriremos um olhar limpo.

Esta é a vocação do cristão, ou seja, a plenitude dessa caridade que é paciente, é benigna; a caridade não é invejosa, não é temerária; não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo sofre.

A caridade de Cristo não é apenas um bom sentimento em relação ao próximo. Não se limita ao gosto pela filantropia.
A caridade, infundida por Deus na alma, transforma a partir de dentro a inteligência e a vontade, fundamenta sobrenaturalmente a amizade e a alegria de fazer o bem.

Contemplai a cena da cura do coxo, que os Actos dos Apóstolos nos contam.
Subiam Pedro e João ao templo e, ao passarem, encontraram um homem sentado à porta, que era coxo desde o seu nascimento.
Tudo recorda a cura do cego de que falávamos.
Mas agora os discípulos não pensam que a desgraça se deva aos pecados pessoais do doente ou às faltas dos seus pais.
E dizem-lhe: Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda. Antes, manifestavam incompreensão, agora misericórdia; antes, julgavam com temeridade, agora curam milagrosamente em nome do Senhor.
Sempre Cristo, que passa!
Cristo, que continua a passar pelas ruas e pelas praças do mundo, através dos seus discípulos, os cristãos. Peço-Lhe fervorosamente que passe pela alma de alguns dos que me escutam nestes momentos.

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Respeito e caridade

Surpreendia-nos ao princípio a atitude dos discípulos de Jesus diante do cego de nascimento.
Estavam na linha daquele rifão infeliz: pensa mal e acertarás.
Depois, quando conhecem melhor o Mestre, quando se apercebem do que significa ser cristão, as suas opiniões são inspiradas pela compreensão.

Em qualquer homem - escreve S. Tomás - existe algum aspecto pelo qual os outros podem considerá-lo como superior, conforme as palavras do Apóstolo: "levados pela humildade, julgai-vos uns aos outros como superiores" [1].
De acordo com isto, todos os homens devem honrar-se mutuamente. A humildade é a virtude que nos faz descobrir que as manifestações de respeito pela pessoa - pela sua honra, pela sua boa-fé, pela sua intimidade - não são convencionalismos exteriores, mas as primeiras manifestações da caridade e da justiça.

A caridade cristã não se limita a socorrer o necessitado de bens económicos; leva-nos, antes de mais nada, a respeitar e a defender cada indivíduo enquanto tal, na sua intrínseca dignidade de homem e de filho do Criador.
Por isso, os atentados à pessoa - à sua reputação, à sua honra - provam, em quem os comete, que não professa ou não pratica algumas verdades da nossa fé cristã e, sempre, a carência de um autêntico amor de Deus.
A caridade com que amamos a Deus e ao próximo é a mesma virtude, porque a razão de amar o próximo é precisamente Deus e amamos a Deus quando amamos o próximo com caridade.

Espero que sejamos capazes de tirar consequências muito concretas deste bocado de conversa na presença do Senhor, principalmente o propósito de não julgar os outros, de não os ofender sequer com a dúvida, de afogar o mal em abundância de bem, semeando ao nosso redor a convivência leal, a justiça e a paz, e a decisão de nunca nos entristecermos se a nossa conduta recta for mal entendida por outros, se o bem que - com a ajuda contínua do Senhor - procuramos realizar, for interpretado retorcidamente, atribuindo às nossas intenções, através de um processo ilícito, maus desígnios próprios de uma conduta dolosa e simuladora.
Perdoemos sempre, com um sorriso nos lábios.
Falemos com clareza, sem rancor, quando pensarmos em consciência que devemos falar.
E deixemos tudo nas mãos do Nosso Pai, Deus, com um divino silêncio - Iesus autem tacebat, Jesus, porém, estava calado -, se se trata de ataques pessoais, por mais brutais e indecorosos que sejam.
Preocupemo-nos apenas em fazer boas obras, pois Ele encarregar-se-á de que elas brilhem diante dos homens.

73
          
Como toda a festa cristã, esta que agora celebramos é especialmente uma festa de paz.
Os ramos, com o seu antigo simbolismo, evocam aquela cena do Génesis: depois de ter esperado outros sete dias, novamente deitou a pomba fora da arca.
E ela voltou a ele pela tarde trazendo no bico um ramo de oliveira com folhas verdes.
Entendeu, pois, Noé que as águas tinham cessado sobre a terra.
Agora recordamos que a aliança entre Deus e o seu povo é confirmada e estabelecida em Cristo, porque Ele é a nossa paz.
Nessa maravilhosa unidade e recapitulação do velho no novo, que caracteriza a liturgia da nossa Santa Igreja Católica, lemos no dia de hoje estas palavras de profunda alegria: os filhos dos hebreus, levando ramos de oliveira, saíram ao encontro do Senhor, aclamando e dizendo: glória nas alturas.

A aclamação a Jesus Cristo une-se, na nossa alma, com aquela que saudou o seu nascimento em Belém.
E, à sua passagem, conta-nos S. Lucas, as multidões estendiam os seus mantos no caminho. E, quando já ia chegando à descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos seus discípulos começou alegremente a louvar a Deus em altas vozes por todas as maravilhas que tinham visto, dizendo: Bendito o Rei que vem em nome do Senhor. Paz no Céu e glória nas alturas.

Paz na terra

Pax in coelo, paz no céu.
Mas olhemos também o mundo: porque é que não há paz na terra? Não, não há paz.
Há somente aparências de paz, equilíbrio de medo, compromissos precários.
Nem sequer há paz na Igreja, sulcada por tensões que retalham a branca túnica da Esposa de Cristo.
Não há paz em muitos corações que tentam em vão compensar a intranquilidade da alma com a distracção contínua, com a pequena satisfação dos bens que não saciam, porque deixam sempre o travo amargo da tristeza.

As folhas de palma, escreve Santo Agostinho, são o símbolo da homenagem, porque significam vitória.
O Senhor estava a momentos da vitória, morrendo na Cruz.
Ia triunfar, no sinal da Cruz, sobre o Diabo, príncipe da morte.
Cristo é a nossa paz porque venceu; e venceu porque lutou, no duro combate contra a maldade acumulada pelos corações humanos.

Cristo, que é a nossa paz, é também o Caminho. Se queremos a paz, temos de seguir os seus passos.
A paz é consequência da guerra, da luta, dessa luta ascética, íntima, que cada cristão deve sustentar contra tudo aquilo que, na sua vida, não é de Deus: contra a soberba, a sensualidade, o egoísmo, a superficialidade, a estreiteza do coração.
É inútil clamar pelo sossego exterior se falta tranquilidade nas consciências, no fundo da alma, porque é do coração que saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as fornicações, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfémias.

74
          
Luta, compromisso de amor e de justiça

Mas não parece antiquada esta linguagem?
Porventura não foi substituída por um vocabulário de moda feito de claudicações pessoais encobertas com uma roupagem pseudo-científica?
Não existirá hoje um acordo tácito em que os bens reais são apenas o dinheiro que tudo compra, o poder temporal, a astúcia para ficar sempre por cima, a sabedoria humana que se autodefine como adulta e pensa ter superado o sagrado?

Não sou nem nunca fui pessimista, porque a fé me diz que Cristo venceu definitivamente e nos deu, como prémio da sua conquista, um mandato, que é também um compromisso: lutar.
Nós, cristãos, temos um empenho de amor, que aceitamos livremente com a chamada da graça divina: uma obrigação que nos anima a lutar com tenacidade.
Sabemos que somos tão frágeis como os outros homens, mas também não podemos esquecer-nos de que, se usarmos os devidos meios, seremos o sal, a luz e a levedura do mundo.
Seremos o consolo de Deus.

O nosso empenho de perseverar com firmeza neste propósito de Amor é, além disso, um dever de justiça.
E a matéria desta exigência, comum a todos os fiéis, traduz-se numa batalha constante.
A tradição da Igreja sempre se referiu aos cristãos como milites Christi, soldados de Cristo; soldados que dão serenidade aos outros enquanto combatem continuamente contra as suas próprias más inclinações.
Às vezes, por falta de sentido sobrenatural, por uma descrença prática, não querem compreender de forma alguma como milícia a vida na Terra.
Insinuam maliciosamente que, se nos consideramos milites Christi, há o perigo de utilizarmos a fé para fins temporais de violência, de sedições.
Esse modo de pensar é um triste e pouco lógico simplismo, que costuma andar unido ao comodismo e à cobardia.

Nada há de mais estranho à fé católica do que o fanatismo.
Este conduz a estranhas confusões, com os mais diversos matizes, entre o que é profano e o que é espiritual.
Tal perigo não existe, se a luta se entende como Cristo no-la ensinou, isto é, como guerra de cada um consigo mesmo, como esforço sempre renovado por amar mais a Deus, por desterrar o egoísmo, por servir todos os homens.
Renunciar a esta contenda, seja com que desculpa for, é declarar-se de antemão derrotado, aniquilado, sem fé, com a alma caída e dissipada em complacências mesquinhas.

Para o cristão, o combate espiritual diante de Deus e de todos os irmãos na fé é uma necessidade, uma consequência da sua condição. Por isso, se alguém não luta, está a trair Jesus Cristo e todo o Corpo Místico, que é a Igreja.

(continua)


12/09/2018

Publicações NUNc COEPI 12 Set

El reto del amor






El Reto Del Amor

Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?









Temas para reflectir e meditar


O amor de Deus

Valha-me Deus!

De que me serve este constante exame a que me dedico com uma espécie de autoflagelação como um “condenado” a não ser mais que um miserável.

Sim… de me serve?

Eu não sou nenhum miserável, sou um filho de Deus com enormes defeitos e algumas virtudes e, tenho a certeza, é assim, apesar de ser assim, que Ele me ama.
Amar-me-ia mais se fosse diferente, melhor, sem defeitos nenhuns, só com virtudes?

Julgo que não porque então eu seria como que um Anjo, um espírito puro e simples e não creio que Deus Meu Senhor e Criador ame mais um que outro.

Ambos, somos, por exemplo, o Anjo da Minha Guarda e eu, criação Sua, diferentes – quase infinitamente diferentes – mas frutos do Seu Amor Eterno e Inexcedível.
Logo, os frutos do Amor de Deus não hão-de ter consideração diferente por parte de Quem os Criou.

AMA, reflexões, 20.06.2018

Evangelho e comentário


Tempo comum

Santíssimo Nome de Maria

Evangelho: Lc 6, 20-26

20 Erguendo os olhos para os discípulos, pôs-se a dizer: «Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. 21 Felizes vós, os que agora tendes fome, porque sereis saciados. Felizes vós, os que agora chorais, porque haveis de rir. 22 Felizes sereis, quando os homens vos odiarem, quando vos expulsarem, vos insultarem e rejeitarem o vosso nome como infame, por causa do Filho do Homem. 23 Alegrai-vos e exultai nesse dia, pois a vossa recompensa será grande no Céu. Era precisamente assim que os pais deles tratavam os profetas». 24 «Mas ai de vós, os ricos, porque recebestes a vossa consolação! 25 Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome! Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis! 26 Ai de vós, quando todos disserem bem de vós! Era precisamente assim que os pais deles tratavam os falsos profetas».

Comentário:

Não é absolutamente certo afirmar que este trecho de São Lucas tenha a ver como chamado Sermão da Montanha.

Aqui parece que o Senhor Se dirige particularmente aos discípulos, ou seja, aqueles que O acompanhavam mais assiduamente e que, por isso mesmo deveriam ser objecto da Sua particular atenção.

Trata-se portanto, de uma autêntica catequese de formação muito clara e específica recorrendo a exemplos e chamando a atenção para os erros que se hão-de tentar difundir – sempre – ao longo dos tempos.

Segurança e confiança! Segurança na Fé e confiança em Cristo.

(AMA, comentário sobre Lc 6, 20-26, 18.05.2018)





Descanso significa represar: acumular forças


Sempre entendi o descanso como afastamento do trabalho diário; nunca como dias de ócio. Descanso significa represar: acumular forças, ideias, planos... Em poucas palavras: mudar de ocupação, para voltar depois – com novos brios – à actividade habitual. (Sulco, 514)

A santidade, o verdadeiro afã por alcançá-la, não faz pausas nem férias. (Sulco, 129)
Aproveita o tempo. Não te esqueças da figueira amaldiçoada. Já fazia alguma coisa: dar folhas. Como tu...
– Não me digas que tens desculpas. De nada valeu à figueira – narra o Evangelista – não ser tempo de figos, quando o Senhor lá os foi buscar.
– E estéril ficou para sempre. (Caminho, 354)

Lutai contra essa excessiva compreensão que cada um tem para consigo mesmo: sede exigentes para vós próprios. Às vezes, pensamos demasiadamente na saúde e no descanso, que aliás não deve faltar, precisamente porque é preciso voltar ao trabalho com forças renovadas. Esse descanso, porém, escrevi-o há já tantos anos, não é não fazer nada, mas distrairmo-nos em actividades que exigem menos esforço. (Amigos de Deus, 62)

Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Cristo que passa 68 a 70

68
         
É difícil fazer compreender a essas pessoas, em quem a deformação se torna quase uma segunda natureza, que é mais humano e mais verídico pensar bem dos outros.
Santo Agostinho dá o seguinte conselho: procurar viver as virtudes que, segundo julgais, faltam aos vossos irmãos e já não vereis os seus defeitos, porque não os tereis vós. Para alguns, este modo de proceder é uma ingenuidade. Eles são mais realistas, mais razoáveis.

Erigindo como norma de critério o preconceito, ofenderão qualquer pessoa sem ouvir razões.
Depois, objectivamente, bondosamente, talvez concedam ao injuriado a possibilidade de se defender.
Ora isto vai contra todo o direito e toda a moral, porque em lugar de serem eles a produzir a prova da pretensa falta, concedem ao inocente o privilégio de demonstrar a sua inocência.

Não seria sincero se não vos confessasse que as anteriores considerações são algo mais do que um simples respigar de tratados de direito e de moral.
Fundamentam-se numa experiência que têm sentido muitos na sua própria carne, por terem sido, com frequência e durante longos anos, o alvo de exercícios de tiro da murmuração, da difamação, da calúnia.
A graça de Deus e um feitio nada rancoroso fizeram com que nada disso tenha deixado neles o menor rasto de amargura.
Mihi pro minimo est, ut a vobis iudicer, pouco me importa ser julgado por vós, poderiam dizer com S. Paulo.
Às vezes, empregando palavras mais correntes, terão acrescentado que tudo lhes saiu sempre por uma frioleira.
Essa é a verdade.

Por outro lado, contudo, não posso negar que a mim me causa tristeza a alma daquele que ataca injustamente a honra alheia, porque o agressor injusto arruina-se a si mesmo.
E sofro também por tantos que, diante das acusações arbitrárias e desaforadas, não sabem onde pôr os olhos, ficando aterrados, não as crendo possíveis e pensando se não será tudo um pesadelo.

Há alguns dias líamos na Epístola da Santa Missa o relato de Susana, aquela mulher casta, falsamente incriminada de desonestidade por dois velhos corruptos.
Susana gemeu e disse: De todas as partes me vejo cercada de angústias; porque, se eu fizer o que vós desejais, incorro na morte, e, se não o fizer, não escaparei das vossas, mãos.
Quantas e quantas vezes a insídia dos invejosos ou dos intriguistas não coloca muitas pessoas honestas na mesma situação!
Oferece-se-lhes esta alternativa: ofender o Senhor ou ver denegrida a sua honra.
A única solução nobre e digna é, ao mesmo tempo, extremamente dolorosa e têm de resolver: melhor é para mim cair entre as vossas mãos sem cometer o mal, do que pecar na presença do Senhor.

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Direito à intimidade

Voltemos à cena da cura do cego.
Jesus Cristo replicou aos seus discípulos que aquela desgraça não era consequência do pecado, mas uma ocasião para que se manifestasse o poder de Deus.
E, com maravilhosa simplicidade, decide que o cego veja.

Começa então, a par da felicidade, o tormento daquele homem. Não o deixarão em paz.
Primeiro são os vizinhos e os que antes o tinham visto a pedir esmola.
O Evangelho não nos diz que se tivessem alegrado, mas que não acreditavam nele, apesar de o cego insistir que esse, que dantes não via e depois já via, era ele mesmo.
Em vez de o deixarem gozar serenamente aquela graça, levam-no aos fariseus, que lhe perguntam de novo como foi.
E ele responde, pela segunda vez: pôs-me lodo sobre os olhos, lavei-me e vejo.

A partir de então, os fariseus querem demonstrar que aquilo que aconteceu, uma boa coisa e um grande milagre, não aconteceu. Alguns deles recorrem a raciocínios mesquinhos, hipócritas, muito pouco equânimes: curou num sábado e, como trabalhar ao sábado está proibido, negam o prodígio.
Outros começam o que hoje se chamaria um inquérito.
Vão ter com os pais do cego: É este o vosso filho, que vós dizeis que nasceu cego? Como vê, pois, agora?
O medo aos poderosos leva a que os pais respondam com uma frase que reúne todas as garantias do método científico: sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; mas não sabemos como ele agora vê e também não sabemos quem lhe abriu os olhos; perguntai-o a ele mesmo; tem idade, ele mesmo fale de si.

Os que fazem o inquérito não podem crer, porque não querem crer. Tornaram, pois, a chamar o homem que tinha sido cego e disseram-lhe: ... nós sabemos que esse homem - Jesus Cristo - é um pecador.

Com poucas palavras, o relato de S. João exemplifica aqui um modelo de atentado tremendo contra o direito básico, que por natureza a todos corresponde, de ser tratado com respeito.

O tema continua a ser actual.
Não daria muito trabalho a assinalar, nesta época, casos dessa curiosidade agressiva que conduz a indagar morbidamente a vida privada dos outros.
Um mínimo sentido de justiça exige que, mesmo na investigação de um suposto delito, se proceda com cautela e moderação, sem tomar por certo o que apenas é uma possibilidade.
Compreende-se perfeitamente que a curiosidade malsã por desventrar aquilo que não só não é um delito, como até é possível tratar-se de uma acção honrosa, deva qualificar-se como uma perversão.

Perante os negociadores da suspeita, que dão a impressão de organizar um tráfico de intimidade, é preciso defender a dignidade de cada pessoa, o seu direito ao silêncio.
Nesta defesa costumam coincidir todos os homens honrados, sejam ou não cristãos, porque se ventila um valor comum: a legítima decisão de uma pessoa ser ela mesma, de não se exibir, de conservar em justa e íntima reserva as suas alegrias, as suas penas e dores de família e, sobretudo, de fazer o bem sem espectáculo, de ajudar os necessitados por puro amor, sem obrigação de publicar essas tarefas ao serviço dos outros e, muito menos, de pôr a descoberto a intimidade da sua alma diante dos olhares indiscretos e pouco rectos de pessoas que nada sabem nem desejam saber da vida interior, a não ser para troçar impiamente.

Mas como é difícil ver-se livre dessa agressividade intrometida!
Os métodos para não deixar um homem tranquilo têm-se multiplicado.
 Refiro-me aos meios técnicos e também a sistemas de argumentação geralmente aceites, contra os quais é difícil lutar, se se deseja conservar a reputação.
Parte-se, assim, muitas vezes da ideia de que toda a gente procede mal. Por isso, com esta forma de pensar errada, torna-se inevitável o meaculpismo, a autocrítica.
Se uma pessoa não lança sobre si uma tonelada de lama, deduzem que, além de incurável, é hipócrita e arrogante.

Noutras ocasiões age-se de modo diferente.
Quem fala ou escreve, caluniando, está disposto a admitir que eu sou um indivíduo integro, mas que outros talvez não tenham a mesma opinião, pelo que podem publicar que sou um ladrão.
Ou melhor: o senhor afirmou sempre que a sua conduta é limpa, nobre, recta.
Aborrecer-se-ia de considerá-la de novo, para comprovar se - pelo contrário - essa sua conduta não será porventura suja, desleal e retorcida?

70
          
Não são exemplos imaginários.
Estou persuadido de que qualquer pessoa, ou qualquer instituição com um pouco de renome poderia aumentar a casuística.
Criou-se em alguns sectores a falsa mentalidade de que o público, o povo, ou como queiram chamá-lo, tem o direito de conhecer e interpretar os pormenores mais íntimos da existência dos outros.

Permiti-me algumas palavras sobre algo que está bem unido à minha alma.
Desde há mais de trinta anos que digo e escrevo de muitas maneiras que o Opus Dei não tem qualquer finalidade temporal ou política. Pretende única e exclusivamente difundir, entre pessoas de todas as raças, de todas as condições sociais, de todos os países, o conhecimento e a prática da doutrina salvadora de Cristo e contribuir para que haja mais amor de Deus na terra e, portanto, mais paz, mais justiça entre os homens, filhos de um único Pai.

Muitos milhares de pessoas - milhões -, em todo o mundo, entenderam.
Outros, ou melhor, um número muito reduzido, pelos motivos que se quiser, parece que não.
Se o meu coração está mais perto dos primeiros, honro e amo também os outros, porque em todos é estimável e respeitável a sua dignidade e todos estão chamados à glória de filhos de Deus.

Mas nunca falta uma minoria sectária que, não compreendendo o que eu e tantos outros amamos, gostaria que lho explicássemos de acordo com a sua mentalidade, exclusivamente política, de interesses e de pressões de grupo.
Se não recebem uma explicação assim, errada e amanhada ao seu gosto, continuam a pensar que há mentira, verdades ocultas, planos sinistros.

Deixai que vos diga que, nesses casos, nem me entristeço nem me preocupo.
Acrescentaria até que me divirto se se pudesse passar por alto que cometem uma ofensa ao próximo e um pecado que clama a Deus. Sou aragonês e, mesmo pelo que há de humano no meu carácter, amo a sinceridade.
Sinto uma repulsa instintiva por tudo o que signifique dissimulação. Sempre procurei responder com a verdade, sem prepotência, sem orgulho, ainda que os que caluniavam fossem mal-educados, arrogantes, hostis, sem o menor sinal de humanidade.

Veio-me com frequência à cabeça a resposta do cego de nascimento aos fariseus que perguntavam pela centésima vez como tinha sucedido o milagre: Eu já vo-lo e vós já o ouvistes; porque o quereis ouvir novamente? Quereis, porventura, fazer-vos também seus discípulos?

(Continua)

11/09/2018

El reto del amor






El Reto Del Amor

Pequena agenda do cristão


TeRÇa-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Aplicação no trabalho.

Senhor, ajuda-me a fazer o que devo, quando devo, empenhando-me em fazê-lo bem feito para to poder oferecer.

Lembrar-me:
Os que estão sem trabalho.

Senhor, lembra-te de tantos e tantas que procuram trabalho e não o encontram, provê às suas necessidades, dá-lhes esperança e confiança.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





Temas para reflectir e meditar


Pergunta importante

Talvez que o título desta reflexão devesse ser: “Pergunta responsável”

A pergunta é:
‘Senhor que queres Tu de mim?’

Parece-me que é muito frequente esta interrogação quando nas encruzilhadas da vida nos parece que as opções são poucas ou não muito claras ou, o que também sucede, estamos algo cansados – poderia dizer “fartos” de fazer sempre as mesmas coisas e, quase sempre, com os mesmos resultados.
Como temos a certeza que o Senhor tem um plano pessoal para cada um de nós, nada mais natural que querermos saber qual é esse plano, no fim e ao cabo, para cumprirmos o que ansiamos: fazer a Vontade de Deus.

Porque proponho, em alternativa, o título: “Pergunta responsável”?

Porque ela não pode ser uma simples emoção retórica, um desabafo cansado e algo desiludido ou, talvez, a procura de uma inspiração súbita clara e iniludível que nos deixes descansados.
Ah! Porque se assim for, temos a responsabilidade de corresponder à resposta caso contrário não estamos a proceder honestamente mas apenas por curiosidade.

Como rarissimamente obtemos essa resposta como acima descrevo podemos concluir duas coisas:
A primeira é que o Senhor já nos terá respondido inúmeras vezes e não prestámos atenção;
A segunda é que, precisamente, não estamos a proceder honestamente, ou seja, a resposta que obtiver é a que me convém seguir.

Embora tenhamos absoluta certeza que o Senhor nunca nos pedirá nada que vá além das nossas capacidades, a verdade é que, muitas vezes, temos algum receio ou – pelo menos – ansiedade em relação ao que Ele possa pedir-nos.

Somos santos – queremos ser santos – e, a santidade, não tem nenhuma medida a não ser essa medida que é cumprir a Vontade de Deus em tudo, do mais simples ao eventualmente complexo, tudo…

Daí que, talvez que, quando nos surgir esse desejo – ou necessidade - de fazer a pergunta devamos acrescentar:
‘Ajuda-me a seguir o que desejas que faça – NUNC, AGORA – sem titubeios, hesitações ou dúvidas. Fazer e… pronto!’

AMA, reflexões, Junho 2018

Evangelho e comentário


Tempo comum

Evangelho: Lc 6, 12-19

12 Naqueles dias, Jesus foi para o monte fazer oração e passou a noite a orar a Deus. 13 Quando nasceu o dia, convocou os discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos: 14 Simão, a quem chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago, João, Filipe e Bartolomeu; 15 Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado o Zelote; 16 Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que veio a ser o traidor. 17 Descendo com eles, deteve-se num sítio plano, juntamente com numerosos discípulos e uma grande multidão de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon, 18 que acorrera para o ouvir e ser curada dos seus males. Os que eram atormentados por espíritos malignos ficavam curados; 19 e toda a multidão procurava tocar-lhe, pois emanava dele uma força que a todos curava.

Comentário:

As multidões acorriam a Jesus. Como hoje, igualmente, Ele atrai todos os homens em busca de consolo, auxilio, salvação.

Um refúgio, uma segurança, um porto seguro onde estacionar o barco onde navegamos nas agitadas águas desta vida.

Com confiança de filhos, de irmãos de amigos verdadeiros porque temos a certeza absoluta que nunca nos negará socorro, auxílio.

Como sabemos isto?
Como temos esta certeza?

Então… Ele não deu a vida por nós?


(AMA, comentário sobre Lc 6, 12-19, 12.09.2017)




"Veio revelar-nos o amor"


Cristo, que subiu à Cruz com os braços abertos de par em par, com gesto de Sacerdote Eterno, quer contar connosco - que não somos nada! - para levar a "todos" os homens os frutos da sua Redenção. (Forja, 4)

Porque a vida corrente e ordinária, a vida de cada homem entre os seus concidadãos e seus iguais, não é coisa baixa e sem relevo; é precisamente nessas circunstâncias que o Senhor quer que se santifique a imensa maioria dos seus filhos.

É necessário repetir uma e mais vezes que Jesus não se dirigiu a um grupo de privilegiados, mas veio revelar-nos o amor universal de Deus. Todos os homens são amados por Deus; de todos eles espera amor, de todos, quaisquer que sejam a sua condição, a sua posição social, a sua profissão ou oficio. A vida corrente e ordinária não é coisa de pouco valor; todos os caminhos da Terra podem ser uma ocasião de encontro com Cristo, que nos chama a identificar-nos com Ele, para realizarmos - no lugar onde estamos - a sua missão divina.

Deus chama-nos através dos incidentes da vida de cada dia, no sofrimento e na alegria das pessoas com quem convivemos, nas preocupações dos nossos companheiros, nas pequenas coisas da vida familiar. Deus também nos chama através dos grandes problemas, conflitos e ideais que definem cada época histórica, atraindo o esforço e o entusiasmo de grande parte da Humanidade. (Cristo que passa, 110)