02/02/2018

Leitura espiritual

RESUMOS DA FÉ CRISTÃ

TEMA 2. A revelação

1. Deus revela-se aos homens

«Aprouve a Deus na sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da Sua vontade, segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina.
Em virtude desta revelação, Deus invisível na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos e convive com eles para os convidar e admitir à comunhão com Ele» [i], [ii].

A criação é revelada como primeiro passo para esta Aliança de Deus, como primeiro e universal testemunho de si mesmo [iii], [iv].

Através das criaturas, Deus manifestou-Se e manifesta-Se aos homens de todos os tempos, fazendo-os conhecer a Sua bondade e as Suas perfeições.
Dentre estas, o ser humano, imagem e semelhança de Deus, é a criatura que em maior grau revela Deus.
No entanto, Deus quis revelar-Se como Ser pessoal, através de uma história de salvação, criando e educando um povo para que fosse guardião da Sua Palavra dirigida aos homens e para preparar nele a Encarnação do Seu Verbo, Jesus Cristo [v], [vi].

N’Ele, Deus revela o mistério da Sua vida trinitária: o projecto do Pai de reconciliar no Seu Filho todas as coisas e de eleger e adoptar todos os homens como filhos no Seu Filho [vii], reunindo-os para participar da Sua eterna vida divina por meio do Espírito Santo. Deus revela-Se e cumpre o Seu plano de salvação mediante as missões do Filho e do Espírito Santo na história [viii].

São conteúdo da Revelação quer as verdades naturais, que o ser humano poderia conhecer também apenas mediante a razão, quer as verdades que ultrapassam a razão humana e que podem ser conhecidas apenas pela livre e gratuita bondade com que Deus se revela.

O objecto principal da Revelação divina não são verdades abstractas sobre o mundo e o homem: o seu núcleo substancial é a oferta por parte de Deus do mistério da Sua vida pessoal e o convite para participar nela.

A Revelação divina realiza-se com palavras e obras; é de modo inseparável mistério e evento; manifesta, ao mesmo tempo, uma dimensão objectiva – palavra que revela verdade e ensinamentos – e subjectiva – palavra pessoal que oferece testemunho de si e convida ao diálogo.
 Esta Revelação, portanto, compreende-se e transmite-se como verdade e como vida [ix], [x].

Além das obras e dos sinais externos com que Se revela, Deus concede o impulso interior da Sua graça para que os homens possam aderir com o coração às verdades reveladas [xi].
Esta revelação íntima de Deus nos corações dos fiéis não deve confundir-se com as chamadas “revelações privadas”, as quais, embora sejam acolhidas pela tradição de santidade da Igreja, não transmitem nenhum conteúdo novo e original, mas, recordam antes aos homens a única Revelação de Deus realizada em Jesus Cristo e exortam a pô-la em prática [xii].

2. A Sagrada Escritura, testemunho da Revelação

O povo de Israel, sob inspiração e mandato de Deus, ao longo dos séculos registou por escrito o testemunho da Revelação de Deus na sua história, relacionando-a directamente com a revelação do único e verdadeiro Deus feita aos nossos Pais.
Através da Sagrada Escritura, as palavras de Deus manifestam-se com palavras humanas, até assumir, no Verbo Encarnado, a própria natureza humana.

Além das Escrituras de Israel, acolhidas pela Igreja e conhecidas como Antigo ou Primeiro Testamento, os apóstolos e os primeiros discípulos registaram também, por escrito, o testemunho da Revelação de Deus tal como se realizou plenamente no Seu Verbo, de cuja passagem pela Terra foram testemunhas, de modo particular, do mistério pascal da Sua morte e ressurreição, dando, assim, origem aos livros do Novo Testamento.

A verdade de que o Deus, de quem as Escrituras de Israel dão testemunho, é o único e verdadeiro Deus, criador do céu e da terra, põe-se em evidência, em particular, nos “livros sapienciais”.
O seu conteúdo supera os confins do povo de Israel para suscitar o interesse pela experiência comum do género humano diante dos grandes temas da existência, desde o sentido do cosmos ao sentido da vida do homem [xiii];
desde as interrogações sobre a morte e do que vem a seguir a ela, até ao significado da actividade humana sobre a terra [xiv];
desde as relações familiares e sociais à virtude que deve regulá-las para viver de acordo com os planos de Deus criador e alcançar, assim, a plenitude da própria humanidade [xv]
Deus é o autor da Sagrada Escritura, que os autores sagrados (hagiógrafos), também eles autores do texto, redigiram sob a inspiração do Espírito Santo.
Para a sua composição, Deus «escolheu e serviu-se de homens, na posse das suas faculdades e capacidades, para que, agindo Ele neles e por eles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria» [xvi], [xvii].

Tudo o que os escritores sagrados afirmam pode considerar-se «afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras» [xviii].

Para compreender correctamente a Sagrada Escritura há que ter presente o sentido da Escritura – literal e espiritual; este último reconhecível também no alegórico, moral e analógico – e os diversos géneros literários em que foram redigidos os diferentes livros ou partes dos mesmos [xix].

Em particular, a Sagrada Escritura deve ser lida na Igreja, ou seja, à luz da sua tradição viva e da analogia da fé [xx]:
a Escritura deve ser lida e compreendida de acordo com o mesmo Espírito com que foi escrita.

Os diversos estudiosos que se esforçam por interpretar e aprofundar o conteúdo da Escritura propõem os seus resultados a partir da autoridade científica pessoal.

Ao Magistério da Igreja compete a função de formular uma interpretação autêntica, vinculativa para os fiéis, baseada na autoridade do Espírito que assiste ao ministério docente do Romano Pontífice e dos Bispos em comunhão com ele.
Graças a esta assistência divina, a Igreja, já desde os primeiros séculos, reconheceu os livros que continham o testemunho da Revelação, no Antigo e no Novo Testamento, formulando assim o “cânon” da Sagrada Escritura [xxi].
Uma recta interpretação da Sagrada Escritura, reconhecendo os diferentes sentidos e géneros literários nela presentes, é necessária quando os autores sagrados descrevem aspectos do mundo que pertencem também ao âmbito das ciências naturais: a formação dos elementos do cosmos, a aparição das diversas formas de vida sobre a terra, a origem do género humano e, em geral, os fenómenos naturais.
Deve evitar-se o erro do fundamentalismo, que não se separa do sentido literal e do género histórico, quando seria lícito fazê-lo.
Também deve evitar-se o erro de quem considera as narrações bíblicas como formas puramente mitológicas, sem nenhum conteúdo de verdade a transmitir sobre a história dos acontecimentos e a sua radical dependência da vontade de Deus [xxii].

José Manuel Martín (Ed), Gabinete de informação do Opus Dei, 2016





[i] Concílio Vaticano II, Const. Dei Verbum , 2.
[ii] cfr. Catecismo, 51
[iii] Concílio Vaticano II , Const. Dei Verbum , 3; João Paulo II, Enc. Fides et Ratio , 14-IX-1988, 19.
[iv] cf. Catecismo, 288
[v] Cf. Concílio Vaticano I, Const. Dei Filius , 24-IV-1870, DS 3004.
[vi] cf. Catecismo, 54-64
[vii] cf. Ef 1,3-10; Cl 1,13-20
[viii] Cf. Concílio Vaticano II, Const. Lumen Gentium, 2-4; Decr. Ad gentes, 2-4.
[ix] Cf. Concílio Vaticano II, Const. Dei Verbum, 2.
[x] cf. Catecismo, 52-53
[xi] cf. Mt 16,17; Jn6,44
[xii] cf. Catecismo, 67
[xiii] Sabedoria
[xiv] Qoh
[xv] Provérbios, Ben Sirá , etc.
[xvi] Concílio Vaticano II, Const. Dei Verbum, 11.
[xvii] cf. Catecismo,106
[xviii] Ibidem.
[xix] cf. Catecismo, 110, 115-117
[xx] cf. Catecismo, 111114
[xxi] cf. Catecismo, 120-127
[xxii] Podem encontrar-se elementos interessantes para uma correcta interpretação da relação com as ciências em Leão XIII, Enc. Providentissimus Deus, 18-XI-1893; Bento XV, Enc. Spiritus Paraclitus, 15-IX-1920 e Pio XII, Enc. Humani Generis, 12-VII-1950.

Doutrina – 398

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO TERCEIRO

CREIO NA SANTA IGREJA CATÓLICA

A Igreja é una, santa, católica e apostólica

176. O que é a sucessão apostólica?


A sucessão apostólica é a transmissão, mediante o sacramento da Ordem, da missão e do poder dos Apóstolos aos seus sucessores, os Bispos.

Graças a esta transmissão, a Igreja permanece em comunhão de fé e de vida com a sua origem, enquanto ao longo dos séculos orienta todo o seu apostolado para a difusão do Reino de Cristo na terra.

Devoción a la Virgen


«María es la escuela de la humildad», dice Anna Sila, la actriz que la interpreta en París

Pequena agenda do cristão

Sexta-Feira


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)




Propósito:

Contenção; alguma privação; ser humilde.


Senhor: Ajuda-me a ser contido, a privar-me de algo por pouco que seja, a ser humilde. Sou formado por este barro duro e seco que é o meu carácter, mas não Te importes, Senhor, não Te importes com este barro que não vale nada. Parte-o, esfrangalha-o nas Tuas mãos amorosas e, estou certo, daí sairá algo que se possa - que Tu possas - aproveitar. Não dês importância à minha prosápia, à minha vaidade, ao meu desejo incontido de protagonismo e evidência. Não sei nada, não posso nada, não tenho nada, não valho nada, não sou absolutamente nada.

Lembrar-me:
Filiação divina.

Ser Teu filho Senhor! De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti. Não me afastes, Senhor. Eu sei que Tu não me afastarás nunca. Peço-Te que não permitas que alguma vez, nem por breves instantes, seja eu a afastar-me de Ti.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





01/02/2018

Não tenhas pena de seres nada

Não te apoquentes por verem as tuas faltas. A ofensa a Deus e a desedificação que podes ocasionar, isso é que te deve doer. – De resto, que saibam como és e te desprezem. – Não tenhas pena de seres nada, porque assim Jesus tem que pôr tudo em ti. (Caminho, 596)

Escreve o evangelista S. João: ninguém jamais viu Deus; o Filho Unigénito que está no seio do Pai é que o deu a conhecer, comparecendo ante o olhar atónito dos homens: primeiro, como um recém-nascido, em Belém; depois, como um menino igual aos outros; mais tarde, no Templo, como um adolescente, inteligente e vivo; e, por fim, com aquela figura amável e atraente do Mestre que movia os corações das multidões que o acompanhavam entusiasmadas.

Bastam algumas provas do Amor de Deus que se encarna para que a sua generosidade nos toque a alma, nos incendeie, nos mova com suavidade a uma dor contrita pelo nosso comportamento, em tantas ocasiões mesquinho e egoísta. Jesus não tem inconveniente em rebaixar-se, para nos elevar da miséria à dignidade de filhos de Deus, de irmãos seus. Pelo contrário, tu e eu muitas vezes enchemo-nos nesciamente de orgulho pelos dons e talentos recebidos, até ao ponto de os converter em pedestal para nos impormos aos outros, como se o mérito de algumas acções, acabadas com relativa perfeição, dependesse exclusivamente de nós: Que possuis tu que não tenhas recebido de Deus? E se o recebeste, porque te glorias como se o não tivesses recebido?


Ao considerar a entrega de Deus e o seu aniquilamento – falo para que o meditemos, pensando cada um em si mesmo –, a vanglória, a presunção do soberbo revela-se um pecado horrendo, precisamente porque coloca a pessoa no extremo oposto ao modelo que Jesus nos assinalou com a sua conduta. Pensai nisto devagar: Ele humilhou-se, sendo Deus. O homem, cheio do seu próprio eu, pretende enaltecer-se a todo o custo, sem reconhecer que está feito de barro e barro de má qualidade. (Amigos de Deus, nn. 111–112)

Temas para meditar e reflectir

Viver sozinho


Viver sozinho é algo estranho e confuso para quem viveu a maior parte da sua vida permanentemente acompanhado.
A imaginação ganha uma força e acuidade extraordinárias - diria exacerbadas - e, o seu controlo é difícil.

Não é um drama, evidentemente, mas pode tornar-se muito condicionante da vida normal e corrente.

Remédio?

Não tenho nem conheço nenhum.

Ajuda?

Sim, pedir à Santíssima Virgem, ao Anjo da Guarda, auxílio, força, ânimo, coragem para ultrapassar, vencer, pôr de lado


(ama, reflexões, 2016.11.26)

Evangelho e comentário

Tempo Comum

Evangelho: Mc 6, 7-13

6 Estava admirado com a falta de fé daquela gente. Jesus percorria as aldeias vizinhas a ensinar. 7  Chamou os Doze, começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes poder sobre os espíritos malignos. 8 Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado: nem pão, nem alforge, nem dinheiro no cinto; 9 que fossem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. 10 E disse-lhes também: «Em qualquer casa em que entrardes, ficai nela até partirdes dali. 11 E se não fordes recebidos numa localidade, se os seus habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles.» 12Eles partiram e pregavam o arrependimento, 13 expulsavam numerosos demónios, ungiam com óleo muitos doentes e curavam-nos

Comentários:

São Marcos com o estilo preciso e detalhado que conhecemos refere um pormenor que não concorda com São Mateus: o uso de sandálias por parte dois Apóstolos enviados em missão.

Pode ser algo de importância menor mas, quanto a mim, não é.

São Pedro que foi o "mentor " do Evangelista é uma fonte absolutamente credível.

Porque referirá este detalhe?

Penso que Jesus quis que os Seus enviados se apresentassem com dignidade junto daqueles que os receberiam e, sobretudo naqueles tempos, o usar sandálias conferia essa dignidade.

Sem luxos nem coisas supérfluas, mas com apresentação digna e cuidada.

Assim nos quer o Senhor. 


(AMA, comentário sobre MC 6, 7-13, 13.07.2015)


Leitura espiritual

RESUMOS DA FÉ CRISTÃ

TEMA 1. A existência de Deus

A dimensão religiosa caracteriza o ser humano. Purificadas da superstição, as expressões da religiosidade humana manifestam que existe um Deus criador.

1. A dimensão religiosa do ser humano

A dimensão religiosa caracteriza o ser humano desde as suas origens. Purificadas da superstição – afinal devida à ignorância e ao pecado –, as expressões da religiosidade humana manifestam a convicção de que existe um Deus criador, do qual depende o mundo e a nossa existência pessoal. Se é verdade que o politeísmo acompanhou muitas fases da história humana, também é verdade que a dimensão mais profunda da religiosidade humana e da sabedoria filosófica procuraram a justificação radical do mundo e da vida humana num único Deus, fundamento da realidade e cumprimento da nossa aspiração à felicidade [i], [ii].
Apesar da sua diversidade, nas expressões artísticas, filosóficas, literárias e outras – presentes na cultura dos povos –, em todas é comum a reflexão sobre Deus e sobre os temas centrais da existência humana: a vida e a morte, o bem e o mal, o destino último e o sentido de todas as coisas [iii].
Como estas manifestações do espírito humano testemunham ao longo da história, pode dizer-se que a referência a Deus pertence à cultura humana e constitui uma dimensão essencial da sociedade e dos homens.
A liberdade religiosa representa, portanto, o primeiro dos direitos e a procura de Deus, o primeiro dos deveres: todos os homens «são levados pela própria natureza, e também moralmente, a procurar a verdade, antes de mais a que diz respeito à religião.
Têm também a obrigação de aderir à verdade conhecida e de ordenar toda a sua vida segundo as suas exigências» [iv].
A negação de Deus e a tentativa de O excluir da cultura, da vida social e civil são fenómenos relativamente recentes, limitados a algumas áreas do mundo ocidental.
O facto de que as grandes interrogações religiosas e existenciais permaneçam invariáveis no tempo [v] desmente a ideia de que a religião esteja circunscrita a uma fase “infantil” da história humana, destinada a desaparecer com o progresso do conhecimento.
O cristianismo assume tudo quanto há de bom na investigação e na adoração de Deus manifestadas historicamente pela religiosidade humana, mostrando o seu verdadeiro significado, o de um caminho para o único e verdadeiro Deus, que se revelou na história da salvação entregue ao povo de Israel e que veio ao nosso encontro fazendo-Se homem em Jesus Cristo, Verbo Encarnado [vi].

2. Das criaturas materiais a Deus

O intelecto humano pode conhecer a existência de Deus aproximando-se d’Ele através de um caminho que tem como ponto de partida o mundo criado e que possui dois itinerários, as criaturas materiais e a pessoa humana.
Embora este caminho tenha sido desenvolvido especialmente por autores cristãos, os itinerários que partindo da natureza e das actividades do espírito humano levam até Deus, foram expostos e percorridos por muitos filósofos e pensadores de diversas épocas e culturas.
As vias para a existência de Deus também se chamam “provas”, não no sentido que a ciência matemática ou natural atribui a este termo, mas enquanto argumentos filosóficos convergentes e convincentes, que o sujeito compreende, com maior ou menor profundidade dependendo da sua formação específica [vii].
Que as provas da existência de Deus não possam entender-se no mesmo sentido das provas utilizadas pelas ciências experimentais, deduz-se com clareza do facto de que Deus não é objecto do nosso conhecimento empírico.
Cada via para a existência de Deus atinge apenas um aspecto concreto ou dimensão da realidade absoluta de Deus, o do específico contexto filosófico no qual a via se desenvolve: «partindo do movimento e do devir, da contingência, da ordem e da beleza do mundo pudesse chegar ao conhecimento de Deus como origem e fim do universo» [viii].
A riqueza e a incomensurabilidade de Deus são tais que nenhuma destas vias por si mesma pode chegar a uma imagem completa e pessoal de Deus, mas somente a alguma faceta dela: existência, inteligência, providência, etc.
Entre as chamadas vias cosmológicas, as mais conhecidas, são as célebres “cinco vias” elaboradas por São Tomás de Aquino, que recolhem, em boa medida, as reflexões de filósofos anteriores a ele; para a sua compreensão é necessário conhecer alguns elementos de metafísica [ix].
As primeiras duas vias propõem a ideia de que as cadeias causais – passagem de potência a acto, passagem da causa eficiente a efeito – que observamos na natureza não podem prosseguir do passado até ao infinito, mas devem, antes, apoiar-se num primeiro motor e numa causa primeira; a terceira, partindo da observação da contingência e da limitação dos entes naturais, deduz que a sua causa deve ser um Ente incondicionado e necessário; a quarta, considerando os graus de perfeição participada que se encontram nas coisas, deduz a existência de uma fonte para todas estas perfeições; a quinta via, observando a ordem e a finalidade presentes no mundo, consequência da especificidade e estabilidade das suas leis, deduz a existência de uma inteligência ordenadora que também seja causa final de tudo.
Estes e outros itinerários análogos foram propostos por diversos autores com diferentes linguagens e diversas formas até aos nossos dias. Portanto, mantêm a sua actualidade, ainda que para os compreender seja necessário partir de um conhecimento das coisas baseado no realismo – em contraposição com formas de pensamento ideológico – que não reduza o conhecimento da realidade apenas ao plano empírico experimental – evitando o reducionismo ontológico –, logo que o pensamento humano possa, afinal, ascender dos efeitos visíveis para as causas invisíveis (afirmação do pensamento metafísico).
O conhecimento de Deus é também acessível ao sentido comum, quer dizer, ao pensamento filosófico espontâneo que todo o ser humano exercita, como resultado da experiência existencial de cada um: a maravilha diante da beleza e da ordem da natureza, a gratidão pelo dom gratuito da vida, o fundamento e a razão do bem e do amor.
Este tipo de conhecimento é também importante para captar a que sujeito se referem as provas filosóficas da existência de Deus: São Tomás, por exemplo, termina as suas cinco vias unindo-as com a afirmação: «e isto é o que todos chamam Deus».
O testemunho da Sagrada Escritura [x] e os ensinamentos do Magistério da Igreja confirmam que o intelecto humano pode chegar, ao conhecimento da existência do Deus criador, partindo das criaturas [xi], [xii].
Ao mesmo tempo, quer a Escritura, quer o Magistério, advertem que o pecado e as más disposições morais podem tornar mais difícil este reconhecimento.

3. O espírito humano manifesta Deus

O ser humano percebe a sua singularidade e preeminência sobre o resto da natureza. Embora partilhe muitos aspectos da sua vida biológica com outras espécies animais, reconhece-se único na sua fenomenologia: reflecte sobre si próprio, é capaz de progresso cultural e técnico, percebe a moralidade das próprias acções, ultrapassa, com o seu conhecimento e a sua vontade, mas, sobretudo, com a sua liberdade, o resto do cosmos material [xiii].
Ou seja, o ser humano é sujeito de uma vida espiritual que transcende a matéria da qual, no entanto, depende [xiv].
Desde as origens, a cultura e a religiosidade dos povos explicaram esta transcendência do ser humano afirmando a sua dependência de Deus, do qual a vida humana possui um reflexo.
Em sintonia com este sentir comum da razão, a Revelação judaico-cristã ensina que o ser do homem foi criado à imagem e semelhança de Deus [xv].
A pessoa humana está, ela própria, a caminhar para Deus.
Existem itinerários que conduzem a Deus partindo da própria experiência existencial: «Com a sua abertura à verdade e à beleza, com o seu sentido do bem moral, com a sua liberdade e a voz da sua consciência, com a sua ânsia de infinito e de felicidade, o homem interroga-se sobre a existência de Deus.
 Nestas aberturas, ele detecta sinais da sua alma espiritual» [xvi].
A presença de uma consciência moral que aprova o bem que fazemos e censura o mal que realizamos ou queríamos realizar, leva a reconhecer um Sumo bem ao qual estamos chamados a conformar-nos, do qual a nossa consciência é como que o seu mensageiro.
Partindo da experiência da consciência humana e sem conhecer a Revelação bíblica, vários pensadores desenvolveram, desde a antiguidade, uma reflexão sobre a dimensão ética da acção do homem, reflexão essa de que todo o homem está capacitado enquanto criado à imagem de Deus.

José Manuel Martín (Ed), Gabinete de informação do Opus Dei, 2016





[i] cf. Catecismo da Igreja Católica, 28
[ii] Cf. João Paulo II, Enc. Fides et Ratio, 14-IX-1998, 1.
[iii] «Para além de todas as diferenças que caracterizam os indivíduos e os povos, há uma fundamental dimensão comum, já que as várias culturas, na realidade, não são senão modos diversos de enfrentar a questão do significado da existência pessoal. É precisamente aqui que podemos identificar uma fonte do respeito que é devido a cada cultura e a cada nação: toda a cultura é um esforço de reflexão sobre o mistério do mundo e, em particular, do homem: é um modo de expressar a dimensão transcendente da vida humana. O coração de cada cultura está constituído pela sua aproximação ao maior dos mistérios: o mistério de Deus», João Paulo II, Discurso na O.N.U., Nova Iorque, 5-X-1995, «Magisterio», XVIII,2 (1995) 730-744, n. 9.
[iv] Concílio Vaticano II, Decl. Dignitatis Humanae, 2.
[v] Cf. Concílio Vaticano II, Const. Gaudium et Spes, 10.
[vi] Cf. João Paulo II, Carta Ap. Tertio Millennio Adveniente, 10-XI-1994, 6; Enc. Fides et Ratio, 2.
[vii] cf. Catecismo da Igreja Católica, 31
[viii] Catecismo, 32
[ix] Cf. São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, q. 2, a. 3; Contra Gentiles, I, c. 13. Para uma exposição detalhada remete-se o leitor para estas duas referências de São Tomás e para algum manual de Metafísica ou de Teologia Natural.
[x] cf. Sb 13,1-9; Rm 1,18-20; Act 17,22-27
[xi] Cf. Concílio Vaticano I, Const. Dei Filius, 24-IV-1870, DH 3004; Motu Proprio Sacrorum Antistitum, 1-IX-1910, DH 3538; Congregação para a Doutrina da Fé, Inst. Donum Veritatis, 24-V-1990, 10; Enc. Fides et Ratio, 67.
[xii] cf. Catecismo, 36 38
[xiii] «Agradecidos por nos apercebermos da felicidade a que estamos chamados, aprendemos que todas as criaturas foram tiradas do nada por Deus e para Deus: quer as racionais, os homens, apesar de tão frequentemente perdermos a razão; quer as irracionais, as que percorrem a superfície da terra, ou habitam nas entranhas do mundo, ou cruzam o azul do céu, algumas delas até fitarem o Sol nas alturas. Mas, no meio desta maravilhosa variedade, só nós, homens – não falo aqui dos anjos – nos unimos ao Criador pelo exercício da nossa liberdade: podemos prestar ou negar ao Senhor a glória que lhe corresponde como Autor de tudo o que existe», São Josemaria, Amigos de Deus, 24.
[xiv] Cf. Concílio Vaticano II, Const. Gaudium et Spes, 18.
[xv] cf. Gn 1,26-28
[xvi] Catecismo, 33

Devoción a la Virgen


Juan Manuel de Prada evoca a María como poesía de la Navidad: «El arte más sublime y delicado se ha dedicado a imaginarla»

Pequena agenda do cristão

Quinta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Participar na Santa Missa.


Senhor, vendo-me tal como sou, nada, absolutamente, tenho esta percepção da grandeza que me está reservada dentro de momentos: Receber o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Rei e Senhor do Universo.
O meu coração palpita de alegria, confiança e amor. Alegria por ser convidado, confiança em que saberei esforçar-me por merecer o convite e amor sem limites pela caridade que me fazes. Aqui me tens, tal como sou e não como gostaria e deveria ser.
Não sou digno, não sou digno, não sou digno! Sei porém, que a uma palavra Tua a minha dignidade de filho e irmão me dará o direito a receber-te tal como Tu mesmo quiseste que fosse. Aqui me tens, Senhor. Convidaste-me e eu vim.


Lembrar-me:
Comunhões espirituais.


Senhor, eu quisera receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe, com o espírito e fervor dos Santos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?