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| A Cidade Deus |
A
CIDADE DE DEUS
Vol. 2
LIVRO X
CAPÍTULO V
Sacrifícios que Deus não pretende, mas que aceita apenas com o símbolo dos
que pretende.
Quem será tão falho de senso que julgue que Deus tem necessidade das coisas que nos sacrifícios se lhe oferecem? A Sagrada
Escritura apresenta-nos vários testemunhos. Para não nos alongarmos bastará
recordar esta breve passagem de um salmo:
Eu disse ao Senhor: Tu és o meu Deus, porque não tens necessidade dos meus bens.
Tem-se, portanto, de acreditar que Deus não tem necessidade nem de gados, nem
seja de que bem corruptível e terrestre for, nem mesmo da justiça dos homens:
todo o culto legítimo que se lhe presta, aproveita ao homem, que não a Deus.
Ninguém pretenderá prestar um serviço à fonte quando bebe, ou à luz quando vê! Nos
sacrifícios em que os patriarcas imolavam animais e que hoje o povo de Deus
relê nas Escrituras sem os praticar, convém que se veja apenas a figura das
obras que se cumpriam entre nós tendo por fim unirmo-nos a Deus e levarmos para
Ele o nosso próximo. O sacrifício visível é, pois, o sacramento, isto é, o
sinal sagrado do sacrifício invisível. Por isso o penitente referido no profeta
ou o próprio profeta, procurando para os seus pecados a benevolência de Deus,
diz-lhe:
Se quisesses um sacrifício eu oferecer-to-ia; mas não te comprazes nos holocaustos. O sacrifício para Deus é um espírito contrito: um
coração contrito e humilhado Deus não desprezará [i].
Vejamos como Deus, onde diz que não quer sacrifícios, aí mesmo mostra que os
quer: recusa o sacrifício dos animais abatidos, mas quer o sacrifício de um
coração contrito. Assim, segundo o profeta, o que Deus recusa é a figura do que
quer. Deus, diz ele, não os quer da maneira que os estultos julgam que Ele
quer: pelo prazer que neles acharia. Realmente, se não quisesse que os sacrifícios que pede (e que se
reduzem a um só — o coração humilhado e contrito pela dor do arrependimento)
fossem figurados pelos sacrifícios pretensamente desejados para o seu prazer,
com certeza que não teria prescrito a sua celebração na antiga Lei. Eles
deveriam, pois, ser substituídos em tempo oportuno e determinado, para que se
não pensasse que eram desejados pelo próprio Deus ou aceitáveis por nós
próprios, em vez de ser desejado o que neles se significa. Daí as palavras de
um outro Salmo:
Se tenho fome, não to. direi, porque é meu o orbe da terra e tudo
o que o enche. Porventura comerei a came dos touros ou beberei o sangue dos
bodes [ii]?
Com o se dissesse: mesmo que estes bens me fossem necessários eu não tos
pediria, porque os tenho em meu poder. Depois acrescenta para explicar estas
palavras:
Oferece a Deus um sacrifício de louvor e cumpre os teus votos ao
Altíssimo. Invoca-me no dia da tribulação e eu te libertarei e tu me
glorificarás [iii].
Da mesma forma, em outro profeta diz:
Com que é que me apresentarei ao Senhor e me inclinarei perante o
Altíssimo Deus meu? Apresentar-me-ei diante dele com holocaustos, com reses de
um ano? Agradará ao Senhor o sacrifício de milhares de carneiros, de dezenas de
milhares de gordos bodes? Em compensação da minha impiedade dar-lhe-ei os meus primogénitos, o fruto das minhas entranhas em
compensação do pecado da minha alma? Homem! não te foi já explicado o que é
bom? Que te poderá o Senhor exigir senão que pratiques a justiça, que ames a
misericórdia e que estejas preparado para caminhar com o Senhor teu Deus?
[iv]
Estas palavras do profeta distinguem e mostram claramente duas coisas: que
Deus não reclama os sacrifícios por si mesmos, e que eles são a figura dos que
ele reclama. Diz-se na Epístola escrita para os hebreus:
Não vos esqueçais de fazer o bem e de ser generosos, porque é por tais sacrifícios que se agrada a Deus.[v]
Por isso é que este texto
prefiro a misericórdia ao sacrifício.[vi]
significa apenas que é preciso preferir um certo sacrifício a um outro
sacrifício. Porque aquilo a que todos chamam sacrifício é o sinal do verdadeiro
sacrifício. A misericórdia é que é o verdadeiro sacrifício; daí a palavra que
acabo de citar:
porque é por tais sacrifícios que se agrada a Deus [vii].
Todas estas prescrições divinas da escritura, respeitantes aos sacrifícios do
tabernáculo ou do templo, são, portanto, figuras que se referem ao amor de Deus
e do próximo. Realmente, com o está escrito, é «nestes dois mandamentos que se
resumem toda a lei e os profetas».
CAPÍTULO VI
O verdadeiro e perfeito sacrifício.
O verdadeiro sacrifício é, pois, toda a obra que contribui para nos unir a Deus
numa santa sociedade, isto é, toda a obra destinada a esse bem supremo graças
ao qual podemos ser verdadeiramente felizes. E por isso que a própria
misericórdia que nos leva a socorrer o nosso semelhante, se não é praticada por
amor de Deus, não é um sacrifício. Porque, em bora cumprido ou oferecido pelo homem,
o sacrifício nem por isso deixa de ser um a coisa divina. E por isso que os
antigos latinos lhe davam também esse nome. Consequentemente, o homem consagrado
em nome de Deus e a Deus oferecido, é ele mesmo um sacrifício, na medida em que morre para o mundo a fim de viver para Deus. De
facto, isto também respeita à misericórdia que cada um pratica para consigo
mesmo. Por isso está escrito:
Tem piedade da tua alma, tomando-te agradável a Deus [viii].
Também o nosso corpo, quando o mortificamos pela temperança, é um sacrifício
se, como deve ser, o fazemos por Deus, sem fazermos dos nossos membros armas de
iniquidade para o pecado, mas sim armas de justiça para Deus. A isso nos
exortando, diz o Apóstolo:
Suplico-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como hóstia viva, santa, agradável a Deus, como homenagem racional vossa [ix].
Se, pois, o corpo, ser inferior de que a alma se utiliza com o de um servidor
ou de um instrumento, é um sacrifício quando o seu uso bom e recto se refere a
Deus, — quanto mais não será a própria alma um sacrifício quando se refere a
Deus, para que, inflamada do fogo do seu amor, largue a forma de concupiscência do século e se reforme, submetendo-se a
Deus, forma imutável — tornando-se-lhe assim agradável pelos reflexos que
recebe da sua beleza. Como conclusão, o mesmo Apóstolo acrescenta:
E não queirais amoldar-vos a este século, mas reformai-vos, renovando
a vossa mentalidade para reconhecerdes qual é a vontade de Deus, o que é bom, o
que é agradável, o que é perfeito[x].
Os verdadeiros sacrifícios são, portanto, as obras de misericórdia quer para
connosco quer para com o próximo, e referidas a Deus. As obras de misericórdia
não se praticam com outro fim que não seja: libertarmo-nos da infelicidade e
seguidamente conseguirmos a felicidade — o que não se obtém senão graças ao bem
supremo de que
está escrito:
Para mim o bem é unir-me a Deus [xi].
Daqui se conclui com segurança que toda esta cidade resgatada, isto é, a
assembleia e a sociedade dos santos, é oferecida a Deus com o um sacrifício
universal pelo Magno Sacerdote que, para de nós fazer o corpo de uma tal
cabeça, a si mesmo se ofereceu por nós na sua paixão sob a forma de escravo. Foi, efectivamente, esta a forma que Ele ofereceu, foi
nela que Ele se ofereceu, porque é graças a ela que Ele é mediador, é nela que
é sacerdote, é nela que é sacrifício. Por isso nos exortou o Apóstolo a que
ofereçamos os nossos corpos como hóstia viva, santa, agradável a Deus, como homenagem
racional; a não nos amoldarmos a este século, mas a irmo-nos transformando com
a nova mentalidade; e — para mostrar-nos qual é a vontade de Deus, o que é bom,
o que lhe é agradável, o que é perfeito, porque o sacrifício na sua totalidade
somos nós próprios — o Apóstolo continua:
O que realmente, em virtude da graça divina que me foi
concedida, eu digo a quem quer que se encontre no meio de vós, é isto: não
sinta a seu próprio respeito mais do que convém sentir, mas sinta de maneira
que seja moderado o seu sentir, cada um segundo o grau de fé que Deus lhe atribuiu.
Pois, como em um só corpo nós temos muitos membros, — e nem todos os
membros têm a mesma função — assim nós, que muitos somos, constituímos
em Cristo um só corpo, sendo individualmente membros uns dos outros, possuindo dons
diferentes conforme a graça que nos foi concedida [xii].
Tal é o sacrifício dos cristãos
muitos somos um só corpo em Cristo [xiii].
E este sacrifício a Igreja não cessa de o reproduzir no Sacramento do altar bem
conhecido dos fiéis: nele se mostra que ela própria é oferecida no que oferece.
(cont)
(Revisão da versão portuguesa por ama)
[iii]
Salmo, XLIX, 14-15.