A
CIDADE DE DEUS
Vol. 2
LIVRO IX
CAPÍTULO VIII
Definição, dada pelo platónico Apuleio, dos deuses celestes, demónios aéreos
e homens terrestres.
Mas quê? Merecerá alguma atenção a definição que ele dá dos demónios (cujos
termos a todos se aplicam) em que diz:
Os demónios são — quanto ao género, seres animados; passíveis,
quanto ao ânimo; quanto à mente, racionais; aéreos, quanto ao corpo; quanto ao
tempo, eternos [i].
Nestas cinco propriedades, nada, absolutamente nada, referiu em que os demónios
parecessem ter de comum exclusivamente com os homens bons algum a coisa que não
tivessem em comum com os maus. Efectivamente, descreve um pouco mais
pormenorizadamente, no seu lugar próprio, homens, deles falando com o de seres
ínfimos e terrestres, depois de ter falado dos deuses do Céu; e, uma vez
evocados os dois extremos, inferior e superior, trata em último lugar dos
demónios, que ocupam o meio. Escreve ele:
Portanto, os homens, — orgulhosos pela razão, poderosos pela palavra, dotados de alma
imortal, de membros votados à morte, de espírito ágil e inquieto, de corpos
pesados e débeis, de costumes dissemelhantes e erros parecidos, de audácia
obstinada e de esperança firme, de actividade estéril e de fortuna instável,
individualmente mortais, todos, porém, no seu género, perpétuos porque se
sucedem na renovação das gerações, de existência fugitiva, de tardia sabedoria,
de morte rápida, de vida lastimosa —, habitam na terra [ii].
Ao mencionar tantas coisas que se referem à maior parte dos
homens, acaso se calou acerca desse pormenor que sabia pertencer a um pequeno
número — a tardia sabedoria? Se o tivesse omitido, a sua descrição do género humano,
apesar de tão atento cuidado, ficaria na verdade incompleta. Pois bem — quando
põe em relevo a excelência dos deuses, frisou bem que ela consistia nessa
beatitude a que os homens pretendem chegar por meio da sabedoria. Por
conseguinte, se a sua intenção fosse a de dar a entender que há bons demónios,
teria juntado à sua descrição algum a propriedade donde parecesse que eles
possuem, em comum com os deuses, um a certa beatitude, ou, com os homens, algum
a sabedoria. Ora ele não lhes pôs em relevo qualquer destas boas qualidades que
permitem distinguir os bons dos maus. E, embora se tenha abstido de fazer ressaltar
demasiado livremente a sua malícia, fê-lo, não para os não ofender a eles, mas antes
para não ofender os seus adoradores, a quem se dirigia. Todavia permitiu que os
seus leitores precavidos compreendessem o que deviam pensar desses demónios:
assim, aos deuses, no seu entender
todos bons e felizes, pô-los absolutamente a salvo das paixões e, como ele
mesmo confessa, das tempestades que agitam os demónios, e só os relacionou pela
eternidade dos corpos; todavia, em relação à alma, declarou abertamente que os demónios se
assemelham , não aos deuses, mas aos homens. E, mesmo esta semelhança, respeita
não à sabedoria, bem de que os próprios homens podem participar, mas à
perturbação das paixões que dominam os insensatos e os maus, que os sábios e os
bons dominam, preferindo não as ter, a ter de as vencer.
Se Apuleio quisesse dar a entender que os demónios têm de com um com os deuses,
não a eternidade do corpo, mas a da alma, não teria decerto excluído os homens deste
com um privilégio porque, como platónico que é pensa sem dúvida que também os
homens têm alma imortal. Por isso é que, ao descrever esta espécie de seres
animados, ele diz que os homens são dotados
de alma imortal, de membros votados à morte [iii].
Se, portanto, os homens não partilham da eternidade com os demónios porque têm
um corpo mortal, é porque têm um corpo imortal que os demónios a possuem.
CAPÍTULO IX
Se o homem pode obter a amizade dos
deuses por intercessão dos demónios.
De que raça são então esses mediadores entre os deuses e os homens, por
intermédio dos quais poderão os homens aspirar à amizade com os deuses — se o
que há de melhor nos seres animados, a alma, é o que neles, como nos homens, há
de pior; e se o que há de pior nos seres animados, o corpo, é o que neles, como
nos deuses, há de
melhor? Efectivamente, o ser animado ou animal é composto de alma e corpo.
Destes dois, o melhor é, sem dúvida, a alma, mesmo que viciosa e doente seja
ela, e perfeitamente são e vigoroso o corpo. E que a sua natureza é de ordem
mais elevada; a mácula dos vícios não a faz descer abaixo do corpo. E assim
como o ouro, que, mesmo impuro, tem maior valor do que a prata e o chumbo mais
puros. Estes mediadores entre os deuses e os homens têm com o os deuses um
corpo eterno e, com o os homens, uma alma viciosa — com o se a religião, pela
qual pretendem que os homens se unem aos deuses por intermédio dos demónios,
tivesse o seu fundamento mais no corpo do que na alma!
Enfim, que malícia, que castigo suspendeu estes falsos e falazes mediadores,
como se, por assim dizer, estivessem de cabeça para baixo? É que a parte
inferior do seu ser animado, isto é, o corpo, têm-na eles em comum com os seres
superiores; mas a parte superior, isto é, a alma, têm-na em comum com os seres
inferiores. Estão unidos aos deuses celestes pela parte que é escrava e,
desgraçados, estão
unidos aos homens terrestres pela parte que domina. Realmente, o corpo é
escravo, como diz Salústio:
Usamos do espírito preferentemente para mandar e do corpo
para servir [iv],
e acrescenta:
Uma qualidade é comum a nós e aos deuses, e outra a nós e aos brutos [v],
ao falar dos homens que têm, como os brutos, um corpo mortal. Mas estes, que os
filósofos nos propuseram como mediadores entre nós e os deuses, bem podem dizer
do seu corpo e da sua alma: esta é comum a nós e aos homens, e aquele é comum a
nós e aos deuses. Com a diferença, como disse, de que estão ligados e suspensos
às avessas,
tendo o corpo escravo comum com os deuses bem-aventurados e a alma suspensa,
com os desgraçados dos homens, ou seja: exaltados pela parte inferior e
rebaixados pela parte superior. Donde se conclui: ainda que alguém julgue que
eles têm de comum com os deuses a eternidade, porque morte nenhuma poderá, como
acontece nos seres terrestres, separar o seu espírito do seu corpo, — mesmo assim
não se pode considerar o seu corpo como veículo eterno de um corpo de seres
dignos de honra, mas antes como eterno veículo de condenados.
CAPÍTULO X
Na opinião de Plotino, são menos desgraçados os homens num corpo mortal do
que os demónios num corpo eterno.
Plotino é justamente louvado por ter, nos tempos mais recentes, compreendido
Platão melhor que os seus outros discípulos. Diz ele, ao tratar das almas
humanas:
O Pai, na sua misericórdia, preparava-lhes vínculos
(vincla) mortais [vi] .
Assim, o facto de os homens terem um corpo mortal, pensou ele atribuí-lo
à misericórdia de um Deus-pai, que não quis mantê-los sempre na miséria desta
vida. Desta misericórdia considerou indigna a iniquidade dos demónios, que, na
miséria duma alma sujeita às paixões, receberam, não um corpo mortal como o dos
homens, mas sim um corpo eterno. De certo que seriam mais felizes do que os homens
se, como estes, tivessem um corpo mortal e, como
os deuses, uma alma bem-aventurada. E seriam iguais aos homens se, com uma alma
atribulada, tivessem ao menos merecido, como eles, um corpo mortal — contanto
que, evidentemente, pudessem repousar, pelo menos depois da morte, das suas
tribulações. Mas eles, devido à miséria da sua alma, não são mais felizes do
que os homens, e, devido à perpétua prisão que é o seu corpo, são até mais
infelizes do que os homens. Ao afirmar que eles são eternos, quis dar a
entender que eles não poderiam transformar-se em deuses, porque os demónios não
são capazes de progredir na prática da piedade e da sabedoria.
(cont)
(Revisão da versão portuguesa por ama)
[i] Apuleio, De Deo Socratis, IV; ed. Thomas, p. 10.
[ii] Apuleio, De Deo Socratis, IV; ed. Thomas, p. 10.
[iii] Apuleio, De Deo
Socratis, IV; ed. Thomas, p. 10.
[iv] Salústio, Catilim, I, 2.
[vi]
Plotino, Enéadas, IV, III, 12.