08/06/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)



Tempo comum X Semana


Evangelho: Mt 5, 1-12

1 Vendo Jesus aquelas multidões, subiu a um monte e, tendo-Se sentado, aproximaram-se d'Ele os discípulos. 2 E pôs-Se a falar e ensinava-os, dizendo: 3 «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 «Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 5 «Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. 6 «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 «Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 «Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 «Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 «Bem-aventurados sereis, quando vos insultarem, vos perseguirem, e disserem falsamente toda a espécie de mal contra vós por causa de Mim. 12 Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois também assim perseguiram os profetas que viveram antes de vós.

Comentário:

O Sermão da Montanha, como para sempre ficou conhecido, pode dizer-que contém todo o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A universalidade das exortações contempla toda a humanidade com o mesmo amor, a mesma esperança, igual certeza: a Bem-Aventurança eterna.

Ninguém fica de fora ou é, de alguma forma, excluído da misericórdia divina.

É o mais extraordinário legado de confiança, amor e carinho que o Senhor nos poderia ter deixado.

(ama, comentário sobre Mt 5, 1-12 2014.06.09)


Leitura espiritual




a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS





viii a luta ascética para a conversão

…/2
       
        Enraizando o espírito na Esperança as raízes da avareza, da gula e da preguiça desvanecem-se.
A perspectiva da vida a eterna ajuda a contemplar no seu verdadeiro valor e riqueza todos os bens da terra.
E a esperança torna o homem diligente, forte.

        Crescendo na Caridade enfraquecem a inveja, a ira e a injúria.
O cristão descobre a alegria de ver nos outros os dons de Deus, anseia responder sempre com amabilidade e a sexualidade, como todas as outras potências do homem põe-se ao serviço do verdadeiro amor a Deus e aos outros, no celibato, no matrimónio, na família.

        E ao mesmo tempo quando se esfriam a Fé, a Esperança e a Caridade robustecem-se as raízes dos pecados capitais e os outros caminhos que levam o homem para longe de Deus.

        É muito significativo que um bom número de santos tenha terminado os seus dias na terra com um clamor quase constante no seu coração: «Senhor, aumenta-se a Fé, a Esperança e a Caridade».
Eram bem conscientes de que a vida cristã não pretende principalmente construir no homem a imagem da perfeição divina mas sim reflecti-la.

        Sem esquecer a ideia da «identificação com Cristo» e da «imitação de Cristo» queremos sublinhar – e é-nos também confirmado por esse clamor dos santos – que a Graça leva o cristão a viver «com Cristo, por Cristo, em Cristo», todas as qualidades da nossa natureza que são dom de Deus.
Cristo vive realmente em nós sem que deixemos de ser quem somos.
Daí que, na verdade, pode dizer-se do cristão que «é outro Cristo, «o próprio Cristo».

        Com esta perspectiva a luta ascética cristã centrar-se-á muito especialmente no esforço por crescer na Fé, crescer na Esperança, crescer na Caridade.
Como?

        1º Crescer na Fé.

Activamente, o cristão pode fazer actos de Fé ante possíveis dúvidas que surjam na sua imaginação ou na sua mente: por exemplo reafirmar a sua crença na presença real de Cristo na Eucaristia se ao ir comungar surgir alguma dúvida sobre essa realidade, confirmar-se na realidade da vida eterna ante a pena produzida pela morte de um ente querido que introduz alguma treva no espírito.

        Ao rezar o Credo ou ao lê-lo simplesmente para se inteirar melhor do seu conteúdo, o Cristão abre a sua inteligência à luz das grandes verdades reveladas por Cristo.
Os Dogmas descobrem a sua luz, não serão nunca para ele – como alguns pretendem – limites à inteligência humana mas sim luzes que ajudam a mente do homem a penetrar insondáveis campos da criação, do universo, do mistério do viver, do mistério do amor de Deus.

        O cristão cresce na Fé vivendo os sacramentos: por exemplo, viver o sacramento da reconciliação é um profundo acto de Fé; viver com devoção a Santa Missa é talvez o maior acto de Fé que o homem pode viver na terra.

        Qualquer manifestação externa de Fé também ajuda a crescer interiormente na Fé.
Por exemplo: o testemunho da Fé ante pessoas que maltratam a religião, falam mal de Cristo, dos sacramentos, supõe sempre um robustecimento da Fé; assim como qualquer acção para sustentar a Fé dos outros: uma catequese, uma explicação de alguma verdade, o recordar algumas das recomendações do Magistério da Igreja, etc.

        O cristão também tem a possibilidade de aumentar a Fé: ao cumprir os Mandamentos sem fazer distinções entre uns e outros.

        Crescendo na Fé, o crente compreende mais claramente toda a realidade a partir da luz de Deus, daí a importância de renovar dentro de nós actos de Fé concretos para que jamais nos acostumemos a estas verdades: a Encarnação do Filho de Deus, a Ressurreição de Cristo, a presença real de Cristo na Eucaristia, a Vida Eterna e a Santíssima Trindade: Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, um só Deus verdadeiro em Três Pessoas distintas.

        2º Crescer na Esperança.

        O crente cresce na Esperança ao voltar uma e outra vez à procura de Cristo em cada ocasião em que sente a sua falta.
O desânimo, antes da desesperança, é uma das maiores e mais fortes tentações que o homem encontra no seu caminhar com Deus e para Deus.

        Por vezes esse desânimo não é fruto da distância com que se contempla Deus, noutras é o «silêncio» de Deus que se torna incompreensível para o homem.
Deus nem sempre é fácil de entender e até as pessoas mais santas, em muitas ocasiões, não compreendem os planos de Deus.

        Todas estas situações cooperam para que o cristão caia na tentação de concentrar o seu esforço na vida terrena e chegue a esquecer-se da perspectiva da Vida Eterna.

        Outras vezes, sãos meios que Deus nos oferece para viver com Ele que nos parecem desproporcionados para conseguir o fim desejado, como sucedeu a Naamã, o general sírio, ante as recomendações do profeta Ezequiel para curar a sua lepra.
Que importância pode ter viver a Missa todos os Domingos e Festas de Guarda?
O que significará deixar de pedir perdão pelos pecados quando Deus já é por si mesmo misericordioso?
Acaso rezar vai resolver todos os problemas?

        A paciência ante a adversidade e a paciência confiada ante a proximidade de Deus é um caminho seguro para suster um homem na Esperança, não é, simplesmente, ter a segurança de receber um prémio pelas batalhas que temos de travar em nome de Cristo.
Uma esperança assim interesseira acabaria por converter-se em desesperança, em abandono.

        O cristão cresce em Esperança na medida em que cresce em Caridade, no Amor, porque descobre que espera de Deus que o ama e quer dar a Deus a alegria de receber da sua mão tudo quanto Deus lhe queira dar.

        A Esperança é uma virtude que fortifica o homem na sua luta contra o pecado e na sua confiança os desejos e a vontade manifestados por Deus nele: a vocação, por exemplo.
Crescendo assim, também passivamente, em Esperança o cristão descobre a verdade da afirmação de São Paulo: «Tudo coopera para o bem dos que amam a Deus» [1] e consegue perseverar, consciente, além disso, de que «Quem começou em nós a boa obra levá-la-á a cabo até ao dia de Cristo Jesus» [2].

        Afirmação que não comporta a realização das nossas aspirações e muito menos de todos os nossos desejos.
A Esperança é a janela aberta para «o novo Céu, a nova terra» que Cristo já enxertou no crente pela acção da Graça e que se apresentarão com todo o seu vigor e todos os seus resplendores na Vida Eterna.

        Abraão santificou-se na Esperança, que soube esperar «contra toda a esperança» porque sabia em Quem acreditava, em Quem confiava, em Quem esperava.

        Depois da Ressurreição de Cristo toda a esperança do cristão assenta no viver com Cristo ressuscitado, com Cristo Eucaristia, na terra e no céu.

        3º Crescer em Caridade.

        O cristão cresce activamente em Caridade com actos de amor a Deus e de amor ao próximo.
A piedade é o canal pelo qual flui o coração do homem nas suas relações com Deus.
A oração é sempre um acto de Caridade com Deus, além de um acto de Fé e de Esperança.

        No desejo de amar a Deus e ao próximo, mandamentos em que se resume toda a lei e os profetas, não o esqueçamos, é onde ocorre a conversão do cristão que chega a descobrir com o Apóstolo São Paulo que «ainda que tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência e ainda que tenha tanta fé que mova montanhas, se não tenho caridade, não sou nada» [3].

        A Caridade transforma sempre.
Deus criou o universo por Amor.
E no Amor, na Caridade, a criação sustém-se em pé e converte-se em perene glória de Deus.
Cristo disse de si próprio, como já recordámos, que tinha vindo «não para ser servido mas para servir».
Conhecemos também o que São João disse aos crentes:
«Não vos maravilheis, irmãos, se o mundo vos aborrece. Sabemos que fomos trasladados da morte à vida porque amamos os irmãos. O que não ama permanece na morte» [4].

        O conceito supremo da Caridade está recolhido nas palavras de Cristo: «amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» [5], e em dar a vida pelos outros: «Nisto conhecemos a Caridade, em que Ele deu a vida por nós e nós devemos dar as nossas vidas pelos nossos irmãos» [6].

        E desse preceito surge o amar os inimigos.
Deus ama a todos, não é inimigo de ninguém.
Cristo perdoa a todos e morre pela salvação de todos.
O cristão, ao amar com o Coração de Cristo e como Cristo ama não pode ter nenhum outro ser humano como inimigo.


(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)







[1] Rom 8,28
[2] Flp 1, 6
[3] 1 Cor 13, 2
[4] 1 Jo 3, 13-14
[5] Jo 13, 34
[6] 1 Jo 3, 16

Reflectindo - 82

Vocação 2


Qual é o momento de dizer SIM!

Parece evidente!

Logo que o Senhor chama - NUNC COEPI - em primeiro lugar porque nada nos garante que repetirá a chamada e, depois, porque a prontidão na resposta reflecte uma atitude fulcral de quem quer - verdadeiramente - fazer a Vontade de Deus.

Sabemos que a nossa salvação depende disso mesmo: cumprir, em tudo, a Vontade de Deus...

Portanto não se pode consentir nem com adiamentos ou tergiversações sob pena de ficarmos, para sempre, com uma amarga desilusão na nossa vida.


(ama, reflexões, 2014)

Onde há humildade há sabedoria

"Quia respexit humilitatem ancillae suae" – porque olhou para a baixeza da sua escrava... Cada vez me persuado mais de que a humildade autêntica é a base sobrenatural de todas as virtudes. Fala com Nossa Senhora, para que Ela nos ensine a caminhar por esta senda. (Sulco, 289)

Se recorrermos à Sagrada Escritura, veremos como a humildade é um requisito indispensável para nos dispormos a ouvir Deus. Onde há humildade há sabedoria, explica o livro dos Provérbios. A humildade consiste em nos vermos como somos, sem disfarces, com verdade. E ao compreendermos que não valemos quase nada, abrimo-nos à grandeza de Deus. Esta é a nossa grandeza.

Que bem o compreendia Nossa Senhora, a Santa Mãe de Jesus, a criatura mais excelsa de todas as que existiram e hão-de existir sobre a terra! Maria glorifica o poder do Senhor, que depôs do trono os poderosos e elevou os humildes. E canta que n'Ela se realizou uma vez mais esta providência divina: porque olhou para a baixeza da sua escrava; portanto, eis que, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada.


Maria manifesta-se santamente transformada, no seu coração puríssimo, em face da humildade de Deus: o Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. E, por isso mesmo, o Santo que há-de nascer de ti será chamado Filho de Deus. A humildade da Virgem é consequência desse abismo insondável de graça, que se opera com a Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade nas entranhas da sua Mãe sempre Imaculada. (Amigos de Deus, n. 96)

Pequena agenda do cristão


SeGUNDa-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

07/06/2015

O que pode ver em NUNC COEPI em 07 de Junho

O que pode ver em NUNC COEPI em Jun 07

São Josemaria – Textos

Plínio, São Filipe de Neri, São Filipe de Néri The Maxim’s of St Philip Neri

A beleza de ser cristão (Ernesto Juliá), AMA - Comentários ao Evangelho Mc 14 12-16 22-26, Ernesto Juliá Diaz


Agenda Domingo

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)



Tempo comum X Semana


Evangelho: Mc 14, 12-16. 22-26

12 No primeiro dia dos Ázimos, quando imolavam a Páscoa, os discípulos perguntaram-Lhe: «Onde queres que vamos preparar-Te a refeição da Páscoa?». 13 Então, Ele enviou dois dos Seus discípulos e disse-lhes: «Ide à cidade e encontrareis um homem levando uma bilha de água; ide atrás dele, 14 e, onde entrar, dizei ao dono da casa: “O Mestre manda dizer: Onde está a Minha sala onde hei-de comer a Páscoa com os Meus discípulos?” 15 E ele vos mostrará uma sala superior, grande, mobilada e já pronta. Preparai-nos lá o que é preciso».16 Os discípulos partiram e chegaram à cidade; encontraram tudo como Ele lhes tinha dito, e prepararam a Páscoa.
22 Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciada a bênção, partiu-o, deu-lho e disse: «Tomai, isto é o Meu corpo». 23 Em seguida, tendo tomado o cálice, dando graças, deu-lho, e todos beberam dele. 24 E disse-lhes: «Isto é o Meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado por todos. 25 Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da videira, até àquele dia em que o beberei novo no reino de Deus».

Comentário:

A prudência é uma virtude importantíssima na vida cristã.
Sobretudo nas tarefas de apostolado deve ter-se muito em conta que agir imprudentemente pode não só deitar a perder o esforço já feito como até fazer ou dizer algo que não seja de todo conveniente.
O homem prudente é avisado, não age nem por impulso nem por entusiasmo. Prepara convenientemente a sua acção tomando conselho apropriado de quem melhor o poderá guiar.
Nosso Senhor dá-nos neste trecho de São Marcos uma autêntica lição de prudência ficando claríssimo que não se trata nem de medo ou receio mas de agir em conformidade com o que é aconselhável.

(ama, comentário sobre Mc 14, 12-16. 22-26, 2015.06.04)



Leitura espiritual


a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS





vii significado da mortificação


…/2


        O profundo sentido do sacrifício, do sofrimento que se manifesta de forma tão patente, por exemplo, nas «obscuridades» vividas pela Madre Teresa [1] e por tantos outros santos e santas podemos resumi-lo nu texto e num breve comentário que nos permitem compreender o profundo sentido da ascese, da mortificação.

        «Bebamos atá à última gota do cálice da dor na pobre vida presente. Que importa padecer dez anos, vinte, cinquenta…, se logo é o céu para sempre, para sempre… para sempre?

        E sobretudo – melhor que a razão apontada «propter retribuibem» - que importa padecer se se padece por consolar, para dar gosto a Deus Nosso Senhor com espírito de reparação unido a Ele na sua Cruz, numa palavra: se se padece por Amor?...» [2].

        Ou seja, o cristão não sofre por sofrer, não padece por gosto de passar mal, não se sacrifica, simplesmente, porque o sofrer pode amadurecer a personalidade, ainda que, efectivamente, nalguns casos seja assim.

        Tampouco sofre pensando que esse é o melhor caminho para obter a recompensa do Céu.
Não.
O cristão une-se a Cristo, Cristo vive no cristão seu caminho de amor redentor e esse viver comporta sofrer com os sofrimentos de todos – sofrimentos introduzidos no mundo pelo pecado do homem – para que todos encontrem no sofrimento também o amor de Cristo Redentor.

        Em sentido estrito o cristão tampouco sofre para «consolar Cristo».
O «dar gosto a Nosso Senhor», em absoluto, significa que Cristo se goza carregando em nós a pena e o sofrimento redentor.

        Cristo consola-se, Cristo goza porque ao ver que sofremos com Ele sabe que o compreendemos, que o amamos, que o nosso coração se abre à sai magnanimidade, ao seu Amor e então pode doar-se a si próprio a cada um de nós.
Goza porque sabe que, desta forma, o cristão vive sempre na dor da cruz, a alegria e o gozo da redenção, da Ressurreição.

        O sofrimento está sempre presente no mundo como fruto da maldade do homem, não como castigo divino.
Ao sofrer em união com Cristo, em suma, o crente vive a redenção do pecado que o próprio Cristo viveu.

        Com a mortificação vivida em amor com Cristo e em Cristo, em suma,  o cristão dá sentido a todo o sofrimento, arranca o aguilhão da morte.
«Onde está. Morte, o teu agulhão? O aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado, a Lei. Mas graças sejam dadas a Deus que nos dá a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo» [3].
E desta forma expressa o seu amor a Cristo que quis sofrer para manifestar o amor que nos tem: «ninguém ama tanto como o que dá a vida pelos seus amigos» [4].

        Sofrendo com Cristo, mortificando-se com Ele, descobrimos esse Amor e estamos em condições de o manifestar aos outros.

        São Paulo expressou assim o sentido e os detalhes desta luta:

        «Assim, pois, se ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde está Cristo sentado à direita de Deus.
Aspirai às coisas do alto não às da terra.
Porque morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.
Quando Cristo apareça, a vossa vida, então também vós aparecereis gloriosos com Ele.

        Portanto mortificai os vossos membros terrenos: fornicação, impureza, paixões, maus desejos e a codícia que é uma idolatria tudo o que atrai a cólera de Deus e que também vós praticastes noutro tempo quando vivíeis nelas…» [5].

        E toda esta batalha originada no amor a Deus e por já ter sido redimidos em Cristo tem um fim muito claro: que Cristo habite em nós, que o cristão possa dizer também com o Apóstolo: «já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim» [6].

Uma vez mais recolhemos esse texto do Apóstolo tão cheio de conteúdo:
«Despojai-vos do homem velho com as suas obras e revesti-vos do homem novo que se vai renovando até alcançar um conhecimento perfeito segundo a imagem do seu Criador (…).
E além de tudo isto revesti-vos da caridade que é o vínculo da perfeição.
E que a paz de Cristo presida nos vossos corações pois a ela fostes chamados formando um só corpo.
E sede agradecidos» [7].

        Vistas com estas perspectivas podemos dizer que as tentações e as mortificações têm um aspecto duplo: combater directamente as raízes do pecado no homem e assim tornar possível que se acrescentem as virtudes, de forma que, também dentro da sua alma, o cristão consiga «afogar o mal em abundância de bem».
Em suma, ajudam o cristão a ir lutando no seu interior para que, passo a passo, a sua pessoa se vá convertendo a Deus.


viii a luta ascética para a conversão


        O analisado até agora permitiu-nos ser mais conscientes que a tarefa ascética do cristão é combater e erradicar o pecado da sua alma para permitir que a Graça de Deus, a graça santificante que o converte em filho de Deus e membro do seu povo sacerdotal, se vá desenvolvendo enxertada na sua natureza humana.
Por outras palavras, tirar os obstáculos que possam impedir a deificação do cristão e preparar o espírito para que o Espírito Santo possa concluir essa «deificação».

        Esse processo nunca chega ao seu ponto final e por conseguinte a luta ascética tampouco se conclui.
Varia de modalidades e de tons, muda os campos de batalha, porque as tentações e as debilidades do ser humano ainda que sendo sempre as mesmas nem sempre se apresentam do mesmo modo nem com características idênticas nem tampouco são idênticas aas situações das pessoas que as sofrem e suportam.

        São Paulo deixou-o escrito manifestando claramente a sua luta:
«Não sabeis que os que correm no estádio, todos correm mas só um alcança o prémio?
Correi, pois, de modo que o alcanceis.
E quem se prepara para aluta abstém-se de tudo e isso para alcançar uma coroa corruptível mas, nós, para alcançar uma incorruptível.
E eu corro, não como à aventura por um prémio incerto, não como quem golpeia o ar mas, sim, castigo o meu corpo e escravizo-o, não sendo que tendo sido arauto para outros, seja eu desclassificado» [8].

        Não podemos perder de vista que ainda que São Paulo fale de «castigar o seu corpo», na realidade é toda a pessoa, o homem na sua unidade vital e existencial quem na verdade luta e se mortifica.
O pecado não está no corpo nem na alma, está no «eu».

        «A raiz do pecado está no coração do homem, na sua vontade livre segundo o ensinamento do Senhor:
‘De dentro do coração saem as más intenções, assassinatos, adultérios, fornicações, roubos, falsos testemunhos, injúrias. Isto é que torna o homem impuro? [9].
No coração também reside a caridade princípio das obras boas e puras a qual o pecado fere» [10].

        E o coração, toda a pessoa humana necessita sempre de se endireitar, uma e outra vez no seu rumo para a luz na Graça de Deus.

        Por isso é compreensível que ao longo dos séculos se tenha sublinhado a necessidade de lutar principalmente contra os chamados pecados capitais.
Pecados que se referem ao conjunto de actuações e vivências do homem: sensações, tendências desordenadas, hábitos mentais, movimentos do espírito que os impedem de estar ao serviço do fim do homem – de todo o homem – como filho de Deus.

        Como se recordará estes pecados são: soberba, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça.
E se aplicamos à luta contra estes pecados o princípio que referimos uns parágrafos atrás, podemos dar-nos conta de que a luta do cristão para facilitar a sua conversão por obra da Graça, mais do que ir directamente contra cada um desses pecados e conseguir eliminar as raízes ancoradas no seu espírito há-de dirigir-se a robustecer no núcleo da sua pessoa, na sua vontade, na sua inteligência, na sua memória, as raízes da Fé, da Esperança e da Caridade.

        Ou seja, podemos dizer que na conversão do cristão a primeira e principal tarefa é desenvolver o seu ser filho de Deus, no crescimento dessa «participação na natureza divina» também se vão erradicando da sua alma os pecados, as ofensas a Deus, as ofensas a si mesmo.

        Com efeito, lutando para crescer na Fé murcham as raízes da soberba e do orgulho.
O homem descobre-se na sua plenitude de ser criatura, agradecido por o ser.
Consciente das suas limitações, «goza» em ser filho de Deus, de ter recebido tudo quanto possui como um dom divino.
Cresce em humildade.



(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)







[1] Madre Teresa de Calcutá, Ven, sê mi luz, Planeta, Barcelona, 2006
[2] São Josemaria Escrivá, Caminho, n. 182
[3] Cfr. Co 15, 55-59
[4] Jo 15, 13
[5] Col 3, 1-7
[6] Ga 2, 20
[7] Col 3; 9-10, 14, 15
[8] 1 Cor 9, 24-27
[9] Mt 15, 19-20
[10] Catecismo, n. 1853