07/06/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)



Tempo comum X Semana


Evangelho: Mc 14, 12-16. 22-26

12 No primeiro dia dos Ázimos, quando imolavam a Páscoa, os discípulos perguntaram-Lhe: «Onde queres que vamos preparar-Te a refeição da Páscoa?». 13 Então, Ele enviou dois dos Seus discípulos e disse-lhes: «Ide à cidade e encontrareis um homem levando uma bilha de água; ide atrás dele, 14 e, onde entrar, dizei ao dono da casa: “O Mestre manda dizer: Onde está a Minha sala onde hei-de comer a Páscoa com os Meus discípulos?” 15 E ele vos mostrará uma sala superior, grande, mobilada e já pronta. Preparai-nos lá o que é preciso».16 Os discípulos partiram e chegaram à cidade; encontraram tudo como Ele lhes tinha dito, e prepararam a Páscoa.
22 Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciada a bênção, partiu-o, deu-lho e disse: «Tomai, isto é o Meu corpo». 23 Em seguida, tendo tomado o cálice, dando graças, deu-lho, e todos beberam dele. 24 E disse-lhes: «Isto é o Meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado por todos. 25 Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da videira, até àquele dia em que o beberei novo no reino de Deus».

Comentário:

A prudência é uma virtude importantíssima na vida cristã.
Sobretudo nas tarefas de apostolado deve ter-se muito em conta que agir imprudentemente pode não só deitar a perder o esforço já feito como até fazer ou dizer algo que não seja de todo conveniente.
O homem prudente é avisado, não age nem por impulso nem por entusiasmo. Prepara convenientemente a sua acção tomando conselho apropriado de quem melhor o poderá guiar.
Nosso Senhor dá-nos neste trecho de São Marcos uma autêntica lição de prudência ficando claríssimo que não se trata nem de medo ou receio mas de agir em conformidade com o que é aconselhável.

(ama, comentário sobre Mc 14, 12-16. 22-26, 2015.06.04)



Leitura espiritual


a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS





vii significado da mortificação


…/2


        O profundo sentido do sacrifício, do sofrimento que se manifesta de forma tão patente, por exemplo, nas «obscuridades» vividas pela Madre Teresa [1] e por tantos outros santos e santas podemos resumi-lo nu texto e num breve comentário que nos permitem compreender o profundo sentido da ascese, da mortificação.

        «Bebamos atá à última gota do cálice da dor na pobre vida presente. Que importa padecer dez anos, vinte, cinquenta…, se logo é o céu para sempre, para sempre… para sempre?

        E sobretudo – melhor que a razão apontada «propter retribuibem» - que importa padecer se se padece por consolar, para dar gosto a Deus Nosso Senhor com espírito de reparação unido a Ele na sua Cruz, numa palavra: se se padece por Amor?...» [2].

        Ou seja, o cristão não sofre por sofrer, não padece por gosto de passar mal, não se sacrifica, simplesmente, porque o sofrer pode amadurecer a personalidade, ainda que, efectivamente, nalguns casos seja assim.

        Tampouco sofre pensando que esse é o melhor caminho para obter a recompensa do Céu.
Não.
O cristão une-se a Cristo, Cristo vive no cristão seu caminho de amor redentor e esse viver comporta sofrer com os sofrimentos de todos – sofrimentos introduzidos no mundo pelo pecado do homem – para que todos encontrem no sofrimento também o amor de Cristo Redentor.

        Em sentido estrito o cristão tampouco sofre para «consolar Cristo».
O «dar gosto a Nosso Senhor», em absoluto, significa que Cristo se goza carregando em nós a pena e o sofrimento redentor.

        Cristo consola-se, Cristo goza porque ao ver que sofremos com Ele sabe que o compreendemos, que o amamos, que o nosso coração se abre à sai magnanimidade, ao seu Amor e então pode doar-se a si próprio a cada um de nós.
Goza porque sabe que, desta forma, o cristão vive sempre na dor da cruz, a alegria e o gozo da redenção, da Ressurreição.

        O sofrimento está sempre presente no mundo como fruto da maldade do homem, não como castigo divino.
Ao sofrer em união com Cristo, em suma, o crente vive a redenção do pecado que o próprio Cristo viveu.

        Com a mortificação vivida em amor com Cristo e em Cristo, em suma,  o cristão dá sentido a todo o sofrimento, arranca o aguilhão da morte.
«Onde está. Morte, o teu agulhão? O aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado, a Lei. Mas graças sejam dadas a Deus que nos dá a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo» [3].
E desta forma expressa o seu amor a Cristo que quis sofrer para manifestar o amor que nos tem: «ninguém ama tanto como o que dá a vida pelos seus amigos» [4].

        Sofrendo com Cristo, mortificando-se com Ele, descobrimos esse Amor e estamos em condições de o manifestar aos outros.

        São Paulo expressou assim o sentido e os detalhes desta luta:

        «Assim, pois, se ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde está Cristo sentado à direita de Deus.
Aspirai às coisas do alto não às da terra.
Porque morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.
Quando Cristo apareça, a vossa vida, então também vós aparecereis gloriosos com Ele.

        Portanto mortificai os vossos membros terrenos: fornicação, impureza, paixões, maus desejos e a codícia que é uma idolatria tudo o que atrai a cólera de Deus e que também vós praticastes noutro tempo quando vivíeis nelas…» [5].

        E toda esta batalha originada no amor a Deus e por já ter sido redimidos em Cristo tem um fim muito claro: que Cristo habite em nós, que o cristão possa dizer também com o Apóstolo: «já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim» [6].

Uma vez mais recolhemos esse texto do Apóstolo tão cheio de conteúdo:
«Despojai-vos do homem velho com as suas obras e revesti-vos do homem novo que se vai renovando até alcançar um conhecimento perfeito segundo a imagem do seu Criador (…).
E além de tudo isto revesti-vos da caridade que é o vínculo da perfeição.
E que a paz de Cristo presida nos vossos corações pois a ela fostes chamados formando um só corpo.
E sede agradecidos» [7].

        Vistas com estas perspectivas podemos dizer que as tentações e as mortificações têm um aspecto duplo: combater directamente as raízes do pecado no homem e assim tornar possível que se acrescentem as virtudes, de forma que, também dentro da sua alma, o cristão consiga «afogar o mal em abundância de bem».
Em suma, ajudam o cristão a ir lutando no seu interior para que, passo a passo, a sua pessoa se vá convertendo a Deus.


viii a luta ascética para a conversão


        O analisado até agora permitiu-nos ser mais conscientes que a tarefa ascética do cristão é combater e erradicar o pecado da sua alma para permitir que a Graça de Deus, a graça santificante que o converte em filho de Deus e membro do seu povo sacerdotal, se vá desenvolvendo enxertada na sua natureza humana.
Por outras palavras, tirar os obstáculos que possam impedir a deificação do cristão e preparar o espírito para que o Espírito Santo possa concluir essa «deificação».

        Esse processo nunca chega ao seu ponto final e por conseguinte a luta ascética tampouco se conclui.
Varia de modalidades e de tons, muda os campos de batalha, porque as tentações e as debilidades do ser humano ainda que sendo sempre as mesmas nem sempre se apresentam do mesmo modo nem com características idênticas nem tampouco são idênticas aas situações das pessoas que as sofrem e suportam.

        São Paulo deixou-o escrito manifestando claramente a sua luta:
«Não sabeis que os que correm no estádio, todos correm mas só um alcança o prémio?
Correi, pois, de modo que o alcanceis.
E quem se prepara para aluta abstém-se de tudo e isso para alcançar uma coroa corruptível mas, nós, para alcançar uma incorruptível.
E eu corro, não como à aventura por um prémio incerto, não como quem golpeia o ar mas, sim, castigo o meu corpo e escravizo-o, não sendo que tendo sido arauto para outros, seja eu desclassificado» [8].

        Não podemos perder de vista que ainda que São Paulo fale de «castigar o seu corpo», na realidade é toda a pessoa, o homem na sua unidade vital e existencial quem na verdade luta e se mortifica.
O pecado não está no corpo nem na alma, está no «eu».

        «A raiz do pecado está no coração do homem, na sua vontade livre segundo o ensinamento do Senhor:
‘De dentro do coração saem as más intenções, assassinatos, adultérios, fornicações, roubos, falsos testemunhos, injúrias. Isto é que torna o homem impuro? [9].
No coração também reside a caridade princípio das obras boas e puras a qual o pecado fere» [10].

        E o coração, toda a pessoa humana necessita sempre de se endireitar, uma e outra vez no seu rumo para a luz na Graça de Deus.

        Por isso é compreensível que ao longo dos séculos se tenha sublinhado a necessidade de lutar principalmente contra os chamados pecados capitais.
Pecados que se referem ao conjunto de actuações e vivências do homem: sensações, tendências desordenadas, hábitos mentais, movimentos do espírito que os impedem de estar ao serviço do fim do homem – de todo o homem – como filho de Deus.

        Como se recordará estes pecados são: soberba, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça.
E se aplicamos à luta contra estes pecados o princípio que referimos uns parágrafos atrás, podemos dar-nos conta de que a luta do cristão para facilitar a sua conversão por obra da Graça, mais do que ir directamente contra cada um desses pecados e conseguir eliminar as raízes ancoradas no seu espírito há-de dirigir-se a robustecer no núcleo da sua pessoa, na sua vontade, na sua inteligência, na sua memória, as raízes da Fé, da Esperança e da Caridade.

        Ou seja, podemos dizer que na conversão do cristão a primeira e principal tarefa é desenvolver o seu ser filho de Deus, no crescimento dessa «participação na natureza divina» também se vão erradicando da sua alma os pecados, as ofensas a Deus, as ofensas a si mesmo.

        Com efeito, lutando para crescer na Fé murcham as raízes da soberba e do orgulho.
O homem descobre-se na sua plenitude de ser criatura, agradecido por o ser.
Consciente das suas limitações, «goza» em ser filho de Deus, de ter recebido tudo quanto possui como um dom divino.
Cresce em humildade.



(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)







[1] Madre Teresa de Calcutá, Ven, sê mi luz, Planeta, Barcelona, 2006
[2] São Josemaria Escrivá, Caminho, n. 182
[3] Cfr. Co 15, 55-59
[4] Jo 15, 13
[5] Col 3, 1-7
[6] Ga 2, 20
[7] Col 3; 9-10, 14, 15
[8] 1 Cor 9, 24-27
[9] Mt 15, 19-20
[10] Catecismo, n. 1853

Temas para meditar - 448

Nulla dies sine línea (Plínio). 




Não deixar passar o dia sem ter feito algo de bom.




(S. FILIPE DE NERI, Maxim’s, F.W.Faber, Cromwell Press SN12 8PH, nr. 11-2 trad ama

Dar é próprio dos apaixonados

O teu talento, a tua simpatia, as tuas condições... perdem-se; não te deixam aproveitá-las. – Pensas bem nestas palavras de um autor espiritual: "Não se perde o incenso que se oferece a Deus. – Mais se honra o Senhor com o abatimento dos teus talentos do que com o seu uso vão". (Caminho, 684)

E, abrindo os seus tesouros, ofereceram-lhe presentes de ouro, incenso e mirra. Detenhamo-nos um pouco para entender este passo do Santo Evangelho. Como é possível que nós, que nada somos e nada valemos, ofereçamos alguma coisa a Deus? Diz a Escritura: toda a dádiva e todo o dom perfeito vem do alto. O homem não consegue descobrir plenamente a profundidade e a beleza dos dons do Senhor: se tu conhecesses o dom de Deus... – responde Jesus à mulher samaritana. Jesus Cristo ensinou-nos a esperar tudo do Pai, a procurar antes de mais o Reino de Deus e a sua justiça, porque tudo o resto se nos dará por acréscimo e Ele conhece bem as nossas necessidades.

Na economia da salvação, o nosso Pai cuida de cada alma com amor e delicadeza: cada um recebeu de Deus o seu próprio dom; uns de um modo, outros de outro. Portanto, podia parecer inútil cansarmo-nos, tentando apresentar ao Senhor algo de que Ele precise; dada a nossa situação de devedores que não têm com que saldar as dívidas, as nossas ofertas assemelhar-se-iam às da Antiga Lei, que Deus já não aceita: Tu não quiseste os sacrifícios, as oblações e os holocaustos pelo pecado, nem te são agradáveis as coisas que se oferecem segundo a Lei.


Mas o Senhor sabe que o dar é próprio dos apaixonados e Ele próprio nos diz o que deseja de nós. Não lhe interessam riquezas, nem frutos, nem animais da terra, do mar ou do ar, porque tudo isso lhe pertence. Quer algo de íntimo, que havemos de lhe entregar com liberdade: dá-me, meu filho, o teu coração. Vedes? Se compartilha, não fica satisfeito: quer tudo para si. Repito: não pretende o que é nosso; quer-nos a nós mesmos. Daí – e só daí – advêm todas as outras ofertas que podemos fazer ao Senhor. (Cristo que passa, 35)

Pequena agenda do cristão


DOMINGO


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé.

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

06/06/2015

O que pode ver em NUNC COEPI em 06 de Junho

O que pode ver em NUNC COEPI em Jun 06

São Josemaria – Textos

A beleza de ser cristão (Ernesto Juliá), AMA - Comentários ao Evangelho Mc 12 38-44, Ernesto Juliá Diaz

coment (St Agostinho), Oração, Stº Agostinho

Suma Teológica - Tratado da Vida de Cristo - Quest 28- Art 2,São Tomás de Aquino


Agenda Sábado

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)



Tempo comum IX Semana


Evangelho: Mc 12 38-44

38 Dizia-lhes ainda nos Seus ensinamentos: «Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com roupas largas, de serem saudados nas praças 39 e de ocuparem as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes, 40 que devoram as casas das viúvas, sob o pretexto de longas orações. Serão julgados com maior rigor». 41 Estando Jesus sentado defronte do cofre das esmolas, observava como o povo deitava ali dinheiro. Muitos ricos deitavam em abundância. 42 Tendo chegado uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, que valem um quarto de um asse. 43 Chamando os Seus discípulos, disse-lhes: «Em verdade vos digo que esta pobre viúva deu mais que todos os outros que deitaram no cofre, 44 porque todos os outros deitaram do que lhes sobrava, ela porém deitou do seu necessário tudo o que possuía, tudo o que tinha para viver».

Comentário:

O que deito eu nas mãos abertas de Cristo que espera pacientemente pela minha oferta?

As coisas que tenho e que não me fazem falta nenhuma?
Ou as que gostaria de ter como se me fossem necessárias?

Prefiro dar tudo, absolutamente tudo.
É muito pouco, penso eu, mas sendo tudo o que tenho, Deus não deixará de me retribuir como muito mais porque nunca se deixa vencer em generosidade.

É um gesto calculado, então?
Dou pouco para receber muito!
Parece um bom negócio…

Meu Deus, tem piedade de mim que me perco na minha falta de habilidade para fazer o que Tu queres. Os meus preconceitos e suspicácias! Não tenho, na verdade, não tenho que preocupar-me com este assunto: Dou ao Senhor o que Ele quiser pela simples razão que, tudo, absolutamente, é dele e, sendo assim, não faço mais que devolver o que recebi.

(ama, meditação sobre Mc 12, 38-44, 2010.06.05)


Leitura espiritual



a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS



vi motivo e sentido das tentações

…/2

   
O rebaixamento de Deus não está, propriamente falando, em fazer-se homem mas na humilhação posterior que São Paulo assinala:
«Antes se aniquilou [1], se «despojou» em fazer-se homem e se humilhou em fazer-se pecado.
«”Aniquilar-se” é uma situação metafísica sem deixar de ser Criador, faz-se criatura, tomou a condição de servo sem perder a divindade.
Sem deixar de ser Deus, igual ao Pai, assumiu a natureza humana e nasceu da Virgem.
E sem deixar de ser Deus se «aniquila» porque, sendo Deus, vem a ser Deus e homem.
Humilha-se porque sendo Deus e homem não exige os direitos de «ser Deus» e passa pela terra como «um homem pecador».

        Podemos dizer que Cristo não se limitou a sofrer liminarmente o castigo merecido pelo pecado nem sequer a ser como que o preço dos nossos pecados.
E dizemos isto sem esquecer a afirmação de São Paulo de «que fomos comprados a grande preço».

        Cristo, Filho de Deus feito homem, quis partilhar tudo com o homem: o pecado e o preço do pecado.
Não Lhe bastou ser solidário com o homem pecador, nem considerou ser suficiente devolver ao pecador a paz perdida pelo pecado e, tampouco considerou conveniente redimir o pecado fora do pecado.

        Cristo sofre a paixão e a cruz por causa dos pecados da humanidade, mas não carrega com a cruz simplesmente por amor ao homem «abraça a cruz».
O que significa «abraçar a cruz»?

        Cristo introduziu-se na criação, fez-se criatura sendo Criador.
Assim também se introduziu no pecado do homem sem jamais estar sob a sombra ou influência de Satanás.
Fazendo-se pecado por amor do homem redime o pecado no amor a Deus Pai.
E desta forma restitui ao homem a natureza criadora do seu amor.

        E precisamente por ter-se «feito pecado» sofreu as tentações.

        O «fazer-se pecado» impediu Satanás de ver o resplendor de Deus Pai no rosto de Deus Filho.
Satanás sabe que jamais poderia ter tentado Deus e também sabe o extraordinário contrassenso que tal comporta.

        Cristo, sofreu tentações no deserto em Getsémani, na Cruz.
Não no sentido de ser tentado ao nível dos sentidos nem tampouco na grande variedade de situações pelas quais o homem passa. E que para o homem se podem converter em tentação.
Cristo, por exemplo, jamais teve que «lutar asceticamente» para vencer uma tentação.
Parece-nos que não se justifica, de modo algum, falar de Jesus Cristo «tentado» pela gula, a sensualidade, o orgulho, a preguiça, etc.

        As tentações de Cristo, sempre externas, nunca no interior do seu espírito, estão directamente relacionadas com as virtudes em que se expressa e desenvolve a vida cristã: contra a Fé, contra a Esperança, contra a Caridade.

 Nesta perspectiva podemos dizer que Cristo sofre a tentação para que o cristão sofrendo a tentação com Ele, viva com Ele a redenção do pecado.

        O cristão, lutando por não cair na tentação faz murchar na sua alma as raízes do pecado porque na luta cresce em Fé, em Esperança, em Caridade ao vencer por Cristo, em Cristo, com Cristo.

        São Paulo recorda-nos: «Gloriamo-nos até na tribulação, sabendo que a tribulação produz a paciência, uma virtude posta à prova, e a virtude posta à prova, a esperança» [2].


***
       
        Como resumo podemos dizer que a tentação é uma componente necessária da vida cristã como o foi na vida de Cristo.
Além disso, ao padecer e vencer a tentação o cristão desenvolve a sua condição de «filho de Deus» porque está vivendo com Cristo a vitória sobre o pecado na disposição de espírito que Cristo viveu: «sendo manso e humilde de coração».
Desta forma transforma-se verdadeiramente em «filho de Deus em Cristo» ao participar da missão de Cristo na terra: a Redenção.

        Podemos assim entender no seu verdadeiro sentido estas frases de São Tiago:

«Bem-aventurado o varão que suporta a tentação porque, posto à prova, receberá a coroa da vida que o Senhor prometeu aos que o amam» [3].

        «Tende irmãos por sumo gozo ver-vos rodeados de diversas tribulações considerando que a prova da vossa fé engendra a paciência» [4].

        Parafraseando Santo Agostinho podemos concluir dizendo que o cristão é tentado enquanto assume com Cristo o pecado do mundo, faz-se pecado com Cristo e triunfa sobre as tentações morrendo com Cristo na Cruz, por amor, redimindo o pecado do mundo.



vii significado da mortificação


        A tentação, em não poucas ocasiões, encontra-se unida a dores, penos, sofrimentos morais e físicos.
O cristão desde sempre compreendeu que todas essas situações são o fruto de ter tomado a cruz de Cristo para morrer com Ele e abrir a alma à glória da Ressurreição, vivendo na nossa carne e no nosso espírito as batalhas contra o pecado que Cristo combateu ao longo de toda a sua vida e especialmente no Getsémani e no Calvário.

        «O caminho da perfeição passa pela cruz.
Não há santidade sem renúncia e sem combate espiritual [5].
O combate espiritual implica a ascese e a mortificação que conduzem gradualmente a viver na paz e no gozo das Bem-Aventuranças» [6].

        Cristo quis sofrer e morrer na sua tarefa de redimir-nos do pecado e da morte.
Poderia ter escolhido outros caminhos para alcançar o mesmo fim.
Um acto do amor de Cristo vence todos os pecados do mundo e todas as insídias que o pecado possa semear no coração dos homens.

        Todavia, quis levar a cabo a sua obra da forma que o fez e deixar-nos, para os homens as contemplemos até ao fim do mundo, as cenas da sua Agonia, da sua Paixão e da sua Morte e descubramos o amor de Deus que tornará possível que gozemos desse amor vivendo com Cristo a sua Ressurreição.

        Desde muito cedo os Apóstolos foram conscientes das contrariedades, dificuldades, obstáculos que deveriam vencer no seu caminho de viver com Cristo, por Cristo e em Cristo.
«Chamaram os Apóstolos, açoitaram-nos, proibiram-lhes terminantemente falar mais de Jesus e soltaram-nos. Eles saíram do tribunal muito contentes por terem sido dignos de serem ultrajados por tal nome. Não deixavam de ensinar no Templo diariamente e nas casa e de anunciar a boa notícia que Jesus é o Messias» [7].

        É de todos bem conhecida a exposição que São Paulo faz aos fiéis de Corinto das fadigas com que há-de viver o seu ministério e dar a conhecer o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo:
«Com grande paciência em sofrimentos, escassez, angústias, golpes, cárceres…, tratados como impostores sem verdadeiros…, no meio da calúnia e da boa fama» [8].

        Dentro do esforço que o cristão há-de realizar para se ir convertendo em «filho de Deus» e na «linhagem eleita», sacerdócio real, nação santa, povo adquirido» [9], temos de fixar agora a nossa atenção nesse conjunto de acções provocadas ou sofridas passivamente que a tradição recolheu com o nome de «mortificações».

        O seu nome está unido à consideração, comum na literatura espiritual cristã, de relacionar o crescimento da vida cristã com a morte das raízes do pecado no espírito do crente.
Neste sentido, «ascese e mortificação, que vêm a ser luta e esforço que comportam exigência e até por vezes, dor, pena, sofrimento, têm o fim de afastar o cristão do pecado e de todas as suas consequências e facilitar que a vida da «nova criatura» em Cristo Jesus se desenvolva paulatinamente.

        Ou seja, que a boa semente da Graça, a vida de Cristo enxertada em nós, desenvolva toda a sua eficácia de conversão e transformação com a mortificação.

        Como já fizemos com outras questões da vida espiritual não vamos agora deter-nos nesta matéria.
Basta-nos deixar testemunho da presença da Cruz ao longo da vida do cristão acrescentando que a Cruz é sempre a ante-sala do anúncio da Ressurreição.
A mortificação não significa tristeza.
O sorriso pode ser, às vezes, e com palavras de São Josemaria Escrivá, «a melhor mortificação».


(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)






[1] Nota de ama: anononadó no original. Não tem uma tradução específica, mas significa tornar-se como que tornar-se “anão”, diminuído na sua estatura ou no seu todo, aniquilar-se, fazer-se nada. Prefiro a palavra “aniquilar” porque me parece traduzir melhor o significado: Deus, de certo modo, aniquila-se como Divindade ao assumir a pessoa humana, como aliás. São Paulo explica.
[2] Rm 5, 4
[3] Tg 1, 12
[4] Tg 1, 2-3
[5] Cfr. 2 Tm 4
[6] Catecismo, n. 2015
[7] Act 5, 40-42
[8] 2 Cor 6, 4-10
[9] 1 Pd 2, 9

Tratado da vida de Cristo 8

Questão 28: Da virgindade da Santa Virgem Maria

Art. 2 — Se a mãe de Cristo foi virgem no parto.

 O segundo discute-se assim. — Parece que a mãe de Cristo não foi virgem no parto.

1. — Pois, diz Ambrósio: Quem santificou o ventre de uma mulher para que dela nascesse um profeta, esse foi o mesmo que abriu o ventre de sua mãe, para sair dele imaculado. Ora, tal facto exclui a virgindade. Logo, a mãe de Cristo não foi virgem no parto.

2. Demais. — No mistério de Cristo não devia haver nada, que nos levasse a lhe considerar o corpo como imaginária. Ora, não convém a um corpo verdadeiro, mas só a um fantástico, poder atravessar o que está fechado; porque dois corpos não podem ocupar simultaneamente o mesmo lugar. Logo, o corpo de Cristo não devia sair do ventre materno, sem ele se romper. Portanto, a virgem não pôde ser virgem no parto.

3. Demais. — Como diz Gregório, quando, depois da ressurreição, o Senhor passou através de portas fechadas e entrou a ter com os discípulos, mostrou ser o seu corpo da mesma natureza, mas revestido de uma outra glória. E assim, é próprio do corpo glorioso atravessar portas fechadas. Ora, o corpo de Cristo, na sua concepção, não foi glorioso, mas passível, tendo a Semelhança da carne do pecado, no dizer do Apóstolo. Logo, não saiu do ventre materno, sem que ele se abrisse.

Mas, em contrário, diz o concílio Efesino: A natureza destrói, com o parto, a virgindade. Mas a graça uniu o parto e a maternidade com a virgindade. Logo, a mãe de Cristo foi Virgem, mesmo no parto.

Sem nenhuma dúvida devemos afirmar que a mãe de Cristo foi Virgem, mesmo no parto. Pois, o Profeta não só disse — Eis que uma Virgem conceberá, mas acrescentou — e parirá um filho. E isto funda-se numa tríplice conveniência. — Primeiro, por convir à propriedade do que ia nascer, que era o Verbo de Deus. Pois, o Verbo não somente é concebido no coração, sem nenhum detrimento, mas também sem nenhuma corrupção dele procede. E por isso, para mostrar que esse era o próprio corpo do Verbo de Deus, foi conveniente que nascesse do ventre incorrupto da virgem. Por isso, lemos no concílio Efesino: A que gera uma carne puramente humana perde a sua virgindade. Mas o Verbo de Deus, nascendo na carne, conserva a virgindade da Mãe, mostrando assim ser lealmente o Verbo. Pois também o nosso verbo, quando gerado, não corrompe a mente; nem o Verbo substancial, que é Deus, havia de destruir a virgindade, quando nasceu. — Segundo, tal foi conveniente quanto ao efeito da Encarnação de Cristo. Pois, veio para tirar a nossa corrupção. E por isso não convinha que, ao nascer, destruísse a virgindade materna. Donde o dizer Agostinho, que não era justo que quem veio sanar a corrupção violasse, com o seu advento, a integridade virginal. — Terceiro, isso foi conveniente a fim de que quem mandou honrarmos os pais não viesse, com o seu nascimento, diminuir a honra materna.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Ambrósio assim o diz, quando expõe as palavras da lei citadas pelo evangelista. Todo o filho macho que for primogénito será consagrado ao Senhor. O que, como diz o Venerável Beda, é um modo habitual de se referir à natividade, sem querer significar devamos crer que o Senhor desvirginou, ao nascer, o ventre que lhe serviu de asilo e que santificou. Donde, o abrir, a que se refere Ambrósio, não significa a ruptura do claustro do pudor virginal, mas só o nascer do filho, do ventre materno.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Cristo quis mostrar que tinha verdadeiramente corpo, mas de modo que também manifestasse a sua divindade. Por isso juntou causas miraculosas com coisas humildes. Assim, para mostrar que tinha um verdadeiro corpo, nasce de uma mulher; e para mostrar a sua divindade, nasce de uma virgem, pois, tal é o parto que convém a Deus, como diz Jerónimo.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Alguns disseram que Cristo, na sua natividade, assumiu o dote da subtileza; assim, quando andou, sem molhar os pés, sobre o mar, dizem que assumiu o dote da agilidade. - Mas, isto não concorda com o que foi determinado antes. Pois, tais dotes do corpo glorioso provêm da redundância da glória da alma para o corpo, como diremos quando tratarmos dos corpos gloriosos. Ora, segundo dissemos, Cristo, antes da sua paixão permitia ao seu corpo fazer e sofrer o que lhe é próprio; nem havia tal redundância da glória, da alma para o corpo. Donde, devemos concluir todos esses factos supra referidos serem miraculosos, por virtude divina. Por isso diz Agostinho: Um corpo tal unido à divindade, não era impedido por nenhum obstáculo. Pois, aquele podia entrar, sem que portas lhe fossem abertas, que veio ao mundo sem que sua mãe perdesse a virgindade. E Dionísio diz que Cristo realizava as obras próprias do homem, de um modo superior; e isso o demonstra a concepção sobrenatural da virgem, e o lhe ser o peso material dos pés suportado pela superfície móvel das águas.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.