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17/12/2012

É tempo de esperança


"É tempo de esperança, e eu vivo desse tesouro. Não é uma frase, Padre; é uma realidade", dizes-me. Então... o mundo inteiro, todos os valores humanos que te atraem com uma força enorme (amizade, arte, ciência, filosofia, teologia, desporto, natureza, cultura, almas...), tudo isso, deposita-o na esperança – na esperança de Cristo. (Sulco, 293)

Onde quer que nos encontremos, esta é a exortação do Senhor: vigiai! Em face deste apelo de Deus, alimentemos nas nossas consciências os desejos esperançosos de santidade, com obras. Dá-me, meu filho, o teu coração, sugere-nos o senhor ao ouvido. Deixa-te de construir castelos com a fantasia, decide-te a abrir a tua alma a Deus, pois exclusivamente no Senhor acharás o fundamento real para a tua esperança e para fazer o bem aos outros. Quando não lutamos connosco mesmos, quando não rechaçamos terminantemente os inimigos que estão dentro da cidadela interior – o orgulho, a inveja, a concupiscência da carne e dos olhos, a auto-suficiência, a tresloucada avidez da libertinagem – quando não existe essa peleja interior, os mais nobres ideais definham como a flor do feno; ao romper o sol ardente, a erva seca, a flor cai e acaba a sua vistosa formosura. Depois, pela menor fenda brotarão o desalento e a tristeza, como plantas daninhas e invasoras.

Jesus não se conforma com um assentimento titubeante. Pretende, tem direito a que caminhemos com inteireza, sem concessões às dificuldades. Exige passos firmes concretos; pois, de ordinário, os propósitos gerais servem para pouco. Os propósitos pouco delineados parecem-me entusiasmos falazes que intentam calar as chamadas divinas percebidas pelo coração; fogos-fátuos, que não queimam nem dão calor e que desaparecem com a mesma fugacidade com que surgiram.


Por isso, convencer-me-ei de que as tuas intenções de alcançar a meta são sinceras, se te vir caminhar com determinação. Faz o bem, revendo as tuas atitudes habituais quanto à ocupação de cada instante; pratica a justiça, precisamente nos ambientes que frequentas, ainda que a fadiga te vença; fomenta a felicidade dos que te rodeiam, servindo os outros com alegria no lugar do teu trabalho, com esforço para o acabar com a maior perfeição possível, com a tua compreensão, com o teu sorriso, com a tua atitude cristã. E tudo por Deus, com o pensamento na sua glória, com o olhar no alto, anelando a Pátria definitiva, pois só esse fim vale a pena. (Amigos de Deus, 211)

01/04/2011

Confidências de alguém - 1

Confidências de Alguém
Deus vê e ouve a cada momento tudo quanto faço e digo.

Esta realidade em que acredito firmemente, deve levar-me a ter constantemente no meu espírito, esta presença real do Senhor e a condicionar a minha vida a este facto importantíssimo.
Se eu conseguir ter o meu espírito liberto de outras coisas, de forma que esta presença de Deus se instale como uma lembrança permanente, eu conduzir-me-ei como se estivesse numa Igreja, em frente do Sacrário.
Na Igreja, em frente do Sacrário, não sou capaz de gestos indecorosos, de proferir impropérios, de atitudes menos dignas, enfim, ser-me-á impossível, conduzir-me de outra forma que não seja compenetradamente consciente que estou na presença de Deus.
É esta atitude de permanente vigilância que devo manter e fazer o possível por construir dentro de mim.
Se o conseguir, não ofenderei a Deus, não cometerei actos que não sejam dignos da presença do Senhor, não proferirei palavras que o Senhor não possa ouvir, não falarei de coisas que o Senhor não goste, não murmurarei ou farei considerações sobre quem não está presente, sabendo de antemão que o Senhor não gosta que eu murmure.
Não serei orgulhoso nem soberbo, actuarei com humildade assumindo a responsabilidade dos meus actos, conduzindo-me com correcção mesmo nos momentos ou ocasiões mais adversas.
O Senhor sabe que sou fraco e que, embora tente e me esforce por tornar realidade esta interiorização do Senhor em mim, esquecer-me-ei inúmeras vezes.

Constantemente hei-de rodear-me de subterfúgios, de coisas inúteis e dispensáveis, de pretextos para não tornar real essa presença divina.
Tendo, como tenho, a carne fraca e a vontade quebradiça, cometerei faltas e pecados inúmeras vezes.
O Senhor sentir-se-á ofendido vezes sem conta, com as minhas faltas e os meus esquecimentos.
Mas não posso eu sozinho, fraco e pecador como sou, atingir esse desiderato, sem a ajuda constante do Senhor, não conseguirei dar um ritmo certo, uma linha recta de orientação, à minha vida.
Só com a bondade do meu Senhor, posso, passo a passo, ir construindo uma mentalidade, uma maneira de viver cada momento, que efectivamente torne a presença do Senhor em mim tão viva que não possa mais viver sem esta presença real e constante.


Assim, poderei, sem dúvida, oferecer ao Senhor o meu dia, com tudo o que ele contém, pois não haverá nele nada que tenha de esconder do Senhor.

Nota de AMA: 
Estas “confidências” têm, obviamente, um autor, que não se revela; foram feitas em tempo indeterminado, por isso não se lhes atribui a data. O estilo é discursivo revela, obviamente, que se tratam de meditações escritas ao correr da pena. A sua publicação deve-se a ter considerado que, nelas se encontram muitas situações e ocorrências que fazem parte do quotidiano que, qualquer um, pode viver.




03/12/2006

Vigilância

Aconteceu que, ontem, passei a noite sozinho. A minha casa é muito grande, 3 pisos! e muito antiga.

Dei comigo a "ouvir" a casa: os pequenos ruídos que normalmente passam despercebidos, as madeiras que estalam, uma janela que bate com a força do vento e da chuva, os soalhos que estremecem quando os autocarros passam na rua.

Fiquei, assim, um bocado, vigilante e atento e, quanto mais apurava os sentidos, mais ruídos, sons, barulhos me parecia ouvir com fantástica nitidez. Conseguia identificá-los: agora foi na sala; este foi na escada...

Agora ocorre-me que é assim que desejo estar durante o Advento que hoje começa: Desperto, vigilante, atento.

Quero distinguir tudo aquilo - e muito será - que normalmente não me dou conta e que anda à minha volta numa zoada tremenda; identificar bem as "armadilhas" que se me deparam ao longo do dia; estar consciente do mundo que me rodeia.

Desprendido mas interessado;
Confiante mas atento;
Sereno mas vigilante.