Mostrar mensagens com a etiqueta Leitura Espitirual - Juan Carlos Sack - Eucaristia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Leitura Espitirual - Juan Carlos Sack - Eucaristia. Mostrar todas as mensagens

22/12/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo de Advento


Evangelho: Lc 1, 46-56

46 Então Maria disse: «A minha alma glorifica o Senhor; 47 e o meu espírito exulta de alegria em Deus meu Salvador, 48 porque olhou para a humildade da Sua serva. Portanto, eis que, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão ditosa, 49 porque o Todo-poderoso fez em mim grandes coisas. O Seu nome é Santo, 50 e a Sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem. 51 Manifestou o poder do Seu braço, dispersou os homens de coração soberbo. 52 Depôs do trono os poderosos, elevou os humildes. 53 Encheu de bens os famintos, e aos ricos despediu de mãos vazias. 54 Tomou cuidado de Israel, Seu servo, lembrado da Sua misericórdia; 55 conforme tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre». 56 Maria ficou com Isabel cerca de três meses; depois voltou para sua casa.

Comentário:

Poder-se-ia dizer que o Magnificat é por excelência o canto do Natal.

De facto, entoado pela jovem Mãe que espera com ansiosa alegria o Nascimento do Filho que se está formando no seu puríssimo ventre, este cântico traduz de forma radiosamente bela o sentimento dos cristãos que aguardam expectantes poder celebrar o Natal do Salvador.

(ama, comentário sobre LC 1 46-56, 2014-12-22)

Leitura espiritual


Eucaristia

A Presença Real de Cristo na Eucaristia - Parte III

- "Deveríamos considerar isto: se Nosso Senhor é Santo, como Ele Se deixaria ser manejado, em um processo de transformação, por pessoas (=os sacerdotes) que são pecadoras por natureza?" [i].

- "Por esta palavra ('Fazei isto'), Cristo faz com que a mão do sacerdote seja a Sua [própria mão]; a boca não é minha; a língua não é minha, mas de Cristo, ainda que eu seja um patife ou um malandro (...) Por pior que seja um sacerdote, o sacramento se concretiza" [ii].

HOMILIA ANÓNIMA DO SÉCULO II OU III

Trata-se de uma homilia sobre a Páscoa. Reflecte a doutrina da Igreja do seu tempo.
Pode ser lida em PG 59,735-746, sendo conhecida como "In Sanctum Pascha 6".

A segunda parte da homilia diz:

- "Esta foi a Páscoa que Jesus desejou padecer por nós.
Pela sua Paixão libertou-nos da paixão; e pela sua morte venceu a morte; e através do alimento visível, a sua vida imortal nos procurou [iii].
Este era o desejo salvífico de Jesus; este era o Seu amor espiritualíssimo, mostrando por um lado as figuras como figuras e, de outro lado, dando aos discípulos a correspondência com o Seu sagrado corpo: 'Tomai e comei; isto é Meu corpo'; 'Tomai e bebei; isto é Meu sangue, a Nova Aliança, derramada por muitos, para a remissão dos pecados".

CLEMENTE DE ALEXANDRIA

Contemporâneo de Ireneu, nasceu em torno de 150 e morreu por volta de 215.
Oriundo da Grécia, de família pagã.
Uma vez convertido, viajou buscando instrução cristã, o que acabou encontrando junto ao cristão Panteno de Alexandria, a quem sucedeu, após sua morte, no cargo de catequista dos novos cristãos.
Perseguido pelo Imperador Septímio Severo, fugiu para o Egipto e, finalmente morreu na Capadócia.

Uma homilia sua sobre Marcos 10,17-31 apresenta-nos Jesus dizendo-nos:

- "Eu te regenerei (...) Eu te mostrarei a face de Deus, o Bom Pai (...) Eu sou Aquele que te alimenta, que dou a Mim mesmo no pão [do qual quem provar não experimentará a morte] e dou diariamente a Mim mesmo na bebida da imortalidade" [iv].

É bastante claro o sentido realista da presença do Senhor: não é o símbolo que nos pode salvar da morte eterna, mas o próprio Senhor. E isto apesar de Clemente ser um claro representante da Escola Alegórica de interpretação.
Este dado deve ser levado em conta sempre que estejamos considerando este ou outros autores alegoristas, como Tertuliano [v].

Creio que seja útil advertir, por ocasião deste texto, que as expressões simbólicas que eventualmente podem ocorrer em autores antigos ou modernos não implicam necessariamente no facto de autor negar a presença real do Senhor na Eucaristia.
Por exemplo: Clemente, na sua homilia, faz o Senhor dizer: "Dou-me a Mim mesmo no pão"; e nos nossos dias é comum ouvirmos dos lábios de pregadores católicos: "Jesus se fez pão na Eucaristia" ou expressões semelhantes.
Tais expressões não significam que se está negando a presença real do Senhor, mas são na verdade expressões literárias perfeitamente compreensíveis no contexto em que são expressas: o que vemos na Eucaristia é precisamente pão e se os ouvintes ou leitores são fiéis, não é contrário à Fé Católica falar deste modo.
Retornando à expressão de Clemente, não esqueçamos que Jesus diz "Dou-me a Mim mesmo" no pão; se quisermos ser mais exactos, diríamos: "Dou-me a Mim mesmo (presença real) sob as aparências de um simples pão (o que vemos, os acidentes, aquilo que nosso corpo consome empiricamente) ".

TERTULIANO

É a testemunha da Igreja de Cartago.
Nascido de pais pagãos por volta de 155, chegou a ser advogado de excelente reputação.
Converteu-se ao Senhor em 193.
Autor prolífico, de enorme influência no pensamento cristão, excelente conhecedor das Escrituras, os seus escritos apresentam um período católico; a seguir, um período de transição (semi-montanista, com tendências rigoristas); e, finalmente, rompe com a Igreja para professar o cisma montanista, que basicamente consistia em um Cristianismo extremamente rigorista.
Morreu entre 240 e 250.

O realismo eucarístico de Tertuliano é bastante conhecido. Para ele:

- "A Eucaristia são as delícias do corpo do Senhor" [vi].

Por não atentar-se devidamente às peculiaridades da sua linguagem, tem sido possível o paradoxo de interpretar como simbolista um escritor que com esses mesmos textos está decididamente refutando o Docetismo de Marcião [vii].
Vejamos alguns textos para termos uma melhor ideia sobre a mente de Tertuliano:

- "Pelo qual já provamos com o Evangelho pelo mistério do pão e do vinho a verdade do corpo e do sangue do Senhor, ao contrário do fantasma de Marcião" [viii].

Aqui, a tradicional relação entre a Encarnação e a Eucaristia é empregue não para provar a realidade - já reconhecida e aceite - da Eucaristia, mas para comprovar a verdade da Encarnação!
Isto é: assim como na Eucaristia temos realmente o corpo e o sangue do Senhor - coisa que não se discute - 'a fortiori' dever-se-à aceitar que o corpo do Senhor, pela Encarnação, foi real e não um fantasma: em ambos os casos, trata-se do mesmo corpo e do mesmo sangue do Senhor.

Um texto que normalmente é citado como simbolista é o seguinte [ix]:

- "Após ter declarado que desejava muitíssimo comer a Sua Páscoa (seria indigno que Deus desejasse algo desnecessário), tomando o pão e dando-o aos discípulos, o fez Seu corpo, dizendo: 'Isto é o Meu corpo', isto é, a figura do Meu corpo.
Porém, não seria figura se não fosse um corpo verdadeiro; afinal, algo que é vazio (como um fantasma) não poderia constituir uma figura". [x]

Antes de mais nada, não devemos esquecer que o texto diz que Jesus, ao pão, "o fez Seu corpo".
Por outro lado, é certo que Tertuliano esclarece que trata-se da "figura do Meu corpo".
No entanto, este modo de falar não desvirtua em nada o realismo; ao contrário, confirma-o, pois para que algo possa ser figura ou imagem de outra coisa, precisa ter em si mesmo uma realidade, não pode ser um fantasma.
E o mais importante: qual é o contexto em que se encontra esta expressão de Tertuliano? Do que ele está falando?

Arguindo a partir da hipótese doceta, diz-se:

- "Se o pão se fez corpo precisamente porque Ele carecia de um corpo real (coisa ensinada pelos docetas), então o que deveria ter sido entregue por nós era o pão (porém, na realidade o que foi entregue foi o corpo)" [xi].

Uma palavra sobre os "dois elementos, o terrestre e o celeste" de que é composto o pão sobre o qual foi invocado o Espírito Santo:
Nos grosseiros e infames ataques que a Eucaristia recebeu da parte dos gnósticos de todos os tempos, encontra-se também algum tipo de acusação de canibalismo.
Porém, isso é desconhecer que a Eucaristia, uma vez pronunciadas as palavras de consagração, continua com todos e cada um dos elementos sensíveis (ou "acidentes" ou "espécies", na linguagem filosófica posterior) que tinha quando era "pão comum", coisa que Ireneu define como "elemento terrestre" ou que Tertuliano chama "figura" do corpo do Senhor.
Com efeito, não há nenhum canibalismo, pois a presença verdadeira, real e substancial do corpo e sangue do Senhor não se dá nas suas espécies próprias de corpo e sangue de Cristo, mas em espécies alheias, isto é, as do pão e vinho.
Por outras palavras: a partir do ponto de vista empírico nada mudou, ainda que a Fé indique ao fiel que, pelo poder de Deus, a substância "já não é pão comum".
Assim, toda tentativa de apontar "canibalismo" às celebrações eucarísticas demonstra uma mentalidade totalmente truncada e fechada. Convido a qualquer gnóstico moderno a apresentar uma acusação de "canibalismo" contra a Igreja Católica diante dos tribunais de seu país e ver que tipo de aceitação terá.

Ou seja: suposta a identidade do corpo físico de Jesus com o Seu corpo eucarístico (identidade que para Tertuliano não é discutível porque ele não conhece senão um só e verdadeiro corpo do Senhor), esse corpo real e único cumpre precisamente na Eucaristia uma antiga "figura": aquela que foi assinalada por Jeremias [xii], que profetizou: "Coloquemos o lenho em seu pão".
Esta é exactamente a passagem que está sendo comentada por Tertuliano.
Para ele, o Profeta Jeremias designa com "o lenho" a cruz e com "o pão" o corpo do Senhor.
Como pode o pão designar o corpo do Senhor?
Essa figura, cunhada pelo Profeta, é revelada por Jesus quando, com o pão nas mãos, disse: "Isto é Meu corpo".
Foi então que foi explicado o significado do pão naquela profecia. [xiii]

Neste sentido, é compreensível também a expressão relativa ao sangue:

- "Agora consagrou Seu sangue no vinho Aquele mesmo que então fez do vinho figura do sangue [xiv]" [xv].

Notemos a força da seguinte expressão, onde Tertuliano defende a bondade do corpo humano contra o preconceito gnóstico, de que a carne é coisa má, e proclama, através das coisas sensíveis como instrumentos - os Sacramentos que tocam o corpo - de que Deus santifica a alma:

- "Lava-se a carne (com o Baptismo), para que a alma seja limpa. Unge-se a carne (pelo Baptismo e Confirmação), para que a alma seja consagrada.
Assinala-se a carne (pela Confirmação e Unção dos Enfermos), para que a alma seja protegida.
Encobre-se a carne com a imposição das mãos (pela Confirmação e Ordem), para que a alma seja iluminada.
Alimenta-se a carne com o corpo e o sangue de Cristo (pela Eucaristia) para que também a alma se sacie de Deus" [xvi].

À luz destas expressões é possível enxergar também estas outras coisas:

- "Porém, é certo que Cristo até agora não reprovou a água do Criador (com a qual lava os seus fiéis), nem o óleo (com o que os unge), nem a mistura de mel e leite (com que os amamenta), nem o pão (que o tornou o Seu corpo).
 Até para os próprios Sacramentos é necessário mendigar ao Criador!" [xvii],[xviii].

- "Ainda que a expressão diga: 'O pão nosso de cada dia nos dai hoje', devemos entendê-la melhor espiritualmente, porque Cristo é o nosso pão, já que Cristo é a vida e a vida é o pão (Ele disse: 'Eu sou o Pão da Vida'; e, um pouco antes: 'O pão é a Palavra do Deus vivo que desceu do céu').
Além disso, porque Seu corpo também é autoritariamente designado como 'pão': 'Isto é o Meu corpo'" [xix].

Isto é, o corpo do Senhor é dado na forma de pão, sob as aparências de pão.
Porém, o que é consumido não é pão, mas o corpo de Cristo: "Isto é Meu corpo".
Esta é a substância que o fiel consome quando participa da Eucaristia.

(cont)

p. juan carlos sack

Revisão da versão portuguesa por ama.




[i] Guillermo Hernández Agüero, evangélico
[ii] Martinho Lutero
[iii] cf. João 6,54
[iv] Quis Dives Salvetur 23
[v]  Seria o caso deste outro texto de Clemente: "O Verbo é tudo para a criança: pai e mãe; e, por sua vez, pedagogo e alimentante. Ele disse: 'Comei o Meu corpo e bebei o Meu sangue'. Estes são os alimentos, bem apropriados para nós, que o Senhor dá: oferece Sua carne e dá Seu sangue; nada falta às crianças para que cresçam" (Pedagogo 1,6,42,3).
[vi] De Pudicitia 9,16
[vii] A heresia docetista ensinava, substancialmente, que a Encarnação não fôra real, mas aparente, uma espécie de ilusão: nem o Verbo se fez carne realmente, nem morreu realmente na cruz, etc.
[viii] Contra Marcião 5,8,3
[ix] Citado em parte por Hernández Agüero no Site “Conoceréis la Verdad”.
[x] Contra Marcião 4,40,3
[xi] Contra Marcião 4,40,3
[xii] 11,19
[xiii] Esta doutrina de Tertuliano encontra-se em Contra Marcião 4,40,3-4 e em 3,19,3-4
[xiv] Isaías 63,1; Gênesis 49,19
[xv] Contra Marcião 4,40,4-6
[xvi] Da Ressurreição dos Mortos 8,3
[xvii] Contra Marcião 1,14,3
[xviii] É óbvio que Tertuliano acreditava que Jesus tinha Se convertido em pão... O contrário é que deve ser entendido, como já mencionamos em uma nota anterior, acerca do modo poético de se falar da Eucaristia. Certamente, nenhum "pão" pode nos dar nada no plano da salvação, salvo se esse "pão" agora for "o corpo do Senhor". Nesta chave, todos os textos patrísticos podem ser compreendidos.
[xix] Da Oração 6,2

21/12/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo de Advento

São Pedro Canísio – Doutor da Igreja

Evangelho: Lc 1, 39-45

39 Naqueles dias, levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá. 40 Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41 Aconteceu que, logo que Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe no ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo; 42 e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre. 43 Donde a mim esta dita, que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? 44 Porque, logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre. 45 Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão-de cumprir as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor».

Comentário:

A visitação da Senhora a Santa Isabel ficará para sempre como expressão máxima fé com dois exemplos: a humildade e a solidariedade.
A Mãe de Deus humildemente, sabendo embora Aquele que já começa a formar-se no seu seio puríssimo, é O próprio Salvador da humanidade, o que sem dúvida alguma lhe confere um estatuto mais elevado de qualquer criatura humana, toma uma atitude perfeitamente normal sem se preocupar com os incómodos que viagem implicava.

A sua prima precisa do seu apoio e, ela, não se detém, apressadamente, faz o que sente tem a fazer.

(ama, comentário sobre Lc 1, 39-45, Carvide, 2012.12.23)


Leitura espiritual


Eucaristia

A Presença Real de Cristo na Eucaristia - Parte II

- "Confesso que o corpo está no céu e confesso também que está no Sacramento. Se isto é ou não contrário à natureza, não me importa, contanto que não seja contrário à Fé" [i].

- "Um corpo físico ocupa espaço e, portanto, só pode estar em um só lugar em um determinado tempo" [ii].

INÁCIO DE ANTIOQUIA

Uma das testemunhas mais importantes da Igreja Pós-Apostólica. Nascido na Síria, por volta do ano 50, mártir em Roma entre os anos 98 e 117 (mais possivelmente por volta do ano 110, devorado pelas feras).
Foi o terceiro Bispo de Antioquia, logo após o Apóstolo Pedro e Evódio.
Recebeu a doutrina evangélica da boca dos sucessores imediatos dos Apóstolos, sendo que alguns afirmam que foi discípulo directo de São João Evangelista.
Conservam-se várias cartas que escreveu às jovens igrejas enquanto era conduzido a Roma para ser martirizado.
A ele se deve a mais antiga aplicação da palavra "Eucaristia" (em grego, "acção de graças") à celebração da Ceia do Senhor.

Nos textos aqui citados deve saber-se que Inácio precisou enfrentar, entre outras, a heresia chamada "Docetismo", uma forma de Gnosticismo, segundo a qual Jesus Cristo não veio realmente em carne, mas apenas em aparência.
Segundo esta heresia, o Seu corpo não era real como o nosso, mas seria uma espécie de ilusão.
Diziam, por exemplo, que a expressão "E o Verbo se fez carne" [iii] devia ser entendida de modo simbólico, pois é "o espírito" que "vivifica; a carne para nada serve" [iv], [v].
Santo Inácio fala acerca deles ao escrever para os cristãos de Esmirna, dizendo-lhes:

- "Eles se mantêm distantes da Eucaristia e da oração porque não querem confessar que a Eucaristia é a carne do Nosso Salvador Jesus Cristo, carne que sofreu pelos nossos pecados e foi ressuscitada pela bondade do Pai" [vi].

Interessado em guardar a unidade da Igreja, escreveu também aos cristãos de Filadélfia:

- "Tomai cuidado para não celebrar mais do que uma só Eucaristia, porque não há mais do que uma só carne de Nosso Senhor Jesus Cristo e não há mais do que um cálice para a reunião de Seu sangue. Há um só altar, assim como há um só Bispo com os seus Presbíteros e meus irmãos, os Diáconos" [vii].

Inácio reconhece na Eucaristia a única Carne e o único Sangue do Senhor, razão pela qual não pode ser aceite nenhuma celebração "paralela", à margem da Igreja visível [viii].
Seguindo a prática da Igreja Apostólica, a Igreja Católica não admite como válidas as celebrações da Ceia do Senhor que não sejam presididas pelo Bispo ou por alguém por este designado, isto é, um Presbítero validamente ordenado [ix].

JUSTINO MÁRTIR

Nasceu em Nablos, Palestina, entre os anos 100 e 110, de família pagã.
Na sua juventude dedicou-se à filosofia, passando por diversas escolas, até que conheceu o Cristianismo e abraçou a fé.
Juntamente com outros companheiros, foi decapitado por professar a religião cristã por volta de 165.
As obras que nos chegaram são de carácter apologético, em defesa do Cristianismo contra os que o impugnavam.

Justino escreveu sua 1ª Apologia por volta do ano 155, onde explica ao Imperador Antonino Pio quais eram as verdadeiras práticas dos cristãos, já que sabia que o Imperador era frequentemente informado acerca desta nova religião através de testemunhos falsos ou grosseiras tergiversações, devidas à má vontade do informante ou sua ignorância sobre o culto cristão.

- "Este alimento chama-se entre nós 'Eucaristia', do qual ninguém mais é lícito participar senão aquele que crê que a nossa doutrina é verdadeira e que foi purificado com o baptismo para o perdão dos pecados e regeneração, além de viver como Cristo ensinou.
Porque estas coisas (o pão e o vinho durante a celebração da Eucaristia) não as recebemos como se fossem pão comum e bebida comum, mas do mesmo modo que Jesus Cristo nosso Salvador se fez carne pela Palavra de Deus e tomou carne e sangue para nos salvar, assim também nos foi ensinado que o alimento convertido em Eucaristia pelas palavras de uma oração procedente Dele (de Jesus) - alimento com que são alimentados o nosso sangue e a nossa carne através de uma transmutação - é a carne e o sangue daquele Jesus que Se encarnou por nós.
Pois os Apóstolos, nos Comentários por eles redigidos, chamados 'Evangelhos', nos transmitiram que assim lhes foi ordenado: que Jesus, tendo tomado o pão e dado graças, disse: 'Fazei isto em memória de Mim; isto é Meu corpo' [x]; e tendo tomado do mesmo modo o cálice, e dado graças, disse: 'Isto é Meu sangue' [xi].
E somente eles (os Apóstolos) foram feitos participantes (dessa Eucaristia).
No que diz respeito aos mistérios (a refeição) de Mitra, quem ensinou tais coisas foram os malvados demónios, pois sabeis, ou podereis saber, que quando alguém é iniciado neles, oferece-se-lhe pão e um cálice de água, acrescentando certos versos" [xii].

Justino estabelece um paralelo entre a consagração da Eucaristia e o mistério da Encarnação.
Como resultado, o que se tem na Eucaristia é o que se tem na Encarnação: é o corpo e o sangue de Jesus Cristo.
E transmite isto com toda simplicidade, como algo aceito por toda a Igreja.

Há uma circunstância em que o texto citado recebe uma força particular: Justino está explicando ao imperador pagão em que consiste uma celebração dominical cristã; entre outras coisas, explica a doutrina que certamente ninguém poderia compreender sem possuir fé, pois pareceria loucura.
Apesar disto, Justino, homem prudente e inteligente, diz ao imperador que o alimento eucarístico é a carne e o sangue de Jesus, aquela mesma que foi assumida pelo Verbo de Deus para a nossa salvação. Se a Igreja Pós-Apostólica tivesse acreditado na interpretação simbólica das palavras de Jesus - ao modo "evangélico" moderno - sem dúvida alguma este seria o momento para explicar ao imperador pagão que não era necessário preocupar-se com qualquer forma de "canibalismo", pois o pão e o vinho consumidos nas celebrações cristãs (apenas) simbolizariam o corpo e o sangue de Jesus.
No entanto, Justino afirma, sem recuar um passo da doutrina, que o pão e o vinho eucarísticos "é a carne e o sangue daquele Jesus que se encarnou por nós".

IRENEU DE LIÃO

Segundo Bispo de Lião, na França, sucedeu a São Fotino.
Nascido na Ásia Menor por volta de 140, morreu em torno de 202 em Lião, possivelmente martirizado.
Na sua juventude foi discípulo do Bispo de Esmirna, Policarpo, que, por sua vez, fora discípulo de São João Evangelista.
A sua principal - e importantíssima - obra é "Exposição e Refutação da Falsa Gnose", melhor conhecida como "Adversus Haereses" [xiii], que escreveu em grego e a completou por volta do ano 200. É o teólogo mais importante do século II, testemunha universalmente reconhecida da Fé Apostólica.

Ireneu teve que enfrentar a primeira e mais importante heresia do início da Igreja, o Gnosticismo, que encerrava uma grande variedade de formas e erros, mas que segundo a qual havia um grupo de pessoas que, por iniciação secreta, pôde obter o autêntico conhecimento da Divindade e da Salvação.
Entre outras coisas, os gnósticos desprezavam a Criação.
Ireneu adverte que, agindo assim, desprezavam também o Senhor que tomou para Si mesmo carne e sangue e que, além disso, não seria possível crer na realidade de Eucaristia já que:

- "...o pão sobre o qual é feita a acção de graças é o corpo do Senhor; e o cálice é o Seu sangue" [xiv].

E, na mesma obra, escreve de diversas maneiras sobre o mesmo fato:

- "São completamente loucos aqueles que rejeitam toda a economia de Deus ao negar a salvação da carne e desprezar seu novo nascimento, pois dizem que ela não é capaz de ser incorruptível. Pois se esta (carne, o nosso corpo) não se salva, então nem o Senhor nos redimiu com Seu sangue, nem o cálice da Eucaristia é comunhão com Seu sangue, e nem o pão que partimos é comunhão com Seu corpo [xv]; pois o sangue não pode provir senão das veias e da carne, e de tudo que compõe a substância do homem, pela qual, tendo sido verdadeiramente assumida pelo Verbo de Deus, nos redimiu com o Seu sangue (...) Pois Ele mesmo confessou que o cálice, que é uma criatura, é o Seu sangue [xvi], com o qual faz crescer o nosso sangue; e o pão, que também é uma criatura, declarou que é Seu próprio corpo [xvii], com o qual faz crescer os nossos corpos" [xviii].

Com efeito, a interpretação "simbólica" da celebração eucarística está em perfeita harmonia com a heresia gnóstica...
E se essa tivesse sido a fé da Igreja do século II, todo o discurso de Ireneu não teria sentido nenhum.
Pelo contrário, o seu argumento está baseado na afirmação de duas realidades intimamente unidas: a realidade do corpo do Senhor na Encarnação e a realidade do corpo do Senhor na Eucaristia.
Os gnósticos - concluiu Ireneu - devem forçosamente negar uma e outra se quiserem ser lógicos.
Vejamos outros textos no mesmo sentido:

- "Consequentemente, se o cálice misturado (vinho+água) e o pão fabricado (pelo homem) recebem a Palavra de Deus (em grego, 'epiklesis') para se converterem na Eucaristia do sangue e do corpo de Cristo, e através destes cresce e se desenvolve a carne do nosso ser, como podem eles negar que a carne é capaz de receber o dom de Deus, que é a vida eterna, já que foi nutrida com o sangue e o corpo de Cristo, e foi convertida em Seu membro?
Quando o Apóstolo escreve em sua Carta aos Efésios: 'Somos membros do Seu corpo' [xix], da Sua carne e dos Seus ossos, não fala sobre algum homem espiritual e invisível - pois 'um espírito não tem carne nem ossos' [xx] - mas sim daquele ser que é verdadeiro homem, que é formado de carne, ossos e nervos, o qual se nutre do sangue do Senhor e se desenvolve com o pão do Seu corpo" [xxi].

- "Como dizem que se corrompe e não pode participar da Vida a carne (dos nossos corpos), alimentada com o corpo e o sangue do Senhor?
Mudem, pois, de opinião ou deixem de oferecer estas coisas (a 'eucaristia' celebrada pelos gnósticos).
Pelo contrário, concordem com o que cremos e, quanto a Eucaristia, (concordem) com a firme Eucaristia em que cremos.
Oferecemos o que Lhe pertence e proclamamos, de modo concorde, a união e a comum unidade entre a carne e o espírito, porque assim como o pão brota da terra, uma vez pronunciada sobre ele a invocação ('epiklesin') de Deus, já não é pão comum, mas a Eucaristia formada por dois elementos: o terrestre e o celeste; de modo semelhante, também os nossos corpos, ao participarem da Eucaristia, já não são corruptíveis, mas têm a esperança de ressuscitarem para sempre" [xxii].

Não quero encerrar as citações de Ireneu sem antes recordar um belo testemunho seu sobre a Eucaristia como Sacrifício:

- "Aconselhando os Seus discípulos a oferecer as primícias das Suas criaturas a Deus - não porque Este as necessitasse, mas para que não fossem infrutuosos e ingratos - tomou a criatura pão e, dando graças, disse: 'Isto é o Meu corpo' [xxiii].
E, do mesmo modo, o cálice, também tomado entre as criaturas como nós, confessou ser o Seu sangue; e ensinou que (este) era o Sacrifício do Novo Testamento.
A Igreja, recebendo isto dos Apóstolos, em todo o mundo oferece a Deus, que nos dá o alimento, as primícias de Seus dons no Novo Testamento.
Com estas palavras, um dos Doze Profetas, prenunciou: 'Não me comprazo em vós - diz o Senhor onipotente - e não receberei o sacrifício das vossas mãos, porque desde o Oriente até o Ocidente o Meu nome é glorificado nas nações e em todas as partes se oferece ao Meu nome incenso e um sacrifício puro: porque grande é o Meu nome nas nações - diz o Senhor onipotente' [xxiv].
Com estas palavras, apontou claramente que o antigo povo deixaria de oferecer a Deus e que em todo lugar Lhe seria oferecido o Sacrifício Puro (a Eucaristia); e Seu nome é glorificado nos povos" [xxv], [xxvi].

(cont)

p. juan carlos sack

Revisão da versão portuguesa por ama.





[i] Martinho Lutero
[ii] Daniel Sapia, evangélico
[iii] João 1,14
[iv] João 6,63
[v] Este mesmo raciocínio dos primeiros inimigos do Cristianismo nascente, visando negar a realidade da encarnação, se repete literalmente hoje em dia na exegese "evangélica" simbólica do discurso do Pão da Vida (João 6,25ss), visando agora negar a realidade da presença real de Cristo na Eucaristia. Isto merece a mais séria atenção (...).
[vi] Cartas aos Esminenses 7,1
[vii] Carta aos Filadelfos 4
[viii] Sobre isso, escreve na carta aos esmirnenses: "Que ninguém faça nada de importante para a Igreja sem o consentimento do Bispo. A Eucaristia válida é aquela celebrada pelo Bispo ou por quem ele designar (...) Nem lhe seja permitido, sem o consentimento do Bispo, batizar ou celebrar o ágape. Quem for aprovado pelo Bispo é agradável a Deus, de modo que o que fizer será seguro e válido" (8,1-2). Compare-se com o que ocorre hoje: enquanto nas igrejas católicas se continua celebrando o único Sacrifício eucarístico em torno do Bispo "ou de quem foi por ele designado" (=os sacerdotes), numerosas denominações "evangélicas" se reúnem por iniciativa própria à margem do Bispo e o que celebram não é, com certeza, a Eucaristia, ainda que muitas vezes a parodiem, repartindo - estes sim - pão e vinhos comuns.
[ix] Por outro lado, a Igreja reconhece a validade das ordenações episcopais das igrejas ortodoxas, razão pela qual a Eucaristia ali é validamente celebrada.
[x] Lucas 22,19; 1Coríntios 11,24
[xi] Mateus 26,28
[xii] 1ª Apologia 66
[xiii] Contra as Heresias
[xiv] Contra as Heresias 4,18,4
[xv] 1Coríntios 10,16
[xvi] Lucas 22,20; 1Coríntios 11,25
[xvii] Lucas 22,19; 1Coríntios 11,24
[xviii] Contra as Heresias 5,2,2
[xix] Efésios 5,30
[xx] Lucas 24,39
[xxi] Contra as Heresias 5,2,3
[xxii] Contra as Heresias 4,18,5
[xxiii] Mateus 26,26
[xxiv] Malaquias 1,10-11
[xxv] Contra as Heresias 4,17,5
[xxvi] Neste artigo, não abordamos diretamente a Eucaristia como Sacrifício. Em todo caso, é bom lembrar que, assim como a presença real de Jesus nas celebrações eucarísticas válidas é uma verdade de Fé virtualmente testemunhada por todos os mais importantes Padres da Igreja, assim também podemos encontrar uma grande quantidade de textos patrísticos que testemunham a Fé da Igreja primitiva na realidade sacrificial da Eucaristia, sem que encontremos neles qualquer dificuldade em admitir a unicidade do sacrifício expiatório de Cristo na Cruz e sua celebração sacramental na Eucaristia até o fim dos tempos. Falam disto como sacrifício: Justino, Didaqué, Cipriano, Cirilo de Jerusalém, João Crisóstomo, Ambrósio, Agostinho, entre outros. Nenhum deles inventou nada, apenas transmitiram a Fé Apostólica. Será que estes homens não sabiam que Cristo Se ofereceu de uma vez por todos, como ensina Hebreus 7,27?