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21/12/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo de Advento

São Pedro Canísio – Doutor da Igreja

Evangelho: Lc 1, 39-45

39 Naqueles dias, levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá. 40 Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41 Aconteceu que, logo que Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe no ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo; 42 e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre. 43 Donde a mim esta dita, que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? 44 Porque, logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre. 45 Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão-de cumprir as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor».

Comentário:

A visitação da Senhora a Santa Isabel ficará para sempre como expressão máxima fé com dois exemplos: a humildade e a solidariedade.
A Mãe de Deus humildemente, sabendo embora Aquele que já começa a formar-se no seu seio puríssimo, é O próprio Salvador da humanidade, o que sem dúvida alguma lhe confere um estatuto mais elevado de qualquer criatura humana, toma uma atitude perfeitamente normal sem se preocupar com os incómodos que viagem implicava.

A sua prima precisa do seu apoio e, ela, não se detém, apressadamente, faz o que sente tem a fazer.

(ama, comentário sobre Lc 1, 39-45, Carvide, 2012.12.23)


Leitura espiritual


Eucaristia

A Presença Real de Cristo na Eucaristia - Parte II

- "Confesso que o corpo está no céu e confesso também que está no Sacramento. Se isto é ou não contrário à natureza, não me importa, contanto que não seja contrário à Fé" [i].

- "Um corpo físico ocupa espaço e, portanto, só pode estar em um só lugar em um determinado tempo" [ii].

INÁCIO DE ANTIOQUIA

Uma das testemunhas mais importantes da Igreja Pós-Apostólica. Nascido na Síria, por volta do ano 50, mártir em Roma entre os anos 98 e 117 (mais possivelmente por volta do ano 110, devorado pelas feras).
Foi o terceiro Bispo de Antioquia, logo após o Apóstolo Pedro e Evódio.
Recebeu a doutrina evangélica da boca dos sucessores imediatos dos Apóstolos, sendo que alguns afirmam que foi discípulo directo de São João Evangelista.
Conservam-se várias cartas que escreveu às jovens igrejas enquanto era conduzido a Roma para ser martirizado.
A ele se deve a mais antiga aplicação da palavra "Eucaristia" (em grego, "acção de graças") à celebração da Ceia do Senhor.

Nos textos aqui citados deve saber-se que Inácio precisou enfrentar, entre outras, a heresia chamada "Docetismo", uma forma de Gnosticismo, segundo a qual Jesus Cristo não veio realmente em carne, mas apenas em aparência.
Segundo esta heresia, o Seu corpo não era real como o nosso, mas seria uma espécie de ilusão.
Diziam, por exemplo, que a expressão "E o Verbo se fez carne" [iii] devia ser entendida de modo simbólico, pois é "o espírito" que "vivifica; a carne para nada serve" [iv], [v].
Santo Inácio fala acerca deles ao escrever para os cristãos de Esmirna, dizendo-lhes:

- "Eles se mantêm distantes da Eucaristia e da oração porque não querem confessar que a Eucaristia é a carne do Nosso Salvador Jesus Cristo, carne que sofreu pelos nossos pecados e foi ressuscitada pela bondade do Pai" [vi].

Interessado em guardar a unidade da Igreja, escreveu também aos cristãos de Filadélfia:

- "Tomai cuidado para não celebrar mais do que uma só Eucaristia, porque não há mais do que uma só carne de Nosso Senhor Jesus Cristo e não há mais do que um cálice para a reunião de Seu sangue. Há um só altar, assim como há um só Bispo com os seus Presbíteros e meus irmãos, os Diáconos" [vii].

Inácio reconhece na Eucaristia a única Carne e o único Sangue do Senhor, razão pela qual não pode ser aceite nenhuma celebração "paralela", à margem da Igreja visível [viii].
Seguindo a prática da Igreja Apostólica, a Igreja Católica não admite como válidas as celebrações da Ceia do Senhor que não sejam presididas pelo Bispo ou por alguém por este designado, isto é, um Presbítero validamente ordenado [ix].

JUSTINO MÁRTIR

Nasceu em Nablos, Palestina, entre os anos 100 e 110, de família pagã.
Na sua juventude dedicou-se à filosofia, passando por diversas escolas, até que conheceu o Cristianismo e abraçou a fé.
Juntamente com outros companheiros, foi decapitado por professar a religião cristã por volta de 165.
As obras que nos chegaram são de carácter apologético, em defesa do Cristianismo contra os que o impugnavam.

Justino escreveu sua 1ª Apologia por volta do ano 155, onde explica ao Imperador Antonino Pio quais eram as verdadeiras práticas dos cristãos, já que sabia que o Imperador era frequentemente informado acerca desta nova religião através de testemunhos falsos ou grosseiras tergiversações, devidas à má vontade do informante ou sua ignorância sobre o culto cristão.

- "Este alimento chama-se entre nós 'Eucaristia', do qual ninguém mais é lícito participar senão aquele que crê que a nossa doutrina é verdadeira e que foi purificado com o baptismo para o perdão dos pecados e regeneração, além de viver como Cristo ensinou.
Porque estas coisas (o pão e o vinho durante a celebração da Eucaristia) não as recebemos como se fossem pão comum e bebida comum, mas do mesmo modo que Jesus Cristo nosso Salvador se fez carne pela Palavra de Deus e tomou carne e sangue para nos salvar, assim também nos foi ensinado que o alimento convertido em Eucaristia pelas palavras de uma oração procedente Dele (de Jesus) - alimento com que são alimentados o nosso sangue e a nossa carne através de uma transmutação - é a carne e o sangue daquele Jesus que Se encarnou por nós.
Pois os Apóstolos, nos Comentários por eles redigidos, chamados 'Evangelhos', nos transmitiram que assim lhes foi ordenado: que Jesus, tendo tomado o pão e dado graças, disse: 'Fazei isto em memória de Mim; isto é Meu corpo' [x]; e tendo tomado do mesmo modo o cálice, e dado graças, disse: 'Isto é Meu sangue' [xi].
E somente eles (os Apóstolos) foram feitos participantes (dessa Eucaristia).
No que diz respeito aos mistérios (a refeição) de Mitra, quem ensinou tais coisas foram os malvados demónios, pois sabeis, ou podereis saber, que quando alguém é iniciado neles, oferece-se-lhe pão e um cálice de água, acrescentando certos versos" [xii].

Justino estabelece um paralelo entre a consagração da Eucaristia e o mistério da Encarnação.
Como resultado, o que se tem na Eucaristia é o que se tem na Encarnação: é o corpo e o sangue de Jesus Cristo.
E transmite isto com toda simplicidade, como algo aceito por toda a Igreja.

Há uma circunstância em que o texto citado recebe uma força particular: Justino está explicando ao imperador pagão em que consiste uma celebração dominical cristã; entre outras coisas, explica a doutrina que certamente ninguém poderia compreender sem possuir fé, pois pareceria loucura.
Apesar disto, Justino, homem prudente e inteligente, diz ao imperador que o alimento eucarístico é a carne e o sangue de Jesus, aquela mesma que foi assumida pelo Verbo de Deus para a nossa salvação. Se a Igreja Pós-Apostólica tivesse acreditado na interpretação simbólica das palavras de Jesus - ao modo "evangélico" moderno - sem dúvida alguma este seria o momento para explicar ao imperador pagão que não era necessário preocupar-se com qualquer forma de "canibalismo", pois o pão e o vinho consumidos nas celebrações cristãs (apenas) simbolizariam o corpo e o sangue de Jesus.
No entanto, Justino afirma, sem recuar um passo da doutrina, que o pão e o vinho eucarísticos "é a carne e o sangue daquele Jesus que se encarnou por nós".

IRENEU DE LIÃO

Segundo Bispo de Lião, na França, sucedeu a São Fotino.
Nascido na Ásia Menor por volta de 140, morreu em torno de 202 em Lião, possivelmente martirizado.
Na sua juventude foi discípulo do Bispo de Esmirna, Policarpo, que, por sua vez, fora discípulo de São João Evangelista.
A sua principal - e importantíssima - obra é "Exposição e Refutação da Falsa Gnose", melhor conhecida como "Adversus Haereses" [xiii], que escreveu em grego e a completou por volta do ano 200. É o teólogo mais importante do século II, testemunha universalmente reconhecida da Fé Apostólica.

Ireneu teve que enfrentar a primeira e mais importante heresia do início da Igreja, o Gnosticismo, que encerrava uma grande variedade de formas e erros, mas que segundo a qual havia um grupo de pessoas que, por iniciação secreta, pôde obter o autêntico conhecimento da Divindade e da Salvação.
Entre outras coisas, os gnósticos desprezavam a Criação.
Ireneu adverte que, agindo assim, desprezavam também o Senhor que tomou para Si mesmo carne e sangue e que, além disso, não seria possível crer na realidade de Eucaristia já que:

- "...o pão sobre o qual é feita a acção de graças é o corpo do Senhor; e o cálice é o Seu sangue" [xiv].

E, na mesma obra, escreve de diversas maneiras sobre o mesmo fato:

- "São completamente loucos aqueles que rejeitam toda a economia de Deus ao negar a salvação da carne e desprezar seu novo nascimento, pois dizem que ela não é capaz de ser incorruptível. Pois se esta (carne, o nosso corpo) não se salva, então nem o Senhor nos redimiu com Seu sangue, nem o cálice da Eucaristia é comunhão com Seu sangue, e nem o pão que partimos é comunhão com Seu corpo [xv]; pois o sangue não pode provir senão das veias e da carne, e de tudo que compõe a substância do homem, pela qual, tendo sido verdadeiramente assumida pelo Verbo de Deus, nos redimiu com o Seu sangue (...) Pois Ele mesmo confessou que o cálice, que é uma criatura, é o Seu sangue [xvi], com o qual faz crescer o nosso sangue; e o pão, que também é uma criatura, declarou que é Seu próprio corpo [xvii], com o qual faz crescer os nossos corpos" [xviii].

Com efeito, a interpretação "simbólica" da celebração eucarística está em perfeita harmonia com a heresia gnóstica...
E se essa tivesse sido a fé da Igreja do século II, todo o discurso de Ireneu não teria sentido nenhum.
Pelo contrário, o seu argumento está baseado na afirmação de duas realidades intimamente unidas: a realidade do corpo do Senhor na Encarnação e a realidade do corpo do Senhor na Eucaristia.
Os gnósticos - concluiu Ireneu - devem forçosamente negar uma e outra se quiserem ser lógicos.
Vejamos outros textos no mesmo sentido:

- "Consequentemente, se o cálice misturado (vinho+água) e o pão fabricado (pelo homem) recebem a Palavra de Deus (em grego, 'epiklesis') para se converterem na Eucaristia do sangue e do corpo de Cristo, e através destes cresce e se desenvolve a carne do nosso ser, como podem eles negar que a carne é capaz de receber o dom de Deus, que é a vida eterna, já que foi nutrida com o sangue e o corpo de Cristo, e foi convertida em Seu membro?
Quando o Apóstolo escreve em sua Carta aos Efésios: 'Somos membros do Seu corpo' [xix], da Sua carne e dos Seus ossos, não fala sobre algum homem espiritual e invisível - pois 'um espírito não tem carne nem ossos' [xx] - mas sim daquele ser que é verdadeiro homem, que é formado de carne, ossos e nervos, o qual se nutre do sangue do Senhor e se desenvolve com o pão do Seu corpo" [xxi].

- "Como dizem que se corrompe e não pode participar da Vida a carne (dos nossos corpos), alimentada com o corpo e o sangue do Senhor?
Mudem, pois, de opinião ou deixem de oferecer estas coisas (a 'eucaristia' celebrada pelos gnósticos).
Pelo contrário, concordem com o que cremos e, quanto a Eucaristia, (concordem) com a firme Eucaristia em que cremos.
Oferecemos o que Lhe pertence e proclamamos, de modo concorde, a união e a comum unidade entre a carne e o espírito, porque assim como o pão brota da terra, uma vez pronunciada sobre ele a invocação ('epiklesin') de Deus, já não é pão comum, mas a Eucaristia formada por dois elementos: o terrestre e o celeste; de modo semelhante, também os nossos corpos, ao participarem da Eucaristia, já não são corruptíveis, mas têm a esperança de ressuscitarem para sempre" [xxii].

Não quero encerrar as citações de Ireneu sem antes recordar um belo testemunho seu sobre a Eucaristia como Sacrifício:

- "Aconselhando os Seus discípulos a oferecer as primícias das Suas criaturas a Deus - não porque Este as necessitasse, mas para que não fossem infrutuosos e ingratos - tomou a criatura pão e, dando graças, disse: 'Isto é o Meu corpo' [xxiii].
E, do mesmo modo, o cálice, também tomado entre as criaturas como nós, confessou ser o Seu sangue; e ensinou que (este) era o Sacrifício do Novo Testamento.
A Igreja, recebendo isto dos Apóstolos, em todo o mundo oferece a Deus, que nos dá o alimento, as primícias de Seus dons no Novo Testamento.
Com estas palavras, um dos Doze Profetas, prenunciou: 'Não me comprazo em vós - diz o Senhor onipotente - e não receberei o sacrifício das vossas mãos, porque desde o Oriente até o Ocidente o Meu nome é glorificado nas nações e em todas as partes se oferece ao Meu nome incenso e um sacrifício puro: porque grande é o Meu nome nas nações - diz o Senhor onipotente' [xxiv].
Com estas palavras, apontou claramente que o antigo povo deixaria de oferecer a Deus e que em todo lugar Lhe seria oferecido o Sacrifício Puro (a Eucaristia); e Seu nome é glorificado nos povos" [xxv], [xxvi].

(cont)

p. juan carlos sack

Revisão da versão portuguesa por ama.





[i] Martinho Lutero
[ii] Daniel Sapia, evangélico
[iii] João 1,14
[iv] João 6,63
[v] Este mesmo raciocínio dos primeiros inimigos do Cristianismo nascente, visando negar a realidade da encarnação, se repete literalmente hoje em dia na exegese "evangélica" simbólica do discurso do Pão da Vida (João 6,25ss), visando agora negar a realidade da presença real de Cristo na Eucaristia. Isto merece a mais séria atenção (...).
[vi] Cartas aos Esminenses 7,1
[vii] Carta aos Filadelfos 4
[viii] Sobre isso, escreve na carta aos esmirnenses: "Que ninguém faça nada de importante para a Igreja sem o consentimento do Bispo. A Eucaristia válida é aquela celebrada pelo Bispo ou por quem ele designar (...) Nem lhe seja permitido, sem o consentimento do Bispo, batizar ou celebrar o ágape. Quem for aprovado pelo Bispo é agradável a Deus, de modo que o que fizer será seguro e válido" (8,1-2). Compare-se com o que ocorre hoje: enquanto nas igrejas católicas se continua celebrando o único Sacrifício eucarístico em torno do Bispo "ou de quem foi por ele designado" (=os sacerdotes), numerosas denominações "evangélicas" se reúnem por iniciativa própria à margem do Bispo e o que celebram não é, com certeza, a Eucaristia, ainda que muitas vezes a parodiem, repartindo - estes sim - pão e vinhos comuns.
[ix] Por outro lado, a Igreja reconhece a validade das ordenações episcopais das igrejas ortodoxas, razão pela qual a Eucaristia ali é validamente celebrada.
[x] Lucas 22,19; 1Coríntios 11,24
[xi] Mateus 26,28
[xii] 1ª Apologia 66
[xiii] Contra as Heresias
[xiv] Contra as Heresias 4,18,4
[xv] 1Coríntios 10,16
[xvi] Lucas 22,20; 1Coríntios 11,25
[xvii] Lucas 22,19; 1Coríntios 11,24
[xviii] Contra as Heresias 5,2,2
[xix] Efésios 5,30
[xx] Lucas 24,39
[xxi] Contra as Heresias 5,2,3
[xxii] Contra as Heresias 4,18,5
[xxiii] Mateus 26,26
[xxiv] Malaquias 1,10-11
[xxv] Contra as Heresias 4,17,5
[xxvi] Neste artigo, não abordamos diretamente a Eucaristia como Sacrifício. Em todo caso, é bom lembrar que, assim como a presença real de Jesus nas celebrações eucarísticas válidas é uma verdade de Fé virtualmente testemunhada por todos os mais importantes Padres da Igreja, assim também podemos encontrar uma grande quantidade de textos patrísticos que testemunham a Fé da Igreja primitiva na realidade sacrificial da Eucaristia, sem que encontremos neles qualquer dificuldade em admitir a unicidade do sacrifício expiatório de Cristo na Cruz e sua celebração sacramental na Eucaristia até o fim dos tempos. Falam disto como sacrifício: Justino, Didaqué, Cipriano, Cirilo de Jerusalém, João Crisóstomo, Ambrósio, Agostinho, entre outros. Nenhum deles inventou nada, apenas transmitiram a Fé Apostólica. Será que estes homens não sabiam que Cristo Se ofereceu de uma vez por todos, como ensina Hebreus 7,27?

20/12/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo de Advento


Evangelho: Lc 1, 39-45

39 Naqueles dias, levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá. 40 Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41 Aconteceu que, logo que Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe no ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo; 42 e exclamou em alta voz: «Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre. 43 Donde a mim esta dita, que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? 44 Porque, logo que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre. 45 Bem-aventurada a que acreditou, porque se hão-de cumprir as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor».

Comentário:

A presença de Jesus Cristo inspira sempre alegria naqueles que O reconhecem, porque, a alegria, é fruto da paz e Cristo é o Príncipe da Paz.

Estes tempos que antecedem o Seu Nascimento são, normalmente, tempos de alegria em que os homens, mesmo os mais “empedernidos” sentem alguma ternura no coração, como que um “amolecimento” na sua virulência ou má-disposição. Há, sem dúvida alguma, uma atitude generalizada de simpatia de uns para com os outros.

Tudo isto é fruto do Nascimento que se vai celebrar no dia vinte e cinco.

Se o nascimento de uma criança é sempre motivo de festa e alegria quanto mais o será o do próprio Salvador e Redentor da humanidade?

(ama, comentário sobre, Lc 1, 39-45, 2012.12.21)

Leitura espiritual


Eucaristia

A Presença Real de Cristo na Eucaristia - Parte I

…/ 1

Os "primeiros cristãos", os "reformadores protestantes" e os "modernos evangélicos" diante das palavras de Jesus sobre a Eucaristia...

- "O Corpo e o Sangue do Senhor deveriam experimentar um contínuo aumento de massa à medida que, por tantos séculos, todos os dias, se tem 'transubstanciado' pão e vinho" [i].

- "Quanto ao facto de (o Corpo de Cristo) estar num lugar (ou vários ao mesmo tempo, nas hóstias consagradas), já vos disse antes e vos intimo: não quero nada de matemáticas!" [ii].

INTRODUÇÃO [iii]

O presente trabalho tem por finalidade aproximar o leitor de fala portuguesa dos textos patrísticos mais importantes, bem como dos textos de outros escritores eclesiásticos antigos, sobre o modo da presença de Jesus Cristo na Eucaristia (real, simbólico, virtual, dinâmico etc.). Foram acrescentados também os textos de alguns "reformadores" do século XVI.

Os textos de alguns "modernos evangélicos" são aqui expostos para compará-los com o pensamento da Igreja do primeiro milênio e com o pensamento dos "reformadores" protestantes.

O que motivou este trabalho foi o surgimento na Internet de artigos que não apenas negam a realidade da presença de Jesus Cristo na Eucaristia, como também se atrevem a ironizá-la.
Neste artigo esses autores - e também os nossos leitores - descobrirão se as suas palavras e doutrinas se assemelham àquelas dos antigos cristãos e até mesmo dos hereges de todos os tempos.
É importante perceber nitidamente que a Igreja (Católica) não nasceu ontem; esquecer a História da Igreja é negar, na prática, a acção do Espírito Santo nestes últimos 2000 anos.

Com efeito, visto que estes "cristãos evangélicos" se aproximam das Escrituras "sem a mediação de tradições humanas" - segundo nos afirmam com notável insistência - o resultado inevitável é que cada geração de "evangélicos" deve recomeçar sua interpretação das Escrituras, como se eles fossem os primeiros a descobrir as dificuldades apresentadas pela Revelação e o texto bíblico, ou como se fossem os únicos capazes de interpretar as Escrituras "mediante uma exegese adequada".
Deste modo, obtém-se uma situação que, em qualquer outra área do saber humano, se tornaria a maior das negligências, isto é: os problemas, questões e soluções que foram feitos e fixados sobre o Evangelho no decorrer dos séculos tornam a ser tratados como se nunca ninguém os tivessem considerado antes[iv].

Sobre a doutrina eucarística, os exemplos são numerosos.
O discurso de Jesus em João 6, as palavras de instituição nos Sinópticos e nos testemunhos de Paulo, cuja misteriosa realidade impactou a Igreja de Deus desde sempre e provocou tanta aversão entre os inimigos da Igreja, são agora tratados pelos modernos opositores do mistério eucarístico como nunca ninguém tivesse lido as Escrituras antes deles.
E querem desde logo que a Igreja, ou pelo menos os católicos menos instruídos, aceitem essas novas interpretações, que depois certamente terão que abandonar para aceitar as próximas novidades interpretativas do "evangélico" seguinte que decida estudar os textos bíblicos como se fosse o primeiro a concluir e se convencer de que a sua interpretação é a autêntica "exegese adequada"[v].

Diante desta realidade, pareceu-me oportuno apresentar ao leitor o que outras pessoas pensaram e ensinaram acerca da Eucaristia, pessoas estas que conheciam as Escrituras muito melhor que qualquer um destes "evangélicos", e que foram tidos em vida - e também depois de falecidos - como autênticos discípulos de Cristo, estando muito mais próximos da Igreja Apostólica e possuindo o Espírito Santo tanto ou até mais que qualquer um dos que hoje se apresentam quase que como Sua atual personificação.

Citarei em primeiro lugar algumas expressões que o leitor pode encontrar nesses sites "evangélicos" e, a seguir, proporei os textos patrísticos e dos "reformadores" do século XVI: a contraposição de textos falará por si mesma.
Apresentarei também os textos patrísticos que são extraídos desses Sites "evangélicos" como "simbólicos", por serem lidos fora do contexto e sem o conhecimento das circunstâncias.

OS "CRISTÃOS EVANGÉLICOS"

Usarei textos do Site "evangélico" Conoceréis la Verdade, pertencente à denominação cristã evangélica batista.
Há na Internet (...) outros artigos anti-eucarísticos, mas este Site batista apresenta as objeções mais comuns neste sentido.
Aí é possível encontrar as seguintes doutrinas sobre a Eucaristia:

- "O Cristianismo evangélico afirma que (a Eucaristia) é apenas uma comemoração do momento em que Jesus representa o sentido de Seu sacrifício expiatório aos Seus discípulos.
Por consequência, por ser uma 'recordação', o resultado é que o pão continua sendo pão e o vinho continua sendo vinho"[vi].

- "E o comer Seu corpo físico seria canibalismo, um ato que Ele não aprovaria e muito menos recomendaria"[vii].

Comentando as palavras de Jesus na Última Ceia, diz também:

- "Ninguém poderia ter interpretado literalmente essa declaração, pois Ele estava ali sentado, em seu corpo físico, e sujeitando o pão em suas mãos. É óbvio que o pão era simbólico".

E ainda:

- "Podemos estar seguros de que nenhum dos discípulos de Cristo imaginou que o pão por Ele sustentado era Seu corpo literal. Que isto fosse o Seu corpo literal e, ao mesmo tempo, Cristo estar ali em seu corpo literal era impossível.
Tal fantasia não ingressou na mente dos presentes e não foi inventada a não ser muito tempo depois.
Certamente as palavras de Cristo não comunicaram tal coisa, nem temos qualquer razão para crer que os discípulos derivaram delas semelhante significado.
Foi o Papa Pio III quem fez do 'sacrifício' da Missa um dogma oficial em 1215"[viii].

Se lê também nesse Site expressões ofensivas e descaradas, como uma que afirma que a Eucaristia, como presença real de Jesus Cristo, seria parte de um "truque" para manter os católicos na Igreja, visto que fora da Igreja - conforme ensina a doutrina católica - não há celebração eucarística válida e, portanto, não há jeito de se receber o Corpo salvífico do Senhor a não ser participando das celebrações católicas: "O truque está aí", conclui o apologista baptista.

Assim, ou seja, pela doutrina eucarística, "o Catolicismo está separado, por um abismo intransponível, de todas as outras religiões e, especialmente, do Cristianismo evangélico".

Em um artigo sobre a Ceia do Senhor assinado por Guillermo Hernández Agüero, publicado no Site "Conoceréis la Verdad", faz-se uma fugaz referência ao que "alguns Padres patrísticos" ensinam acerca do pão eucarístico.
Não me causa espanto a magra apresentação "patrística" que ali se faz: uma das notas características do evangelismo fundamentalista é precisamente a atitude sectária de rejeitar na prática - e frequentemente também na teoria - a experiência e o pensamento dos cristãos, mártires e santos, pastores e simples fiéis que viveram antes de nós, sem excluir aquelas que são testemunhas valiosas da Igreja Apostólica e Pós-Apostólica.

Digo "magra apresentação patrística" porque esse artigo traz só 2 (duas) citações dos "Padres patrísticos" para ilustrar aos (desprevenidos) leitores do Site baptista:

- "Podemos nos aprofundar mais nos Padres, mas nosso tema neste caso é sobre a Santa Ceia [ix].
No entanto, há alguns Padres que podem nos dizer algo sobre o nosso tema [x]: 'Cristo, tendo tomado o pão e o tendo distribuído aos seus discípulos, o tornou seu corpo, dizendo: «Este é meu corpo», isto é, «a figura do meu corpo»' [xi].
Tertuliano dá-nos a entender que não ocorre uma transubstanciação com o pão; ao contrário, ensina-nos que isso é símbolo.
'O pão, depois da consagração, é digno de ser chamado «Corpo do Senhor», ainda que a natureza de pão permaneça nele' [xii], [xiii].
O interessante disto tudo, é que nem nos próprios Padres existe uma clareza sobre a Santa Ceia e menos ainda sobre a transubstanciação".

Estas duas citações de dois Padres, é todo o material patrístico que pode ser encontrado nos artigos "eucarísticos" do Site "Conoceréis la Verdad".
O leitor entenderá o porquê quando terminar de ler a presente (série de) artigo(s).

Hernández Agüero, depois de tentar desvirtuar o testemunho geral dos Padres (para que prevaleça o seu próprio testemunho, como é óbvio, e que ele afirmará ser "o que ensina a Bíblia"), pretende que seus leitores saibam "algo" do que "alguns Padres podem nos dizer acerca do nosso tema", mas suas duas citações dificilmente podem ser tidas seriamente como "algo", bem como seus dois Padres apenas podem cumprir o requisito mínimo para que se possa dizer "alguns Padres".

Pergunto então:
Pela mente destes "evangélicos", o que terá ocorrido com o mar de citações onde podemos ver os "Padres patrísticos" ensinarem a doutrina da presença real?
Não conhecem elas?
Não querem conhecê-las?
Não lhes interessa mostrar o que a Igreja pensava nos primeiros séculos?
Pois se eles conhecem essas citações, estaríamos diante de uma desonestidade intelectual bastante grosseira.
Mas, se pelo contrário, não as conhecem, por que falam do que não sabem, dando aos seus leitores uma visão totalmente falsa da realidade patrística?
Bem além do palavreado de Hernández Agüero, no seu artigo o leitor não poderá encontrar virtualmente nada do que os "Padres patrísticos" ensinaram sobre esta matéria.
Seja qual for a intenção desta indouta docência "evangélica", abandonamo-la ao juízo de Deus...

A seguir, percorrermos a História da Igreja em seus melhores expoentes - os Santos Padres, os grandes escritores e testemunhas da Fé antiga - de modo que o leitor poderá depois reconhecer qual é a doutrina que está separada "por um abismo intransponível" do que a Igreja ininterruptamente crê desde as suas origens [xiv].
Apresentaremos também o que os Pais do Protestantismo ensinavam acerca desse tema.
E para o benefício do leitor, acrescentaremos ainda uma breve resenha biográfica dos autores citados, que será mais detalhada naqueles mais antigos e mais resumida à medida que formos avançando nos séculos.

(cont)

p. juan carlos sack

Revisão da versão portuguesa por ama.




[i] Jetónio, evangélico
[ii] Martinho Lutero
[iii] Trabalho dedicado a Silvana, Adrián, Carlos e Pablo, José Luis e Claudio, que ou já regressaram ao lar (=a Igreja Católica), ou então já estão a caminho... Perseverança! OBS.: [A] Os comentários que aqui são feitos têm por finalidade esclarecer o contexto histórico das citações ou ressaltar algum aspecto importante. As citações bíblicas que aparecem nos textos entre colchetes ou parêntesis são sempre acréscimos; o que segue entre colchetes nos textos patrísticos ou de outros autores são acréscimos feitos para se compreender o contexto. [B] O artigo [completo] contém textos de 80 autores patrísticos e ainda alguns outros. (...)
[iv] Devemos, no entanto, matizar esta afirmação, já que na verdade ninguém consegue se libertar de toda espécie de tradição na hora de ler as Escrituras, de modo que até os "evangélicos" "mais bíblicos" receberam, juntamente com as Escrituras, uma certa chave de interpretação. Tendo deixado isto bem claro, também é correto o que afirmamos, a saber: as correntes "evangélicas" fundamentalistas pretendem fazer uma leitura das Escrituras ignorando tudo o que os outros cristãos antes deles pensaram sobre as mesmas; costumam a chamar isso de "leitura sem preconceitos".
[v] A expressão "exegese adequada" aplicada aos textos eucarísticos encontra-se pelo menos no Site "Conoceréis la Verdad", onde se afirma, no artigo "A Teoria da Transubstanciação", que o crente deveria rejeitar a interpretação da Igreja Católica baseado no "senso comum" e numa "exegese adequada". Resta averiguar com base em quê se poderia chamar "adequada" a exegese desse Site e "não adequada" ou "falta de senso comum" à exegese de Justino [de Roma] e Inácio de Antioquia (séculos I e II), ou a de Agostinho [de Hipona] e João Crisóstoo (séculos IV e V), ou a de Tomás de Aquino (século XIII), para mencionar apenas alguns.
[vi] O autor dessas linhas se apresenta tacitamente como o porta voz do Cristianismo evangélico... Pode então ser comparado, por exemplo, com o que Lutero pensava sobre este tema (ver mais adiante, nesta série de artigos).
[vii] As acusações de canibalismo, repetidas aqui pelo "evangélico" batista, não são senão repetição das mesmas acusações feitas pelos pagãos anticristãos dos dois primeiros séculos. Uma coincidência que não deixa de causar surpresa!
[viii] A presença real de Cristo na Eucaristia e o aspecto sacrificial da celebração, ainda que intimamente ligadas, são dois aspectos diferentes do mistério eucarístico, que o autor batista aqui confunde. Quão errônea é a afirmação segundo a qual a interpretação realista das palavras da Última Ceia são tão tardias quanto o século XIII poder-se-á comprovar ao longo [desta série de artigos]. Além disso, o que é de 1215 (ou mais exatamente 1202) é o surgimento da palavra "transubstanciação" em um documento da Igreja. E, finalmente, o Papa Pio III reinou em 1503 e não em 1215. Logo, o Papa em questão é, na verdade, Inocêncio III.
[ix] O que até aqui Hernández Agüere fez em seu artigo não foi "aprofundar" nos Padres, mas tentar desautorizá-los por suas supostas "contradições".
[x] Há "alguns Padres que podem nos dizer algo sobre o nosso tema" - diz Hernández, citando [só] DOIS Padres. Espero que após ler este artigo, o sr. Hernández Agüero possa encontrar mais alguns que possam nos "dizer algo" sobre o nosso tema.
[xi] Tertuliano, Contra Marcião 4:40
[xii] Crisóstomo, Epístola a Cesarium
[xiii] Retornaremos a estas citações de Tertuliano posteriormente.
[xiv] Numa colecção mais ampla de textos em espanhol encontramos em "A Presença Real de Cristo na Eucaristia", de José A. de Aldama, Edicep, Valência, 1993; empregarei este livro em muitas citações. [Em inglês, temos] também "The Faith of the Early Fathers", em 3 volumes, de William A. Jurgens. A melhor coleção em espanhol é, sem dúvida, "Textos Eucarísticos Primitivos", do Pe. Jesús Solano (sj), em 2 volumes. Uma coleção mais simples, porém com muitíssimo material apologético, temos em "Bíblia y Eucaristia", de Ernesto Bravo (sj). O facto totalmente indiscutível é que qualquer cristão que queira saber o que ensinaram antes de nós todos os melhores líderes do Cristianismo primitivo acerca da presença de Cristo na Eucaristia terá que recorrer à literatura católica. Por que será?