Mostrar mensagens com a etiqueta AMA - Comentários ao Evangelho Lc 1 46-56. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta AMA - Comentários ao Evangelho Lc 1 46-56. Mostrar todas as mensagens

22/12/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo de Advento


Evangelho: Lc 1, 46-56

46 Então Maria disse: «A minha alma glorifica o Senhor; 47 e o meu espírito exulta de alegria em Deus meu Salvador, 48 porque olhou para a humildade da Sua serva. Portanto, eis que, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão ditosa, 49 porque o Todo-poderoso fez em mim grandes coisas. O Seu nome é Santo, 50 e a Sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem. 51 Manifestou o poder do Seu braço, dispersou os homens de coração soberbo. 52 Depôs do trono os poderosos, elevou os humildes. 53 Encheu de bens os famintos, e aos ricos despediu de mãos vazias. 54 Tomou cuidado de Israel, Seu servo, lembrado da Sua misericórdia; 55 conforme tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre». 56 Maria ficou com Isabel cerca de três meses; depois voltou para sua casa.

Comentário:

Poder-se-ia dizer que o Magnificat é por excelência o canto do Natal.

De facto, entoado pela jovem Mãe que espera com ansiosa alegria o Nascimento do Filho que se está formando no seu puríssimo ventre, este cântico traduz de forma radiosamente bela o sentimento dos cristãos que aguardam expectantes poder celebrar o Natal do Salvador.

(ama, comentário sobre LC 1 46-56, 2014-12-22)

Leitura espiritual


Eucaristia

A Presença Real de Cristo na Eucaristia - Parte III

- "Deveríamos considerar isto: se Nosso Senhor é Santo, como Ele Se deixaria ser manejado, em um processo de transformação, por pessoas (=os sacerdotes) que são pecadoras por natureza?" [i].

- "Por esta palavra ('Fazei isto'), Cristo faz com que a mão do sacerdote seja a Sua [própria mão]; a boca não é minha; a língua não é minha, mas de Cristo, ainda que eu seja um patife ou um malandro (...) Por pior que seja um sacerdote, o sacramento se concretiza" [ii].

HOMILIA ANÓNIMA DO SÉCULO II OU III

Trata-se de uma homilia sobre a Páscoa. Reflecte a doutrina da Igreja do seu tempo.
Pode ser lida em PG 59,735-746, sendo conhecida como "In Sanctum Pascha 6".

A segunda parte da homilia diz:

- "Esta foi a Páscoa que Jesus desejou padecer por nós.
Pela sua Paixão libertou-nos da paixão; e pela sua morte venceu a morte; e através do alimento visível, a sua vida imortal nos procurou [iii].
Este era o desejo salvífico de Jesus; este era o Seu amor espiritualíssimo, mostrando por um lado as figuras como figuras e, de outro lado, dando aos discípulos a correspondência com o Seu sagrado corpo: 'Tomai e comei; isto é Meu corpo'; 'Tomai e bebei; isto é Meu sangue, a Nova Aliança, derramada por muitos, para a remissão dos pecados".

CLEMENTE DE ALEXANDRIA

Contemporâneo de Ireneu, nasceu em torno de 150 e morreu por volta de 215.
Oriundo da Grécia, de família pagã.
Uma vez convertido, viajou buscando instrução cristã, o que acabou encontrando junto ao cristão Panteno de Alexandria, a quem sucedeu, após sua morte, no cargo de catequista dos novos cristãos.
Perseguido pelo Imperador Septímio Severo, fugiu para o Egipto e, finalmente morreu na Capadócia.

Uma homilia sua sobre Marcos 10,17-31 apresenta-nos Jesus dizendo-nos:

- "Eu te regenerei (...) Eu te mostrarei a face de Deus, o Bom Pai (...) Eu sou Aquele que te alimenta, que dou a Mim mesmo no pão [do qual quem provar não experimentará a morte] e dou diariamente a Mim mesmo na bebida da imortalidade" [iv].

É bastante claro o sentido realista da presença do Senhor: não é o símbolo que nos pode salvar da morte eterna, mas o próprio Senhor. E isto apesar de Clemente ser um claro representante da Escola Alegórica de interpretação.
Este dado deve ser levado em conta sempre que estejamos considerando este ou outros autores alegoristas, como Tertuliano [v].

Creio que seja útil advertir, por ocasião deste texto, que as expressões simbólicas que eventualmente podem ocorrer em autores antigos ou modernos não implicam necessariamente no facto de autor negar a presença real do Senhor na Eucaristia.
Por exemplo: Clemente, na sua homilia, faz o Senhor dizer: "Dou-me a Mim mesmo no pão"; e nos nossos dias é comum ouvirmos dos lábios de pregadores católicos: "Jesus se fez pão na Eucaristia" ou expressões semelhantes.
Tais expressões não significam que se está negando a presença real do Senhor, mas são na verdade expressões literárias perfeitamente compreensíveis no contexto em que são expressas: o que vemos na Eucaristia é precisamente pão e se os ouvintes ou leitores são fiéis, não é contrário à Fé Católica falar deste modo.
Retornando à expressão de Clemente, não esqueçamos que Jesus diz "Dou-me a Mim mesmo" no pão; se quisermos ser mais exactos, diríamos: "Dou-me a Mim mesmo (presença real) sob as aparências de um simples pão (o que vemos, os acidentes, aquilo que nosso corpo consome empiricamente) ".

TERTULIANO

É a testemunha da Igreja de Cartago.
Nascido de pais pagãos por volta de 155, chegou a ser advogado de excelente reputação.
Converteu-se ao Senhor em 193.
Autor prolífico, de enorme influência no pensamento cristão, excelente conhecedor das Escrituras, os seus escritos apresentam um período católico; a seguir, um período de transição (semi-montanista, com tendências rigoristas); e, finalmente, rompe com a Igreja para professar o cisma montanista, que basicamente consistia em um Cristianismo extremamente rigorista.
Morreu entre 240 e 250.

O realismo eucarístico de Tertuliano é bastante conhecido. Para ele:

- "A Eucaristia são as delícias do corpo do Senhor" [vi].

Por não atentar-se devidamente às peculiaridades da sua linguagem, tem sido possível o paradoxo de interpretar como simbolista um escritor que com esses mesmos textos está decididamente refutando o Docetismo de Marcião [vii].
Vejamos alguns textos para termos uma melhor ideia sobre a mente de Tertuliano:

- "Pelo qual já provamos com o Evangelho pelo mistério do pão e do vinho a verdade do corpo e do sangue do Senhor, ao contrário do fantasma de Marcião" [viii].

Aqui, a tradicional relação entre a Encarnação e a Eucaristia é empregue não para provar a realidade - já reconhecida e aceite - da Eucaristia, mas para comprovar a verdade da Encarnação!
Isto é: assim como na Eucaristia temos realmente o corpo e o sangue do Senhor - coisa que não se discute - 'a fortiori' dever-se-à aceitar que o corpo do Senhor, pela Encarnação, foi real e não um fantasma: em ambos os casos, trata-se do mesmo corpo e do mesmo sangue do Senhor.

Um texto que normalmente é citado como simbolista é o seguinte [ix]:

- "Após ter declarado que desejava muitíssimo comer a Sua Páscoa (seria indigno que Deus desejasse algo desnecessário), tomando o pão e dando-o aos discípulos, o fez Seu corpo, dizendo: 'Isto é o Meu corpo', isto é, a figura do Meu corpo.
Porém, não seria figura se não fosse um corpo verdadeiro; afinal, algo que é vazio (como um fantasma) não poderia constituir uma figura". [x]

Antes de mais nada, não devemos esquecer que o texto diz que Jesus, ao pão, "o fez Seu corpo".
Por outro lado, é certo que Tertuliano esclarece que trata-se da "figura do Meu corpo".
No entanto, este modo de falar não desvirtua em nada o realismo; ao contrário, confirma-o, pois para que algo possa ser figura ou imagem de outra coisa, precisa ter em si mesmo uma realidade, não pode ser um fantasma.
E o mais importante: qual é o contexto em que se encontra esta expressão de Tertuliano? Do que ele está falando?

Arguindo a partir da hipótese doceta, diz-se:

- "Se o pão se fez corpo precisamente porque Ele carecia de um corpo real (coisa ensinada pelos docetas), então o que deveria ter sido entregue por nós era o pão (porém, na realidade o que foi entregue foi o corpo)" [xi].

Uma palavra sobre os "dois elementos, o terrestre e o celeste" de que é composto o pão sobre o qual foi invocado o Espírito Santo:
Nos grosseiros e infames ataques que a Eucaristia recebeu da parte dos gnósticos de todos os tempos, encontra-se também algum tipo de acusação de canibalismo.
Porém, isso é desconhecer que a Eucaristia, uma vez pronunciadas as palavras de consagração, continua com todos e cada um dos elementos sensíveis (ou "acidentes" ou "espécies", na linguagem filosófica posterior) que tinha quando era "pão comum", coisa que Ireneu define como "elemento terrestre" ou que Tertuliano chama "figura" do corpo do Senhor.
Com efeito, não há nenhum canibalismo, pois a presença verdadeira, real e substancial do corpo e sangue do Senhor não se dá nas suas espécies próprias de corpo e sangue de Cristo, mas em espécies alheias, isto é, as do pão e vinho.
Por outras palavras: a partir do ponto de vista empírico nada mudou, ainda que a Fé indique ao fiel que, pelo poder de Deus, a substância "já não é pão comum".
Assim, toda tentativa de apontar "canibalismo" às celebrações eucarísticas demonstra uma mentalidade totalmente truncada e fechada. Convido a qualquer gnóstico moderno a apresentar uma acusação de "canibalismo" contra a Igreja Católica diante dos tribunais de seu país e ver que tipo de aceitação terá.

Ou seja: suposta a identidade do corpo físico de Jesus com o Seu corpo eucarístico (identidade que para Tertuliano não é discutível porque ele não conhece senão um só e verdadeiro corpo do Senhor), esse corpo real e único cumpre precisamente na Eucaristia uma antiga "figura": aquela que foi assinalada por Jeremias [xii], que profetizou: "Coloquemos o lenho em seu pão".
Esta é exactamente a passagem que está sendo comentada por Tertuliano.
Para ele, o Profeta Jeremias designa com "o lenho" a cruz e com "o pão" o corpo do Senhor.
Como pode o pão designar o corpo do Senhor?
Essa figura, cunhada pelo Profeta, é revelada por Jesus quando, com o pão nas mãos, disse: "Isto é Meu corpo".
Foi então que foi explicado o significado do pão naquela profecia. [xiii]

Neste sentido, é compreensível também a expressão relativa ao sangue:

- "Agora consagrou Seu sangue no vinho Aquele mesmo que então fez do vinho figura do sangue [xiv]" [xv].

Notemos a força da seguinte expressão, onde Tertuliano defende a bondade do corpo humano contra o preconceito gnóstico, de que a carne é coisa má, e proclama, através das coisas sensíveis como instrumentos - os Sacramentos que tocam o corpo - de que Deus santifica a alma:

- "Lava-se a carne (com o Baptismo), para que a alma seja limpa. Unge-se a carne (pelo Baptismo e Confirmação), para que a alma seja consagrada.
Assinala-se a carne (pela Confirmação e Unção dos Enfermos), para que a alma seja protegida.
Encobre-se a carne com a imposição das mãos (pela Confirmação e Ordem), para que a alma seja iluminada.
Alimenta-se a carne com o corpo e o sangue de Cristo (pela Eucaristia) para que também a alma se sacie de Deus" [xvi].

À luz destas expressões é possível enxergar também estas outras coisas:

- "Porém, é certo que Cristo até agora não reprovou a água do Criador (com a qual lava os seus fiéis), nem o óleo (com o que os unge), nem a mistura de mel e leite (com que os amamenta), nem o pão (que o tornou o Seu corpo).
 Até para os próprios Sacramentos é necessário mendigar ao Criador!" [xvii],[xviii].

- "Ainda que a expressão diga: 'O pão nosso de cada dia nos dai hoje', devemos entendê-la melhor espiritualmente, porque Cristo é o nosso pão, já que Cristo é a vida e a vida é o pão (Ele disse: 'Eu sou o Pão da Vida'; e, um pouco antes: 'O pão é a Palavra do Deus vivo que desceu do céu').
Além disso, porque Seu corpo também é autoritariamente designado como 'pão': 'Isto é o Meu corpo'" [xix].

Isto é, o corpo do Senhor é dado na forma de pão, sob as aparências de pão.
Porém, o que é consumido não é pão, mas o corpo de Cristo: "Isto é Meu corpo".
Esta é a substância que o fiel consome quando participa da Eucaristia.

(cont)

p. juan carlos sack

Revisão da versão portuguesa por ama.




[i] Guillermo Hernández Agüero, evangélico
[ii] Martinho Lutero
[iii] cf. João 6,54
[iv] Quis Dives Salvetur 23
[v]  Seria o caso deste outro texto de Clemente: "O Verbo é tudo para a criança: pai e mãe; e, por sua vez, pedagogo e alimentante. Ele disse: 'Comei o Meu corpo e bebei o Meu sangue'. Estes são os alimentos, bem apropriados para nós, que o Senhor dá: oferece Sua carne e dá Seu sangue; nada falta às crianças para que cresçam" (Pedagogo 1,6,42,3).
[vi] De Pudicitia 9,16
[vii] A heresia docetista ensinava, substancialmente, que a Encarnação não fôra real, mas aparente, uma espécie de ilusão: nem o Verbo se fez carne realmente, nem morreu realmente na cruz, etc.
[viii] Contra Marcião 5,8,3
[ix] Citado em parte por Hernández Agüero no Site “Conoceréis la Verdad”.
[x] Contra Marcião 4,40,3
[xi] Contra Marcião 4,40,3
[xii] 11,19
[xiii] Esta doutrina de Tertuliano encontra-se em Contra Marcião 4,40,3-4 e em 3,19,3-4
[xiv] Isaías 63,1; Gênesis 49,19
[xv] Contra Marcião 4,40,4-6
[xvi] Da Ressurreição dos Mortos 8,3
[xvii] Contra Marcião 1,14,3
[xviii] É óbvio que Tertuliano acreditava que Jesus tinha Se convertido em pão... O contrário é que deve ser entendido, como já mencionamos em uma nota anterior, acerca do modo poético de se falar da Eucaristia. Certamente, nenhum "pão" pode nos dar nada no plano da salvação, salvo se esse "pão" agora for "o corpo do Senhor". Nesta chave, todos os textos patrísticos podem ser compreendidos.
[xix] Da Oração 6,2

22/12/2014

Ev. Coment. L. esp. (Amigos de Deus)

Advento IV Semana

Evangelho: Lc 1 46-56

46 Então Maria disse: «A minha alma glorifica o Senhor; 47 e o meu espírito exulta de alegria em Deus meu Salvador, 48 porque olhou para a humildade da Sua serva. Portanto, eis que, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão ditosa, 49 porque o Todo-poderoso fez em mim grandes coisas. O Seu nome é Santo, 50 e a Sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem. 51 Manifestou o poder do Seu braço, dispersou os homens de coração soberbo. 52 Depôs do trono os poderosos, elevou os humildes. 53 Encheu de bens os famintos, e aos ricos despediu de mãos vazias. 54 Tomou cuidado de Israel, Seu servo, lembrado da Sua misericórdia; 55 conforme tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre». 56 Maria ficou com Isabel cerca de três meses; depois voltou para sua casa.
Comentário:

Desde sempre o Magnificat, é, por excelência, o hino da alegria das acções de graças. Logicamente, quando se sente a necessidade de dar graças é porque algo de muito bom provoca uma alegria que temos de extravasar.
Assim a Santíssima Virgem, profundamente alegre com a sua gravidez, e depois da saudação de Isabel, não pode conter o que lhe vai na alma e rompe nesse hino maravilhoso de reconhecimento, de louvor e agradecimento a Deus que tudo pode, que fez tão grandes coisas, que se mostra misericordioso ao olhar com complacência e escolher para sua Mãe, uma simples jovem do povo anónimo e humilde que, não obstante a grandeza do papel que lhe cumpre desempenhar na salvação da humanidade, se considera uma simples escrava Senhor.

(ama, comentário sobre, Lc 1, 46-56, 2012.12.20)  


Leitura espiritual



São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus 146 a 150
  
146         
Piedade, intimidade de filhos

A piedade que nasce da filiação divina é uma atitude profunda da alma, que acaba por informar toda a existência: está presente em todos os pensamentos, em todos os desejos, em todos os afectos. Não tendes visto como, nas famílias, os filhos, mesmo sem repararem, imitam os pais: repetem os seus gestos, seguem os seus costumes, se parecem com eles em tantos modos de comportar-se?

Pois o mesmo acontece na conduta de um bom filho de Deus. Chega-se também, sem se saber como nem por que caminho, a esse endeusamento maravilhoso que nos ajuda a olhar os acontecimentos com o relevo sobrenatural da fé; amam-se todos os homens como o nosso Pai do Céu os ama e - isto é o que mais importa - consegue-se um brio novo no esforço quotidiano para nos aproximarmos do Senhor. As misérias não têm importância, insisto, porque aí estão ao nosso lado os braços amorosos do nosso Pai Deus para nos levantar.

Se reparardes bem, é muito diferente a queda de uma criança e a queda de uma pessoa crescida. Para as crianças, uma queda, em geral, não tem importância; tropeçam com tanta frequência! E se começam a chorar, o pai lembra-lhes: os homens não choram. Assim se encerra o incidente com o empenho do miúdo por contentar o seu pai.

Vede, pelo contrário, o que acontece quando um homem adulto perde o equilíbrio e cai no chão. Se não fosse por compaixão, provocaria hilaridade, riso. Mas, além disso, a queda talvez tenha consequências graves e, num ancião, pode mesmo produzir uma fractura irreparável. Na vida interior, a todos nos convém ser quasi modo geniti infantes, como esses miuditos que parecem de borracha, que se divertem até com os seus trambolhões, porque imediatamente se põem de pé e continuam com as suas correrias e também porque não lhes falta, quando é precisa, a consolação dos pais.

Se procurarmos portar-nos como eles, os tropeções e os fracassos - aliás inevitáveis - na vida interior, nunca se transformarão em amargura. Reagiremos com dor, mas sem desânimo, e com um sorriso que brota, como a água límpida, da alegria da nossa condição de filhos desse Amor, dessa grandeza, dessa sabedoria infinita, dessa misericórdia, que é o nosso Pai. Aprendi durante os meus anos de serviço ao Senhor a ser filho pequeno de Deus. E isto vos peço: que sejais quasi modo geniti infantes, meninos que desejam a palavra de Deus, o pão de Deus, o alimento de Deus, a fortaleza de Deus para se comportarem de agora em diante, como homens cristãos.

147         
Que sejais, espiritualmente, muito crianças! Quanto mais, melhor. Di-lo a experiência deste sacerdote que teve de se levantar muitas vezes, ao longo destes trinta e seis anos (que longos e ao mesmo tempo, que curtos me parecem!) em que tem procurado cumprir uma Vontade precisa de Deus. Houve uma coisa que sempre me ajudou: ser sempre criança e meter-me continuamente no regaço de minha Mãe e no Coração de Cristo, meu Senhor.

As grandes quedas, as que causam destroços sérios na alma, e às vezes com resultados quase irremediáveis, procedem sempre da soberba de nos crermos adultos, auto-suficientes. Nesses casos, torna-se predominante na pessoa uma espécie de incapacidade de pedir ajuda a quem a pode dar: não só a Deus, mas também ao amigo ou ao sacerdote. E aquela pobre alma, isolada na sua desgraça, afunda-se na desorientação e no descaminho.

Peçamos a Deus, agora mesmo, que nunca permita que nos sintamos satisfeitos, que aumente sempre em nós a ânsia do seu auxílio, da sua Palavra, do seu Pão, do seu consolo, da sua fortaleza: rationabile, sine dolo lac concupiscite. Fomentai a fome, a aspiração de ser como crianças. Convencei-vos de que é a melhor forma de vencer a soberba. Persuadi-vos de que é o único remédio para que a nossa maneira de actuar seja boa, grande, divina. Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e vos tornardes como meninos, não entrareis no reino dos céus.

148         
Vêm-me de novo à memória as recordações da minha juventude. Que demonstração de fé! Ainda julgo ouvir o cantar litúrgico, respirar o aroma do incenso, ver milhares de milhares de homens, cada um com um grande círio, como que simbolizando a sua miséria, mas com coração de meninos: como crianças que talvez não se atrevam a levantar os olhos para a cara do pai. Reconhece e compreende que má e amarga coisa é para ti o teres abandonado o Senhor teu Deus. Renovemos a firme decisão de nunca nos afastarmos do Senhor por causa dos interesses terrenos. Façamos crescer a sede de Deus, com propósitos concretos para a nossa vida: como crianças que reconhecem a sua indigência e procuram e chamam incessantemente o Pai.

Mas volto àquilo que antes estava a comentar. Precisamos de aprender a portar-nos como crianças, precisamos de aprender a ser filhos de Deus. E, simultaneamente, ir transmitindo aos outros essa mentalidade que, no meio das naturais fraquezas, nos tornará fortes na fé, fecundos nas obras, seguros no caminho, de tal forma que, seja qual for a espécie de erro que possamos cometer, mesmo o mais desagradável, nunca hesitaremos em reagir e em voltar ao caminho da nossa filiação divina, que nos leva aos braços abertos e expectantes do nosso Pai, Deus.

Qual de vós não se lembra dos braços de seu pai? Provavelmente não seriam tão carinhosos, tão meigos e delicados como os da mãe. Mas aqueles braços robustos, fortes, apertavam-nos com calor e com segurança. Senhor, obrigado por esses braços duros! Obrigado por essas mãos fortes! Obrigado por esse coração terno e firme! E ia agradecer-Te também os meus erros! Mas isso não, porque não os queres! No entanto, compreende-los, desculpa-los, perdoa-los.

Esta é a sabedoria que Deus espera que vivamos nas relações com Ele, verdadeira manifestação de ciência matemática: reconhecer que somos um zero à esquerda... Mas o nosso Pai Deus ama-nos a cada um de nós, tal como somos! Eu, que não passo de um pobre homem, gosto de cada um de vós tal como sois; imaginai como será o Amor de Deus, se lutarmos, se nos empenharmos em viver de acordo com a nossa consciência bem formada.

149         
Plano de vida

Ao examinarmos como é e como devia ser a nossa piedade, em que pontos determinados devia melhorar a nossa relação pessoal com Deus, se me entendestes, afastareis a tentação de imaginar façanhas insuperáveis, porque tereis descoberto que o Senhor se contenta com que lhe ofereçamos pequenas provas de amor em cada momento.

Procura cingir-te a um plano de vida com constância: alguns minutos de oração mental; a assistência à Santa Missa, diária, se te é possível, e a Comunhão frequente; o recurso regular ao Santo Sacramento do Perdão, ainda que a tua consciência não te acuse de qualquer pecado mortal; a visita a Jesus no Sacrário; a recitação e a contemplação dos mistérios do terço e tantas outras práticas excelentes que conheces ou podes aprender.

Mas estas práticas não se deverão transformar em normas rígidas ou em compartimentos estanques. Indicam um itinerário flexível, acomodado à tua condição de homem que vive no meio da rua, com um trabalho profissional intenso e com deveres e relações sociais que não podes descuidar, porque é nessas ocupações que prossegue o teu encontro com Deus. O teu plano de vida há-de ser como uma luva de borracha que se adapta perfeitamente à mão de quem a usa.

Não te esqueças também de que o que é importante não é fazer muitas coisas; limita-te com generosidade àquelas que possas cumprir no dia-a-dia, quer te apeteça quer não. Essas práticas conduzir-te-ão, quase sem reparares, à oração contemplativa. Brotarão da tua alma mais actos de amor, jaculatórias, acções de graças, actos de desagravo, comunhões espirituais. E tudo isto, enquanto te ocupas das tuas obrigações: ao pegar no telefone, ao subir para um meio de transporte, ao fechar ou abrir uma porta, ao passar diante de uma igreja, ao começar um novo trabalho, ao executá-lo e ao concluí-lo. Referirás tudo ao teu Pai Deus.

150         
Descansai na filiação divina. Deus é um Pai cheio de ternura, de amor infinito. Chama-lhe Pai muitas vezes durante o dia e diz-lhe - a sós, na intimidade do teu coração - que o amas, que o adoras, que sentes o orgulho e a força de seres seu filho. Tudo isto pressupõe um autêntico programa de vida interior, que é preciso canalizar através das tuas relações de piedade com Deus - poucas, mas constantes, insisto - que te permitirão adquirir os sentimentos e as maneiras de um bom filho.

Devo prevenir-te, no entanto, contra o perigo da rotina - verdadeiro sepulcro da piedade - a qual se apresenta frequentemente disfarçada com ambições de realizar ou empreender gestas importantes, enquanto se descuida comodamente a devida ocupação quotidiana. Quando notares essas insinuações, põe-te diante do Senhor com sinceridade. Pensa se não te terás aborrecido de lutar sempre nas mesmas coisas, porque na realidade não estavas à procura de Deus. Vê se não terá decaído a tua perseverança fiel no trabalho, por falta de generosidade, de espírito de sacrifício. Nesse caso, as tuas normas de piedade, as pequenas mortificações, a actividade apostólica que não produz fruto imediato parecem-te tremendamente estéreis. Estamos vazios e talvez comecemos a sonhar com novos planos, para calar a voz do nosso Pai do Céu, que exige de nós uma lealdade total. E, com um pesadelo de grandezas na alma, lançamos no esquecimento a realidade mais certa, o caminho que sem dúvida nos conduz direitos à santidade. Aí temos um sinal evidente de que perdemos o ponto de vista sobrenatural, a convicção de que somos meninos pequenos, a persuasão de que o nosso Pai fará em nós maravilhas, se recomeçarmos com humildade.

(cont)