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05/02/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual

Tempo Comum
Semana IV

Evangelho: Mc 6, 14-29

14 Ora o rei Herodes ouviu falar de Jesus, cujo nome se tinha tornado célebre. Uns diziam: «João Baptista ressuscitou de entre os mortos; é por isso que o poder de fazer milagres se manifesta n'Ele.» 15 Outros, porém, diziam: «É Elias». E outros afirmavam: «É um profeta, como um dos antigos profetas». 16 Herodes, porém, ouvindo isto, dizia: «É João, a quem eu degolei, que ressuscitou». 17 Porque Herodes tinha mandado prender João, e teve-o a ferros numa prisão por causa de Herodíades, mulher de Filipe, seu irmão, com a qual tinha casado. 18 Porque João dizia a Herodes: «Não te é lícito ter a mulher de teu irmão». 19 Herodíades odiava-o e queria fazê-lo morrer; porém, não podia, 20 porque Herodes, sabendo que João era varão justo e santo, olhava-o com respeito, protegia-o e quando o ouvia ficava muito perplexo, mas escutava-o com agrado. 21 Chegou, porém, um dia oportuno, quando Herodes, no seu aniversário natalício, deu um banquete aos grandes da corte, aos tribunos e aos principais da Galileia. 22 Tendo entrado na sala a filha da mesma Herodíades, dançou e agradou a Herodes e aos seus convidados. O rei disse à jovem: «Pede-me o que quiseres e eu to darei». 23 E jurou-lhe: «Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja metade do meu reino». 24 Ela, tendo saído, perguntou à mãe: «Que hei-de pedir?». Ela respondeu-lhe: «A cabeça de João Baptista». 25 Tornando logo a entrar apressadamente junto do rei, fez este pedido: «Quero que me dês imediatamente num prato a cabeça de João Baptista». 26 O rei entristeceu-se, mas, por causa do juramento e dos convidados, não quis desgostá-la. 27 Imediatamente mandou um guarda com ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi degolá-lo no cárcere, 28 levou a sua cabeça num prato, deu-a à jovem, e esta deu-a à mãe. 29 Tendo sabido isto os seus discípulos, foram, tomaram o corpo e o depuseram num sepulcro.

Comentário:
Muitas vezes encontramo-nos na mesma situação desta jovem a quem foi prometido tudo quanto desejasse: «Que hei-de pedir?»

O Senhor também nos disse a nós que tudo quanto pedirmos nos será dado e, nós, passamos a vida num frenesim de pedidos de tudo e a respeito de tudo; não que o Senhor Se incomode com isso, mas porque, talvez, muito do que pedimos não nos convém.

Fazer como fez a jovem rapariga: ir ter com alguém, que conhecendo a nossa alma, saberá aconselhar-nos sobre o que devemos pedir.

Por isso, a direcção espiritual – regular e programada - é tão importante para que, pelo menos, não percamos tempo com coisas inúteis, antes o aproveitemos para o que melhor nos convém.

(ama, comentário sobre Mc 6, 14-29, 2013.02.08)

Leitura espiritual



Eucaristia

A Presença Real de Cristo na Eucaristia - Parte VIII

- "(Durante a Santa Ceia,) a igreja (corpo de fiéis) em que o Senhor está presente [i], participa - recordando através do pão e vinho, que simbolizam o corpo e sangue de Cristo - do sacrifício perfeito de Jesus na cruz do Calvário" [ii].

- "Assim, com absoluta segurança, participamos do corpo e do sangue de Cristo, porque na figura do pão te é dado o Corpo, e na figura do vinho te é dado o sangue, para que, participando do corpo e do sangue de Cristo, sejas feito concorpóreo e consanguíneo de Cristo" [iii].
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CIRILO DE JERUSALÉM


Testemunha insigne da fé da Igreja de Jerusalém no século IV, em particular através de suas "Catequeses Mistagógicas".

Instruindo os recém-baptizados, ensinando a fé e a vida da Igreja, comenta o relato paulino da instituição da Eucaristia; e recitando as palavras de Jesus durante a instituição, comenta-as desta forma:

- "Quando Ele mesmo declarou e disse do pão: 'Isto é Meu corpo", quem se atreverá a duvidar? E quando Ele mesmo garantiu e disse: 'Isto é Meu sangue', quem duvidará, afirmando que não é Seu sangue?" [iv].

- "Em certa ocasião, por um mero desejo Seu, converteu água em vinho durante as bodas de Caná, na Galileia. Não é digno de se crer então que Ele converte o vinho em Seu sangue?" [v].

- "Portanto, com absoluta segurança participamos do corpo e do sangue de Cristo, porque na figura do pão se te é dado o corpo, e na figura do vinho se te é dado o sangue, para que, participando do corpo e do sangue de Cristo, sejas feito concorpóreo e consanguíneo de Cristo; pois assim somos também portadores de Cristo: tendo Seu corpo e Seu sangue distribuídos por nossos membros. Logo, segundo São Pedro, somos consortes da natureza divina" [vi].



- "Não vejas, portanto, o pão e o vinho como coisas comuns, porque são - segundo a declaração do Senhor - corpo e sangue. Pois ainda que os sentidos te sugiram isso, a Fé te assegura o contrário. Não os julgues pelo gosto, mas pelo que a Fé te assegura indubitavelmente, tu que foste digno do corpo e do sangue de Cristo" [vii].

- "Com a certeza de que o aparente pão não é pão - ainda que o seja segundo o paladar - mas corpo de Cristo; e que o aparente vinho não é vinho - ainda que o paladar o aponte - mas sangue de Cristo (...), fortifica o teu coração, participando Dele como de um pão espiritual, rejuvenescendo a face da tua alma" [viii].

- "Após nos termos santificado através desses hinos espirituais, invocamos ao bom Deus para que faça descer o Espírito Santo sobre os dons presentes, para que o pão venha a ser o corpo de Cristo e o vinho, o sangue de Cristo" [ix].

- "Não deixeis o juízo à vossa garganta corporal, mas à Fé indubitável, porque quando (ao ter recebido a sagrada comunhão) a estais ingerindo, não é pão e vinho o que ingeris, mas o antítipo do corpo e sangue de Cristo" [x].

As passagens acima citadas tornam totalmente impossível qualquer dúvida acerca do realismo eucarístico de Cirilo de Jerusalém. Por isso, as últimas palavras somente podem ser entendidas assim: as espécies eucarísticas (o que aparece como pão e vinho) são símbolos que nos levam à realidade que nos é dada, isto é, o corpo e o sangue do Senhor; é o que afirma um texto anteriormente citado: "na figura de pão se dá o corpo". Esta passagem confirma a interpretação "realista" que fornecemos em outra ocasião, ao tratar dos textos que contêm a difícil expressão grega "antítipo".

DÍDIMO O CEGO

Monge de Alexandria, mestre dos mestres. Nasceu em 313 e morreu por volta de 398. Apesar de ter perdido a visão aos 4 anos de idade, converteu-se em um dos homens mais sábios do seu tempo. Foi colocado à frente da Escola de Alexandria por Santo Atanásio. Viveu sempre como leigo na periferia de Alexandria.

Em um escrito seu, recentemente encontrado, lemos:

- "Mais condenável e abertamente prejudicial é o jejum praticado por aqueles que se afastam do pão da vida e da carne de Jesus, que são o pão da vida, o pão da verdade descido do céu. Sendo alimento da vida, não convém de maneira nenhuma abster-se dele" [xi].


AMBRÓSIO DE MILÃO


Um dos mais importantes Padres do Ocidente. Nasceu por volta de 339 e morreu em 397. Tendo recebido uma boa educação, chegou a ser cônsul da região italiana de Ligúria e Emília, tendo estabelecido sua residência em Milão. Quando ainda era catecúmeno, foi eleito para a sé episcopal de Milão, cargo que aceitou em razão do pedido quase que unânime dos fiéis da Diocese. Foi então baptizado e ordenado sacerdote e bispo. De vida exemplar, soube conduzir os civis e os governantes segundo o Evangelho. Escreveu numerosos hinos para a celebração da liturgia. Os seus sermões e o seu exemplo de vida foram responsáveis pela conversão de Agostinho à Fé cristã.

São conservadas muitas expressões acerca da doutrina de Ambrósio sobre a real presença de Cristo na Eucaristia. Proponho aqui apenas algumas:

- "'Minha carne verdadeiramente é comida e meu sangue, bebida': Ouvis carne; ouvis sangue; conheceis os mistérios da morte do Senhor e caluniais a divindade? (...) Sempre que nós recebemos os mistérios (na celebração eucarística), que pelo mistério da sagrada oração (eucarística) se transfiguram em carne e sangue, anunciamos a morte do Senhor" [xii].

- "Cristo é alimento para mim; Cristo é bebida; a carne de Deus é comida para mim e o sangue de Deus é bebida. Já não espero as colheitas anuais para saciar-me; Cristo me é servido todos os dias" [xiii].

A alguém a quem poderia parecer que o milagre do maná não era superado por nada na Igreja, e que ainda poderia imaginar que na celebração eucarística o pão é um pão comum, responde:

- "Porém, esse pão é pão antes das palavras dos mistérios; quando sobrevém a consagração, do pão se faz carne de Cristo. Vamos prová-lo: como é que o pão pode ser corpo de Cristo? Pois, na consagração, com quais palavras e de quem são essas palavras? Do Senhor Jesus (...) É a palavra de Cristo que produz este sacramento" [xiv].

E oferece ainda uma resposta final:

- "Não era corpo de Cristo antes da consagração; mas depois da consagração, te digo que já é o corpo de Cristo. Ele o disse e assim Se fez; ordenou isto e Se criou" [xv].

Prova com vários exemplos a eficácia da palavra divina e conclui:

- "Sabeis, pois, que do pão se faz o corpo de Cristo e que do vinho, que se encontra com água no cálice, se faz sangue pela consagração celeste. Direis, talvez: 'Eu não enxergo aparência de sangue'. Mas se assemelha, pois como recebestes o símbolo da morte [mediante o Batismo], assim também bebeis o símbolo do precioso sangue, para que não tenhais horror [ao ver] sangue e, deste modo, seu efeito produza o preço da redenção. Sabeis, pois, que o que recebeis é o corpo de Cristo" [xvi].


Ao inegável realismo do corpo e sangue do Senhor é acrescentado aqui uma palavra de terminologia simbólica: "similitudo", "símbolo". Partindo da semelhança natural do vinho com o sangue, ao vinho consagrado chama "símbolo do sangue de Cristo", não porque Ele não esteja ali realmente (não se esqueça que essa bebida, segundo Santo Ambrósio, produz efeitos redentores), mas para que a aparência do vinho evite a repugnância natural que qualquer pessoa teria de beber sangue (a objeção do catecúmeno era: "Eu não enxergo aparência de sangue").

Mais adiante, alude às palavras da anáfora eucarística e torna a insistir:

- "Antes de consagrá-lo, é pão; mas quando sobrevêm as palavras de Cristo, é o corpo de Cristo (...) Também antes das palavras de Cristo, o cálice está cheio de vinho e água; mas quando as palavras de Cristo actuaram, ali se encontra o sangue Daquele que redimiu o povo. Vede, pois, de quantas formas a palavra de Cristo pode mudar tudo. Finalmente, o próprio Senhor nos atestou que o que recebemos é o Seu corpo e o Seu sangue. Devemos duvidar da autoridade do Seu testemunho?" [xvii].



Em vários de seus sermões Ambrósio oferece-nos um exemplo claro de outro aspecto que é importante considerar na hora de compreender os escritos dos antigos Padres da Igreja e, assim, poder deduzir no que realmente acreditavam. Refiro-me à "disciplina do arcano". O Pe. Ott assim a explica: "Existia então a 'disciplina arcani', que era um lei que obrigava os fiéis dos primeiros tempos da Igreja a guardar segredo acerca dos mistérios da fé, e de maneira particular, da Eucaristia. Era uma precaução lógica que tinha por objectivo evitar as calúnias dos pagãos, que podiam tergiversar o sentido da nova doutrina" [xviii]. Por outras palavras: os cristãos dos primeiros séculos tentavam não tornar pública a doutrina eucarística exatamente porque acreditavam na presença real de Cristo, coisa que, se fosse conhecida dos pagãos, seria objeto de ironia ou perseguição. Um texto de Ambrósio ilustra isso muito bem; falando aos que tinham recebido recentemente o Batismo, após uma longa e consciente instrução, lhes diz:

- "Agora já é tempo de falar dos sagrados mistérios (a Eucaristia) e explicar-vos o significado dos Sacramentos, coisa que, se o tivéssemos feito antes do Baptismo, seria mais apropriadamente uma violação à disciplina do arcano do que uma instrução" [xix].


Na sua explicação dos sacramentos cristãos, tratando da Eucaristia, propõe novamente a objeção: "Talvez digais: 'Eu enxergo outra coisa. Como me dizes que estou recebendo o corpo de Cristo?' É isso o que nos resta provar". Depois de acumular exemplos onde a natureza das coisas foi alterada mediante a intercessão dos santos, responde à objecção:

- "Pois se tanto poder teve a bênção humana que mudou a natureza, o que diremos da própria consagração divina, quando o que age são as próprias palavras de Nosso Salvador? Porque o sacramento que recebeis é feito com as palavras de Cristo. E se a palavra de Elias teve tanto poder para fazer descer fogo do céu, não teria poder a palavra de Cristo para alterar a natureza dos elementos? (...) A palavra de Cristo que pôde fazer do nada o que não existia, não poderá alterar o que existe naquilo que não era [isto é, converter o pão em corpo de Cristo]? É óbvio que a Virgem deu à luz fora da ordem natural; pois também aquilo que consagramos é o corpo nascido da Virgem (...) Sem dúvida nenhuma, foi a verdadeira carne de Cristo que foi crucificada e sepultada; portanto, (a Eucaristia) é verdadeiramente o sacramento da Sua carne" [xx], [xxi].


E, no final de seu discurso:

- "É o próprio Senhor Jesus quem clama: 'Isto é Meu corpo'. Antes da bênção com as palavras celestes, chama-se outra coisa "pão"]; após a consagração, temos o corpo. Ele mesmo disse que é Seu sangue. Antes da consagração, chama-se outra coisa "vinho"; após a consagração, chama-se "sangue". E tu dizes: "Amém", ou seja, "É verdade". O que a tua boca diz, confesse também o teu espírito. O que soam as palavras, sinta também o afecto" [xxii].

Este impressionante realismo eucarístico não apenas foi expresso constantemente pelo Bispo de Milão, como também ensinado, provado e exigido por ele aos seus fiéis, como pertencente à Fé Cristã. Logo, não há razão para ser obscurecido por uma frase como esta: "Que esta oferenda Te seja agradável, porque é figura do corpo e do sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo" [xxiii].
Isto porque:

1º) Parece que se trata de uma citação extraída por Santo Ambrósio de uma outra obra;

2º) Ambrósio nunca emprega a palavra "figura" para designar os ritos sagrados, preferindo "similitudo" ou "semelhança" e "símbolo", deixando a palavra "mistério" para a realidade profunda que encerram essas "similitudo" do pão e do vinho, ou da água e do azeite etc. Recorde-se aqui o que dissemos sobre Cirilo de Jerusalém e outros Padres acerca do emprego das palavras "tipo", "antítipo" etc.

Uma última citação:

- "É por isso também que a Igreja, tendo em suas mãos tão imensa graça, exorta os seus filhos e amigos a reunirem-se para receber os Sacramentos, dizendo: 'Comam, meus amigos. Bebam e embriaguem-se, irmãos' (...) Nesse sacramento (da Eucaristia) Cristo está (presente), pois é o corpo de Cristo; não é, portanto, comida corporal, mas espiritual (...) porque o corpo de Cristo é o corpo do Espírito divino (...) E, finalmente, essa comida fortalece o nosso coração; essa bebida alegra o coração do homem, como anunciou o Profeta" [xxiv].



Sirvam estas explicações do século IV também a aqueles que em pleno século XXI interpretam a Eucaristia católica como "canibalismo", ou como um convite para comer "fibras, músculos, pele (...) plaquetas, plasma, glóbulos", ou que creem possuir licença para supor que o convite à recepção frequente da Eucaristia - como, p.ex., o de Ambrósio de Milão, no séc. IV - é "mecanismo" para "um truque" [xxv]. Devem manter-se os dois extremos do mistério, sem destruir nenhum: a presença do corpo de Jesus na Eucaristia é real (não simbólica), ainda que seja dado de comer de maneira espiritual. (...)

(Cont)

 p. juan carlos sack

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] cf. Mateus 18,20
[ii] Guillermo Hernández Agüero, evangélico
[iii] São Cirilo de Jerusalém, Bispo, Século IV
[iv] Catequese Mistagógica 4,1
[v] Catequese Mistagógica 4,2
[vi] Catequese Mistagógica 4,3
[vii] Catequese Mistagógica 4,6
[viii] Catequese Mistagógica 4,9
[ix] Catequese Mistagógica 5,7
[x] Catequese Mistagógica 5,20
[xi] Sobre Zacarias 2,121
[xii] Da Fé 4,10,124
[xiii] Exposição ao Salmo 118,15,28
[xiv] Dos Sacramentos 4,4,14
[xv] Dos Sacramentos 4,4,16
[xvi] Dos Sacramentos 4,4,19-20
[xvii] Dos Sacramentos 4,5,23
[xviii] A Fé cristã; cf. Orígenes, Sobre Levítico, Homilia 9,10
[xix] Dos Mistérios 1,7; SC 25bis,156-158
[xx] Dos Mistérios 9,50-53
[xxi] No seu artigo sobre "a teoria da transubstanciação", Daniel Sapia menciona as palavras de um sacerdote argentino que, ao mostrar a hóstia consagrada, antes da comunhão, disse: "Este É o corpo de Jesus, O MESMO que nasceu da Santa Virgem Maria (...) Felizes os convidados para o banquete celestial". O autor batista fica escandalizado com estas palavras, escritas sobre um momento especial, inclusive acrescentando uma breve filmagem desse instante, em que é possível ver e ouvir o referido sacerdote. Curiosamente, Ambrósio de Milão, testemunha indiscutível da Igreja primitiva, não inventou nada (está apenas transmitindo a fé recebida) e diz, dezesseis séculos antes: "[Na Eucaristia] o que consagramos é o corpo nascido da Virgem". E se Ambrósio for considerado testemunho tardio, vamos regredir então ao século II e interpelar um discípulo dos Apóstolos: Inácio de Antioquia ensinava que a Eucaristia "é a carne de Nosso Salvador Jesus Cristo, aquela que padeceu por nossos pecados". É claro que a expressão do sacerdote argentino está em perfeita sintonia com o que a Igreja primitiva sempre acreditou, enquanto que o autor batista está em sintonia não com a Fé da Igreja primitiva, mas com a heresia doceta, contra a qual São João Evangelista tanto lutou em suas cartas. Inácio de Antioquia nos afirma claramente: "Da Eucaristia e da oração [os docetas] se afastam, porque não confessam que a Eucaristia é a carne de Nosso Salvador Jesus Cristo, aquela que padeceu pelos nossos pecados; aquela que, por Sua bondade, o Pai ressuscitou".
[xxii] Dos Mistérios 9,54
[xxiii] Dos Sacramentos 4,5,21
[xxiv] Dos Mistérios 9,58
[xxv] As expressões entre aspas são de Daniel Sapia. Segundo a doutrina católica, o corpo que se recebe na Eucaristia é o corpo glorioso de Cristo, o corpo que se levantou no sepulcro. Trata-se do próprio corpo de Cristo, embora transformado, glorificado, que adquire dimensões que o nosso corpo atualmente não possui, mas que virá a ter por ocasião da ressurreição da carne. Tentando evitar possíveis incongruências, Sapia chega ao extremo de negar que o corpo do Cristo Ressuscitado tivesse sangue. Suas palavras são estas: "O novo corpo de Cristo, no qual Ele agora reside à direita do Pai no céu, não possui sangue". Acredito que este "ex abrupto" teológico tenha surgido para explicar, entre outras coisas, como as "fibras, músculos, derme (...) plaquetas, plasma, glóbulos" fizeram para ingressar na casa onde estavam os discípulos com as portas fechadas. Porém, levantamos esta questão: É possível sustentar que o Ressuscitado era o próprio corpo de Cristo se, por outro lado, não possuía sangue? O que teria este "corpo" para ser realmente o corpo de Cristo? Ou por acaso o Corpo Ressuscitado foi uma simples ilusão de ótica dos Seus discípulos? Isto não é realmente negar a realidade? Ou teria mesmo sido uma farsa? O que Tomé tocou na segunda aparição aos Apóstolos? Se o que viu e tocou não era um fantasma, isto se deve ao fato de ter tocado um corpo real, com sangue e tudo o mais que um corpo possui, ainda que sob nova dimensão: a dimensão do Ressuscitado. Quem comeu diante dos Apóstolos não foi a alma de Cristo, mas Seu corpo real (Lucas 24,39 e seguintes não dá margem a fantasias). Comeu mesmo Jesus com seus discípulos após Sua ressurreição? Aceitará também o "cristianismo evangélico" - do qual Sapia se autocoloca implicitamente como porta-voz nesta questão que agora nos ocupamos - esta doutrina da não-identidade real do corpo de Cristo antes e depois da ressurreição?

04/02/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual

Tempo Comum
Semana IV

Evangelho: Mc 6, 7-13

7 Chamou os doze e começou a enviá-los dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos imundos. 8 Ordenou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um bastão; nem alforge, nem pão, nem dinheiro na cintura; 9 mas que fossem calçados de sandálias, e não levassem duas túnicas. 10 E dizia-lhes: «Em qualquer casa onde entrardes, ficai nela até sairdes desse lugar. 11 Onde vos não receberem nem ouvirem, retirando-vos de lá, sacudi o pó dos vossos pés em testemunho contra eles». 12 Tendo partido, pregavam que fizessem penitência. 13 Expulsavam muitos demónios, ungiam com óleo muitos enfermos e curavam-nos.

Comentário:

São Marcos com o estilo preciso e detalhado que conhecemos refere um pormenor que não concorda com São Mateus: a recomendação de Jesus Cristo sobre o uso de sandálias por parte dos Apóstolos enviados em missão.

Pode ser algo de importância menor mas, quanto a mim, não é.

São Pedro que foi o "mentor" do Evangelista é uma fonte absolutamente credível.

Porque referirá este detalhe?

Penso que Jesus quis que os Seus enviados se apresentassem com dignidade junto daqueles que os receberiam e, sobretudo naqueles tempos, o usar sandálias conferia essa dignidade.

Sem luxos nem coisas supérfluas mas com apresentação digna e cuidada.

Assim nos quer o Senhor. 

(ama, comentário sobre Mc 6, 7-13, 2015.07.13)


Leitura espiritual



Eucaristia

A Presença Real de Cristo na Eucaristia - Parte VII

- "No caso do suposto milagre da hóstia, o nosso sentido diz-nos que esse elemento continua sendo o mesmo pão, de modo que a nossa vista e qualquer um dos nossos sentidos não percebem o suposto milagre na substância. A nossa fé não é cega" [i].


- "O aparente pão não é pão (ainda que o seja para o paladar), mas corpo de Cristo; e o aparente vinho não é vinho (ainda que o paladar o queira), mas sangue de Cristo" [ii].

- "O que vedes é o pão e o cálice, que é também o que dizem os vossos olhos; porém, naquilo que vossa fé pede para ser instruída, o pão é o corpo de Cristo e o cálice, o sangue de Cristo [iii].

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DÂMASO


Papa, ocupou a sé de Pedro de 366 a 384.
Encomendou a São Jerónimo a tradução (latina) das Escrituras.
Poeta, são conservados numerosos epitáfios que compôs para os túmulos dos mártires.

Para o túmulo do jovem mártir da Eucaristia, São Tarcísio, mandou escrever estas palavras:

- "Quando uma mão insana oprimia São Tarcísio, / portador dos sacramentos de Cristo, / para que os expusesse ao profano, / ele preferiu dar a sua vida em meio aos ferimentos / do que entregar aos cães raivosos os membros celestes" [iv].


SIRÍCIO


Eleito papa em 384.
Grande amigo de Santo Ambrósio.
Consagrou a basílica de São Paulo em Roma.



No ano 385 proibiu os apóstatas de se aproximarem dos sacramentos eucarísticos, dizendo-o desta forma:

- "Ordenamos que estes (os apóstatas) se afastem do corpo e do sangue de Cristo, pelos quais, em outro tempo, ao renascerem, tinham sido redimidos" [v].


AMBROSIASTER

 Assim é conhecido um autor cujo nome autêntico é para nós desconhecido.
Comentou todas as cartas de São Paulo, com excepção a dos Hebreus.
É considerado um dos melhores comentários até a época do Renascimento.
A sua doutrina, salvo as inclinações milenaristas, sempre foi tida por ortodoxa por toda a Igreja.

Comentando o texto de Paulo sobre a Eucaristia, escreveu:

- "Já que fomos libertados pela morte do Senhor, recordando esta realidade, ao comermos e bebermos a carne e o sangue que foram oferecidos por nós, queremos significar que neles adquirimos o Novo Testamento" [vi].

- "Recebemos o místico cálice de sangue para a defesa do nosso corpo e alma, pois o sangue do Senhor redimiu o nosso sangue, isto é, salvou o homem inteiro; pois a carne do Salvador para a salvação do corpo e do sangue foi derramado pela nossa alma" [vii].

Parte VIII


- "Jesus jamais ensinou a transubstanciação aos seus discípulos, isto é, que o pão literalmente se converteria no Seu corpo" [viii].

- "Não se trata - como ensina a doutrina da transubstanciação - que o pão se converta em Cristo, mas que Ele é como um pão que dá a vida eterna" [ix].

- "Contudo, esse pão é pão antes das palavras dos mistérios; quando ocorre a consagração, do pão se faz a carne de Cristo" [x].

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ATANÁSIO

A grande figura de Santo Atanásio (295-373) preenche uma boa parte do século IV. Como diácono e secretário de seu Bispo, Alexandre, participou do Concílio de Niceia. Foi nomeado Bispo de Alexandria. Por defender a doutrina de Niceia, foi exilado cinco vezes pelas autoridades do Império.

Contrapondo a antiga Páscoa com a celebração pascal cristã, diz:

- "Então (nos dias do Antigo Testamento) celebravam a festa comendo um cordeiro irracional e afugentavam o (Anjo) exterminador untando os dentes com seu sangue. Mas agora, quando comemos o Verbo do Pai e assinalamos os lábios de nossos corações com o sangue do Novo Testamento, conhecemos a graça que o Salvador nos deu" [xi].

- "O próprio Salvador nosso, passando do figurado para o espiritual, lhes prometeu que de então em diante não comeriam a carne do cordeiro, mas a sua própria (carne), dizendo: 'Tomai e comei; isto é o Meu corpo e o Meu sangue" [xii].

- "Verás os levitas (os sacerdotes cristãos), que levam os pães e o cálice com o vinho, e os põem sobre o altar. E enquanto não são feitas as orações e invocações, é apenas pão e vinho; mas quando terminam as magníficas e admiráveis preces, então o pão se faz corpo e o cálice [se faz] sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. E novamente: ocorre a realização dos mistérios. Este pão e este cálice, antes das orações e invocações, são puros (pão e vinho); mas quando sobrevêm as magníficas preces e as magníficas invocações, o Verbo desce ao pão e ao cálice, e se faz o seu corpo" [xiii], [xiv].

Tratando dos frutos da comunhão eucarística, escreve:

- "Nos divinizamos, não participando do corpo de um homem qualquer, mas tomando o corpo do próprio Verbo" [xv].


BASÍLIO

Um dos líderes mais importantes da Igreja da Capadócia. Nasceu por volta de 330. Contam-se em sua família diversos mártires e santos. É considerado um dos fundadores do monaquismo oriental.

Escrevendo a um cristão acerca do proveito da comunhão frequente, diz:

- "É certamente bom e proveitoso receber diariamente a Eucaristia e, assim, participar do corpo e sangue de Cristo, porque Ele diz com toda a clareza: 'Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue possui a vida eterna'. E quem pode duvidar que participar frequentemente da Vida é a mesma coisa que possuir vida em abundância? Eu comungo quatro vezes por semana: no Dia do Senhor (=Domingo), na 4ª-Feira, na 6ª-Feira e no Sábado; e também em qualquer outro dia, se acontecer a comemoração de algum santo" [xvi], [xvii].

Noutros lugares, fala de "receber o corpo e o sangue de Cristo" e de "participar do santo corpo e sangue de Cristo" [xviii].


GREGÓRIO NANZIANZENO

Outro dos grandes Padres Capadócios. Nasceu em 330 e morreu em 389. Trabalhou em grande sintonia com São Basílio e o irmão de Basílio, São Gregório de Nissa. Seu pai foi Bispo de Nanzianzo. Foi ordenado sacerdote em 362. Nomeado Bispo de Niceia, renunciou à esta sé por problemas canônicos. Foi Bispo de Nanzianzo por alguns anos, até que se aposentou, e passou a viver em solidão e oração até sua morte. Seus escritos são de imensa profundidade teológica.



Tratando da celebração eucarística, exorta aos fiéis:

- "Se desejais a Vida, comei o Corpo e bebei o Sangue sem temor e sem dúvidas" [xix].

E numa carta:

- "Ó piedosíssimo: não te canses de pedir e advogar por nós, quando por tua palavra fizeres baixar o Verbo; quando pelo fracionamento incruento, usando a voz no lugar da espada, cortares o Corpo e o Sangue do Senhor (exacto momento da fração do pão eucarístico na Missa)" [xx].

GREGÓRIO DE NISSA

Irmão de São Basílio e amigo de São Gregório Nanzianzeno. Nasceu em 335 e morreu em 394. Grande místico, teólogo e escritor. Foi consagrado Bispo de Nissa, na Capadócia.

Ensinando aos seguidores de Cristo como se deve entender as Escrituras, diz-lhes:

- "Cremos que também agora o pão santificado pela palavra de Deus se transforma no corpo do Verbo de Deus" [xxi].

E noutro lugar:

- "Inicialmente, o pão é comum; mas quando o mistério o consagrou, chama-se e se faz corpo de Cristo" [xxii].

Afirma também que Cristo Se ofereceu em sacrifício antes mesmo do Calvário, e diz:

- "Quando se deu isso? Quando aos que estavam com Ele lhes fez Seu corpo ao pão e, à bebida, Seu sangue. Porque é totalmente manifesto que os homens não podem comer um cordeiro se anteriormente não se dá a morte disto que comem. Ele, que deu o Seu corpo como comida aos Seus discípulos, manifestou abertamente que já se tinha cumprido o sacrifício do cordeiro" [xxiii].

p. juan carlos sack

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Guillermo Hernández Agüero, evangélico
[ii] São Cirilo de Alexandria, Bispo, Século IV
[iii] Santo Agostinho, Bispo, Século IV
[iv] Epigrammata Damasiana, ed. A. Ferrua, 15, PL 13,392
[v] Epístola a Himério 3,4
[vi] Sobre 1Coríntios 11,26,1
[vii] Sobre 1Coríntios 2
[viii] Guillermo Hernández Agüero, evangélico
[ix] Fernando Saraví, evangélico
[x] Santo Ambrósio, Bispo, Século IV
[xi] Cartal Festal 4,3
[xii] Carta Festal 4,4
[xiii] Sermão aos Baptizandos [fragmento]; PG 26,1325
[xiv] Alguns colocam este texto em dúvida, não obstante a maioria dos críticos hoje o tenham como um escrito autêntico de Atanásio.
[xv] Carta a Máximo 2; PG 26,1088
[xvi] Carta 93
[xvii] Compare-se o escrito de São Basílio Magno com estas expressões de Sapia no artigo já citado (com as ênfases do original): "Este sacerdote [católico] disse [ao terminar uma Missa]: 'Queridos irmãos: vos convido a retornar todo domingo para receber Cristo, que por sua grande humildade Se transforma em hóstia por amor a nós...' Pergunto: Receber Cristo todo domingo? É claro que somente podemos receber algo quando NÃO TEMOS esse algo (o que me parece óbvio). Significa, então, segundo se depreende das palavras do sacerdote, que Cristo 'abandona' o católico em algum momento da semana, já que no domingo [seguinte] deverá assistir à Missa para novamente recebê-Lo... e assim sucessivamente ao longo de toda a sua vida... Isto não apenas é antibíblico como também ilógico. No entanto, os fiéis católicos aceitam, creem e obedecem a isto... Eles creem na Igreja Católica Romana e isso os conforma para supor que estão cumprindo [seus deveres para] com Deus. O verdadeiro cristão recebe Cristo UMA ÚNICA VEZ em sua vida: no instante de reconhecê-Lo como seu único e suficiente Salvador, entregando-Lhe seu coração e todo o seu ser; o que a Bíblia chama de "nascer de novo" (algo que dificilmente ocorre com quem supõe receber Cristo pela ingestão de uma hóstia)". É claro que cada um tem uma visão diferente do que significa "receber Jesus" e não necessariamente coincidirá com a definição de tipo dogmático expressa por Sapia, sobre como "o verdadeiro cristão" recebe a Cristo (leia-se: ele e os que pensam como ele); como se existisse uma única forma de "receber" Jesus! Entretanto, o que eu quero apontar aqui é que a fé do evangélico batista é diferente da Fé da Igreja primitiva, daquela Fé que coincide com a daquele sacerdote católico que convida os fiéis a regressarem à Igreja todo domingo para "receber a Cristo". Vemos então que São Basílio Magno, na distante Capadócia, naquele já distante século IV, "cria na Igreja Católica Romana" e isso "o conformava para supor que estava cumprindo [seus deveres para] com Deus". Há outros testemunhos neste artigo onde os Padres recomendam ou louvam a recepção diária da Eucaristia.
[xviii] Regra Moral 21,1-2; Regra Breve, Tratado 172
[xix] Discurso 45, na Santa Páscoa 19
[xx] Carta 171, a Anfilóquio 3
[xxi] Discurso Catequético 37
[xxii] In Diem Luminum; PG 46,581
[xxiii] Discurso 1, na Santa Páscoa; PG 46,612