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04/02/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual

Tempo Comum
Semana IV

Evangelho: Mc 6, 7-13

7 Chamou os doze e começou a enviá-los dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos imundos. 8 Ordenou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um bastão; nem alforge, nem pão, nem dinheiro na cintura; 9 mas que fossem calçados de sandálias, e não levassem duas túnicas. 10 E dizia-lhes: «Em qualquer casa onde entrardes, ficai nela até sairdes desse lugar. 11 Onde vos não receberem nem ouvirem, retirando-vos de lá, sacudi o pó dos vossos pés em testemunho contra eles». 12 Tendo partido, pregavam que fizessem penitência. 13 Expulsavam muitos demónios, ungiam com óleo muitos enfermos e curavam-nos.

Comentário:

São Marcos com o estilo preciso e detalhado que conhecemos refere um pormenor que não concorda com São Mateus: a recomendação de Jesus Cristo sobre o uso de sandálias por parte dos Apóstolos enviados em missão.

Pode ser algo de importância menor mas, quanto a mim, não é.

São Pedro que foi o "mentor" do Evangelista é uma fonte absolutamente credível.

Porque referirá este detalhe?

Penso que Jesus quis que os Seus enviados se apresentassem com dignidade junto daqueles que os receberiam e, sobretudo naqueles tempos, o usar sandálias conferia essa dignidade.

Sem luxos nem coisas supérfluas mas com apresentação digna e cuidada.

Assim nos quer o Senhor. 

(ama, comentário sobre Mc 6, 7-13, 2015.07.13)


Leitura espiritual



Eucaristia

A Presença Real de Cristo na Eucaristia - Parte VII

- "No caso do suposto milagre da hóstia, o nosso sentido diz-nos que esse elemento continua sendo o mesmo pão, de modo que a nossa vista e qualquer um dos nossos sentidos não percebem o suposto milagre na substância. A nossa fé não é cega" [i].


- "O aparente pão não é pão (ainda que o seja para o paladar), mas corpo de Cristo; e o aparente vinho não é vinho (ainda que o paladar o queira), mas sangue de Cristo" [ii].

- "O que vedes é o pão e o cálice, que é também o que dizem os vossos olhos; porém, naquilo que vossa fé pede para ser instruída, o pão é o corpo de Cristo e o cálice, o sangue de Cristo [iii].

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DÂMASO


Papa, ocupou a sé de Pedro de 366 a 384.
Encomendou a São Jerónimo a tradução (latina) das Escrituras.
Poeta, são conservados numerosos epitáfios que compôs para os túmulos dos mártires.

Para o túmulo do jovem mártir da Eucaristia, São Tarcísio, mandou escrever estas palavras:

- "Quando uma mão insana oprimia São Tarcísio, / portador dos sacramentos de Cristo, / para que os expusesse ao profano, / ele preferiu dar a sua vida em meio aos ferimentos / do que entregar aos cães raivosos os membros celestes" [iv].


SIRÍCIO


Eleito papa em 384.
Grande amigo de Santo Ambrósio.
Consagrou a basílica de São Paulo em Roma.



No ano 385 proibiu os apóstatas de se aproximarem dos sacramentos eucarísticos, dizendo-o desta forma:

- "Ordenamos que estes (os apóstatas) se afastem do corpo e do sangue de Cristo, pelos quais, em outro tempo, ao renascerem, tinham sido redimidos" [v].


AMBROSIASTER

 Assim é conhecido um autor cujo nome autêntico é para nós desconhecido.
Comentou todas as cartas de São Paulo, com excepção a dos Hebreus.
É considerado um dos melhores comentários até a época do Renascimento.
A sua doutrina, salvo as inclinações milenaristas, sempre foi tida por ortodoxa por toda a Igreja.

Comentando o texto de Paulo sobre a Eucaristia, escreveu:

- "Já que fomos libertados pela morte do Senhor, recordando esta realidade, ao comermos e bebermos a carne e o sangue que foram oferecidos por nós, queremos significar que neles adquirimos o Novo Testamento" [vi].

- "Recebemos o místico cálice de sangue para a defesa do nosso corpo e alma, pois o sangue do Senhor redimiu o nosso sangue, isto é, salvou o homem inteiro; pois a carne do Salvador para a salvação do corpo e do sangue foi derramado pela nossa alma" [vii].

Parte VIII


- "Jesus jamais ensinou a transubstanciação aos seus discípulos, isto é, que o pão literalmente se converteria no Seu corpo" [viii].

- "Não se trata - como ensina a doutrina da transubstanciação - que o pão se converta em Cristo, mas que Ele é como um pão que dá a vida eterna" [ix].

- "Contudo, esse pão é pão antes das palavras dos mistérios; quando ocorre a consagração, do pão se faz a carne de Cristo" [x].

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ATANÁSIO

A grande figura de Santo Atanásio (295-373) preenche uma boa parte do século IV. Como diácono e secretário de seu Bispo, Alexandre, participou do Concílio de Niceia. Foi nomeado Bispo de Alexandria. Por defender a doutrina de Niceia, foi exilado cinco vezes pelas autoridades do Império.

Contrapondo a antiga Páscoa com a celebração pascal cristã, diz:

- "Então (nos dias do Antigo Testamento) celebravam a festa comendo um cordeiro irracional e afugentavam o (Anjo) exterminador untando os dentes com seu sangue. Mas agora, quando comemos o Verbo do Pai e assinalamos os lábios de nossos corações com o sangue do Novo Testamento, conhecemos a graça que o Salvador nos deu" [xi].

- "O próprio Salvador nosso, passando do figurado para o espiritual, lhes prometeu que de então em diante não comeriam a carne do cordeiro, mas a sua própria (carne), dizendo: 'Tomai e comei; isto é o Meu corpo e o Meu sangue" [xii].

- "Verás os levitas (os sacerdotes cristãos), que levam os pães e o cálice com o vinho, e os põem sobre o altar. E enquanto não são feitas as orações e invocações, é apenas pão e vinho; mas quando terminam as magníficas e admiráveis preces, então o pão se faz corpo e o cálice [se faz] sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. E novamente: ocorre a realização dos mistérios. Este pão e este cálice, antes das orações e invocações, são puros (pão e vinho); mas quando sobrevêm as magníficas preces e as magníficas invocações, o Verbo desce ao pão e ao cálice, e se faz o seu corpo" [xiii], [xiv].

Tratando dos frutos da comunhão eucarística, escreve:

- "Nos divinizamos, não participando do corpo de um homem qualquer, mas tomando o corpo do próprio Verbo" [xv].


BASÍLIO

Um dos líderes mais importantes da Igreja da Capadócia. Nasceu por volta de 330. Contam-se em sua família diversos mártires e santos. É considerado um dos fundadores do monaquismo oriental.

Escrevendo a um cristão acerca do proveito da comunhão frequente, diz:

- "É certamente bom e proveitoso receber diariamente a Eucaristia e, assim, participar do corpo e sangue de Cristo, porque Ele diz com toda a clareza: 'Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue possui a vida eterna'. E quem pode duvidar que participar frequentemente da Vida é a mesma coisa que possuir vida em abundância? Eu comungo quatro vezes por semana: no Dia do Senhor (=Domingo), na 4ª-Feira, na 6ª-Feira e no Sábado; e também em qualquer outro dia, se acontecer a comemoração de algum santo" [xvi], [xvii].

Noutros lugares, fala de "receber o corpo e o sangue de Cristo" e de "participar do santo corpo e sangue de Cristo" [xviii].


GREGÓRIO NANZIANZENO

Outro dos grandes Padres Capadócios. Nasceu em 330 e morreu em 389. Trabalhou em grande sintonia com São Basílio e o irmão de Basílio, São Gregório de Nissa. Seu pai foi Bispo de Nanzianzo. Foi ordenado sacerdote em 362. Nomeado Bispo de Niceia, renunciou à esta sé por problemas canônicos. Foi Bispo de Nanzianzo por alguns anos, até que se aposentou, e passou a viver em solidão e oração até sua morte. Seus escritos são de imensa profundidade teológica.



Tratando da celebração eucarística, exorta aos fiéis:

- "Se desejais a Vida, comei o Corpo e bebei o Sangue sem temor e sem dúvidas" [xix].

E numa carta:

- "Ó piedosíssimo: não te canses de pedir e advogar por nós, quando por tua palavra fizeres baixar o Verbo; quando pelo fracionamento incruento, usando a voz no lugar da espada, cortares o Corpo e o Sangue do Senhor (exacto momento da fração do pão eucarístico na Missa)" [xx].

GREGÓRIO DE NISSA

Irmão de São Basílio e amigo de São Gregório Nanzianzeno. Nasceu em 335 e morreu em 394. Grande místico, teólogo e escritor. Foi consagrado Bispo de Nissa, na Capadócia.

Ensinando aos seguidores de Cristo como se deve entender as Escrituras, diz-lhes:

- "Cremos que também agora o pão santificado pela palavra de Deus se transforma no corpo do Verbo de Deus" [xxi].

E noutro lugar:

- "Inicialmente, o pão é comum; mas quando o mistério o consagrou, chama-se e se faz corpo de Cristo" [xxii].

Afirma também que Cristo Se ofereceu em sacrifício antes mesmo do Calvário, e diz:

- "Quando se deu isso? Quando aos que estavam com Ele lhes fez Seu corpo ao pão e, à bebida, Seu sangue. Porque é totalmente manifesto que os homens não podem comer um cordeiro se anteriormente não se dá a morte disto que comem. Ele, que deu o Seu corpo como comida aos Seus discípulos, manifestou abertamente que já se tinha cumprido o sacrifício do cordeiro" [xxiii].

p. juan carlos sack

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Guillermo Hernández Agüero, evangélico
[ii] São Cirilo de Alexandria, Bispo, Século IV
[iii] Santo Agostinho, Bispo, Século IV
[iv] Epigrammata Damasiana, ed. A. Ferrua, 15, PL 13,392
[v] Epístola a Himério 3,4
[vi] Sobre 1Coríntios 11,26,1
[vii] Sobre 1Coríntios 2
[viii] Guillermo Hernández Agüero, evangélico
[ix] Fernando Saraví, evangélico
[x] Santo Ambrósio, Bispo, Século IV
[xi] Cartal Festal 4,3
[xii] Carta Festal 4,4
[xiii] Sermão aos Baptizandos [fragmento]; PG 26,1325
[xiv] Alguns colocam este texto em dúvida, não obstante a maioria dos críticos hoje o tenham como um escrito autêntico de Atanásio.
[xv] Carta a Máximo 2; PG 26,1088
[xvi] Carta 93
[xvii] Compare-se o escrito de São Basílio Magno com estas expressões de Sapia no artigo já citado (com as ênfases do original): "Este sacerdote [católico] disse [ao terminar uma Missa]: 'Queridos irmãos: vos convido a retornar todo domingo para receber Cristo, que por sua grande humildade Se transforma em hóstia por amor a nós...' Pergunto: Receber Cristo todo domingo? É claro que somente podemos receber algo quando NÃO TEMOS esse algo (o que me parece óbvio). Significa, então, segundo se depreende das palavras do sacerdote, que Cristo 'abandona' o católico em algum momento da semana, já que no domingo [seguinte] deverá assistir à Missa para novamente recebê-Lo... e assim sucessivamente ao longo de toda a sua vida... Isto não apenas é antibíblico como também ilógico. No entanto, os fiéis católicos aceitam, creem e obedecem a isto... Eles creem na Igreja Católica Romana e isso os conforma para supor que estão cumprindo [seus deveres para] com Deus. O verdadeiro cristão recebe Cristo UMA ÚNICA VEZ em sua vida: no instante de reconhecê-Lo como seu único e suficiente Salvador, entregando-Lhe seu coração e todo o seu ser; o que a Bíblia chama de "nascer de novo" (algo que dificilmente ocorre com quem supõe receber Cristo pela ingestão de uma hóstia)". É claro que cada um tem uma visão diferente do que significa "receber Jesus" e não necessariamente coincidirá com a definição de tipo dogmático expressa por Sapia, sobre como "o verdadeiro cristão" recebe a Cristo (leia-se: ele e os que pensam como ele); como se existisse uma única forma de "receber" Jesus! Entretanto, o que eu quero apontar aqui é que a fé do evangélico batista é diferente da Fé da Igreja primitiva, daquela Fé que coincide com a daquele sacerdote católico que convida os fiéis a regressarem à Igreja todo domingo para "receber a Cristo". Vemos então que São Basílio Magno, na distante Capadócia, naquele já distante século IV, "cria na Igreja Católica Romana" e isso "o conformava para supor que estava cumprindo [seus deveres para] com Deus". Há outros testemunhos neste artigo onde os Padres recomendam ou louvam a recepção diária da Eucaristia.
[xviii] Regra Moral 21,1-2; Regra Breve, Tratado 172
[xix] Discurso 45, na Santa Páscoa 19
[xx] Carta 171, a Anfilóquio 3
[xxi] Discurso Catequético 37
[xxii] In Diem Luminum; PG 46,581
[xxiii] Discurso 1, na Santa Páscoa; PG 46,612

12/07/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual




Tempo comum XV Semana


Evangelho: Mc 6, 7-13

7 Chamou os doze e começou a enviá-los dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos imundos. 8 Ordenou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um bastão; nem alforge, nem pão, nem dinheiro na cintura; 9 mas que fossem calçados de sandálias, e não levassem duas túnicas. 10 E dizia-lhes: «Em qualquer casa onde entrardes, ficai nela até sairdes desse lugar. 11 Onde vos não receberem nem ouvirem, retirando-vos de lá, sacudi o pó dos vossos pés em testemunho contra eles». 12 Tendo partido, pregavam que fizessem penitência. 13 Expulsavam muitos demónios, ungiam com óleo muitos enfermos e curavam-nos.

Comentário:

O apostolado se não for dirigido e orientado por quem tem a experiência e os conhecimentos de um Director Espiritual arrisca-se a dar frutos escassos e pouco duradoiros.

De facto aquele que nos dirige, porque nos conhece bem e às nossas capacidades orientará da melhor forma esse trabalho.

A nós compete-nos com humildade obediente e entusiasmo apostólico pôr “mãos à obra” mesmo que, por vezes, nos possa parecer que seria melhor outro caminho ou atitude.

Resistiremos a esta tentação – que pode configurar um excesso de confiança em nós mesmos – se tivermos bem presente que o apostolado que levamos a cabo não é o “nosso apostolado” mas sim aquele que fazemos em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.

(ama, comentário sobre Mc 6, 7-13, Malta,  2015.02.05)



Leitura espiritual




São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus


106
         
Recordo-vos que, se formos sinceros, se nos mostrarmos tal como somos, se nos endeusarmos com humildade, não com soberba, vós e eu manter-nos-emos sempre seguros em qualquer ambiente.
Poderemos falar sempre de vitórias e chamar-nos-emos vencedores, com essas íntimas vitórias do amor de Deus que nos trazem a serenidade, a felicidade da alma, a compreensão.

A humildade animar-nos-á a levar a cabo grandes trabalhos, com a condição de não perdermos de vista a consciência da nossa pequenez e de ir aumentando, um pouco mais cada dia, a convicção da nossa pobre indigência.
Admite sem vacilares que és um servidor obrigado a fazer um grande número de serviços.
Não te pavoneies por seres chamado filho de Deus - reconheçamos a graça, mas não esqueçamos a nossa natureza-; não te envaideças, se serviste bem, porque cumpriste o que tinhas a fazer.
O sol efectua a sua tarefa, a lua obedece; os anjos desempenham o seu papel.
O instrumento escolhido pelo Senhor para os gentios, diz: eu não mereço o nome de Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus (1 Cor XV, 9)...
Por isso, não procuremos nós ser louvados por nós mesmos, por méritos nossos, aliás sempre mesquinhos.

107
        
Humildade e alegria

Livra-me de tudo o que há de mau e perverso no homem.

De novo o texto da Missa nos fala do bom endeusamento: faz ressaltar diante dos nossos olhos o mau barro de que somos feitos, com todas as suas malvadas inclinações.
E depois suplica emittte lucem tuam, envia a tua luz e a tua verdade, que me guiaram e trouxeram ao teu monte santo.
Não me importo de vos contar que me emocionei ao recitar estas palavras do Gradual.

Como é que nos temos de comportar para adquirir esse eudeusamento bom?

No evangelho, lemos que Jesus não queria ir à Judeia, porque os judeus o queriam matar.
Ele, que com um desejo da sua vontade poderia eliminar os seus inimigos, empregava também os meios humanos.
Ele, que era Deus e a quem bastava uma decisão sua para mudar as circunstâncias, deixou-nos uma lição encantadora: não foi à Judeia. Disseram-lhe, pois, seus parentes: Sai daqui e vai para a Judeia, a fim de que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Queriam que Ele desse espectáculo.
Vedes?
Vedes o que é uma lição de endeusamento bom e de endeusamento mau?

Endeusamento bom: esperem em Ti - canta o Ofertório - todos os que conhecem o teu nome, Senhor, porque nunca abandonas os que Te procuram.
E vem o regozijo deste barro cheio de gatos, porque não se esqueceu das orações dos pobres, dos humildes.

108
         
Não deis o mínimo crédito aos que apresentam a virtude da humildade como um amesquinhamento humano ou como uma condenação perpétua à tristeza.
Sentir-se barro, recomposto com gatos, é fonte contínua de alegria; significa reconhecer-se pouca coisa diante de Deus: criança, filho.
E haverá maior alegria do que a daquele que, sabendo-se pobre e débil, se sabe também filho de Deus?
Porque é que nós, homens, nos entristecemos?
Porque a vida na terra, não se passa como nós, pessoalmente, esperávamos e porque surgem obstáculos que impedem ou dificultam a satisfação do que pretendemos.

Nada disto acontece quando a alma vive essa realidade sobrenatural da sua filiação divina.
Se Deus é por nós, quem será contra nós.
Que estejam tristes os que se empenham em não se reconhecerem filhos de Deus, tenho eu repetido sempre.

Para terminar, descobrimos na liturgia de hoje duas petições que hão-de sair como setas, da nossa boca e do nosso coração: concede-nos, Senhor todo-poderoso, que realizando sempre os divinos mistérios mereçamos abeirar-nos dos dons celestiais.
E, pedimos-Te, Senhor, que nos deixes servir-Te constantemente segundo a tua vontade.
Servir, servir, filhos meus, é o que é próprio de nós. Sermos criados de todos, para que nos nossos dias o povo fiel aumente em mérito e número.

109
         
Olhai para Maria.
Nunca criatura alguma se entregou com mais humildade aos desígnios de Deus.
A humildade da ancilla Domini, da escrava do Senhor, é a razão que nos leva a invocá-la como causa nostrae laetitiae, causa da nossa alegria.
Eva, depois de pecar por querer, na sua loucura, igualar-se a Deus, escondia-se do Senhor e envergonhava-se: estava triste.
Maria, ao confessar-se escrava do Senhor, é feita Mãe do Verbo divino e enche-se de alegria.
Que este seu júbilo de boa Mãe se nos pegue a todos nós; que saiamos nisto a Ela - a Santa Maria - e assim nos pareceremos mais com Cristo.

110
        
Este início da Semana Santa, já tão próximo do momento em que se consumou no Calvário a Redenção de toda a humanidade, parece-me um tempo particularmente apropriado para tu e eu considerarmos por que caminhos nos salvou Jesus, Nosso Senhor; para contemplarmos esse seu amor, verdadeiramente inefável, por umas pobres criaturas formadas com barro da terra.


Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris, lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás-de tornar, advertia-nos a Igreja, Nossa Mãe, no início da Quaresma, a fim de nunca esquecermos que somos muito pouca coisa, que um dia qualquer o nosso corpo - agora tão cheio de vida - se desfará como a ligeira nuvem de pó que os nossos pés levantam ao caminhar; dissipar-se-á como a névoa afugentada pelos raios do sol.

Exemplo de Cristo

Mas, depois de recordar tão cruamente a nossa insignificância pessoal, eu queria encarecer ante os vossos olhos outra estupenda realidade: a magnificência divina que nos sustenta e nos endeusa. Escutai as palavras do Apóstolo: Conheceis a liberalidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que sendo rico se fez pobre por vós, a fim de que vós fôsseis ricos pela sua pobreza.

Reparai com calma no exemplo do Mestre e compreendereis rapidamente que dispomos de tema abundante para meditar durante toda a vida, para concretizar propósitos sinceros de maior generosidade. Porque, não percais de vista esta meta que temos de alcançar, cada um de nós deve identificar-se com Cristo, que - já o ouvistes - se fez pobre por ti, por mim, e padeceu dando-nos exemplo para que sigamos os seus passos.

111
         
Nunca perguntaste a ti próprio, movido por uma santa curiosidade, de que modo levou Jesus a cabo este excesso de amor?
É, de novo, São Paulo quem nos responde: tendo a natureza de Deus (...), não obstante, aniquilou-se a si mesmo tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e reduzido à condição de homem.
Meus filhos pasmai agradecidos ante este mistério e aprendei: todo o poder, toda a formosura, toda a majestade, toda a harmonia infinita de Deus, com as suas grandes e incomensuráveis riquezas - todo um Deus - ficou escondido na Humanidade de Cristo para nos servir.
O Omnipotente apresenta-se decidido a ocultar por algum tempo a sua glória, para facilitar o encontro redentor com as suas criaturas.


Escreve o evangelista S. João: ninguém jamais viu Deus; o Filho Unigénito que está no seio do Pai é que o deu a conhecer, comparecendo ante o olhar atónito dos homens: primeiro, como um recém-nascido, em Belém; depois, como um menino igual aos outros; mais tarde, no Templo, como um adolescente, inteligente e vivo; e, por fim, com aquela figura amável e atraente do Mestre que movia os corações das multidões que o acompanhavam entusiasmadas.

112
        
Bastam algumas provas do Amor de Deus que se encarna para que a sua generosidade nos toque a alma, nos incendeie, nos mova com suavidade a uma dor contrita pelo nosso comportamento, em tantas ocasiões mesquinho e egoísta.
Jesus não tem inconveniente em rebaixar-se, para nos elevar da miséria à dignidade de filhos de Deus, de irmãos seus.
Pelo contrário, tu e eu muitas vezes enchemo-nos nesciamente de orgulho pelos dons e talentos recebidos, até ao ponto de os converter em pedestal para nos impormos aos outros, como se o mérito de algumas acções, acabadas com relativa perfeição, dependesse exclusivamente de nós: Que possuis tu que não tenhas recebido de Deus? E se o recebeste, porque te glorias como se o não tivesses recebido?

Ao considerar a entrega de Deus e o seu aniquilamento - falo para que o meditemos, pensando cada um em si mesmo-, a vanglória, a presunção do soberbo revela-se um pecado horrendo, precisamente porque coloca a pessoa no extremo oposto ao modelo que Jesus nos assinalou com a sua conduta.

Pensai nisto devagar: Ele humilhou-se, sendo Deus.
O homem, cheio do seu próprio eu, pretende enaltecer-se a todo o custo, sem reconhecer que está feito de barro e barro de má qualidade.

(cont)