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10/08/2014

Evang.; Coment.; Leit. Esp. (Magistério - Ratzinguer)

Tempo comum XIX Semana

Evangelho: Mt 14, 22-33

22 Imediatamente Jesus obrigou os Seus discípulos a subir para a barca e a passarem antes d'Ele à outra margem do lago, enquanto despedia a multidão. 23 Despedida esta, subiu a um monte para orar a sós. Quando chegou a noite, achava-Se ali só. 24 Entretanto a barca no meio do mar era batida pelas ondas, porque o vento era contrário. 25 Ora, na quarta vigília da noite, Jesus foi ter com eles, andando sobre o mar. 26 Os discípulos, quando O viram andar sobre o mar, assustaram-se e disseram: «É um fantasma». E, com medo, começaram a gritar. 27 Mas Jesus falou-lhes imediatamente dizendo: «Tende confiança: sou Eu, não temais». 28 Pedro, tomando a palavra, disse: «Senhor, se és Tu, manda-me ir até onde estás por sobre as águas». 29 Ele disse: «Vem!». Descendo Pedro da barca, caminhava sobre as águas para ir ter com Jesus. 30 Vendo, porém, que o vento era forte, teve medo e, começando a afundar-se, gritou, dizendo: «Senhor salva-me!». 31 Imediatamente Jesus, estendendo a mão, segurou-o e disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?». 32 Depois que subiram para a barca, o vento cessou. 33 Os que estavam na barca prostraram-se diante d'Ele, dizendo: «Verdadeiramente Tu és o Filho de Deus».

Comentário:

Quantas vezes, a nós nos sucede como a Pedro!
Vamos, entusiasmados, ao encontro de Cristo sem olhar a obstáculos ou dificuldades e, de repente, como que se abrem os olhos à realidade que nos cerca e temos medo!

É natural, somos humanos!

Mas, quando olhamos em frente e vemos a figura do Senhor, amável expectante, com os braços estendidos na nossa direcção e nos olhos o convite: Vem!; as nossas dúvidas e receios como que se esfumam e desaparecem, ganhamos confiança e alento e prosseguimos o nosso caminhar em direcção Àquele que nos espera.

(ama, comentário sobre Mt 14, 22-33, 2014.05.26)

Leitura espiritual




Magistério

cardeal joseph ratzinger

Algumas perguntas pessoais

…/2

Jesus Cristo


Cristo presente na História. Pergunto-me se um homem moderno pode crer, crer verdadeiramente, que Jesus de Nazaré é Deus feito homem. Isso é experimentado como um absurdo.

Certo; para um homem moderno, é uma coisa quase impensável, quase absurda, que facilmente se atribui ao pensamento mitológico de um tempo passado que já não seria aceitável. A distância histórica torna mais difícil pensar que um indivíduo que viveu num tempo distante possa estar presente agora, para mim, e que seja a resposta às minhas perguntas.

Parece-me importante observar que Cristo não é um indivíduo do passado, distante de mim, mas criou um caminho de luz que invade a História. Esse caminho começou com os primeiros mártires, com essas testemunhas que transformaram o pensamento humano, que compreenderam a dignidade humana do escravo, que se ocuparam dos pobres, dos que sofrem, e assim trouxeram uma novidade ao mundo, também pelo seu sofrimento; depois, com os grandes doutores que transformaram a sabedoria dos gregos, dos latinos, numa nova visão do mundo que, inspirada precisamente em Cristo, encontrou em Cristo a luz para interpretar o mundo; enfim, com figuras como São Francisco de Assis, que criou o novo humanismo, ou ainda com figuras do nosso tempo: pensemos na Madre Teresa [de Calcutá], em Maximiliano Kolbe...

É um caminho de luz ininterrupto que abre passagem na História, e uma ininterrupta presença de Cristo. Parece-me que este facto - de que Cristo não ficou no passado, mas foi sempre contemporâneo de todas as gerações e criou uma nova História, uma nova luz na História, na qual está presente e é sempre contemporâneo - leva a entender que não se trata de uma grande personalidade histórica qualquer, mas de uma realidade verdadeiramente Outra, que sempre traz luz. Assim, associando-nos a esta História, [...] não entramos em relação com uma pessoa distante, mas com uma realidade presente[i].

Jesus Cristo, o infinito no finito.

Por que é que, na sua opinião, um homem de 2003 precisaria de Cristo?

É fácil perceber que as coisas proporcionadas por um mundo meramente material – ou mesmo intelectual - não atendem à necessidade mais profunda, mais radical, que existe em todo o homem: porque - como dizem os Padres da Igreja - o homem anseia pelo infinito. Parece-me que precisamente o nosso tempo, com as suas contradições, os seus desesperos, o seu massivo empenho em refugiar-se em becos sem saída como a droga, manifesta visivelmente essa sede do infinito, e apenas um amor infinito que, apesar de tudo, penetrasse na finitude, convertendo-se directamente num homem como eu [ou seja: Cristo], poderia ser a resposta.

É certamente um paradoxo que Deus, o Imenso, tenha entrado no mundo finito como uma pessoa humana. Mas é precisamente a resposta de que necessitamos: uma resposta infinita que, mesmo assim, se torna aceitável e acessível para mim, "acabando" numa pessoa humana que, no entanto, é o Infinito [ii].

Advento.

O Advento significa a presença iniciada do próprio Deus. Por isso, recorda- nos duas coisas: primeiro, que a presença de Deus no mundo já começou, e que Ele já está presente de uma maneira oculta; em segundo lugar, que essa presença de Deus acaba de começar, ainda não é total, mas está em processo de crescimento e maturação.

A sua presença já começou, e somos nós, os seus fiéis, que, por sua vontade, devemos torná-lo presente no mundo. É por meio da nossa fé, esperança e amor que Ele quer fazer brilhar a luz de forma contínua na noite do mundo. Assim, as luzes que acendermos nas noites escuras do inverno serão ao mesmo tempo consolo e advertência: certeza consoladora de que "a luz do mundo" já se acendeu na noite escura de Belém e transformou a noite do pecado humano na noite santa do perdão divino; e, por outro lado, a consciência de que essa luz só pode - e só quer - continuar a brilhar se for sustentada por aqueles que, por serem cristãos, continuam através dos tempos a obra de Cristo.

A luz de Cristo quer iluminar a noite do mundo através da luz que somos nós; a sua presença já iniciada deve continuar a crescer por nosso intermédio. Quando, na Noite Santa, ressoar uma e outra vez o hino Hodie Christus natus est, devemos lembrar-nos de que o começo que se deu em Belém há-de ser em nós um começo permanente, que aquela noite santa volta a ser um "hoje" cada vez que um homem permite que a luz do bem faça desaparecer nele as trevas do egoísmo [...]. O Menino-Deus nasce onde se actua por inspiração do amor do Senhor, onde se faz algo mais do que trocar presentes.

Advento significa presença de Deus já começada, mas também apenas começada. Isto implica que o cristão não olha somente para o que já foi e já passou, mas também para o que está por vir. No meio de todas as desgraças do mundo, tem a certeza de que a semente da luz continua a crescer oculta, até que um dia o bem triunfará definitivamente e tudo lhe estará submetido: no dia em que Cristo voltar. O cristão sabe que a presença de Deus, que acaba de começar, um dia será presença total. E essa certeza torna-o livre, presta-lhe um apoio definitivo [iii].

Amizade com Cristo.

O Senhor dirige-nos estas palavras maravilhosas: Já não vos chamo servos... mas chamei-vos amigos (Jo 15, 15). Quantas vezes não sentimos que somos - e é verdade - apenas servos inúteis! (cfr. Lc 17, 10). E, apesar disso, o Senhor chama-nos amigos, faz-nos seus amigos, dá-nos a sua amizade. O Senhor define a amizade de uma dupla maneira.

[A primeira é que] não existem segredos entre amigos: Cristo diz-nos tudo quanto escuta do Pai; dá-nos toda a sua confiança e, com a confiança, também o conhecimento.

Revela-nos o seu rosto, o seu coração. Mostra-nos a sua ternura por nós, o seu amor apaixonado que vai até à loucura da Cruz. Confia-se a nós, dá-nos o poder de falar com o seu Eu: Isto é o meu Corpo..., Eu te absolvo... Confia-nos o seu Corpo místico, a Igreja. Confia às nossas fracas mentes, às nossas fracas mãos, a sua Verdade - o mistério de Deus Pai, Filho e Espírito Santo; o mistério de Deus que tanto amou o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito (Jo 3, 16). Fez de nós seus amigos [...].

O segundo elemento com que Jesus define a amizade é a comunhão das vontades. Idem velle - idem nolle [querer o mesmo, não querer o mesmo, isto é, ter os mesmos gostos e repulsas], era também para os romanos a definição da amizade. Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando (Jo 15, 14). A amizade com Cristo coincide com aquilo que o terceiro pedido do Pai-Nosso exprime: Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu. Na hora do Getsémani, Jesus transformou a nossa vontade humana rebelde em vontade conforme e unida à vontade divina. Sofreu todo o drama da nossa autonomia - e é exatamente pondo a nossa vontade nas mãos de Deus, que nos dá a verdadeira liberdade: Não se faça como eu quero, mas como Tu queres (Mt 26, 39).

Nessa comunhão das vontades, realiza-se a nossa Redenção: sermos amigos de Jesus, tornar-mo-nos amigos de Deus. Quanto mais amamos Jesus, tanto mais o conhecemos, tanto mais cresce a nossa verdadeira liberdade, cresce a alegria de sermos redimidos.

Obrigado, Jesus, pela tua amizade! [iv]


Sentido moral da vida


Cristianismo e moralismo. O cristianismo não é moralismo. O cristianismo é a realidade da história comum a Deus e ao homem. Nessa história, em que predomina o dom de Deus, nós aprendemos a agir como homens. [...] Deste modo, [a moral] converte-se em algo muito simples: é amizade com o Senhor, é viver e caminhar com Ele. Tudo isso se resume no duplo amor de Deus e do homem: essa é a síntese de toda a moral. O resto é interpretação e explicação [v].

Sentido da vida.

Se contemplarmos à distância a vida do ser humano, que é? Será que o transcurso da vida de todos nós está traçado há muito tempo?

Em primeiro lugar, a vida é uma realidade biológica. No ser humano, é preciso acrescentar um novo nível: o do espírito que vive e vivifica. O espírito funde-se com a existência biológica, conferindo à vida outra dimensão. Além disso, a fé cristã está convencida da existência de outro nível ainda, concretamente o do encontro com Cristo. Podemos, pressenti-lo já no processo do amor humano: sempre que sou amado, penetro espiritualmente, através do tu do outro, num novo nível. Algo semelhante acontece quando, através de Cristo, o próprio Deus se volta para mim, convertendo a minha vida numa convivência com a vida primigênia criadora.

Quer dizer que a vida tem múltiplas etapas...

E alcança-se a mais alta quando se converte em convivência com Deus. É precisamente aqui que radica a audácia da aventura humana. A pessoa pode e deve ser a síntese de todas essas etapas da criação. Pode e deve chegar até o Deus vivo e devolver-lhe o que recebeu dEle. [...]

É importante que a vida percorra essas distintas etapas. Nas superiores, alcança-se finalmente a eternidade através da morte, pois a morte é o destino necessário de toda a vida meramente orgânica [vi].

Liberdade e destino.

Para os muçulmanos, o destino está predeterminado por Deus e o homem vive numa espécie de rede que limita em grande medida os seus movimentos. A fé cristã, pelo contrário, conta com o factor liberdade. Isto significa que, para o cristão. Deus, por um lado, abarca tudo, sabe tudo, guia o curso da História, mas, por outro lado, dispôs as coisas de tal modo que a liberdade encontra o seu lugar. Em resumo, para mim, cristão, Deus tem a História nas suas mãos, mas dá-me a liberdade de entregar-me completamente ao seu amor, ou de rejeitá-lo [vii].

Liberdade e predestinação. O factor liberdade entra na dinâmica de cada existência, e esse factor opõe-se à predestinação absoluta. Na concepção cristã de Deus, não existe uma fixação rígida para a vida. Porque esse Deus é tão grande e tão dono de tudo, e é por natureza tão amante da liberdade, que pode introduzir a autodeterminação na vida do ser humano. Embora sempre mantenha nas suas mãos a vida dessa pessoa, e a abarque e sustente, a liberdade não é pura ficção. Chega tão longe que o ser humano pode arruinar até o projeto divino [viii].


Liberdade e providência.

O senhor usa muitas vezes a palavra Providência. Que significado tem para o senhor?

Creio firmemente que Deus de facto nos vê e nos deixa a liberdade e que, contudo, também nos conduz. Muitas vezes podemos ver que certas coisas, que a princípio nos pareciam aborrecidas, perigosas, desagradáveis, vêm depois a fazer sentido. De repente, verifica-se que foi bom assim, que foi um caminho certo. Para mim, na prática, isto significa que a minha vida não é composta de acasos, mas que Alguém prevê e anda por assim dizer, na minha frente, antecipa-se aos meus pensamentos e prepara a minha vida.

Posso recusar, mas também posso aceitar, e então percebo que realmente sou conduzido por uma luz "providencial".

No entanto, isto não significa que o homem seja completamente determinado, mas sim que o seu destino é precisamente um desafio à sua liberdade. Como se diz na parábola dos talentos, quem os recebe tem uma tarefa determinada, mas pode executá-la de um modo ou de outro. Em todo o caso, cada um tem a sua missão, o seu dom especial, ninguém é supérfluo, ninguém existe em vão. Cada um tem de procurar perceber qual é a sua vocação, e como responder melhor ao apelo que lhe é feito [ix].

Verdade e bem.

O papa João Paulo II insistiu diversas vezes na validade desta advertência de Pio XII: "O grande pecado do mundo contemporâneo é ter perdido a noção de pecado". Com efeito, parece que o sentido da liberdade, tão aguçado no homem contemporâneo, o compele a conhecer e a experimentar tudo indiscriminadamente. À luz disso, que se poderia comentar sobre este pensamento de Simone Weil: "Só fazemos a experiência do bem quando o praticamos. Quando fazemos
o mal, não o conhecemos, porque o mal detesta a luz"?

Penso que essa palavra de Simone Weil é fundamental. O bem e a verdade são inseparáveis entre si. É um facto que só fazemos o bem quando estamos em harmonia com a lógica interna da realidade e do nosso próprio ser. Agimos bem quando o sentido da nossa ação é congruente com o sentido do nosso ser, isto é, quando encontramos a verdade e a realizamos. Em consequência, fazer o bem conduz necessariamente ao conhecimento da verdade. Quem não faz o bem, cega-se também para a verdade.

Inversamente, o mal é gerado pelo enfrentamento do meu eu com a exigência do ser, da realidade; isto é, pelo abandono da verdade. É por isso que fazer o mal não conduz ao conhecimento, mas à ofuscação. Já não posso - nem quero - ver o que é mau; o sentido do bem e do mal fica embotado. Por isso o Senhor diz que o Espírito Santo admoestará o mundo quanto ao pecado (Jo 16, 8): na sua qualidade de Espírito de Deus, deixa claro o que é o pecado; somente Ele, que é todo luz, pode reconhecer o que o pecado significa e conduzir assim os homens à verdade. Falando disto mesmo, São Paulo diz: O homem
espiritual - aquele que vive no Espírito Santo - tudo compreende (1 Cor 2, 15). A comunhão com o bem, com o Espírito Santo, é a mais profunda de todas as experiências possíveis e, em consequência, proporciona-nos a pauta para uma compreensão que chega ao núcleo da realidade [x].

Dignidade e natureza humanas. A Encíclica [Veritatis Splendor] insiste muito decididamente em que a moral não é questão de acordos, pois nesse caso estaria submetida ao jogo das maiorias. A moral baseia-se antes na ordem interna da própria realidade: a criação a traz em si. Estamos voltando a enxergar esta verdade nos urgentes problemas ecológicos. Tornamos a perceber que não devemos fazer tudo o que podemos fazer. Comprovamos que devemos respeitar a dignidade das criaturas. E, com mais razão, devemos voltar a compreender também que justamente o ser humano traz em si uma dignidade e uma missão interiores que são permanentes, apesar de todas as mudanças históricas. O homem é sempre homem. A sua dignidade essencial é sempre a mesma. Por isso, há comportamentos que nunca poderão chegar a ser bons, mas sempre serão incompatíveis com o respeito pelo homem e com a dignidade que lhe vem de Deus, e que ele traz dentro de si.

O Papa [João Paulo II] mostrou com grande poder de persuasão que o problema fundamental do nosso tempo é um problema moral. Os problemas económicos, sociais e políticos continuarão a ser insolúveis se não se encarar esta realidade central. E o Papa demonstra que o problema moral não pode ser separado da questão da verdade. Esta, por sua vez, está indissoluvelmente unida ao problema da busca de Deus [xi].

(cont.)

(Revisão da versão portuguesa por ama)




[i] Entrevista a António Socci, em Il Giornale, 26.11.2003
[ii] Ibid
[iii] Licht, das uns leuchtet. Besinnungen zu Advent und Weihnachten, 5a- ed., Herder, Friburgo, 1978; trad. cast. Sentido del Adviento, Ediciones Encuentro, Madrid, 2003; Encuentra.com, 17.12.2003
[iv] Homilia da Missa Pro Eligendo Pontífice, Vaticano, 18.04.2005
[v] Sobre algunos aspectos de Ia teologia moral, entrevista publicada em Ser cristiano en Ia era neopagana,
[vi] La fe, de tejas abajo, entrevista ao diário ABC, 31.03.2002
[vii] 19 Cristianismo e Islame, entrevista a La Repubblica, 01.10.2001
[viii] 20 La fe, de tejas abajo, Editorial Encuentro, Madrid, 1995
[ix] O sal da terra, págs. 35-36.
[x] Entrevista a Jaime Antúnez Aldunate, em revista Humanitas, Santiago de Chile, 2005, www.humanitas.cl
[xi] Ibid

09/08/2014

Evang.; Coment.; Leit. Esp. (Magistério - Ratzinguer)

Tempo comum XIX Semana

Evangelho: Mt 25, 1-13

1 «Então, o Reino dos Céus será semelhante a dez virgens, que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo. 2 Cinco delas eram néscias, e cinco prudentes. 3 As cinco néscias, tomando as lâmpadas, não levaram azeite consigo; 4 as prudentes, porém, levaram azeite nas vasilhas juntamente com as lâmpadas. 5 Tardando o esposo, começaram todas a cabecear e adormeceram. 6 À meia-noite, ouviu-se um grito: “Eis que vem o esposo! Saí ao seu encontro”. 7 Então levantaram-se todas aquelas virgens, e prepararam as suas lâmpadas. 8 As néscias disseram às prudentes: “Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas apagam-se”. 9 As prudentes responderam: “Para que não suceda que nos falte a nós e a vós, ide antes aos vendedores, e comprai para vós”. 10 Mas, enquanto elas foram comprá-lo, chegou o esposo, e as que estavam preparadas entraram com ele a celebrar as bodas, e foi fechada a porta. 11 Mais tarde, chegaram também as outras virgens, dizendo: “Senhor, Senhor, abre-nos”. 12 Ele, porém, respondeu: “Em verdade vos digo que não vos conheço”. 13 Vigiai, pois, porque não sabeis nem o dia nem a hora.

Comentário:

Algumas traduções chamam “néscias” às virgens “imprudentes”. Ser néscio é ser pouco atilado, prudente ou coerente.
Alguém que não leva as coisas muito a sério, que está disposto a “esperar para ver o que acontece”, não se preocupar ou não dar importância a algo que a deve ter.

Neste caso, parece evidente, que aquelas virgens a que o Senhor se refere na Sua parábola, são retrato, a imagem destas pessoas que vão pela vida como se não tivessem qualquer responsabilidade ou dever e, pior, que não lhes venham a ser pedidas contas do que deveriam ter feito e não fizeram.

Preparar-se é sinal de prudente coerência de quem se diz empenhado na sua salvação, o maior bem a que pode aspirar.

(ama, comentário sobre Mt 25, 1-13, 2013.08.09)

Leitura espiritual



Magistério

cardeal joseph ratzinger

Algumas perguntas pessoais


Um auto-retrato.

Poderia descrever-se a si mesmo?

É impossível fazer um auto-retrato; é difícil julgar-se a si mesmo. Posso apenas dizer que venho de uma família muito simples, muito humilde, e por isso, mais do que um cardeal, sinto-me um homem simples.

Tenho a minha casa na Alemanha, numa cidade pequena, cujos habitantes trabalham na agricultura, em ofícios manuais, e ali sinto-me no meu ambiente. Também procuro ser assim no meu trabalho: não sei se o consigo, não me atrevo a julgar-me.

Recordo sempre com grande carinho a profunda bondade do meu pai e da minha mãe; naturalmente, para mim, bondade inclui a capacidade de dizer "não", pois uma bondade que deixasse o outro fazer qualquer coisa não lhe faria bem. Algumas vezes, bondade significa ter que dizer "não" e correr assim o risco de que nos contradigam.

Esses são os meus critérios, essa é a minha origem; quanto ao resto, deveriam ser os outros a julgar [i].

Homem de consciência.

Seu irmão fez a seguinte caracterização da sua pessoa:

"Custa-lhe ter de agir com força, mas, quando precisa combater, actua segundo a sua consciência". O senhor é um homem de consciência?

Procuro sê-lo. Não ouso dizer que o seja. Mas parece-me bastante importante não colocar a aprovação ou o ambiente simpático do meio a que se pertence acima da verdade, embora isto seja sempre uma grande tentação. É claro que o apelo à consciência pode transformar-se na mania de ter sempre razão, de modo que uma pessoa pense que tem de se opor a tudo. Mas, entendido num sentido correto, o homem que ouve a sua consciência, e para quem aquilo que se conhece - o bem - está acima da aprovação e da aceitação dos outros, é para mim, de facto, um ideal e uma tarefa. E figuras como Thomas More, o Cardeal Newman e outras grandes testemunhas – entre elas, os que foram implacavelmente perseguidos pelo regime nazi, como por exemplo Dietrich Bonhoeffer [ii] são, para mim, grandes modelos [iii].

Medo de Deus? Eminência, às vezes o senhor também sente medo de Deus?

Não falaria de medo. Graças a Cristo, sabemos como Deus é, sabemos que nos ama [...]. No entanto, sempre experimento a consciência fulminante de não estar à altura da ideia que Deus faz de mim [iv].

O primado da verdade na vida. Ao longo do meu caminho espiritual, senti muito intensamente o problema de saber se, no fundo, não é presunção dizer que podemos conhecer a verdade, em virtude de todas as nossas limitações. Também me interroguei até que ponto não seria talvez melhor pôr essa categoria em segundo plano. Ao aprofundar essa questão, pude observar, e também compreender, que a renúncia à verdade não resolve nada: pelo contrário, conduz à ditadura da arbitrariedade. Tudo o que resta só pode então ser decidido por nós e é substituível. O homem perde a dignidade quando não é capaz de conhecer a verdade, quando tudo não passa de produto de uma decisão individual ou colectiva.

Assim, vi como é importante que não se perca o conceito de verdade, mas permaneça como categoria central, não obstante as ameaças e os riscos que sem dúvida envolve.

Como exigência que nos é feita, não nos dá direitos, mas, pelo contrário, requer a nossa humildade e a nossa obediência, como também nos pode pôr no caminho daquilo que é comum a todos os homens. A partir de um longo confronto com a situação espiritual em que nos encontramos, este primado da verdade foi lentamente tornando-se visível para mim; como disse, não pode ser simplesmente entendido de forma abstracta, mas precisa estar envolvido em sabedoria [v].

Verdade e bondade.

Certa vez, o senhor afirmou que um homem deveria acentuar o primado da verdade sobre a bondade. Julgo que é uma atitude que pode ser perigosa. Isso não corresponderia à imagem do Grande Inquisidor, tal como Dostoievski a descreveu?

É preciso interpretar todo o contexto. Nessa frase, a bondade é entendida no sentido de uma falsa bondade, do tipo "não pretendo aborrecer-me". É uma atitude muito comum, que se verifica também, e sobretudo, no campo da política: não se quer ser impopular.

Em vez de ter aborrecimentos e de os criar, prefere-se contemporizar, mesmo com o que é errado, com o que não é puro, nem verdadeiro, nem bom. Está-se disposto a comprar bem-estar, sucesso, reconhecimento público e aceitação por parte da opinião dominante, à custa da renúncia à verdade. Não quis atacar a bondade em geral. A verdade só pode ter sucesso e vencer com a bondade. Referia-me a uma caricatura da bondade que é bastante comum: que se negligencie a consciência com o pretexto da bondade, que se coloque acima da verdade a aceitação e a preocupação de evitar problemas, o comodismo, o ser bem-visto [vi].

Autoridade em matéria de fé.

Como é possível, hoje em dia, ter autoridade em questões de fé?

Certamente é uma tarefa difícil, em parte porque já não existe o conceito de autoridade.

O facto de haver uma autoridade que decida coisas parece hoje incompatível com a liberdade para fazer o que se quiser. É difícil também porque muitas tendências gerais da nossa época se opõem à fé católica. Busca-se uma visão do mundo simplificada:

Cristo não poderia ser o Filho de Deus, mas um mito ou uma grande personalidade humana, pois Deus não poderia ter aceito o sacrifício de Cristo, Deus não seria um Deus cruel... Em última análise, há muitas ideias que se opõem ao cristianismo, e seria necessário reformular muitas verdades de fé para que se adequassem ao homem de hoje.

Mas tenho de dizer que muitas pessoas também agradecem que a Igreja continue a ser uma força que transmite a fé católica e ofereça um fundamento sobre o qual se pode viver e morrer. E isso é consolador para mim [vii].

Posição incómoda.

Eminência, [...] o senhor escreveu um livro chamado Deus e o mundo, no qual disse que a sua posição como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé era a posição mais incómoda que já tinha ocupado. (O cardeal Ratzinger ri tranquilamente) O que quis dizer com isso?

Sim, é uma posição incómoda de muitas maneiras. Sobretudo porque, com frequência, somos obrigados a enfrentar todos os problemas da Igreja: relativismo, heresias, teologias inaceitáveis, teólogos complicados e o resto, juntamente com os casos disciplinares; o problema dos pedófilos, por exemplo, também é problema nosso. Nesta
Congregação, temos de lutar com os aspectos mais complicados da vida da Igreja hoje.

Além disso, somos atacados como "a Inquisição"; o senhor deve sabê-lo melhor do que eu...

Isso por um lado. Mas, por outro, comprovo todos os dias que as pessoas estão agradecidas quando dizem: "Sim, a Igreja tem uma identidade, uma continuidade; a fé é real e está presente também hoje, e é possível professá-la..." E o mesmo quando vou à Praça de São Pedro e vejo tantas pessoas de lugares tão variados do mundo que me dizem: "Obrigado, padre. Estamos agradecidos pelo difícil trabalho que faz, porque nos ajuda". Muitos amigos protestantes chegam também a dizer-me: "O que o senhor vem fazendo é útil para nós porque também defende a nossa fé e a validade da fé em Cristo.

Precisamos de uma instância como a sua, mesmo quando não compartilhamos o que diz.

E é útil também para ver que temos de prosseguir na contínua defesa da fé; o senhor alenta-nos a perseverar na fé, a continuar a vivê-la". E nos últimos dias, aproximou-se de mim uma delegação de ortodoxos que me disseram o mesmo. Portanto, o nosso trabalho tem uma dimensão ecuménica que, com frequência, não é apreciada. [viii]

Deus

O Deus escondido. Onde está Deus, onde pode ser encontrado? Está escondido?

Parece que se revela muito raramente. As pessoas desesperam-se porque pensam que Ele não fala com elas, não dá sinais, não interfere na sua vida.

Ele manifesta-se, mas não de forma ruidosa, não necessariamente sob a forma de uma catástrofe natural, embora as catástrofes naturais também possam ser manifestações suas. Não o faz, pois, de forma ruidosa, mas sempre se está manifestando. É claro que o receptor tem de estar, por assim dizer, sintonizado para captar o emissor.

Na nossa maneira de viver e de pensar, há tantas interferências perturbadoras que não somos capazes de captar o som, que também se tornou tão estranho para nós que não o reconhecemos como vindo dEle. Mas eu diria que qualquer pessoa que esteja atenta pode fazer essa experiência e perceber: neste momento, Ele dirige-se a mim; é uma oportunidade que me é dada para conhecê-lo. [...] Ele pode manifestar-se se eu estiver vigilante, e também se houver alguém que me ajude a decifrar a realidade. É claro que Ele não fala de forma ruidosa, mas sim através de sinais e dos acontecimentos da vida, e através das outras pessoas. É necessário, pois, ter uma certa vigilância, e perseverança para não ser dominado pelas coisas que ocupam o primeiro plano [ix].

O Deus marginalizado.

Onde está Deus na sociedade contemporânea?

Está muito marginalizado. Na vida política, parece quase indecente falar de Deus, como se fosse um ataque à liberdade de quem não crê. O mundo político segue as suas normas e os seus caminhos, excluindo Deus como uma realidade que não pertence a esta terra.

O mesmo acontece no mundo do comércio, da economia e da vida privada. Deus fica à margem. No entanto, parece-me necessário voltar a descobrir [...] que também a esfera política e económica têm necessidade de uma responsabilidade moral, de uma responsabilidade que nasce do coração do homem e que, em última análise, tem a ver com a presença ou a ausência de Deus. Uma sociedade em que Deus esteja absolutamente ausente autodestrói-se [x].


Existência de Deus e existência humana.

Li recentemente as afirmações de um intelectual alemão que, em relação à "questão de Deus", se dizia agnóstico e, ao mesmo tempo, acrescentava que não se poderia nem provar nem excluir totalmente a existência de Deus, de modo que esse problema permaneceria sempre em aberto. No entanto, declarava-se firmemente convencido da existência do inferno: bastava-lhe ligar a televisão para comprová-lo sem sombra de dúvida.

Se a primeira parte dessa afirmação corresponde plenamente ao sentir moderno, a segunda parece extravagante, ao menos à primeira vista. Como é possível crer no inferno se Deus não existe? Mas, se considerarmos essas palavras com um pouco mais de atenção, veremos que encarnam uma certa lógica. O inferno é, por definição, viver na ausência de Deus. Onde Deus não está, ali está o inferno. Certamente, não é tanto o espetáculo diário da televisão que nos fornece a prova, quanto um olhar sobre o século que terminou e que nos deixou palavras como "Auschwitz" ou "Arquipélago Gulag", e nomes como Hitler, Stalin, Pol Pot. Esses infernos foram construídos para preparar um mundo futuro de homens auto-suficientes que não teriam nenhuma necessidade de Deus.

Mas onde Deus não está, surge o inferno, e o inferno persiste, muito simplesmente, pela ausência de Deus. Pode-se chegar a esse extremo também de maneiras subtis, que quase sempre afirmam que o que se busca é o bem dos homens. Hoje, quando se comercializam órgãos humanos, quando se fabricam fetos para dispor de órgãos de reposição ou para promover o avanço da ciência e da prevenção médicas, muitos consideram implícito o caráter humanitário dessas práticas. Mas o desprezo pelo homem que esse usar e abusar do ser humano pressupõe, conduz, quer se queira quer não, à descida aos infernos.

Isto não significa que não possa haver ou não haja ateus com um grande senso ético.

Seja como for, atrevo-me a afirmar que essa ética se baseia na luz que emanou um dia do Monte Sinai e que continua a brilhar até hoje: a luz de Deus. Nietzsche tinha razão ao sublinhar que, quando a notícia da morte de Deus se tornasse conhecida por todo o mundo, quando a sua luz se tivesse apagado definitivamente, esse momento seria necessariamente terrível.

O cristianismo não é uma filosofia complicada e envelhecida com o passar do tempo, não é uma imensa coleção de dogmas e preceitos: a fé cristã consiste em sermos tocados por Deus e sermos as suas testemunhas.

Precisamente por isso podemos dizer: a Igreja existe para que Deus, o Deus vivente, seja anunciado, para que o homem possa aprender a viver com Deus, sob o seu olhar e em comunicação com Ele. A Igreja existe para evitar o avanço do inferno sobre a terra e para fazer com que esta se torne mais habitável à luz de Deus.. Graças a Ela, e somente graças a Ela, a terra será humana. Nem que seja apenas por este motivo, a Igreja deve continuar a existir, porque a sua eventual desaparição arrastaria a humanidade para o torvelinho das trevas, da escuridão, até à destruição de tudo o que torna humano o homem. [...] Sem Deus, o mundo não consegue iluminar-se. A Igreja serve ao mundo fazendo com que Deus viva nela, permitindo que Ele transpareça nEla, e estando pronta assim para levá-lo à humanidade [xi].

Encontro pessoal com Deus.

O cristianismo apresenta-se hoje como uma antiga tradição carregada de antigos mandamentos, algo que já conhecemos e que não nos diz nada de novo, uma instituição forte, uma das grandes instituições que pesam sobre os nossos ombros. [...] Mas se pararmos nesta impressão, não viveremos o núcleo do cristianismo, que é um encontro sempre novo, um acontecimento graças ao qual podemos encontrar o Deus que fala connosco, que se aproxima de nós, que se faz nosso amigo. [...] É decisivo chegar a este ponto fundamental de um encontro pessoal com Deus, que também hoje se faz presente e que é nosso contemporâneo. [...] Se encontrarmos este centro essencial, compreenderemos também o restante; mas se este acontecimento que toca o coração não se realizar, tudo o mais passará a ser como que um peso, quase que algo absurdo [xii].

(cont.)

(Revisão da versão portuguesa por ama)






[i]  Entrevista à Radio Vaticano, 23.11.2001
[ii] Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), teólogo e pastor luterano alemão que se opôs à ditadura nazi; foi condenado à morte e enforcado (N. do T.).
[iii] O sal da terra, págs. 55-56.
[iv] Dios y el mundo, repr. em Avvenire, 27.09.2001
[v] O sal da terra, pág. 55
[vi] Ibid., pág. 56
[vii] Entrevista à Radio Vaticana
[viii] A crise da Igreja: uma fé fraca, entrevista a Raymond Arroyo, canal de televisão EWTN, Irondale (Alabama), 23.08.2003; repr. por Zenit, 24.08.2003
[ix] O sal da terra, pág. 26
[x] El laicismo está poniendo en peligro la libertad religiosa, entrevista a La Reppublica, repr. por Zenit, 19.11.2004
[xi] 1Testigos de Ia luz de Dios, em La Razôn, 23.04.2001
[xii] Por qué el cristianismo no es visto como fuente de alegria, declarações ao semanário Vita Trentina, Zenit, 07.05.2004