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06/02/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo Comum
Semana IV

Evangelho: Mc 6, 30-34

30 Tendo os Apóstolos voltado a Jesus, contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado, 31 e Ele disse-lhes: «Vinde à parte, a um lugar solitário, e descansai um pouco». Porque eram muitos os que iam e vinham e nem sequer tinham tempo para comer. 32 Entrando, pois, numa barca, retiraram-se à parte, a um lugar solitário. 33 Porém, viram-nos partir, e muitos perceberam para onde iam e acorreram lá, a pé, de todas as cidades, e chegaram primeiro que eles. 34 Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor, e começou a ensinar-lhes muitas coisas.

Comentário:

Assim devemos fazer quanto ao apostolado que todos os cristãos temos de levar a cabo: ir ter com Jesus e contar-lhe o que temos feito.

Se o trabalho Lhe pertence se é para Ele que trabalhamos, nada mais lógico que darmos-lhe contas, contar-lhe em pormenor o que fizemos.

Não que Ele não o saiba, o Senhor sabe tudo, mas porque gostará de nos ouvir e, mais importante, aproveitará o ensejo para nos indicar como fazer melhor nas próximas vezes.

(ama, comentário sobre Mc 6, 30-34, 2013.02.09)

Leitura espiritual



Vida cristã

Uma personalidade que se identifique com Cristo

Por que reajo deste modo?
Por que sou assim?
Sou capaz de mudar?

São algumas das perguntas que alguma vez podem assaltar-nos.
Às vezes, consideramo-las em relação aos outros: por que tem aquele modo de ser?...

Vamos reflectir sobre estas questões, olhando para o nosso objetivo: ser cada vez mais parecidos com Jesus Cristo, deixando-o actuar na nossa vida.

Este processo abarca todas as dimensões da pessoa, que ao divinizar-se conserva as características autenticamente humanas, elevando-as com a vocação cristã.
Porque Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem: perfectus Deus, perfectus homo.

Nele contemplamos a figura acabada do ser humano, pois «Cristo Redentor (...) revela plenamente o homem ao próprio homem. Esta é — se assim é lícito exprimir-se — a dimensão humana do mistério da Redenção. Nesta dimensão o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade» [i].

A nova vida que recebemos no Baptismo está chamada a crescer até que cheguemos todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da estatura de Cristo na sua plenitude [ii].

O divino, o sobrenatural, é o elemento decisivo na santidade pessoal, que une e harmoniza todas as facetas do homem, mas não podemos esquecer que isto inclui, como algo intrínseco e necessário, o elemento humano:
Se aceitamos a nossa responsabilidade de filhos de Deus, devemos ter em conta que Ele nos quer muito humanos.
Que a cabeça toque o céu, mas os pés assentem com toda a firmeza na terra.
O preço de vivermos cristãmente não é nem deixarmos de ser homens nem abdicarmos do esforço por adquirir as virtudes que alguns têm, mesmo sem conhecerem Cristo.
O preço de cada cristão é o Sangue redentor de Nosso Senhor, que nos quer ‒ insisto ‒ muito humanos e muito divinos, diariamente empenhados em imitá-lo, pois Ele é “perfectus Deus, perfectus homo[iii].

A tarefa de formar o carácter


A acção da graça nas almas está unida ao crescimento da maturidade humana, ao aperfeiçoamento do carácter.
Por isso, ao mesmo tempo que cultiva as virtudes sobrenaturais, um cristão que busca a santidade procurará alcançar os hábitos, os modos de fazer e de pensar que caracterizam uma pessoa madura e equilibrada.
O fim das suas acções será reflectir a vida de Cristo, e não um simples empenho de perfeição.
Por isso, S. Josemaria animava a fazer exame de consciência:

Filho, onde está o Cristo que as almas procuram em ti?: na tua soberba?, nos teus desejos de te impores aos outros?, nessas insignificâncias de carácter nas quais não te queres vencer?, nessa teimosia?... Está aí Cristo? ‒ Não!! A resposta dá-nos uma chave para empreender esta tarefa: ‒ De acordo: deves ter personalidade, mas a tua tem de procurar identificar-se com Cristo! [iv].

Na própria personalidade influi:
Tanto aquilo que se herda e se manifesta desde o nascimento, que se costuma chamar temperamento;
Como os aspectos que se vão adquirindo pela educação, as decisões pessoais, o trato com os outros e o trato com Deus, e muitos outros factores, que inclusive podem ser inconscientes.

Assim, existem diferentes tipos de personalidades ou carácter ‒ extrovertidos ou tímidos, impulsivos ou reservados, despreocupados ou apreensivos, etc. ‒, que se manifestam no modo de trabalhar, de se relacionar com os outros, de considerar os acontecimentos diários.


Estes elementos têm influência na vida moral, pois facilitam o desenvolvimento de certas virtudes, mas também podem facilitar o aparecimento de defeitos, se faltar o empenho em moldá-los.
Por exemplo, uma personalidade empreendedora pode ajudar a cultivar a laboriosidade, se simultaneamente se viver uma disciplina que evite o defeito da inconstância e do activismo.

Deus conta com a nossa personalidade para nos levar por caminhos de santidade.
O modo de ser de cada um é como uma terra fértil que precisa de ser cultivada: basta tirar, com paciência e alegria, as pedras e as ervas daninhas que impedem a acção da graça, e começará a dar frutos, cem por um, sessenta por um, trinta por um [v]

Cada um pode fazer render os talentos que recebeu das mãos de Deus, se se deixar transformar pela ação do Espírito Santo.
Forjando uma personalidade que possa refletir o rosto de Cristo, sem que isto anule nenhuma das suas próprias características, pois diferentes são os santos do Céu, que têm cada um as suas notas pessoais e especialíssimas [vi].

Temos de reforçar e aperfeiçoar a personalidade para a ajustar a um estilo cristão, mas não se pode pensar que o ideal seria converter-se numa espécie de “super-homem”.
Na verdade, o modelo é sempre Jesus Cristo, que possui uma natureza humana igual à nossa, mas perfeita na sua normalidade e elevada pela graça.

Naturalmente, encontramos um exemplo sublime também na Virgem Maria: nela dá-se a plenitude do humano... e da normalidade.
A proverbial humildade e simplicidade de Maria, talvez as suas virtudes mais valorizadas em toda a tradição cristã, unidas à proximidade, ao afeto e à ternura com todos os seus filhos ‒ que são virtudes de uma boa mãe de família ‒, são a melhor confirmação deste facto:
a perfeição de uma criatura ‒ Mais que tu, só Deus! [vii] ‒ tão plenamente humana, tão encantadoramente mulher, a Senhora por excelência!


Maturidade humana e sobrenatural


A palavra “maturidade” significa em primeiro lugar estar maduro, pronto, e por extensão refere-se à plenitude do ser.
Implica também o cumprimento do próprio fim.
Por isso, na vida do Senhor encontraremos o melhor paradigma.
Contemplá-la nos Evangelhos e ver como Cristo trata as pessoas, ver a sua fortaleza diante do sofrimento, a decisão com que empreendeu a missão recebida do Pai, tudo isso nos dá o critério da maturidade.

Ao mesmo tempo, a nossa fé incorpora todos os valores nobres que se encontram nas diversas culturas, e por isso também é útil assimilar, purificando-os, os critérios clássicos de maturidade humana.
É algo que se fez ao longo da história da espiritualidade cristã, em maior ou menor grau, de forma mais ou menos explícita.

O mundo clássico greco-romano, por exemplo (que foi tão sabiamente cristianizado pelos Padres da Igreja), colocou no centro do ideal da maturidade humana especialmente a “sabedoria” e a “prudência”, entendidas com diversos matizes.
Os filósofos e teólogos cristãos daquela época enriqueceram esta conceção indicando a primazia das virtudes teologais, de modo especial a caridade, como vínculo da perfeição [viii] ‒ usando palavras de S. Paulo ‒ e que dá forma a todas as virtudes.

Actualmente, o estudo sobre a maturidade humana completou-se com as perspetivas oferecidas pelas ciências modernas.
As suas conclusões são úteis na medida em que partirem de uma visão do homem aberta à mensagem cristã.

Assim, alguns costumam distinguir três campos fundamentais na maturidade: intelectual, afectiva e social.

Alguns dos traços significativos da maturidade intelectual podem ser:

Um adequado conceito de si mesmo a congruência entre aquilo que uma pessoa pensa que é, e aquilo que realmente é;
A sinceridade consigo mesmo influi decisivamente;
Uma filosofia correcta da vida; definir pessoalmente metas e fins claros, mas com horizontes abertos e ilimitados (em amplitude, profundidade e intensidade);
Um conjunto harmonioso de valores;
Uma clara certeza ético-moral;
Um realismo sadio diante do mundo próprio e alheio;
A capacidade de reflexão e análise serena dos problemas;
A criatividade e a iniciativa;
Etc.

Entre os traços da maturidade afectiva, sem nenhuma pretensão de exaustividade, podem apontar-se:

Saber reagir proporcionadamente diante dos acontecimentos da vida, sem se deixar abater pelo fracasso nem perder o realismo no sucesso;
Ter uma capacidade de controlo flexível e construtivo de si mesmo; Saber amar, ser generoso e dar-se aos outros;
Manifestar segurança e firmeza nas decisões e compromissos;
Actuar com serenidade e capacidade de superação perante os desafios e as dificuldades;
O optimismo, a alegria, a simpatia e o bom humor.



Finalmente, como parte da maturidade social encontramos:

O afecto sincero pelos outros, o respeito pelos seus direitos e o desejo de descobrir e aliviar as suas necessidades;
A compreensão da diversidade de opiniões, valores ou traços culturais, sem preconceitos;
A capacidade de crítica e independência perante a cultura dominante, o ambiente, os grupos de pressão ou as modas;
Uma naturalidade no comportamento que leva a actuar sem convencionalismos;
Ser capaz de ouvir e compreender;
A disposição para colaborar com outros.


Um caminho para a maturidade


Poderíamos resumir aquelas características dizendo que a pessoa madura é capaz de desenvolver um projecto elevado, claro e harmonioso da sua vida, e possui as disposições positivas necessárias para o realizar com facilidade.

Em qualquer caso, a maturidade é um processo que requer tempo, e passa por diferentes momentos e etapas.
Costumamos crescer de uma maneira gradual, embora na história pessoal possa haver acontecimentos que levam a dar grandes saltos. Para alguns por exemplo:
O nascimento do primeiro filho marca uma etapa, ao perceberem o que implica esta nova responsabilidade;
Ou, depois de passar por sérias dificuldades económicas, uma pessoa pode aprender a reconsiderar quais são as coisas verdadeiramente importantes na vida;
Etc.

No caminho para a maturidade a força transformadora da graça torna-se presente.
Basta um olhar sobre a vida das santas e dos santos mais conhecidos para detetar neles os ideais elevados, a certeza das suas convicções, a humildade – que é o conceito mais adequado sobre si mesmo –, a sua criatividade e iniciativa, a sua capacidade de entrega e amor realizados, o seu optimismo contagioso, a sua abertura – o seu empenho apostólico, em última análise ‒ eficaz e universal.

Podemos encontrar um exemplo claro na vida de S. Josemaria que desde a juventude notava que a graça trabalhava nele consolidando uma personalidade madura.
Percebia dentro de si mesmo, no meio das dificuldades, uma estabilidade de ânimo fora do comum:

Creio que o Senhor pôs na minha alma outra característica: a paz: ter a paz e dar a paz, como vejo acontecer em pessoas com quem me relaciono ou que dirijo [ix].
Podiam ser aplicadas a ele, com toda justiça, aquelas palavras do salmo: Super senes intellexi quia mandata tua quaesivi [x], sou mais sensato do que os anciãos, porque observo os vossos preceitos.

O que não exclui que, muitas vezes, se adquira a maturidade com o tempo, os fracassos e os sucessos, que estão previstos pela Providência Divina.

Contar com a graça e o tempo


Embora seja possível verificar que, num dado momento uma pessoa atingiu uma nova etapa de maturidade na sua vida, trabalhar o próprio modo de ser é uma tarefa que se prolonga durante a nossa caminhada terrena.

O conhecimento próprio e a aceitação do próprio carácter darão paz para não desanimar neste empenho.
Isto não significa ceder ao conformismo.
Significa reconhecer que o heroísmo da santidade não exige possuir uma personalidade perfeita agora, nem aspirar a um modo de ser idealizado, pois a santidade requer a luta paciente de cada dia, sabendo reconhecer os erros e pedir perdão.

As verdadeiras biografias dos heróis cristãos são como as nossas vidas: lutavam e ganhavam, lutavam e perdiam.
E então, contritos, voltavam à luta [xi].

O Senhor conta com o esforço constante ao longo do tempo para aperfeiçoar o próprio modo de ser.
É significativo, por exemplo, aquilo que uma pessoa comentava sobre a serva de Deus Dora del Hoyo já no final da sua vida:

«“Dora, quem te viu e quem te vê! Olha que és outra!” Riu-se: Sabia muito bem a que me referia» [xii].
Tinha verificado como, com os anos, o seu carácter tinha atingido uma estabilidade de ânimo que conseguia moderar as reacções do seu génio.

Neste empreendimento contamos sempre com a ajuda do Senhor e os cuidados maternos de Santa Maria:

«Nossa Senhora realiza precisamente isto em nós, ajuda-nos a crescer humanamente e na fé, a ser fortes e a não ceder à tentação de ser homens e cristãos de modo superficial, mas a viver com responsabilidade, a tender sempre cada vez mais para o alto» [xiii].


Forjar uma personalidade capaz de refletir claramente a imagem de Jesus Cristo é um grande desafio!

j. sesé

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] S. João Paulo II, Enc. Redemptor Hominis, n. 10.
[ii] Ef 4, 13.
[iii] S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 75.
[iv] S. Josemaria, Forja, n. 468.
[v] Mt 13, 8.
[vi] S. Josemaria, Caminho, n. 947.
[vii] S. Josemaria, Caminho, n. 496.
[viii] Cl 3, 14.
[ix] S. Josemaria, Apontamentos íntimos, n. 1095, citado em Andrés Vázquez de Prada, Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Dei, vol. I, Editorial Verbo 2002, p. 507.
[x] Sl 118 (Vg).
[xi] S. Josemaria, Cristo que passa, n. 76.
[xii] Lembranças de Rosalía López Martínez, Roma 29-IX-2006 (AGP, DHA, T-1058), citado em Javier Medina Bayo, Dora del Hoyo, uma luz humilde e resplandecente, Quadrante, São Paulo 2012, p. 102.
[xiii] Papa Francisco, Palavras após a oração do terço na basílica de Santa Maria Maior, 6-V-2013.

19/01/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo Comum
Semana II

Evangelho: Mc 2, 23-28

23 Sucedeu também que, caminhando Jesus em dia de sábado, por entre campos de trigo, os discípulos começaram a colher espigas, enquanto caminhavam. 24 Os fariseus diziam-Lhe: «Como é que fazem ao sábado o que não é permitido?». 25 Ele respondeu: «Nunca lestes o que fez David, quando se viu necessitado, e teve fome, ele e os que com ele estavam? 26 Como entrou na casa de Deus, sendo sumo-sacerdote Abiatar, e comeu os pães da proposição, dos quais não era permitido comer, senão aos sacerdotes, e deu também aos que o acompanhavam?». 27 E acrescentou: «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. 28 Por isso o Filho do Homem é Senhor também do sábado».

Comentário:

Nenhum pai impõe aos seus filhos regras de conduta cuja não observância implica castigo severo sem qualquer outra consideração.

Cumprir o que está determinado é o que se espera, sem dúvida, mas sempre dentro do contexto e nas circunstâncias normais e correntes.

(ama, comentário sobre MC 2, 23-28, Malta, 2015.01.20)


Leitura espiritual



Vida cristã

A caridade cristã no modo de falar

«Se permanecerdes na Minha palavra, sereis Meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade e a verdade vos fará livres» [i].

Num amplo diálogo com os judeus surge esta promessa do Senhor que, na sua simplicidade e solenidade, atravessa os séculos: a verdade torna-nos livres.
Mas também atravessam os séculos, as falsas promessas de quem era homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque a verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira [ii].

«A razão mais sublime da dignidade do homem − ensina o Concílio Vaticano II − consiste na sua vocação à união com Deus. É desde o começo da sua existência que o homem é convidado a dialogar com Deus» [iii]. Assim, pode dizer-se que a palavra − a necessidade de viver em diálogo, em comunhão − é o mais próprio da pessoa. Na palavra comunica-se a própria pessoa: quando falamos não emitimos apenas uma mensagem, mas em certo sentido damo-nos a nós mesmos. E não só chegamos aos ouvidos dos demais, mas ao seu coração, ao centro do seu ser. Por isso, a palavra tem uma dimensão de alguma maneira sagrada. O seu uso recto beneficia e edifica as pessoas, enquanto as palavras descuidadas maltratam os outros. Percebeu-o intensamente Alexandre Soljenitsyne: as mentiras, dizia, não são palavras que dizemos e ficam flutuando no ar, longe de nós, mas cada mentira corrompe-nos por dentro, até consumir-nos as entranhas.

O exemplo dos primeiros cristãos

Na sua pregação, o Senhor convida a todos à transparência; a ser simples, a evitar casuísticas que com frequência encobrem, ou pelo menos dão início à mentira: dizei somente, sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno [iv]. Duríssimo contra a hipocrisia, o Senhor elogia calorosamente aqueles onde não há duplicidade nem engano [v]. É próprio d´Ele um estilo, um modo de fazer, que penetrou profundamente entre os primeiros cristãos: a epístola de Tiago expressa-se com acentos semelhantes: Que o vosso sim, seja sim; que o vosso não, seja não. Assim não caireis ao golpe do julgamento [vi]. S. Pedro fala-lhes de rejeitar toda a malícia, toda a astúcia, fingimentos, invejas e toda a espécie de maledicência para poder aproximar-se de Deus, e como crianças recém-nascidas desejar com ardor o leite espiritual [vii].

Essa inocência cristã na palavra, no entanto, não se consegue com uma simples intenção genérica, boazinha: a tensão entre a verdade e a mentira está presente em todo o arco da nossa vida. A Escritura não se limita a enunciar os princípios, mas assinala com detalhe os abusos da palavra, a incoerência entre o que é, e o que se diz que é. Neste sentido é exemplar, e perene actualidade, a admoestação de S. Tiago sobre a língua:

Se alguém não cair por palavra, este é um homem perfeito, capaz de refrear todo o seu corpo. Quando pomos o freio na boca dos cavalos, para que nos obedeçam, dirigimos também todo o seu corpo. Vede também os navios: por grandes que sejam e embora agitados por ventos impetuosos, são governados com um pequeno leme à vontade do piloto. Assim também a língua é um pequeno membro, mas pode gloriar-se de grandes coisas (...) Todas as espécies de feras selvagens, de aves, de répteis e de peixes do mar se domam e têm sido domadas pela espécie humana. A língua, porém, nenhum homem a pode domar [viii].

Esta mesma preocupação em "refrear" a língua está muito presente nos ensinamentos do Papa Francisco. Com a mesma insistência do Apóstolo, nunca perde uma oportunidade de pedir aos cristãos que nos esforcemos em pôr freio à palavra que destrói. O Papa sabe que o seu chamamento à renovação da vida dos cristãos e da Igreja ficaria desvirtuada se não chegássemos a esse pequeno leme que decide o itinerário da nave.

Todos agradecemos a franqueza com que fala o Sucessor de Pedro, embora haja o risco de que pensemos, apressadamente, que fala para os demais, e passemos a página sem nos perguntarmos em que medida os nossos hábitos actuais, ou as formas socialmente aceites de se comportar nesta área, estão de acordo com o Evangelho. O Catecismo da Igreja Católica [ix] o Magistério do Papa Francisco oferecem muitas pistas para reflexão.

A mentira, idioma da hipocrisia

Com que delicadeza nos esforçamos por amar e dizer sempre a verdade, em evitar completamente a mentira? Porque não podemos esquecer a gravidade da mentira que «é uma autêntica violência feita a outrem. Este é atingido na sua capacidade de conhecer, a qual é condição de todo o juízo e de toda a decisão. A mentira contém em gérmen a divisão dos espíritos e todos os males que a mesma suscita. É funesta para toda a sociedade: destrói pela base a confiança entre os homens e retalha o tecido das relações sociais» [x].

O Papa falou com energia da linguagem da hipocrisia, próprio de quem não ama a verdade. Eles amam-se apenas a si mesmos, e, deste modo, procuram enganar, envolver o outro no seu engano, na sua mentira. Têm um coração mentiroso; não podem dizer a verdade [xi]. Como S. Pedro, apela para a inocência das crianças, ao leite espiritual [xii] não adulterado: uma criança não é hipócrita, porque não está corrompida. Quando Jesus nos diz, que o vosso modo de falar seja: "sim, sim", "não, não", com alma de criança, diz-nos o contrário do que dizem os corruptos (...). Peçamos hoje ao Senhor para que o nosso modo de falar seja o da simplicidade, o das crianças; falar como filhos de Deus: portanto falar na verdade do amor [xiii].

A murmuração: aprender a morder a própria língua

No sermão da montanha, Jesus leva até à radicalidade o quinto mandamento do Decálogo: Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás, mas quem matar será castigado pelo juízo do tribunal. Mas eu vos digo: todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes (...) Aquele que lhe disser: Louco, será condenado ao fogo da geena [xiv].
As palavras do Senhor são duras, mas é que, quem entra na vida cristã, o que aceita seguir este caminho, tem exigências superiores aos outros. Não tem vantagens superiores. Não! Exigências superiores [xv]. A murmuração e o insulto não se reduzem a uma brincadeira inocente: matam o irmão. Escreve S. Josemaria: «Sabes o mal que podes ocasionar atirando para longe uma pedra com os olhos vendados? Também não sabes o prejuízo que podes causar, às vezes grave, quando lanças frases de murmuração, que te parecem levíssimas por teres os olhos vendados pela falta de escrúpulo ou pela exaltação» [xvi].
Então quando há algo negativo no coração contra alguém, e o expressa com um insulto, com uma maldição ou com cólera, há algo de errado, e têm que se converter têm que mudar [xvii].

Quem pensasse, que de qualquer maneira, é justificável falar mal de alguém, porque "merece", o Papa faz-lhe esta recomendação. Vai e reza por ele. Vai e faz penitência por ela. E depois, se for necessário, fala a essa pessoa que pode resolver o problema. Mas não o digas a todos (...) Paulo foi um grande pecador. E diz de si mesmo: primeiro eu era um perseguidor, um blasfemo, um violento. Mas tiveram misericórdia comigo. Talvez nenhum de nós blasfeme. Mas se algum de nós murmura, é certamente um perseguidor e um violento [xviii].

Devemos também ter em conta o efeito devastador que tem esta conduta na vida familiar, social e eclesial; trata-se de uma chuva fina que parece inocente, mas corrói tudo: Que cada um se pergunte hoje: faço crescer a unidade na família, na paróquia, na comunidade, ou sou um falador, uma faladora? Sou motivo de divisão, de mal-estar? Vós não sabeis o dano que fazem à Igreja, às paróquias, às comunidades, as bisbilhotices! Fazem dano! As bisbilhotices ferem. Um cristão, antes de murmurar, deve morder a língua [xix].

A difamação e a necessidade de reparar

É bom ter presente que não basta que algo seja ou pareça verdadeiro para que se possa divulgar sem mais considerações. «O direito à comunicação da verdade, não é absoluto. Cada um deve conformar a sua vida com o preceito evangélico do amor fraterno, mas este requer, em situações concretas, que avaliemos se convém ou não revelar a verdade a quem a pede» [xx].

Muitas vezes, o suposto interesse informativo (tanto do emissor como do receptor) é na realidade o disfarce de uma curiosidade desrespeitosa, que deriva com frequência em bisbilhotices ou boatos, em insinuações e afirmações caluniosas sobre pessoas e instituições, que se propagam depois sem que haja muitas possibilidades de as rectificar.

Por esse motivo, em tais casos, a reparação é um dever de consciência. Assim o recorda o Catecismo: «Qualquer falta cometida contra a justiça e contra a verdade implica o dever da reparação, mesmo que o seu autor tenha sido perdoado. Quando for impossível reparar publicamente um mal, deve-se fazê-lo em segredo; se aquele que foi lesado não pode ser indemnizado diretamente, deve dar-se-lhe uma satisfação moral, em nome da caridade. Este dever de reparação diz respeito também às faltas cometidas contra a reputação alheia. A reparação, moral e às vezes material, deve ser avaliada segundo a medida do prejuízo causado e obriga em consciência» [xxi].

Vale a pena rever, portanto, a nossa atitude ante a ligeireza com que se costuma tratar em conversas e comentários − também entre os cristãos – a intimidade e a fama dos outros, talvez alegando como justificação que um ou uma se está limitando a repetir o que dizem as notícias ou os rumores! Os mexericos ferem, são bofetadas na fama de uma pessoa, são bofetadas no coração de uma pessoa [xxii]. Também podemos pensar no nosso modo de reagir ante a facilidade com que se aceita como coisa normal criticar as pessoas (desde a vizinha de cima, até ao político ou ao futebolista que vai à televisão), por palavra ou por escrito, de forma amarga ou malévola, sem compreensão, chegando com grande naturalidade até à calúnia e ao insulto, sem a menor possibilidade de que a crítica seja construtiva para ninguém.

Que procuramos?
Que ganham os demais, quando difundimos essas notícias ou rumores, sem saber exatamente o que há de verdade? Porque, de facto, até mesmo a informação verdadeira que sabemos sobre os outros deve ser analisada com prudência e ponderação, para não difamar nem escandalizar ou provocar outros danos [xxiii]. Facilmente deixamos que adormeça a nossa sensibilidade para rejeitar tal comportamento, ou advertir que talvez estejamos caindo também nele. E se o sal perde o sabor, com que lhe será restituído o sabor? [xxiv]. Os cristãos que têm a missão e a graça para a levar a cabo, para manter no mundo o ar livre e limpo da verdade. «Hoje, quando o ambiente está cheio de desobediência, de murmuração, de engano, de enredo, temos de amar mais do que nunca a obediência, a sinceridade, a lealdade, a simplicidade: e tudo isto, com sentido sobrenatural, far-nos-á mais humanos» [xxv].

Para conseguir a paz

Senhor, desarmai a língua e as mãos, renovai os corações e as mentes, para que a palavra que nos leva ao encontro seja sempre «irmão» [xxvi]. [xxvii]

A verdade que nos torna livres [xxviii] não consiste simplesmente na posse ou na transmissão de manifestos e informações que correspondem à realidade das coisas. É algo mais profundo: a verdade que fundamenta a sinceridade e a lealdade para com os outros, em todas as suas formas, é que todos os homens somos irmãos, filhos do mesmo Pai.

Jesus Cristo mostrou-nos com a sua vida, veritatem faciens in caritate [xxix], esta harmonia fundamental entre a verdade e o amor. Por isso, a verdade que liberta e traz paz, está nessa manifestação eminente do amor de Deus para com os homens, que é a Cruz redentora: Como queria eu que, por um momento, todos os homens e mulheres de boa vontade olhassem para a Cruz! Na Cruz podemos ver a resposta de Deus: ali à violência não se respondeu com violência, à morte não se respondeu com a linguagem da morte. No silêncio da Cruz cala-se o fragor das armas e fala a linguagem da reconciliação, do perdão, do diálogo, da paz [xxx].

r. valdés e c. ayxelà

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Jo 8, 31-32
[ii] Jo 8, 44
[iii] Gaudium et Spes, 19
[iv] Mt 5, 37
[v] cfr. Jo 1, 47
[vi] Tg 5, 12
[vii] 1 Pe 2, 1-2
[viii] Tg 3, 2-8
[ix] cfr. n. 2464 e ss.)
[x] Catecismo, n. 2486
[xi] Homilia, 4-VI-2013
[xii] 1 Pe 2, 2
[xiii] Homilia, 4-VI-2013
[xiv] Mt 5, 21-22
[xv] Homilia, 13-VI-2013
[xvi] Caminho, 455
[xvii] Homilia, 13-VI-2013
[xviii] Homilia, 13-IX-2013
[xix] Homilia, 25-IX-2013
[xx] Catecismo, n. 2488
[xxi] Catecismo, n. 2487
[xxii] Homilia, 12-IX-2014
[xxiii] cfr. Catecismo, n. 2477 e 2479
[xxiv] Mt 5, 13
[xxv] S. Josemaria, Forja, n. 530
[xxvi] Discurso, 8-VI-2014
[xxvii] No encontro com os presidentes de Israel e da Palestina para pedir a paz, o Papa pronunciou uma oração que, na parte final, rezava assim:
[xxviii] cfr. Jo 8, 31-32
[xxix] cfr. Ef 4, 15
[xxx] Homilia, 7-XI-2014