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19/01/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo Comum
Semana II

Evangelho: Mc 2, 23-28

23 Sucedeu também que, caminhando Jesus em dia de sábado, por entre campos de trigo, os discípulos começaram a colher espigas, enquanto caminhavam. 24 Os fariseus diziam-Lhe: «Como é que fazem ao sábado o que não é permitido?». 25 Ele respondeu: «Nunca lestes o que fez David, quando se viu necessitado, e teve fome, ele e os que com ele estavam? 26 Como entrou na casa de Deus, sendo sumo-sacerdote Abiatar, e comeu os pães da proposição, dos quais não era permitido comer, senão aos sacerdotes, e deu também aos que o acompanhavam?». 27 E acrescentou: «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. 28 Por isso o Filho do Homem é Senhor também do sábado».

Comentário:

Nenhum pai impõe aos seus filhos regras de conduta cuja não observância implica castigo severo sem qualquer outra consideração.

Cumprir o que está determinado é o que se espera, sem dúvida, mas sempre dentro do contexto e nas circunstâncias normais e correntes.

(ama, comentário sobre MC 2, 23-28, Malta, 2015.01.20)


Leitura espiritual



Vida cristã

A caridade cristã no modo de falar

«Se permanecerdes na Minha palavra, sereis Meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade e a verdade vos fará livres» [i].

Num amplo diálogo com os judeus surge esta promessa do Senhor que, na sua simplicidade e solenidade, atravessa os séculos: a verdade torna-nos livres.
Mas também atravessam os séculos, as falsas promessas de quem era homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque a verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira [ii].

«A razão mais sublime da dignidade do homem − ensina o Concílio Vaticano II − consiste na sua vocação à união com Deus. É desde o começo da sua existência que o homem é convidado a dialogar com Deus» [iii]. Assim, pode dizer-se que a palavra − a necessidade de viver em diálogo, em comunhão − é o mais próprio da pessoa. Na palavra comunica-se a própria pessoa: quando falamos não emitimos apenas uma mensagem, mas em certo sentido damo-nos a nós mesmos. E não só chegamos aos ouvidos dos demais, mas ao seu coração, ao centro do seu ser. Por isso, a palavra tem uma dimensão de alguma maneira sagrada. O seu uso recto beneficia e edifica as pessoas, enquanto as palavras descuidadas maltratam os outros. Percebeu-o intensamente Alexandre Soljenitsyne: as mentiras, dizia, não são palavras que dizemos e ficam flutuando no ar, longe de nós, mas cada mentira corrompe-nos por dentro, até consumir-nos as entranhas.

O exemplo dos primeiros cristãos

Na sua pregação, o Senhor convida a todos à transparência; a ser simples, a evitar casuísticas que com frequência encobrem, ou pelo menos dão início à mentira: dizei somente, sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno [iv]. Duríssimo contra a hipocrisia, o Senhor elogia calorosamente aqueles onde não há duplicidade nem engano [v]. É próprio d´Ele um estilo, um modo de fazer, que penetrou profundamente entre os primeiros cristãos: a epístola de Tiago expressa-se com acentos semelhantes: Que o vosso sim, seja sim; que o vosso não, seja não. Assim não caireis ao golpe do julgamento [vi]. S. Pedro fala-lhes de rejeitar toda a malícia, toda a astúcia, fingimentos, invejas e toda a espécie de maledicência para poder aproximar-se de Deus, e como crianças recém-nascidas desejar com ardor o leite espiritual [vii].

Essa inocência cristã na palavra, no entanto, não se consegue com uma simples intenção genérica, boazinha: a tensão entre a verdade e a mentira está presente em todo o arco da nossa vida. A Escritura não se limita a enunciar os princípios, mas assinala com detalhe os abusos da palavra, a incoerência entre o que é, e o que se diz que é. Neste sentido é exemplar, e perene actualidade, a admoestação de S. Tiago sobre a língua:

Se alguém não cair por palavra, este é um homem perfeito, capaz de refrear todo o seu corpo. Quando pomos o freio na boca dos cavalos, para que nos obedeçam, dirigimos também todo o seu corpo. Vede também os navios: por grandes que sejam e embora agitados por ventos impetuosos, são governados com um pequeno leme à vontade do piloto. Assim também a língua é um pequeno membro, mas pode gloriar-se de grandes coisas (...) Todas as espécies de feras selvagens, de aves, de répteis e de peixes do mar se domam e têm sido domadas pela espécie humana. A língua, porém, nenhum homem a pode domar [viii].

Esta mesma preocupação em "refrear" a língua está muito presente nos ensinamentos do Papa Francisco. Com a mesma insistência do Apóstolo, nunca perde uma oportunidade de pedir aos cristãos que nos esforcemos em pôr freio à palavra que destrói. O Papa sabe que o seu chamamento à renovação da vida dos cristãos e da Igreja ficaria desvirtuada se não chegássemos a esse pequeno leme que decide o itinerário da nave.

Todos agradecemos a franqueza com que fala o Sucessor de Pedro, embora haja o risco de que pensemos, apressadamente, que fala para os demais, e passemos a página sem nos perguntarmos em que medida os nossos hábitos actuais, ou as formas socialmente aceites de se comportar nesta área, estão de acordo com o Evangelho. O Catecismo da Igreja Católica [ix] o Magistério do Papa Francisco oferecem muitas pistas para reflexão.

A mentira, idioma da hipocrisia

Com que delicadeza nos esforçamos por amar e dizer sempre a verdade, em evitar completamente a mentira? Porque não podemos esquecer a gravidade da mentira que «é uma autêntica violência feita a outrem. Este é atingido na sua capacidade de conhecer, a qual é condição de todo o juízo e de toda a decisão. A mentira contém em gérmen a divisão dos espíritos e todos os males que a mesma suscita. É funesta para toda a sociedade: destrói pela base a confiança entre os homens e retalha o tecido das relações sociais» [x].

O Papa falou com energia da linguagem da hipocrisia, próprio de quem não ama a verdade. Eles amam-se apenas a si mesmos, e, deste modo, procuram enganar, envolver o outro no seu engano, na sua mentira. Têm um coração mentiroso; não podem dizer a verdade [xi]. Como S. Pedro, apela para a inocência das crianças, ao leite espiritual [xii] não adulterado: uma criança não é hipócrita, porque não está corrompida. Quando Jesus nos diz, que o vosso modo de falar seja: "sim, sim", "não, não", com alma de criança, diz-nos o contrário do que dizem os corruptos (...). Peçamos hoje ao Senhor para que o nosso modo de falar seja o da simplicidade, o das crianças; falar como filhos de Deus: portanto falar na verdade do amor [xiii].

A murmuração: aprender a morder a própria língua

No sermão da montanha, Jesus leva até à radicalidade o quinto mandamento do Decálogo: Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás, mas quem matar será castigado pelo juízo do tribunal. Mas eu vos digo: todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes (...) Aquele que lhe disser: Louco, será condenado ao fogo da geena [xiv].
As palavras do Senhor são duras, mas é que, quem entra na vida cristã, o que aceita seguir este caminho, tem exigências superiores aos outros. Não tem vantagens superiores. Não! Exigências superiores [xv]. A murmuração e o insulto não se reduzem a uma brincadeira inocente: matam o irmão. Escreve S. Josemaria: «Sabes o mal que podes ocasionar atirando para longe uma pedra com os olhos vendados? Também não sabes o prejuízo que podes causar, às vezes grave, quando lanças frases de murmuração, que te parecem levíssimas por teres os olhos vendados pela falta de escrúpulo ou pela exaltação» [xvi].
Então quando há algo negativo no coração contra alguém, e o expressa com um insulto, com uma maldição ou com cólera, há algo de errado, e têm que se converter têm que mudar [xvii].

Quem pensasse, que de qualquer maneira, é justificável falar mal de alguém, porque "merece", o Papa faz-lhe esta recomendação. Vai e reza por ele. Vai e faz penitência por ela. E depois, se for necessário, fala a essa pessoa que pode resolver o problema. Mas não o digas a todos (...) Paulo foi um grande pecador. E diz de si mesmo: primeiro eu era um perseguidor, um blasfemo, um violento. Mas tiveram misericórdia comigo. Talvez nenhum de nós blasfeme. Mas se algum de nós murmura, é certamente um perseguidor e um violento [xviii].

Devemos também ter em conta o efeito devastador que tem esta conduta na vida familiar, social e eclesial; trata-se de uma chuva fina que parece inocente, mas corrói tudo: Que cada um se pergunte hoje: faço crescer a unidade na família, na paróquia, na comunidade, ou sou um falador, uma faladora? Sou motivo de divisão, de mal-estar? Vós não sabeis o dano que fazem à Igreja, às paróquias, às comunidades, as bisbilhotices! Fazem dano! As bisbilhotices ferem. Um cristão, antes de murmurar, deve morder a língua [xix].

A difamação e a necessidade de reparar

É bom ter presente que não basta que algo seja ou pareça verdadeiro para que se possa divulgar sem mais considerações. «O direito à comunicação da verdade, não é absoluto. Cada um deve conformar a sua vida com o preceito evangélico do amor fraterno, mas este requer, em situações concretas, que avaliemos se convém ou não revelar a verdade a quem a pede» [xx].

Muitas vezes, o suposto interesse informativo (tanto do emissor como do receptor) é na realidade o disfarce de uma curiosidade desrespeitosa, que deriva com frequência em bisbilhotices ou boatos, em insinuações e afirmações caluniosas sobre pessoas e instituições, que se propagam depois sem que haja muitas possibilidades de as rectificar.

Por esse motivo, em tais casos, a reparação é um dever de consciência. Assim o recorda o Catecismo: «Qualquer falta cometida contra a justiça e contra a verdade implica o dever da reparação, mesmo que o seu autor tenha sido perdoado. Quando for impossível reparar publicamente um mal, deve-se fazê-lo em segredo; se aquele que foi lesado não pode ser indemnizado diretamente, deve dar-se-lhe uma satisfação moral, em nome da caridade. Este dever de reparação diz respeito também às faltas cometidas contra a reputação alheia. A reparação, moral e às vezes material, deve ser avaliada segundo a medida do prejuízo causado e obriga em consciência» [xxi].

Vale a pena rever, portanto, a nossa atitude ante a ligeireza com que se costuma tratar em conversas e comentários − também entre os cristãos – a intimidade e a fama dos outros, talvez alegando como justificação que um ou uma se está limitando a repetir o que dizem as notícias ou os rumores! Os mexericos ferem, são bofetadas na fama de uma pessoa, são bofetadas no coração de uma pessoa [xxii]. Também podemos pensar no nosso modo de reagir ante a facilidade com que se aceita como coisa normal criticar as pessoas (desde a vizinha de cima, até ao político ou ao futebolista que vai à televisão), por palavra ou por escrito, de forma amarga ou malévola, sem compreensão, chegando com grande naturalidade até à calúnia e ao insulto, sem a menor possibilidade de que a crítica seja construtiva para ninguém.

Que procuramos?
Que ganham os demais, quando difundimos essas notícias ou rumores, sem saber exatamente o que há de verdade? Porque, de facto, até mesmo a informação verdadeira que sabemos sobre os outros deve ser analisada com prudência e ponderação, para não difamar nem escandalizar ou provocar outros danos [xxiii]. Facilmente deixamos que adormeça a nossa sensibilidade para rejeitar tal comportamento, ou advertir que talvez estejamos caindo também nele. E se o sal perde o sabor, com que lhe será restituído o sabor? [xxiv]. Os cristãos que têm a missão e a graça para a levar a cabo, para manter no mundo o ar livre e limpo da verdade. «Hoje, quando o ambiente está cheio de desobediência, de murmuração, de engano, de enredo, temos de amar mais do que nunca a obediência, a sinceridade, a lealdade, a simplicidade: e tudo isto, com sentido sobrenatural, far-nos-á mais humanos» [xxv].

Para conseguir a paz

Senhor, desarmai a língua e as mãos, renovai os corações e as mentes, para que a palavra que nos leva ao encontro seja sempre «irmão» [xxvi]. [xxvii]

A verdade que nos torna livres [xxviii] não consiste simplesmente na posse ou na transmissão de manifestos e informações que correspondem à realidade das coisas. É algo mais profundo: a verdade que fundamenta a sinceridade e a lealdade para com os outros, em todas as suas formas, é que todos os homens somos irmãos, filhos do mesmo Pai.

Jesus Cristo mostrou-nos com a sua vida, veritatem faciens in caritate [xxix], esta harmonia fundamental entre a verdade e o amor. Por isso, a verdade que liberta e traz paz, está nessa manifestação eminente do amor de Deus para com os homens, que é a Cruz redentora: Como queria eu que, por um momento, todos os homens e mulheres de boa vontade olhassem para a Cruz! Na Cruz podemos ver a resposta de Deus: ali à violência não se respondeu com violência, à morte não se respondeu com a linguagem da morte. No silêncio da Cruz cala-se o fragor das armas e fala a linguagem da reconciliação, do perdão, do diálogo, da paz [xxx].

r. valdés e c. ayxelà

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Jo 8, 31-32
[ii] Jo 8, 44
[iii] Gaudium et Spes, 19
[iv] Mt 5, 37
[v] cfr. Jo 1, 47
[vi] Tg 5, 12
[vii] 1 Pe 2, 1-2
[viii] Tg 3, 2-8
[ix] cfr. n. 2464 e ss.)
[x] Catecismo, n. 2486
[xi] Homilia, 4-VI-2013
[xii] 1 Pe 2, 2
[xiii] Homilia, 4-VI-2013
[xiv] Mt 5, 21-22
[xv] Homilia, 13-VI-2013
[xvi] Caminho, 455
[xvii] Homilia, 13-VI-2013
[xviii] Homilia, 13-IX-2013
[xix] Homilia, 25-IX-2013
[xx] Catecismo, n. 2488
[xxi] Catecismo, n. 2487
[xxii] Homilia, 12-IX-2014
[xxiii] cfr. Catecismo, n. 2477 e 2479
[xxiv] Mt 5, 13
[xxv] S. Josemaria, Forja, n. 530
[xxvi] Discurso, 8-VI-2014
[xxvii] No encontro com os presidentes de Israel e da Palestina para pedir a paz, o Papa pronunciou uma oração que, na parte final, rezava assim:
[xxviii] cfr. Jo 8, 31-32
[xxix] cfr. Ef 4, 15
[xxx] Homilia, 7-XI-2014

20/01/2015

Ev. diário L. Esp. (Temas actuais do cristianismo)

Tempo Comum II Semana

Evangelho: Mc 2 23-28

23 Sucedeu também que, caminhando Jesus em dia de sábado, por entre campos de trigo, os discípulos começaram a colher espigas, enquanto caminhavam. 24 Os fariseus diziam-Lhe: «Como é que fazem ao sábado o que não é permitido?». 25 Ele respondeu: «Nunca lestes o que fez David, quando se viu necessitado, e teve fome, ele e os que com ele estavam? 26 Como entrou na casa de Deus, sendo sumo-sacerdote Abiatar, e comeu os pães da proposição, dos quais não era permitido comer, senão aos sacerdotes, e deu também aos que o acompanhavam?». 27 E acrescentou: «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. 28 Por isso o Filho do Homem é Senhor também do sábado».

Comentário

No tempo em que vivemos na Igreja Católica, o Domingo é o dia que se reserva de um modo especial para o Senhor. Todos os dias Lhe pertencem e, pelo facto de estarmos vivos, Lhe devemos dar graças. Mas, ao Domingo, devemos de modo muito particular ter presente essa filiação divina que é a nossa porque Ele assim quis e, de certa forma, converter esse dia, num dia da família dos filhos de Deus é aquilo que se pretende.

Para quê? Evidentemente para fomentar a união entre os cristãos e, fruto dessa união, constituir uma família autêntica que procura seguir, em tudo, as ‘pisadas’ do seu Chefe.

O grande encontro dominical na Santa Missa, torna-se assim, um ocasião excelente para o fazermos e, dando o exemplo, levar outros a cumprir esse preceito que a nossa Mãe, a Santa Igreja, vivamente nos recomenda.

(ama, comentário sobre Mc 2, 23-28, 2014.01.22)


Leitura espiritual


São Josemaria Escrivá

Temas actuais do cristianismo [i]

24             

Quererá V. Rev.ª explicar qual a missão central e quais os objectivos do Opus Dei? Em que precedentes baseou as suas ideias sobre a Associação? Ou será o Opus Dei algo de único, de totalmente novo dentro da Igreja e da Cristandade? Será lícito compará-lo com as Ordens Religiosas e com os Institutos Seculares, ou com associações católicas do tipo, por exemplo, da Holy Name Society, dos Caballeros de Colón ou do Christopher Movement?

O Opus Dei propõe-se promover, entre pessoas de todas as classes da sociedade, o desejo da plenitude de vida cristã no meio do mundo. Isto é, o Opus Dei pretende ajudar as pessoas que vivem no mundo - o homem vulgar, o homem da rua - a levar uma vida plenamente cristã, sem modificar o seu modo normal de vida, o seu TRABALHO habitual, nem os seus ideais e preocupações.

Por isto se pode dizer, como escrevi há muitos anos, que o Opus Dei é velho como o Evangelho e, como o Evangelho, novo. Trata-se de recordar aos cristãos as palavras maravilhosas que se lêem no Génesis: que Deus criou o homem para TRABALHAR. Pusemos os olhos no exemplo de Cristo, que passou quase toda a sua vida terrena trabalhando como artesão numa terra pequena. O trabalho não é apenas um dos mais altos valores humanos e um meio pelo qual os homens hão-de contribuir para o progresso da sociedade; é também um caminho de santificação.

A que outras organizações poderíamos comparar o Opus Dei? A resposta não é fácil, porque, quando se querem comparar entre si organizações com fins espirituais, corre-se o risco de ficar pelos traços exteriores ou pelas denominações jurídicas, esquecendo o que mais importa - o espírito que dá vida e razão de ser a toda a actividade.

Limitar-me-ei a dizer-lhe que, no que diz respeito às que mencionou, a Obra está muito longe das Ordens Religiosas e dos Institutos Seculares, e mais perto de instituições como a Holy Name Society.

O Opus Dei é uma organização internacional de leigos, a que pertencem também sacerdotes diocesanos (minoria bem exígua em comparação com o total de membros). Os seus membros são pessoas que vivem no mundo e nele exercem uma profissão ou ofício. Não entram no Opus Dei para abandonar esse trabalho, mas, pelo contrário, para encontrar uma ajuda espiritual que os leve a santificar o seu trabalho quotidiano, convertendo-o também em meio de santificação, sua e dos outros. Não mudam de estado: continuam a ser solteiros, casados, viúvos, ou sacerdotes; procuram, sim, servir Deus e os outros homens, dentro do seu próprio estado. Ao Opus Dei, não interessam votos nem promessas; o que pede aos seus sócios é que, no meio das deficiências e erros, próprios de toda a vida humana, se esforcem por praticar as virtudes humanas e cristãs, sabendo-se filhos de Deus.

Se alguma comparação se quer fazer, a maneira mais fácil de entender o Opus Dei é pensar na vida dos primeiros cristãos. Eles viviam profundamente a sua vocação cristã; procuravam muito a sério a perfeição a que eram chamados, pelo facto, ao mesmo tempo simples e sublime, do Baptismo. Não se distinguem exteriormente dos outros cidadãos. Os membros do Opus Dei são como toda a gente: realizam um trabalho corrente; vivem no meio do mundo conforme aquilo que são - cidadãos cristãos que querem responder inteiramente às exigências da sua fé.

25             
Permita-me, Monsenhor, que insista na questão dos Institutos Seculares. Num estudo dum conhecido canonista, o Dr. Julián Herranz, li eu que alguns desses Institutos são secretos e que muitos outros, na prática, se identificam com as Ordens Religiosas (usando hábito, abandonando o trabalho profissional para se dedicarem aos mesmos fins a que se dedicam os religiosos, etc.), a ponto de os seus membros não terem inconveniente em considerar-se eles próprios como religiosos. Que pensa V. Rev.º deste assunto?

O estudo acerca dos Institutos Seculares, a que se refere, teve, efectivamente, ampla difusão entre os especialistas. O Dr. Herranz exprime, sob responsabilidade inteiramente pessoal, uma tese bem documentada. Sobre as conclusões desse trabalho, prefiro não falar.

Quero apenas dizer-lhe que todo esse modo de proceder nada tem que ver com o Opus Dei, que não é secreto, nem é de modo algum comparável, pela sua actuação ou pela vida dos seus membros, às Ordens Religiosas. Os sócios do Opus Dei, como acabo de dizer, são cidadãos iguais aos outros, que exercem livremente todas as profissões e todas as tarefas humanas que sejam honestas. [*]

[*] Mons. Escrivá de Balaguer afirmou repetidamente que o Opus Dei, de facto, não era um Instituto Secular, como também não era uma comum associação de fiéis. Ainda que tenha sido aprovado, em 1947, como Instituto Secular, por ser a solução jurídica menos inadequada para o Opus Dei dentro das normas jurídicas então vigentes na Igreja, Mons. Escrivá de Balaguer pensara, já há muitos anos, que a situação jurídica definitiva do Opus Dei estava entre as estruturas seculares de jurisdição pessoal, como é o caso das Prelaturas pessoais.

26             
Poderia descrever o desenvolvimento e a evolução do Opus Dei, tanto na sua natureza como nos seus objectivos, desde a fundação, durante um período que assistiu a tamanhas modificações dentro da própria Igreja?

Desde o primeiro momento, o único objectivo do Opus Dei foi o que acabo de lhe indicar: contribuir para que, no meio do mundo, haja homens e mulheres de todas as raças e condições sociais que procurem amar e servir a Deus e aos outros homens no seu trabalho habitual e através dele. No início da Obra, em 1928, o que eu defendi foi que a santidade não é coisa para privilegiados, pois podem ser divinos todos os caminhos da Terra, todos os estados de vida, todas as profissões, todas as tarefas honestas. As implicações dessa mensagem são muitas e a experiência da vida da Obra tem-me ajudado a conhecê-las cada vez mais profundamente e com mais riqueza de cambiantes.

A Obra nasceu pequena e foi crescendo normalmente, de maneira gradual e progressiva, como cresce um organismo vivo e como tudo o que se desenvolve na História. Mas o objectivo e razão de ser da Obra não mudou, nem mudará, por muito que possa mudar a sociedade, porque a mensagem do Opus Dei consiste em proclamar que qualquer trabalho honesto pode ser santificado, sejam quais forem as circunstâncias em que se processa.

Hoje, fazem parte da Obra pessoas de todas as profissões: não só médicos, advogados, engenheiros e artistas, mas também pedreiros, mineiros, camponeses; qualquer profissão - desde realizadores de cinema e pilotos de aviões de reacção, até cabeleireiros de alta moda.

Para os membros do Opus Dei, estar actualizado, compreender o mundo moderno, é uma coisa natural e instintiva, porque são eles - juntamente com os outros cidadãos, e tal como eles - quem faz nascer esse mundo e lhe dá a sua modernidade.

Se é este o espírito da nossa Obra, já vê como terá sido grande alegria para nós ouvir o Concílio declarar solenemente que a Igreja não repele o mundo em que vive, nem o seu progresso e desenvolvimento, antes o compreende e o ama. De resto, uma das características essenciais da espiritualidade que os membros da Obra se esforçam, desde há quase 40 anos, por viver, é justamente a consciência de que são, ao mesmo tempo, parte integrante da Igreja e do Estado, assumindo, portanto, cada um, plenamente e com toda a liberdade, a sua responsabilidade individual como cristão e como cidadão.

27             
Poderia descrever as diferenças que existem entre o modo como a Opus Dei, enquanto associação, cumpre a sua missão, e o modo como os membros da Obra, enquanto indivíduos, cumprem as suas? Por exemplo, que critérios levam a considerar que determinado projecto - um colégio, uma casa de retiros - deva ser de preferência realizado pela Associação, e outro - uma empresa editora ou comercial, por exemplo - caiba a pessoas individuais?

A actividade principal do Opus Dei consiste em dar aos seus sócios e a quem o deseje os meios espirituais necessários para viverem como bons cristãos no meio do mundo. Dá-lhes a conhecer a doutrina de Cristo, os ensinamentos da Igreja; proporciona-lhes um espírito que os leva a trabalhar bem, por amor de Deus e ao serviço de todos os homens. Numa palavra, trata-se de viver como cristão: convivendo com toda a gente, respeitando a legítima liberdade de todos e fazendo com que este nosso mundo seja mais justo.

Cada um dos sócios do Opus Dei ganha a vida e serve a sociedade com a profissão que tinha antes de entrar na Obra. Assim, uns são mineiros, outros ensinam em escolas ou Universidades, outros ainda são comerciantes, donas de casa, secretárias, lavradores. Entre as actividades honestas do homem, nenhuma há que não possa ser exercida por um sócio do Opus Dei. Quem, por exemplo, antes de pertencer à Obra, trabalhava numa actividade editorial ou comercial, continua nessa actividade. E, se, por causa desse trabalho ou de qualquer outro, procura novo emprego, ou decide, com os seus companheiros de profissão, fundar uma empresa qualquer, isso é matéria em que lhe cabe decidir livremente, aceitando ele pessoalmente os resultados do seu trabalho e assumindo também pessoalmente a respectiva responsabilidade.

Toda a actuação dos Directores do Opus Dei se baseia num rigorosíssimo respeito pela liberdade profissional dos sócios. É este um ponto de importância capital, do qual depende a própria existência da Obra, e que, por conseguinte, é posto em prática com fidelidade absoluta. Cada sócio pode trabalhar profissionalmente nos mesmos campos de actividade que lhe estariam abertos se não pertencesse ao Opus Dei. Assim, nem a Obra como tal, nem nenhum dos outros sócios, têm nada a ver com o trabalho profissional que esse sócio exerce. O compromisso que os sócios tomam ao vincularem-se à Obra é o de que se esforçarão por procurar a perfeição cristã no seu trabalho e por meio dele, e por ter uma consciência mais viva do carácter de serviço à humanidade que toda a vida cristã deve ter.

A principal missão da Obra - já atrás o afirmei - é, portanto, formar cristãmente os seus membros e outras pessoas que desejem receber essa formação. O desejo de contribuir para a solução dos problemas que afectam a sociedade e para os quais o ideal cristão representa tanto, leva além disso a que a Obra como tal, como instituição, ou corpo, desenvolva algumas actividades e iniciativas. O critério, neste campo, é que o Opus Dei, cujos fins são puramente espirituais, só pode realizar, corporativamente, aquelas actividades que constituam, de modo claro e imediato, um serviço cristão, um apostolado. Seria absurdo pensar que o Opus Dei como tal se pudesse dedicar a extrair carvão das minas ou a promover qualquer género de empresas de tipo económico. As suas obras próprias são, todas elas, actividades directamente apostólicas: uma escola para a formação de agricultores, um dispensário médico numa zona ou país subdesenvolvida, um colégio para a promoção social da mulher, etc. Portanto, obras assistenciais, educativas ou de beneficência, como as que costumam realizar, em toda a parte, instituições de qualquer credo religioso.

Para efectuar estas tarefas, conta-se, em primeiro lugar, com o trabalho pessoal dos membros, que, por vezes, a eles se consagram plenamente. Mas conta-se também com a ajuda generosa de muitas pessoas, cristãs ou não cristãs. Alguns sentem-se impulsionados a colaborar por motivos espirituais; outros, ainda que não compartilhem dos fins apostólicos, vêem que se trata de iniciativas em benefício da sociedade, abertas a todos, sem discriminação de raça, religião ou ideologia [*].

[*] Estas obras corporativas, de carácter claramente apostólico, são promovidas, como acaba de assinalar Mons. Escrivá de Balaguer, pelos membros do Opus Dei juntamente com outras pessoas. A Prelatura do Opus Dei assume exclusivamente a responsabilidade pela orientação doutrinal e espiritual; e nem as empresas proprietárias dessas iniciativas, nem os correspondentes bens móveis ou imóveis pertencem à Prelatura. Os fiéis do Opus Dei que trabalham nessas obras fazem-no com liberdade e responsabilidade pessoais, em plena conformidade com as leis do país, e obtendo das autoridades o mesmo reconhecimento legal que se concede a outras actividades similares dos demais cidadãos.

(cont)








[i] Entrevista realizada por Peter Forbarth, correspondente de Time (New York), em 15 de Abril de 1967.