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29/01/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


 Tempo Comum
Semana III

Evangelho: Mc 4, 26-34


26 Dizia também: «O reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra. 27 Dorme e se levanta, noite e dia, e a semente germina e cresce sem ele saber como. 28 Porque a terra por si mesma produz, primeiramente a haste, depois a espiga, e por último a espiga cheia de grãos. 29 E, quando o fruto está maduro, mete logo a foice, porque chegou o tempo da ceifa». 30 Dizia mais: «A que coisa compararemos nós o reino de Deus? Com que parábola o representaremos? 31 É como um grão de mostarda que, quando se semeia no campo, é a menor de todas as sementes que há na terra; 32 mas, depois que é semeado, cresce e torna-se maior que todas as hortaliças, e cria ramos tão grandes que “as aves do céu podem vir abrigar-se à sua sombra”». 33 Assim lhes propunha a palavra com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de compreender. 34 Não lhes falava sem parábolas; porém, em particular explicava tudo aos Seus discípulos.

Comentário:

O Reino de Deus não é algo que se instala no espírito do homem de um momento para o outro.
Começa no nosso Baptismo em que por obra e Graça do Espírito Santo somos convertidos em Filhos de Deus e, depois, ao longo da nossa vida deverá ir crescendo através da prática das boas obras, da frequência dos Sacramentos, principalmente com a recepção da Sagrada Comunhão Eucarística.

Este é o campo, a semente onde devemos “trabalhar” com afinco, pedindo que a Graça de Deus nos robusteça a Fé, a Esperança e a Caridade que enformarão todo o nosso ser humano.

(ama, comentário sobre Mc 4, 26-34, 20152.06.14)


Leitura espiritual



Vida cristã

Trabalhar em todo tempo

S. Josemaria escreveu que o trabalho é “uma doença contagiosa, incurável e progressiva" [i].

Um dos sintomas claros desta doença consiste em não saber estar sem fazer nada.
O desejo de dar glória a Deus é a razão última dessa laboriosidade, desse desejo de santificar o tempo, de querer oferecer a Deus cada minuto de cada hora, cada hora de cada dia... cada etapa da vida.

“Aquele que é laborioso aproveita o tempo, que não só é ouro, é glória de Deus! Faz o que deve e está no que faz, não por rotina, nem para ocupar as horas, mas como fruto de uma reflexão atenta e ponderada" [ii].

“O homem cauteloso medita os seus passos" [iii], diz o livro dos Provérbios.

Meditar os passos na tarefa profissional é essa reflexão atenta e ponderada de que fala S. Josemaria, que leva a pensar para onde caminhamos com o nosso trabalho e a retificar a intenção.
O prudente discerne em cada circunstância o melhor modo de se dirigir para o seu fim.
E a nossa meta é o Senhor.
Quando mudam as circunstâncias convém ter o coração desperto para entender as chamadas de Deus em e através das mudanças, das novas situações.

Vamos deter-nos em dois momentos concretos da vida profissional: o início e o final.
Na sua especificidade, ajudam a ver com mais clareza alguns aspectos da santificação do trabalho.
Entre outros:
A disposição vigilante, com a fortaleza da fé, para manter a rectidão de intenção;
O valor relativo da materialidade do que fazemos;
A fugacidade dos êxitos ou dos fracassos;
A necessidade de manter sempre uma atitude jovem e desportiva, disposta a recomeçar, por amor a Deus e aos outros, quantas vezes for necessário...


Os inícios da vida profissional


Uma das notas essenciais do espírito do Opus Dei é a unidade de vida.
Viver em unidade significa orientar tudo para um único fim;
Procurar “'só e em tudo' a glória de Deus" [iv].
Para aqueles que dedicam a maior parte do dia a realizar uma profissão, é necessário aprender a integrá-la no conjunto do projecto de vida.
O início da vida profissional é um dos momentos mais importantes nessa aprendizagem.
É uma situação de mudança, de novos desafios e possibilidades... e também de dificuldades que convém conhecer.

Nalguns âmbitos, por exemplo, difundiram-se práticas que exigem dos jovens profissionais uma dedicação sem limite de horário nem de compromisso, como se o trabalho fosse a única dimensão da sua vida.
Estas práticas inspiram-se, por um lado, em técnicas psicológicas e de motivação; mas também respondem a uma mentalidade que absolutiza o êxito profissional sobre qualquer outra dimensão da existência.
Por diversos meios procura-se fomentar uma atitude em que o compromisso com a empresa ou com a equipa de trabalho esteja acima de qualquer outro interesse.
E é precisamente em pessoas com vocação profissional, que querem fazer muito bem o seu trabalho, que esta perspectiva pode ter êxito. Por isso S. Josemaria, mestre da santificação do trabalho, advertia para o perigo de transtornar a ordem das aspirações.

“Interessa que lutes, que metas o ombro... De todos os modos, coloca os afazeres profissionais no seu lugar: constituem exclusivamente meios para chegar ao fim; nunca se podem tomar, nem pouco mais ou menos, como o fundamental. Quantas "profissionalites" impedem a união com Deus!" [v]


Os meios que se usam para impor essa exclusividade não costumam consistir em rígidas imposições, mas antes em fazer entender que a estima, a consideração e as possibilidades futuras de uma pessoa dependam da sua disponibilidade incondicional.
Deste modo se fomenta que se passe o máximo número de horas possível na empresa, que se renuncie ao fim-de-semana ou a períodos de descanso — habitualmente dedicados à família e a cultivar a amizade — mesmo sem que haja para isso uma real necessidade. Estas e outras formas de demonstrar a máxima disponibilidade vêem-se frequentemente incentivadas com gratificações avultadas ou com benefícios que fazem sentir um elevado status social ou profissional: hotéis de primeira classe, quando se viaja por motivos de trabalho, presentes...
Pelo contrário, qualquer limitação da disponibilidade é vista como um perigoso desvio do "espírito de equipa".
A equipa de trabalho ou a empresa pretendem assim absorver a totalidade das energias.
Qualquer outro compromisso externo tem de se submeter aos que se têm no trabalho.

S. Josemaria prevenia contra possíveis falsos raciocínios neste sentido.

“Uma impaciente e desordenada preocupação por subir profissionalmente pode disfarçar o amor-próprio sob a capa "de servir as almas". Com falsidade — não retiro uma letra — forjamos a justificação de que não devemos desaproveitar certas conjunturas, certas circunstâncias favoráveis..." [vi]

Não é difícil imaginar que efeitos pode ocasionar uma mentalidade como a que acabámos de descrever em quem careça de uma hierarquia clara de valores ou da fortaleza da fé para manter as legítimas aspirações profissionais dentro da ordem que permita subordiná-las ao amor a Deus.
Pensemos, por exemplo, nas dificuldades que atravessa a vida familiar quando o pai ou a mãe não têm tempo nem energias para o lar; ou os regateios que, por falta de domínio da própria situação, sofre o trato com Deus.

A atitude de quem se "deixa levar" ou a perda de retidão de quem se deixa seduzir pelo êxito humano — muito distinto do prestígio humano e profissional que é anzol do apóstolo — impossibilitam a consecução de uma vida em harmonia, onde a profissão fique integrada segundo a ordem da caridade, que inclui atender outros deveres espirituais, familiares e sociais.

O empenho único por dar glória a Deus e a fortaleza sobrenatural da graça permitem harmonizar, com hierarquia e ordem, e sobretudo com fé em que Deus não pede impossíveis, as diferentes facetas da nossa existência.
Uma ordem que não é rigidez, mas ordem de amor: fazer o que devemos fazer em cada momento e renunciar ao que devemos renunciar.
Às vezes basta um pouco de astúcia para saber dizer que não sem se confrontar diretamente; outras vezes será necessário falar claramente, dando o testemunho amável de uma vida coerente com as próprias convicções, testemunho avalizado pelo prestígio de quem trabalha como o melhor.
Em qualquer caso, não devemos perder a paz, persuadidos de que as dificuldades é Deus quem as permite para nosso bem e o de muitas outras pessoas.

A um filho de Deus, o que realmente lhe interessa é agradar ao seu Pai, procurar e cumprir a sua vontade, procurando viver e trabalhar na sua amorosa presença.
Este é o fim, o que dá sentido a tudo, o que nos move a trabalhar e a descansar, a fazer isto ou aquilo; o que dá a força, a paz, a alegria. Tudo o resto tem um valor relativo.
Para cristianizar os ambientes profissionais requer-se maturidade humana e sobrenatural, além de grande prestígio humano e profissional, que vai para além da mera produtividade.

Os filhos de Deus foram libertados por Cristo na Cruz.
Podemos acolher essa libertação ou recusá-la. Se a acolhemos com a nossa correspondência, viveremos longe da escravidão das opiniões dos outros, da tirania das nossas paixões ou de qualquer pressão que pretenda vergar a nossa vontade para servir senhores diferentes do nosso Pai Deus.

Quem se decide a trabalhar por amor a Deus aprenderá a captar a importância precisa que têm as diferentes exigências da vida: valorizá-las-á em função da vontade de Deus.
Poderá integrar um trabalho profissional exigente com a dedicação à família, aos amigos... com o tempo e as energias que cada ocupação requer.

Frequentemente será necessária uma boa dose de fortaleza e a liberdade interior suficiente para dizer que não a solicitações — em si, talvez, boas — que possam afastar o coração de Deus. Para isto não há receitas.
A actuação prudente num assunto de tanta importância requer uma intensa presença do fim — uma vida interior sólida, um desejo firme de dar glória a Deus — e a atitude humilde, vigilante e aberta, de se deixar aconselhar.

O resultado será manter nas próprias mãos as rédeas da existência, sem deixar que o trabalho profissional, sendo um aspecto importante, passe a ocupar um posto que só corresponde ao Senhor.
Só Ele é digno de orientar tudo o que fazemos, o próprio trabalho incluído.
Nos primeiros anos de profissão, costumam aparecer situações novas, relações diferentes das que se tinham mantido até então, que constituem una ocasião irrepetível para dar muita glória a Deus.
Nesta época, é importante não se deixar levar pelo desejo de afirmação pessoal, pelo afã de demonstrar o próprio valor aos outros e a si mesmo, e outras tentações semelhantes.


O final de uma etapa, o começo de outra


Outra fase da vida que tem as suas exigências específicas é a velhice, quando a diminuição das energias físicas impede de realizar a profissão com a mesma intensidade que antes; ou quando, tendo ainda forças para continuar a tarefa com pleno rendimento, chega o momento da jubilação, talvez obrigatória.
Esta transformação da condição de vida, quase instantânea, requer adaptar-se a muitos aspetos práticos e, sobretudo, um espírito "jovem", disposto a enfrentar uma nova etapa.

É sem dúvida um bom momento para voltar a meditar sobre o significado da santificação do trabalho e das atividades correntes da existência, precisamente numa situação em que as limitações pessoais se podem apreciar com mais clareza.
Por vezes tratar-se-á de saber voltar um pouco à situação de criança; com a simplicidade de viver sem dramas e com alegria a perda de uma posição profissional que talvez fizesse sentir a própria tarefa como muito importante, com pessoas que dependiam desse trabalho.

Pode chegar então a tentação de se sentir inútil, de renunciar à audácia de empreender e desenvolver novas atividades por medo a falhar ou por não confiar nas próprias capacidades.
E no entanto, esta nova fase da vida é uma ocasião esplêndida para pensar como ser, justamente, úteis ao Senhor e aos outros, com um renovado espírito de serviço, mais sereno e mais recto, em tantas coisas pequenas ou em grandes iniciativas.

As possibilidades são variadíssimas.
Nalguns manter-se-á uma parte da atividade profissional anterior, preparando as pessoas que possam continuar o trabalho que se está a abandonar.
Noutros casos, as capacidades próprias serão orientadas para actividades distintas, por vezes de caráter mais social ou assistencial: atenção a doentes, apoio a centros educativos ou formativos...
Também o mundo associativo, por vezes tão decisivo para influir na opinião pública, necessita de pessoas com experiência e possibilidade de dedicação de tempo.
Pensemos em associações familiares, culturais, ambientais; em associações de telespetadores ou de consumidores; em círculos políticos.

Naturalmente para quem tem filhos e netos, uma parte importante do seu tempo estará centrado em prestar ajuda às famílias constituídas pelos seus próprios filhos.
Para as famílias jovens, a ajuda dos avós é valiosíssima.
A sua disponibilidade generosa e sorridente será muitas vezes exemplo e apoio que oriente o modo como os pais educam os filhos.

Os horizontes apostólicos da terceira idade são muito amplos.
É importante viver esta fase da vida de modo inteligente e activo.
A passagem de uma actividade profissional que absorvia a maior quantidade de tempo, para uma situação de maior liberdade de horário, não deve dar lugar ao aburguesamento.
Desde a dedicação a interesses específicos até á dedicação a atividades de profundo cunho social, tudo pode estar empapado de um forte conteúdo apostólico.
As oportunidades de entrar em contacto com outras pessoas podem ser habitualmente muito grandes e a sabedoria e experiência acumuladas devem-se pôr ao serviço dos outros, também, na medida possível, do trabalho apostólico com jovens.
Do mesmo modo, o apostolado da opinião pública oferece oportunidades para quem tenha a preparação adequada, em forma de colaboração em pequenos ou grandes jornais, rádios ou televisões.
Não faltarão sequer pessoas capazes de escrever livros, propor ciclos de conferências, ou qualquer meio para fazer ouvir os ensinamentos da Igreja.

É importante saber projectar estes anos com o espírito da "juventude perene" do cristão e com a santa audácia que o deve acompanhar. “O espírito humano (...) ainda que participando do envelhecimento do corpo, num certo sentido permanece sempre jovem se vive orientado para o eterno" [vii].

S. Josemaria, nos anos finais da sua vida, quando as forças físicas diminuíam, não deixou de empreender projectos cheios de audácia, como por exemplo o santuário de Torreciudad.
Era igualmente surpreendente o exemplo de São João Paulo II, que promoveu numerosas iniciativas — qual delas a mais audaz — com força e vigor apesar da doença que o acompanhou nos últimos anos.

A ele próprio se poderiam aplicar estas suas palavras, com que nos convida a ter em grande estima a última etapa da vida:

“Todos conhecemos exemplos eloquentes de idosos com uma surpreendente juventude e vigor de espírito. Para quem os trata de perto, são estímulo com as suas palavras e consolo com o exemplo. É de desejar que a sociedade valorize plenamente os idosos, que nalgumas regiões do mundo — penso em particular em África — são considerados justamente como "bibliotecas vivas" de sabedoria, guardiões de um inestimável património de testemunhos humanos e espirituais. Ainda que seja verdade que a nível físico têm geralmente necessidade de ajuda, também é verdade que, na sua avançada idade, podem oferecer apoio aos jovens que no seu percurso assomam ao horizonte da existência para provar os distintos caminhos".


“Enquanto falo dos idosos, não posso deixar de me dirigir também aos jovens para os convidar a estar a seu lado.
Exorto-vos, queridos jovens, a fazê-lo com amor e generosidade. Os idosos podem dar-vos muito mais do que possais imaginar.
Neste sentido, o Livro do Eclesiástico diz:

'Não desprezes o que contam os idosos, porque eles também aprenderam dos seus pais [viii];

Vai ao encontro dos anciãos; há um sábio? Junta-te a ele [ix]; porque, que bem parece a sabedoria nos idosos!' [x], [xi].

j. lópez díaz e c. ruíz

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] S. Josemaria, Carta 15-X-1948, citado por A. Nieto, “Josemaría Escrivá, sacerdote de Deus, trabalhador exemplar", Discurso pronunciado na Universidade de Navarra em 26-VI-1985.
[ii] S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 81.
[iii] Pr14, 15.
[iv] S. Josemaria, Forja, n. 921.
[v] S. Josemaria, Sulco, n. 502.
[vi] S. Josemaria, Sulco, n. 701.
[vii] S. João Paulo II, Carta aos idosos, 1-X-1999, n. 12.
[viii] Ecles 8, 9
[ix] Ecles 26, 34
[x] Ecles 25, 5
[xi] Ibid.

23/01/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


 Tempo Comum
Semana II

Evangelho: Mc 3, 20-21

20 Depois, foi para casa e de novo acorreu tanta gente, que nem sequer podiam tomar alimento. 21 Quando os Seus parentes ouviram isto, foram para tomar conta d'Ele; porque diziam: «Está louco».

Comentário:

Tinham razão os parentes de Jesus ao dizerem que estava louco.
Esta loucura do Senhor é uma loucura de amor que, primeiro O trouxe até ao meio de nós, assumindo identidade humana em tudo igual a nós excepto no pecado.

Sujeita-se a ser tratado como louco, facínora, beberrão, insultado na Sua honra, cuspido, violentado da forma mais cruel e desumana e, finalmente, pregado numa cruz!

Por amor?

Sim pela loucura do amor divino pelos homens – todos os homens – que veio para redimir e salvar.
Não nos é possível a nós, pobres humanos, retribuir este amor com a mesma dimensão, a mesma “loucura”, mas podemos – e devemos – dar-lhe o amor que Ele nos pede e, Ele, só nos pede o que somos capazes de dar.

(ama, comentário sobre Mc 3, 20-21, 2011.12.20)


Leitura espiritual



Vida cristã

A força do fermento

A sociedade é como um tecido de relações entre os homens.
O trabalho, a família e as outras circunstâncias da vida criam uma rede de vínculos, em que a nossa existência se encontra como que tecida [i], de modo que quando procuramos santificar a profissão concreta, a situação familiar particular ou o resto dos deveres correntes, não estamos a santificar uma fibra isolada, mas todo o tecido social.

Este trabalho santificador converte os cristãos em poderoso fermento de ordenação do mundo, de modo que este reflete melhor o amor com que foi criado.
Quando a caridade está presente em qualquer atividade humana, reduzem-se os espaços de egoísmo, principal fator de desordem no homem, nas suas relações com os outros e com as coisas.
Assim, portadores do Amor do Pai no meio da sociedade, os fiéis leigos «estão aí chamados por Deus a cumprir a seu próprio encargo, guiando-se pelo espírito evangélico, de modo que, como a levedura, contribuam, a partir de dentro, para santificação do mundo» [ii]

A eficácia transformadora dessa levedura cristã no trabalho depende, em grande medida, de que cada um procure alcançar uma preparação adequada.
Esta não deve limitar-se à instrução específica – técnica ou intelectual – que cada profissão requer.
Há outros aspetos que, por serem imprescindíveis para alcançar uma verdadeira "competência" humana e cristã, influem directíssimamente nas relações laborais e sociais que se originam à volta do trabalho e que são fundamentais para ordenar a Deus o tecido social.

Ser do mundo sem ser mundanos

O cristão que está chamado a santificar-se na sua profissão deve ser do mundo, mas não ser mundano.
Procura o bem-estar temporal, mas não o considera como o bem supremo.
Reconhece com realismo a presença do mal, mas não desanima quando o encontra, procura antes reparar e lutar com mais empenho para o purificar do pecado.
Nunca deve faltar o entusiasmo, nem no vosso trabalho nem no vosso empenho por construir a cidade temporal.
Ainda que, ao mesmo tempo, como discípulos de Cristo que crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências [iii], procureis manter vivo o sentido do pecado e da reparação generosa, frente aos falsos otimismos dos que, inimigos da cruz de Cristo [iv], baseiam tudo no progresso e nas energias humanas [v].

"Ser do mundo", em sentido positivo, leva a ter espírito contemplativo no meio de todas as atividades humanas (...), tornando realidade este programa: quanto mais dentro do mundo estejamos, tanto mais temos que ser de Deus [vi].
Esta aspiração, longe de produzir retraimento diante das dificuldades do ambiente, impulsiona para uma maior audácia, fruto de uma presença de Deus mais intensa e constante.
Porque somos do mundo e somos de Deus, não nos podemos fechar: «não é lícito aos cristãos abandonar a sua missão no mundo, como a alma não pode separar-se voluntariamente do corpo» [vii].
S. Josemaria concretiza essa tarefa de cidadãos cristãos em contribuir para que o amor e a liberdade de Cristo presidam a todas as manifestações da vida moderna, a cultura e a economia, o trabalho e o descanso, a vida de família e a convivência social [viii].

Manifestação capital do espírito cristão – e mesmo simplesmente humano – é reconhecer que a plena felicidade humana se encontra na união com Deus, não na posse de bens terrenos.
É justamente o contrário de ser mundano.
O mundano põe todo o coração nos bens deste mundo, sem se lembrar de que estão feitos para o conduzir ao Criador.
Pode suceder alguma vez, que diante da experiência de pessoas que, afastadas de Deus, parecem encontrar felicidade ao dispor dos bens que desejam, surja o pensamento de que a união com Deus não é a única fonte de alegria plena. Mas não nos devemos enganar.
Trata-se de uma felicidade inconsistente, superficial e não isenta de inquietações.
Essas mesmas pessoas seriam incomparavelmente mais felizes, já nesta terra e depois plenamente no Céu, se tratassem a Deus e ordenassem para a Sua glória o uso desses bens.
A sua felicidade deixaria de ser uma felicidade frágil, exposta a muitas eventualidades e não temeriam – com esse temor que lhes tira a paz – que viessem a faltar-lhes uns ou outros bens, nem os assustaria a realidade da dor e da morte.

As bem-aventuranças do Sermão da montanha –– bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos..., os que têm fome e sede de justiça..., os que sofrem perseguição por causa da justiça... [ix] mostram que a plena felicidade a bem-aventurança não se encontra nos bens deste mundo.
S. Josemaria ficava magoado porque, às vezes, se enganam as almas.
Fala-se-lhes de uma libertação que não é a de Cristo.
Os ensinamentos de Jesus, o Seu Sermão da Montanha, essas bem-aventuranças que são um poema do amor divino, ignoram-se. Só se procura uma felicidade terrena, que não é possível alcançar neste mundo [x].



As palavras do Senhor não justificam, no entanto, uma visão negativa dos bens terrenos, como se fossem maus ou impedimento para alcançar o Céu.
Não são obstáculo, mas matéria de santificação e o Senhor não convida a recusá-los.
Ensina, antes, que o único necessário [xi] para a santidade e a felicidade é amar a Deus.
Quem não dispõe desses bens ou quem sofre, deve saber não só que a alegria plena pertence ao Céu, mas que já nesta terra é "bem-aventurado" – pode ter uma antecipação da felicidade do Céu – porque a dor e, em geral, a carência de um bem, tem valor redentor se se acolhe por amor à Vontade do nosso Pai Deus, que tudo ordena para o nosso bem [xii].

Procurar o bem-estar material para os que nos rodeiam é muito agradável a Deus, é uma forma maravilhosa de embeber de caridade as realidades temporais e é perfeitamente compatível com a atitude pessoal de desprendimento que o Senhor nos ensinou.

Mentalidade laical, com alma sacerdotal

Um filho de Deus há-de ter alma sacerdotal, porque foi feito participante do sacerdócio de Cristo para co-redimir com Ele.
Nos fiéis do Opus Dei, por estarem chamados a santificar-se no meio do mundo, esta caraterística encontra-se intrinsecamente unida à mentalidade laical, que leva a realizar o trabalho e os diversos afazeres com competência, de acordo com as suas leis próprias, queridas por Deus [xiii].

No âmbito básico das normas de moral profissional, que interessa cuidar delicadamente como pressuposto necessário para santificar o trabalho, há muitos modos de levar a cabo as tarefas humanas de acordo com o querer de Deus.
Dentro das leis próprias de cada atividade, e na ampla perspectiva que abre a moral cristã, há muitas opções, todas elas santificáveis, entre as quais cada um pode escolher com responsabilidade e liberdade pessoais, respeitando a liberdade dos outros.
Essa liberdade intransferível faz com que a participação de cada um na vida social – no lar, no trabalho, na convivência – seja única, original e irrepetível, como é irrepetível a resposta ao amor a Deus de cada alma.
Não devemos privar a família humana do bom exercício da nossa liberdade, fonte de iniciativas de serviço aos outros para a glória de Deus.

O Fundador do Opus Dei ensinou que assumir profundamente este facto é caraterística essencial do espírito da Obra.

Liberdade, meus filhos, liberdade, que é a chave dessa mentalidade laical que todos temos no Opus Dei [xiv].

A alma sacerdotal e a mentalidade laical são dois aspetos inseparáveis no caminho de santidade que S. Josemaria ensina.
Em tudo e sempre temos que ter – tanto os sacerdotes como os leigos – alma verdadeiramente sacerdotal e mentalidade plenamente laical, para que possamos entender e exercitar na nossa vida pessoal aquela liberdade de que gozamos na esfera da Igreja e nas coisas temporais, considerando-nos ao mesmo tempo cidadãos da cidade de Deus [xv] e da cidade dos homens [xvi].

Para ser fermento de espírito cristão na sociedade é preciso que na nossa vida se cumpra esta união, de modo que todos os nossos afazeres profissionais, realizados com mentalidade laical, estejam empapados de alma sacerdotal.

Sinal claro desta união é pôr em primeiro lugar o trato com Deus, a piedade, que para um filho de Deus se pode concretizar no cumprimento de um plano de vida espiritual. Necessitamos de alimentar o Amor como impulso vital da nossa vida, porque não é possível trabalhar realmente para Deus sem uma vida interior cada vez mais profunda.
Como recordava S. Josemaria:
Se não tiverdes vida interior, ao dedicar-vos ao vosso trabalho, em lugar de o divinizar, poderia suceder-vos o que sucede ao ferro, quando está vermelho e se mete em água fria: destempera-se e apaga-se. Deveis ter um fogo que venha de dentro, que não se apague, que incendeie tudo aquilo em que toque. Por isso pude dizer que não quero nenhuma obra, nenhum trabalho, se os meus filhos não melhoram nele. Meço a eficácia e o valor das obras, pelo grau de santidade que adquirem os instrumentos que as realizam.

Com o mesmo vigor com que antes vos convidava a trabalhar e a trabalhar bem, sem medo ao cansaço; com essa mesma insistência, vos convido agora a ter vida interior.
Nunca me cansarei de o repetir: as nossas Normas de piedade, a nossa oração, são o primeiro.
Sem a luta ascética, a nossa vida não valeria nada, seríamos ineficazes, ovelhas sem pastor, cegos que guiam outros cegos [xvii], [xviii].

Para que o fermento não se desvirtue, tem de ter a força de Deus. Deus é que transforma.
Só quando permanecemos unidos a Ele somos verdadeiramente fermento de santidade.
De outro modo estaremos na massa como simples massa, sem contribuir com o que se espera da levedura.
O empenho por cuidar de um plano de vida espiritual acabará por produzir o milagre da acção transformadora de Deus: primeiro em nós mesmos, por ser esse plano um caminho de união com Ele e, como consequência, nos outros, na sociedade inteira.

j. lópez díaz

(Revisão da versão portuguesa por ama)



[i] Concílio Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 31. Cfr. João Paulo II, Exhort. apost. Christifideles laici, 30-XII-1988, n. 15.
[ii] Concílio Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, n. 31. Cfr. João Paulo II, Exhort. apost. Christifideles laici, 30-XII-1988, n. 15.
[iii] Gal 5, 24
[iv] Flp 3, 18
[v] S. Josemaria, Carta 9-I-1959, n. 19, em E. Burkhart, J. López, Vida cotidiana y santidad en la enseñanza de San Josemaría, I, Rialp, Madrid 2010, p. 439. Cfr. Cristo que passa, nn. 95-101.
[vi] S. Josemaria, Forja, n. 740.
[vii] Epistola ad Diognetum, 6.
[viii] S. Josemaria, Sulco, n. 302.
[ix] Mt5, 3 ss.
[x] S. Josemaria, Apontamentos de uma meditação, 25-XII-1972, em E. Burkhart, J. López, Vida cotidiana y santidad en la enseñanza de San Josemaría, III, Rialp, Madrid 2013, p. 125.
[xi] Lc10, 42.
[xii] Cfr. Ro 8, 28.
[xiii] Cfr. Conc. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, n. 36.
[xiv] S. Josemaria, Carta 29-IX-1957, citado por A. Cataneo,. Tracce per una spiritualità laicale offerte dall'omelia Amare il mondo appassionatamente, em revista "Annales Theologici" 16 (2002) 128.
[xv] cfr. Ef2,19
[xvi] S. Josemaria, Carta 2-II-1945, n. 1, em A. Vázquez de Prada, El Fundador del Opus Dei, II, Rialp, Madrid 2002, p. 670.
[xvii] cfr. Mt 9, 36; 15, 4
[xviii] S. Josemaria, Carta 15-X-1948, n. 20, em E. Burkhart, J. López, Vida cotidiana y santidad en la enseñanza de San Josemaría, III, Rialp, Madrid 2013, p. 210.