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17/11/2014

Ev. Diário, Coment L. esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXXIII Semana

Evangelho: Lc 18 35-43

35 Sucedeu que, aproximando-se eles de Jericó, estava sentado à beira da estrada um cego a pedir esmola. 36 Ouvindo a multidão que passava, perguntou que era aquilo. 37 Disseram-lhe que era Jesus Nazareno que passava. 38 Então ele clamou: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim!». 39 Os que iam adiante repreendiam-no para que se calasse. Porém, ele, cada vez gritava mais: «Filho de David, tem piedade de mim!». 40 Jesus, parando, mandou que Lho trouxessem. Quando ele chegou, interrogou-o: 41 «Que queres que te faça?». Ele respondeu: «Senhor, que eu veja». 42 Jesus disse-lhe: «Vê; a tua fé te salvou». 43 Imediatamente, recuperou a vista, e foi-O seguindo, glorificando a Deus. Todo o povo, vendo isto, deu louvores a Deus.
Comentário

Detenhamo-nos um pouco no frenesim das nossas vidas e pensemos:
“Se o Senhor Se dirigisse a mim e dissesse: Tu… que queres que te faça?”

Qual seria a nossa resposta? Talvez: “Senhor… deixa-me pensar um pouco… preciso de tanta coisa…”
Esta resposta que denota, desde logo, que não sabemos bem o que precisamos ou, melhor, o que efectivamente nos faz falta, talvez seja mais comum que o que possamos imaginar!

Cá por mim, penso, que o melhor… muito melhor, seria responder-Lhe:

“Tu, Senhor, que sabes tudo, sabes muito o bem o que preciso!”

(AMA, Comentário sobre Lc 18, 35-43, 2013.11.18)

Leitura espiritual



HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

MANUSCRITO ENDEREÇADO A MADRE MARIA DE GONZAGA

…/5

Nem sempre pratiquei a caridade com tais enlevos de alegria, mas no início da minha vida religiosa quis Jesus que eu sentisse como é bom vê-la na alma das suas esposas. Por isso, quando levava minha Irmã São Pedro, fazia-o com tanto amor que me teria sido impossível fazer melhor, mesmo que tivesse levado o próprio Jesus. A prática da caridade não foi sempre tão suave para mim, como vos dizia há pouco, Madre querida. Para prová-lo, vou relatar alguns pequenos combates que, certamente, vos farão sorrir. Por muito tempo, na oração da noite, sentava-me em frente de uma irmã que tinha uma mania estranha e, penso... muitas luzes, pois raramente usava livro. Eis como o percebia: Logo que essa irmã chegava, punha-se a fazer um estranho barulhinho semelhante ao que se faria esfregando duas conchas um contra a outra. Só eu percebia, pois tenho ouvido muito bom (às vezes, um pouco demais). Impossível dizer-vos, Madre, como esse ruído me incomodava. Tinha muita vontade de olhar a autora que, por certo, não se dava conta do seu cacoete; era a única maneira de avisá-la, mas no fundo do coração sentia que mais valia sofrer isso por amor a Deus e não magoar a irmã. Ficava quieta, procurava unir-me a Deus, esquecer esse ruído... tudo inútil. Sentia o suor inundar-me e ficava obrigada a uma oração de sofrimento. Embora sofrendo, procurava fazê-lo não com irritação, mas com paz e alegria, pelo menos no íntimo da minha alma. Procurei gostar do barulhinho tão desagradável. Em vez de procurar não ouvi-lo, coisa que me era impossível, pus-me a prestar atenção nele como se fosse um concerto maravilhoso e minha oração toda, que não era de quietude, consistia em oferecer esse concerto a Jesus.

Em outra ocasião, estava na lavandaria diante de uma irmã que me jogava água suja no rosto toda vez que levantava a roupa na tábua de bater. Meu primeiro movimento foi de recuar enxugando o rosto, a fim de mostrar à irmã que me aspergia que me prestaria serviço ficando quieta. Mas pensei logo que seria tolice recusar tesouros oferecidos tão generosamente. Evitei demonstrar minha luta. Esforcei-me por desejar receber muita água suja, de sorte que, no final, passara a gostar desse novo gênero de aspersão e prometi a mim mesma voltar a esse feliz lugar onde se recebiam tantos tesouros.

Madre querida, estais vendo que sou uma alma muito pequena que só pode oferecer a Deus coisas muito pequenas. Assim mesmo, acontece-me com frequência deixar escapar esses pequenos sacrifícios que dão tanta paz e tranquilidade à alma. Isso não me desanima, suporto ter um pouco menos de paz e procuro ser mais vigilante na ocasião seguinte.

Ah! o Senhor é tão bom para mim que me é impossível temê-lo. Deu-me sempre o que desejei, ou melhor, fez-me desejar o que queria dar-me. Foi assim que, pouco antes de começar minha provação contra a fé, dizia a mim mesma: Francamente, não tenho grandes provações exteriores e, para tê-Ias no interior, seria preciso Deus mudar a minha via. Não creio que Ele o faça, mas não posso viver sempre assim no repouso'... portanto, que meio Jesus irá encontrar para me provar? A resposta não demorou e mostrou-me que Aquele que amo não está desprovido de meios. Sem alterar minha via, mandou-me a prova que devia misturar amargura salutar em todas as minhas alegrias. Não é só quando quer me provar que Jesus me manda um pressentimento e o desejo. Há muito, tinha um desejo totalmente irrealizável, o de ter um irmão sacerdote. Pensei muitas vezes que se meus irmãozinhos não tivessem ido para o Céu teria tido a felicidade de vê-los subir ao altar; mas, como Deus os escolheu para fazer deles anjinhos, não podia mais esperar ver meu sonho realizar-se. Eis que não só Jesus concedeu-me o favor pedido, mas uniu-me, pelos laços da alma, a dois dos seus apóstolos que passaram a ser meus irmãos... Quero, Madre querida, relatar-vos minuciosamente como Jesus atendeu a meu desejo e até o ultrapassou, pois eu desejava apenas um irmão sacerdote que, todo dia, pensasse em mim no santo altar.

Foi nossa Santa Madre Teresa que me mandou, a título de buquê de festa, em 1895, meu primeiro irmãozinho. Estava na lavandaria, muito atarefada com meu trabalho, quando Madre Inês de Jesus, puxando-me à parte, leu uma carta que acabava de receber. Tratava-se de um jovem seminarista inspirado, dizia ele, por santa Teresa, e que vinha pedir uma irmã que se dedicasse especialmente à salvação da alma dele e o ajudasse com suas orações e sacrifícios quando missionário, a fim de salvar muitas almas. Prometia lembrar-se sempre dela, que passaria a ser sua irmã, quando pudesse oferecer o Santo Sacrifício. Madre Inês de Jesus disse que queria fosse eu a irmã desse futuro missionário.

Madre, seria impossível descrever a minha felicidade. Meu desejo atendido de modo inesperado fez nascer em meu coração uma alegria que chamarei de infantil, pois preciso remontar aos tempos da minha infância para encontrar a lembrança dessas alegrias tão vivas que a alma se sente pequena demais para conter. Nunca mais, durante muitos anos, tinha provado esse tipo de felicidade. Sentia que, nesse aspecto, minha alma permanecera nova; era como se tivessem tocado, pela primeira vez, cordas musicais até então deixadas no esquecimento.

Tinha consciência das obrigações que me impunha, por isso pus logo mãos à obra procurando redobrar meu fervor. É preciso admitir que, inicialmente, não tive consolações para estimular meu zelo. Depois de ter escrito uma gentil cartinha cheia de coração e nobres sentimentos, a fim de agradecer a madre Inês de Jesus, meu irmãozinho só voltou a se manifestar em Julho, a bem da verdade enviou a sua carta em Novembro para comunicar que se alistava no exército. Foi a vós, Madre querida, que o Senhor reservou completar a obra iniciada. Sem dúvida, é pela oração e pelo sacrifício que se pode ajudar os missionários. Mas, às vezes, quando agrada a Jesus unir duas almas para a sua glória, Ele permite que, de vez em quando, elas possam comunicar os pensamentos e estimular-se mutuamente a amar mais a Deus. Porém, para isso, é preciso uma autorização expressa da superiora, pois creio que, sem essa, a correspondência faria mais mal que bem; se não ao missionário, pelo menos à carmelita que, pelo seu gênero de vida, está continuamente levada a ensimesmar-se. Em vez de uni-la a Deus, essa correspondência que teria solicitado, embora esporádica, ocuparia seu espírito. Imaginando realizar mundos e fundos, só procuraria, a pretexto de zelo, uma distracção inútil. Para mim, essa situação não difere das demais: sinto que minhas cartas só produzirão algum bem se forem escritas por obediência e se eu sentir mais repugnância que prazer ao escrevê-las. Quando falo com uma noviça, procuro fazê-lo mortificando-me; evito perguntar para satisfazer a minha curiosidade. Se ela inicia um assunto interessante e passa de repente, sem concluir o primeiro, a outro que me aborrece, evito lembrar-lhe o assunto que deixou de lado, pois parece-me que não se pode fazer bem algum quando se procura a si mesmo.

Madre querida, dou-me conta de que nunca vou corrigir-me. Eis-me, mais um vez, muito longe do meu assunto, com todas as minhas digressões. Desculpai-me, peço, e permiti que recomece na próxima oportunidade, pois não consigo fazer diferente!... Agi como Deus, que não se cansa de me ouvir quando lhe conto simplesmente minhas penas e minhas alegrias, como se Ele não as conhecesse... Vós também, Madre, conheceis há muito o que penso e todos os acontecimentos um pouco memoráveis da minha vida. Não conseguiria informar-vos de nenhuma coisa nova. Não posso impedir o riso ao pensar que vos relato escrupulosamente tantas coisas que sabeis tão bem quanto eu. Enfim, Madre querida, obedeço-vos. E se, agora, não encontrais interesse na leitura destas páginas, talvez possam distrair-vos na vossa velhice e servir depois para acender o fogo. Não terei perdido meu tempo... Mas estou brincando de falar como criança. Não creiais, Madre, que procuro saber qual a utilidade que meu pobre trabalho possa ter. Faço-o por obediência e isso me é suficiente. Não sentiria nenhuma mágoa se o queimásseis diante dos meus olhos, sem o terdes lido.

Chegou o momento de voltar a falar dos meus irmãos que ocupam, agora, tanto espaço em minha vida. No ano passado, em fins de maio, lembro-me de que mandastes chamar-me antes de irmos ao refeitório. O coração batia-me forte quando fui ao vosso encontro, Madre querida. Cismava no que podíeis ter para me dizer, pois era a primeira vez que mandáveis chamar-me dessa forma. Depois de convidar-me a sentar, eis a proposta que me fizestes: "Quereis encarregar-vos dos interesses espirituais de um missionário que deve ser ordenado sacerdote e partir brevemente?", e, Madre, lestes para mim a carta desse jovem padre, a fim de que eu soubesse exactamente o que ele pedia. Meu primeiro sentimento foi de alegria, logo substituído pelo temor. Expliquei, Madre querida, que, tendo já oferecido meus pobres méritos para um futuro apóstolo, acreditava não poder fazê-lo às intenções de outro e que, aliás, havia muitas irmãs melhores do que eu que poderiam responder ao desejo dele. Todas as minhas objecções foram inúteis, respondestes que é possível ter diversos irmãos. Perguntei, então, se a obediência poderia duplicar meus méritos. Respondestes afirmativamente, dizendo muitas coisas que me fizeram ver que era preciso aceitar sem receio um novo irmão. No fundo, Madre, pensava igual a vós e, até, sendo que "o zelo de uma carmelita deve abranger o mundo", espero, com a graça divina, ser útil a mais de dois missionários, e não poderia esquecer de rezar por todos, sem deixar de lado os simples padres cuja missão é, às vezes, tão difícil de cumprir quanto a dos apóstolos pregando para infiéis. Enfim, quero ser filha da Igreja como o era nossa Madre santa Teresa e rezar nas intenções do nosso Santo Padre, o Papa, sabendo que as intenções dele abrangem o universo. Eis a meta geral da minha vida, mas isso não me teria impedido de rezar e unir-me especialmente às obras dos meus anjinhos queridos se tivessem sido sacerdotes. Bem! eis como me uni espiritualmente aos apóstolos que Jesus me deu como irmãos: tudo o que me pertence pertence a cada um deles, sinto muito bem que Deus é bom demais para fazer partilhas, é tão rico que dá sem medida tudo o que peço a Ele... Mas não penseis, Madre, que eu me perco em longas enumerações.

Depois que passei a ter dois irmãos e minhas irmãzinhas as noviças, se eu quisesse pedir para cada alma o que ela necessita e pormenorizá-lo, os dias seriam curtos demais e recearia muito esquecer alguma coisa importante. Para as almas simples, não são necessários meios complicados. Como sou uma delas, certa manhã, durante minha acção de graças, Jesus deu-me um meio simples de cumprir minha missão. Fez-me compreender a seguinte palavra dos Cânticos: "Atraí-me, corramos ao odor de vossos perfumes". Ó Jesus, nem é necessário dizer: atraindo-me, atraí as almas que amo. Essa simples palavra: "Atraí-me", é suficiente. Compreendo-o, Senhor, quando uma alma se deixou cativar pelo odor inebriante dos vossos perfumes, não conseguiria mais correr sozinha; todas as almas que ela ama são arrastadas por ela. Isso se dá sem coação, sem esforço; é consequência natural da sua atracão por vós. Assim como uma torrente que se lança com impetuosidade no oceano arrasta atrás de si tudo o que encontrou -na sua passagem, assim, ó meu Jesus, a alma que mergulha no oceano sem margens do vosso amor arrasta consigo todos os tesouros que possui... Sabeis, Senhor, não tenho outros tesouros senão as almas que vos dignastes unir à minha; fostes vós que me confiastes esses tesouros, por isso ouso tomar de empréstimo as palavras que dirigistes ao Pai celeste na última noite que passastes na terra, viajante e mortal. Jesus, meu Bem-Amado, não sei quando acabará meu exílio... mais de uma tarde me verá cantar ainda no exílio as vossas misericórdias, mas, enfim, para mim também, chegará a última noite"''. Gostaria, então, de poder dizer-vos: "Eu glorifiquei-vos na terra, consumando a obra que me destes a fazer. Manifestei o vosso nome aos homens que me destes, separando-os do mundo. Eram vossos e os destes a mim; eles guardaram a vossa palavra. Sabem agora que tudo quanto me destes vem de vós, porque eu lhes transmiti as palavras que vós me comunicastes, e eles receberam-nas, e conheceram verdadeiramente que eu saí de vós e creram que vós me enviastes. Por eles é que eu rogo; não é pelo mundo que rogo, é por aqueles que me destes, porque são vossos. Já não estou no mundo, ao passo que eles ficam no mundo, enquanto eu vou para vós. Pai santo, guardai por causa do vosso nome os que me destes. Mas agora vou para vós e digo estas coisas estando ainda no mundo para que tenham em si a plenitude da minha alegria. Não peço que os tireis do mundo, mas que os guardeis do mal. Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo. Não rogo só por eles, mas também por aqueles que vão crer em vós, por meio da vossa palavra.

"ó Pai, que onde eu estiver, os que me destes estejam também comigo, e que o mundo conheça que vós os amastes como amastes a mim".

Eis, Senhor, o que queria repetir para vós antes de voar para os vossos braços. Talvez seja temeridade. Mas há algum tempo permitis que seja audaciosa convosco. Como o pai do filho pródigo, falando para seu filho primogénito, dissestes-me: "Tudo o que é meu é teu". Portanto, vossas palavras são minhas e posso servir-me delas para atrair sobre as almas, que me são unidas, os favores do Pai celeste. Mas, Senhor, quando digo que onde eu estiver desejo que os que me destes também estejam, não pretendo que não possam alcançar uma glória muito mais elevada que aquela que vos agradar conceder-me. Apenas quero que sejamos todos reunidos no vosso belo Céu. Sabeis, Deus meu, nunca desejei nada senão amar-vos, não almejo outra glória. Vosso amor preservou-me desde a minha infância, cresceu comigo e, agora, é um abismo cuja profundeza não posso avaliar. O amor atrai o amor, por isso, meu Jesus, o meu se lança para vós, queria encher o abismo que o atrai, mas ai! não é nem uma gota de orvalho perdida no oceano!... Para amar-vos como me amais, preciso tomar de empréstimo o vosso próprio amor, só então encontro o repouso. Ó meu Jesus, talvez seja uma ilusão, mas parece-me que não podeis encher uma alma com mais amor do que o que me destes. É por isso que ouso pedir-vos para amar os que me destes como amastes a mim mesma. Um dia, no Céu, se eu descobrir que os amais mais do que a mim, regozijar-me-ei, reconhecendo desde agora que essas almas merecem muito mais que a minha o vosso amor. Mas na terra não posso conceber amor maior que aquele que vos dignastes prodigalizar-me gratuitamente, sem mérito algum da minha parte.

Madre querida, enfim, volto para vós, toda espantada pelo que acabo de escrever, pois não era minha intenção. Mas, como está escrito, tem de ficar. Antes de voltar à história dos meus irmãos, quero vos dizer, Madre, que não aplico a eles, mas às minhas irmãzinhas, as primeiras palavras tomadas de empréstimo ao Evangelho: Comuniquei-lhes as palavras que me comunicastes etc., pois não me sinto capaz de instruir os missionários, felizmente não sou bastante orgulhosa ainda para tanto! Nem teria sido capaz de dar alguns conselhos às minhas irmãs, se vós, Madre, que representais Deus para mim, não me tivésseis dado graça para isso.

Ao contrário, era nos vossos filhos espirituais, meus irmãos, que eu pensava ao escrever essas palavras de Jesus e as que seguem: "Não vos peço para retirá-los do mundo... rogo ainda para os que acreditarão em vós pelo que ouvirão dizer". Como, de facto, não poderia rezar pelas almas que salvarão em suas missões longínquas pelo sofrimento e pela pregação?

Madre, creio ser necessário dar-vos mais algumas explicações referentes à passagem do Cântico dos Cânticos: "Atraí-me, corramos". O que disse me parece pouco compreensível. "Ninguém", disse Jesus, "pode vir a mim, se meu Pai que me enviou não o atrair". Depois, por meio de parábolas sublimes e, muitas vezes, sem mesmo usar desse meio tão familiar ao povo, Ele nos ensina que basta bater para que se abra, procurar para encontrar e estender humildemente a mão para receber o que se pede... Acrescenta que tudo o que se pedir a seu Pai, em seu nome, Ele o concede. É por isso sem dúvida que o Espírito Santo, antes do nascimento de Jesus, ditou essa oração profética: Atraí-me, corramos.

O que é pedir para ser atraído, senão unir-se de maneira íntima ao objecto que cativa o coração? Se o fogo e o ferro tivessem raciocínio, que este último dissesse ao outro: Atraí -me, não provaria que deseja identificar-se com o fogo de maneira que o penetre e o impregne da sua ardente substância e passe a fazer um só com ele? Madre querida, eis a minha oração: peço a Jesus que me atraia às chamas do seu amor, que me una tão estreitamente a Ele, que seja Ele quem viva e aja em mim. Sinto que quanto mais o fogo do amor abrasar meu coração, mais repetirei: "Atraí-me". Mais as almas se aproximarem de mim (pobres pequenos escombros de ferro inúteis, se eu fosse afastada do braseiro divino), mais rápido correrão em direção ao odor dos perfumes do seu Bem-amado, pois uma alma abrasada de amor não pode permanecer inactiva. Sem dúvida, como santa Madalena, fica aos pés de Jesus, escuta suas palavras suaves e calorosas. Parecendo nada dar, dá muito mais que Marta, que se atormenta a respeito de muitas coisas e gostaria que sua irmã a imitasse. Não são os afazeres de Marta que Jesus censura, esses trabalhos, sua divina Mãe submeteu-se humildemente a eles a vida toda, pois cabia a ela preparar as refeições da Sagrada Família. É apenas a inquietação de sua dedicada anfitriã que Ele quer corrigir. Todos os santos compreenderam isso e, mais particularmente, talvez, os que iluminaram o universo com a doutrina evangélica. Não foi na oração que os santos Paulo, Agostinho, João da Cruz, Tomás de Aquino, Francisco, Domingos e tantos outros ilustres amigos de Deus foram encontrar essa ciência divina que encanta os maiores gênios? Um cientista disse: "Dêem-me uma alavanca, um ponto de apoio, e levantarei o mundo". O que Arquimedes não conseguiu obter, porque seu pedido não foi feito a Deus e era feito só do ponto de vista material, os santos o obtiveram em toda a sua plenitude. O Todo-Poderoso deu-lhes como ponto de apoio: Ele próprio e só Ele. Como alavanca: a oração que abrasa pelo fogo do amor. Foi com isso que ergueram o mundo. É com isso que os santos que ainda militam o erguem. Até o final dos séculos, será com isso também que os santos que vierem haverão de erguê-lo.

Madre querida, quero falar-vos agora do que entendo por odor dos perfumes do Bem-amado. Como Jesus voltou ao Céu, só posso segui-Lo pelas pistas que deixou. Como são luminosas essas pistas, como são perfumadas! Basta lançar o olhar nos santos Evangelhos, que logo respiro os perfumes da vida de Jesus e sei a que lado me dirigir.... Não para o primeiro lugar que vou, mas para o último. Em vez de avançar com o fariseu, repito, cheia de confiança, a humilde oração do publicano e, sobretudo, imito o comportamento de Madalena, seu espantoso, ou melhor, seu amoroso atrevimento, que encanta o Coração de Jesus, conquista o meu. Sinto-o. Mesmo que eu tivesse na consciência todos os pecados que se possa cometer, iria, com o coração dilacerado pelo arrependimento, lançar-me nos braços de Jesus, pois sei o quanto ama o filho pródigo que volta para Ele. Não é porque Deus, na sua obsequiosa misericórdia, preservou minha alma do pecado mortal que me elevo para Ele pela confiança e pelo amor.



15/11/2014

Evangelho diário, coment. L. Esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXXII Semana

Santo Alberto Magno - Doutor da Igreja

Evangelho: Lc 18 1-8

1 Disse-lhes também uma parábola, para mostrar que importa orar sempre e não cessar de o fazer: 2 «Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. 3 Havia também na mesma cidade uma viúva, que ia ter com ele, dizendo: Faz-me justiça contra o meu adversário. 4 Ele, durante muito tempo, não a quis atender. Mas, depois disse consigo: Ainda que eu não tema a Deus nem respeite os homens, 5 todavia, visto que esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça, para que não venha continuamente importunar-me». 6 Então o Senhor acrescentou: «Ouvi o que diz este juiz iníquo. 7 E Deus não fará justiça aos Seus escolhidos, que a Ele clamam dia e noite, e tardará em socorrê-los? 8 Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Mas, quando vier o Filho do Homem, julgais vós que encontrará fé sobre a terra?».

Comentário:

Sejam quais forem as circunstâncias mesmo as mais adversas, ou as 'pressões' que sintamos não devemos, nunca, desistir da oração.
A nossa confiança pode sofrer duras provas ao ponto de a enfraquecer, mas se estivermos bem seguros que o Senhor sempre nos ouve, havemos de continuar a pedir sem descanso o que julgamos necessitar. 

(ama, comentário sobre Lc 18, 45-53 2013.10.18)
 

Leitura espiritual




HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

MANUSCRITO ENDEREÇADO A MADRE MARIA DE GONZAGA

…/3

Madre querida, contei-vos meu último meio para não ser vencida nos combates: a deserção. Esse meio, empreguei-o durante meu noviciado e sempre deu ótimos resultados. Quero, Madre, citar um exemplo que, creio, vos levará a sorrir. Durante um dos vossos ataques de bronquite, fui uma manhã, de mansinho, entregar-vos as chaves da grade de comunhão, pois eu era sacristã. No fundo, não me desagradava ter essa ocasião de vos ver, estava até muito contente, mas evitava deixar transparecê-lo. Uma irmã, animada por um santo zelo e que, todavia, gostava muito de mim, vendo-me entrar em vossos aposentos, pensou que eu ia vos acordar. Quis tomar de mim as chaves, mas eu era bastante esperta para não entregá-las a ela e ceder-lhe meus direitos. Disse-lhe, com as melhores maneiras, que eu cuidava tanto quanto ela de não vos acordar, mas que cabia a mim entregar as chaves... Agora compreendo que teria sido mais perfeito ceder diante dessa irmã, jovem, é verdade, mas mais antiga que eu. Naquele tempo, não o compreendia. Querendo de todo jeito entrar atrás dela, que empurrava a porta para me impedir de passar, provocamos o que não queríamos: o barulho vos acordou... Então, Madre, tudo recaiu sobre mim. A pobre irmã a quem resisti iniciou um discurso parecido com este: Foi Irmã Teresa do Menino Jesus quem fez barulho... como ela é desagradável... etc. Eu, por acreditar no contrário, fiquei com vontade de defender-me; felizmente, veio-me uma idéia brilhante. Pensei que se eu começasse a justificar-me não conseguiria, certamente, manter a paz da alma; sentia também que não tinha virtude suficiente para me deixar acusar sem reagir. Minha última tábua de salvação foi a fuga. Dito e feito. Saí em surdina, deixando a irmã continuar seu discurso, que parecia com as imprecações de Camilo contra Roma. Meu coração batia com tanta força que não pude ir longe e sentei-me num degrau da escada para saborear em paz os frutos da minha vitória. Não havia bravura nisso, não é verdade, querida Madre? Acredito, porém, que mais vale não se expor à luta quando a derrota é certa. Ai! quando recordo o tempo do meu noviciado, como percebo o quanto eu era imperfeita... Atormentava-me com tão pouca coisa que hoje rio disso. Ah! como o Senhor é bom por ter feito crescer a minha alma, por ter-lhe dado asas... Todas as redes dos caçadores não poderiam me atemorizar pois "em vão se lança a rede diante dos olhos dos que têm asas". Futuramente, sem dúvida, o tempo actual parecer-me-á ainda cheio de imperfeição, mas agora não me espanto com nada, não fico triste por constatar que sou a própria fraqueza, pelo contrário, é nela que me glorifico e espero cada dia descobrir em mim novas imperfeições. Lembrando-me de que a Caridade estende um véu sobre uma multidão de pecados, abasteço-me nessa mina fecunda que Jesus abriu diante de mim. No Evangelho, o Senhor explica em que consiste seu mandamento novo. Diz, em são Mateus: "Ouvistes o que foi dito: `Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo'. Eu, porém, digo-vos: `Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem`. No Carmelo, sem dúvida, não encontramos inimigos, mas há simpatias, sentimos atração por tal irmã enquanto tal outra nos levaria a dar uma longa volta a fim de não encontrar com ela. Sem que se perceba, ela passa a ser objeto de perseguição. Mas Jesus me diz que essa irmã deve ser amada, que se deve rezar por ela, mesmo que seu comportamento me leve a crer que ela não me ama"'. "Se amardes os que vos amam, que merecimento vos é devido? Pois os próprios pecadores amam os que os amam". Não basta amar, é preciso dar provas desse amor. Temos naturalmente prazer em dar presente a um amigo, gosta-se, especialmente, de causar surpresa; mas isso não é caridade pois os pecadores também agem assim. Eis o que Jesus me ensina ainda: "Dá a todo aquele que te pede, e ao que leva o que é teu não lho reclames". Dar a todas aquelas que vos pedem é menos agradável do que oferecer segundo a inclinação do coração; se bem que, quando se pede com gentileza, não custa dar. Porém, se por acaso não se usam palavras delicadas, a alma revolta-se logo caso não seja firmada na caridade. Encontra mil motivos para recusar o que lhe é pedido e só depois de ter convencido a solicitante da sua indelicadeza lhe dá, finalmente e por favor, o que ela deseja, ou lhe presta um leve serviço que teria exigido vinte vezes menos tempo do que foi preciso para exigir direitos imaginários. Se é tão difícil dar a quem quer que peça, é ainda mais difícil deixar levar se pedir de volta. ó Madre, digo que é difícil, deveria dizer que aquilo parece difícil, pois o jugo do Senhor é suave e leve quando aceito, sente-se logo sua doçura e exclama-se com o salmista: "Corri pelo caminho dos vossos mandamentos desde que me dilatastes o coração". Só a caridade pode dilatar o meu coração, ó Jesus. Desde que essa doce chama o consome, corro alegre na via do vosso mandamento novo... Quero correr nela até o dia bem-aventurado em que, unindo-me ao séquito virginal, poderei seguir-vos pelos espaços infinitos, cantando vosso cântico novo que deve ser o do Amor.

Dizia: Jesus não quer que eu reclame o que me pertence; isso deveria parecer-me fácil e natural pois nada me pertence. Renunciei aos bens da terra pelo voto de pobreza, portanto não tenho o direito de queixar-me quando me tiram uma coisa que não me pertence; pelo contrário, devo alegrar-me quando me acontece sentir a pobreza. Houve um tempo em que eu tinha a impressão de não estar apegada a nada, mas depois que entendi as palavras de Jesus vejo que sou muito imperfeita em certas ocasiões. Por exemplo, no serviço da pintura, nada é meu; mas se ao iniciar o trabalho vejo que pincéis e tintas estão fora do lugar, que uma régua ou um canivete sumiram, a paciência ameaça abandona-me e preciso apelar para muita coragem para não reclamar contrariada os objetos que me faltam. É preciso, às vezes, pedir as coisas indispensáveis, mas ao fazê-lo humildemente não pecamos contra o mandamento de Jesus; pelo contrário, agimos como os pobres"-' que estendem a mão para receber o que lhes é necessário. Se são repelidos, não se espantam, ninguém lhes deve coisa alguma. Ah! como a paz inunda a alma quando ela se eleva acima dos sentimentos da natureza... Não há alegria comparável à do pobre de espírito. Se pede corri desapego uma coisa que lhe é necessária e que não apenas lhe é recusada, mas se toma até aquilo que ele possui, segue o conselho de Jesus: "E a quem quiser citar-te em juízo para te tirar a túnica, deixa-lhe também o manto..." Deixar o manto, parece-me, é renunciar aos últimos direitos, é considerar-se como a serva, a escrava das outras. Quando se abandonou o manto, é mais fácil andar, correr, por isso Jesus acrescenta: "E, se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas". Portanto, não é suficiente dar a quem me pede, é preciso antecipar-se a seus desejos, parecer muito grata e muito honrada em prestar serviço, e quando se toma alguma coisa de meu uso não devo parecer sentir falta dela mas, pelo contrário, parecer feliz por ficar livre dela.

Madre querida, estou longe de praticar o que entendo, mas o desejo que tenho de praticar é suficiente para me dar a paz.

Ainda mais do que nos outros dias, sinto que me expressei mal. Fiz uma espécie de discurso sobre a caridade cuja leitura deve ter-vos cansado. Perdoai-me, Madre querida, e pensai que, neste momento, as enfermeiras estão fazendo para mim o que acabo de escrever. Não se incomodam em dar vinte mil passos onde vinte seriam suficientes. Pude, portanto, contemplar a caridade em ação! Sem dúvida, aquilo deve ter perfumado a minha alma, quanto à minha mente, confesso que ficou um pouco paralisada perante tal dedicação e minha pena perdeu a leveza. Para poder expressar meus pensamentos, preciso estar como o pássaro solitário no telhado, e isso me acontece raramente. Quando pego a pena para escrever, eis que uma boa irmã passa perto de mim, com o forcado no ombro. Pensa distrair-me conversando um pouco comigo. Feno, patos, galinhas, visita do médico, tudo é assunto de conversa. Na verdade, isso não se alonga, mas há mais de unia irmã caridosa e, de repente, outra jardineira coloca flores no meu colo, pensando, talvez, inspirar-me idéias poéticas. Como não as procuro neste momento, preferia que as flores ficassem a se balançar nos galhos. Enfim, cansada de abrir e fechar este famoso caderno, abro um livro que não quer ficar aberto e digo firmemente que copio pensamentos dos salmos e do Evangelho para a festa da nossa Madre. Não deixa de ser parcialmente verdade, pois não economizo as citações... Madre querida, creio que eu vos divertiria se vos contasse todas as minhas aventuras nos bosques do Carmelo. Não sei se consegui escrever dez linhas sem ter sido interrompida. Isso não deveria levar-me a rir, nem a me divertir, porém, pelo amor de Deus e das minhas irmãs (tão caridosas para comigo), procuro assumir um ar de contentamento e, sobretudo, ficar contente...

Olhe! eis uma jardineira que se afasta depois de me ter dito num tom compassivo: "Pobre irmãzinha, deveis cansar escrevendo assim o dia todo". "Fiqueis tranquila", respondi, "parece que escrevo muito, mas na verdade escrevo quase nada." "Ainda bem", disse-me com ar tranquilizado, "mas estou muito contente por estarmos recolhendo o feno, isso vos distrai um pouco." De facto, é uma distração tão grande para mim (sem contar as visitas das enfermeiras), que não minto quando digo escrever quase nada.

Felizmente, não desanimo com facilidade. Para comprová-lo, Madre, vou acabar de explicar o que Jesus me fez entender a respeito da caridade. Até agora, só vos falei do exterior, mas gostaria de vos relatar como entendo a caridade puramente espiritual. Tenho certeza de que logo vou misturar as duas, mas, Madre, sendo a vós que falo, estou certa de que não vos será difícil captar meu pensamento e desembaraçar a meada da vossa filha.

Nem sempre é possível, no Carmelo, praticar ao pé da letra as palavras do Evangelho. Devido ao ofício de cada uma, alguém se vê obrigada, às vezes, a recusar uma prestação de serviço. Mas quando a caridade deitou raízes profundas na alma ela se manifesta no exterior. Existe um modo tão gracioso de recusar o que não se pode dar que a recusa agrada tanto quanto a dádiva. É verdade que nos constrangemos menos em pedir um serviço a uma irmã sempre disposta a agradar, mas Jesus disse: "Não voltes as costas a quem te pede emprestado". Assim, com o pretexto de que seríamos obrigadas a recusar, não devemos nos afastar das irmãs que têm o hábito de pedir serviços. Não se deve, tampouco, ser oferecido enquanto interesse, na esperança de uma retribuição futura, pois Nosso Senhor disse: "E, se emprestardes àqueles de quem esperais receber, que merecimento vos é devido? Também os pecadores emprestam aos pecadores, a fim de receberem o equivalente. Mas vós, amai os vossos inimigos e fazei-lhes bem, e emprestai sem nada esperar em troca e vossa recompensa será grande". Oh, sim! a recompensa é grande desde a terra... nessa via, só o primeiro passo custa. Emprestai sem nada esperar, isso parece duro para a natureza, prefere-se dar, pois uma vez dada a coisa não nos pertence mais. Quando vos dizem, com ar totalmente convencido: "Irmã, preciso da vossa ajuda por algumas horas, mas fiqueis tranquila pois tenho a autorização da nossa Madre e vos retribuirei o tempo que me derdes, pois sei o quanto estais atarefada". Na verdade, quando se sabe muito bem que o tempo que emprestamos não será restituído, preferiríamos responder: "Dou-vos esse tempo". Isso satisfaria ao amor-próprio, pois dar é ato mais generoso que emprestar e fazemos sentir à irmã que não esperamos retribuição... Ah! como os ensinamentos de Jesus são contrários aos sentimentos da natureza. Sem a ajuda da sua graça, seria impossível não apenas praticá-los, mas compreendê-los.

Madre, Jesus concedeu à vossa filha a graça de fazê-la penetrar as misteriosas profundezas da caridade; se ela pudesse expressar o que entende, ouviríeis uma melodia do Céu, mas ai! só tenho balbucios a vos oferecer... Se as próprias palavras de Jesus não me servissem de apoio, ficaria tentada a vos pedir clemência e abandonar a pena... Mas preciso prosseguir, por obediência, o que comecei por obediência.

Madre querida, ontem, a respeito dos bens da terra, escrevia que, por não serem meus, não deveria achar difícil nunca reclamar por eles caso me fossem tirados. Os bens do Céu tampouco me pertencem, são emprestados por Deus, que pode tirá-los de mim sem que eu tenha direito de queixa. Porém, os bens que vêm directamente de Deus, os impulsos da inteligência e do coração, os pensamentos profundos, tudo isso forma uma riqueza à qual nos apegamos como se fosse um bem próprio no qual ninguém tem o direito de tocar... Por exemplo, se comunicamos a uma irmã alguma ideia que nos veio durante a oração e, pouco depois, essa mesma irmã fala a uma outra como se aquela ideia fosse dela, parece que toma o que não é seu. Ou, no recreio, diz-se baixinho a uma companheira uma palavra espirituosa e bem apropriada; se ela a repete em voz alta sem indicar a origem, isso parece um furto à proprietária, que não reclama, mas fica com muita vontade de fazê-lo e aproveitará a primeira ocasião para fazer saber, delicadamente, que alguém se apossou das suas palavras.

Madre, eu não poderia explicar-vos tão bem esses tristes sentimentos da natureza, se os não tivesse sentido em meu coração, e gostaria de acalentar a doce ilusão de que só aconteceram comigo se não me tivésseis ordenado ouvir as tentações das vossas queridas novicinhas. Sempre aprendi cumprindo a missão que me confiastes, sobretudo vi-me forçada a praticar o que eu ensinava. Por isso, agora, posso dizer que Jesus me deu a graça de não ser mais apegada aos bens do espírito e do coração que aos da terra. Quando me acontece pensar e_dizer uma coisa que agrada às minhas irmãs, acho natural que se apropriem dela como sendo um bem que lhes pertence. Esse pensamento pertence ao Espírito Santo, não a mim, pois são Paulo disse que, sem esse Espírito de Amor, não podemos chamar de "Pai", a nosso Pai que está nos Céus. Portanto, Ele é livre para servir-se de mim para dar um bom pensamento a uma alma. Se eu julgasse que esse pensamento me pertence, seria como "o burro que transportava relíquias" e acreditava que as homenagens prestadas aos santos dirigiam-se a ele.

Não desprezo os pensamentos profundos que alimentam a alma e a unem a Deus, mas compreendi há muito tempo que não devemos nos apoiar neles nem achar que a perfeição consiste em receber muitas luzes. Os mais belos pensamentos nada são sem as obras. É verdade que outras pessoas podem tirar deles muito proveito se, com humildade, manifestam a Deus sua gratidão por lhes permitir participar do banquete de uma alma que Ele gosta de enriquecer. Mas se essa alma se compraz em seus belos pensamentos, e faz a oração do fariseu, torna-se parecida com uma pessoa que morre de fome diante de uma mesa cheia enquanto todos os seus convidados se fartam e, às vezes, lançam um olhar de inveja sobre o dono de tantas riquezas. Ah! só Deus mesmo para conhecer o fundo dos corações... como as criaturas têm pensamentos pequenos!... Quando descobrem uma alma mais esclarecida que as outras, concluem logo que Jesus as ama menos que a essa alma e que não podem ser chamadas para a mesma perfeição. Desde quando o Senhor perdeu o direito de servir-se de uma das suas criaturas para distribuir às almas que ama o alimento necessário a elas? No tempo dos faraós, o Senhor ainda possuía esse direito, pois na sagrada escritura Ele diz a esse monarca: "Conservei-te com vida para mostrar-te o meu poder e para que meu nome seja celebrado em toda a terra". Os séculos sucederam aos séculos desde que o Altíssimo pronunciou essas palavras e, desde então, seu comportamento não mudou, serviu-se sempre das suas criaturas como instrumentos para realizar sua obra nas almas.

Se a tela pintada por um artista pudesse pensar e falar, certamente não se queixaria por ser retocada sempre por um pincel e não teria inveja da sorte desse instrumento, pois saberia que não é ao pincel, mas ao pintor que o dirige, que ela deve a beleza que a cobre. Por seu lado, o pincel não poderia glorificar-se com a obra-prima feita por ele, sabe que os artistas não se apertam, que zombam das dificuldades, que gostam, às vezes, de usar instrumentos vis e defeituosos...

Madre querida, sou um pincelzinho que Jesus escolheu para pintar sua imagem nas almas que me confiastes. Um artista não se restringe a um pincel, precisa, pelo menos, de dois. O primeiro é o mais útil, é com ele que imprime as tonalidades mais gerais, que cobre completamente a tela em muito pouco tempo; o outro, o menor, serve para os detalhes.

A primeira vez que Jesus se serviu do seu pincelzinho foi por volta de 8 de Dezembro de 1892. Lembrar-me-ei sempre dessa época como de um tempo de graças. Vou, querida Madre, confiar-vos essas doces recordações.

Aos 15 anos, quando tive a felicidade de ingressar no Carmelo, encontrei uma companheira de noviciado que me tinha precedido alguns meses. Era oito anos mais velha que eu, mas seu caráter infantil fazia esquecer a diferença dos anos; por isso, tivestes, Madre, a alegria de ver vossas duas pequenas postulantes entenderem-se maravilhosamente e tornarem-se inseparáveis. A fim de favorecer essa afeição nascente, que vos parecia promissora de bons frutos, permitistes que tivéssemos, de tempos em tempos, breves conversas espirituais. Minha querida companheirinha encantava-me com sua inocência, seu caráter expansivo, mas eu estranhava ao constatar que o afecto que tinha por vós era diferente do meu. Havia muitas outras coisas em seu comportamento com as irmãs que eu desejava que ela mudasse... Desde aquele tempo, Deus fez-me compreender haver almas que sua misericórdia espera sem cansar, às quais dá sua luz aos poucos. Por isso, eu tinha o cuidado de não apressar sua hora e esperava pacientemente que Jesus a fizesse chegar.

Reflectindo sobre a permissão concedida para nos entreter, de acordo com as nossas santas constituições, para nos inflamar mais no amor por nosso Esposo, pensei com pesar que nossas conversas não alcançavam a meta desejada. Deus fez-me sentir, então, que chegara o momento em que eu devia falar ou encerrar essas conversações que mais se pareciam com as das amigas do mundo. Era um sábado. No dia seguinte, durante minha acção de graças, pedi a Deus para que pusesse em minha boca palavras suaves e convincentes, ou melhor, que Ele mesmo falasse por meu intermédio. Jesus atendeu ao meu pedido e permitiu que o resultado correspondesse inteiramente à minha expectativa, pois: "olhai para ele e sereis esclarecidos" e "brilha para os retos, qual farol nas trevas, o Benigno, o Misericordioso e o Justo". A primeira citação dirige-se a mim e a segunda à minha companheira que, na verdade, tinha o coração recto...

(cont)




14/11/2014

Ev. diário, coment. L. Esp. (História de uma alma)

Tempo comum XXXII Semana
Evangelho: Lc 17 26-37

22 Depois disse aos Seus discípulos: «Virá tempo em que desejareis ver um só dos dias do Filho do Homem e não o vereis. 23 E vos dirão: Ei-lo aqui, ou ei-lo acolá. Não vades, nem os sigais. 24 Porque, assim como o clarão brilhante de um relâmpago ilumina o céu de uma extremidade à outra, assim será o Filho do Homem no Seu dia. 25 Mas primeiro é necessário que Ele sofra muito e seja rejeitado por esta geração. 26 Como sucedeu nos dias de Noé, assim sucederá também quando vier o Filho do Homem .27 Comiam e bebiam, tomavam mulher e marido, até ao dia em que Noé entrou na arca; e veio o dilúvio, que exterminou a todos. 28 Como sucedeu também no tempo de Lot; comiam e bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; 29 mas, no dia em que Lot saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu, que exterminou a todos. 30 Assim será no dia em que se manifestar o Filho do Homem. 31 Nesse dia quem estiver no terraço e tiver os seus móveis em casa, não desça a tomá-los; da mesma sorte, quem estiver no campo, não volte atrás. 32 Lembrai-vos da mulher de Lot. 33 Quem procurar salvar a sua vida, perdê-la-á; quem a perder, salvá-la-á. 34 Eu vos digo: Nessa noite, de duas pessoas que estiverem num leito, uma será tomada e a outra deixada. 35 Duas mulheres estarão a moer juntas, uma será tomada e a outra deixada!». 36 Omitido na Neo-Vulgata. 37 Os discípulos disseram-Lhe: «Onde será isso, Senhor?». Ele respondeu-lhes: «Onde quer que estiver o corpo, juntar-se-ão aí também as águias».

Comentário

Os avisos de Jesus Cristo sobre o final da vida – e o que nos interessa é o que nos diz respeito: a nossa morte – são claríssimos e absolutamente compreensíveis por todos já que ninguém pode ter a certeza nem do dia nem do momento em que será chamado a prestar contas.
Interessa estar preparado e ‘as contas’ arrumadas e prontas a entregar. Esta é a grande verdade e a preocupação que, sem ter medo da morte, nos deve manter alerta e vigilantes.
Como será? Quando? Pouco importa, aliás, é melhor que não o saibamos se assim não fosse talvez cedêssemos à tentação de pensar e agir como se houvesse tempo para uma derradeira ‘preparação’.

(ama, comentário sobre Lc 17 22-37, 2014.10.06)

Leitura espiritual


HISTÓRIA DE UMA ALMA

Santa Teresinha do Menino Jesus

MANUSCRITO ENDEREÇADO A MADRE MARIA DE GONZAGA

…/2

Madre querida, estou muito assustada vendo o que vos escrevi ontem. Que garranchos!... minha mão tremia tanto que me foi impossível prosseguir e agora até me arrependo por ter tentado escrever, espero hoje escrever de forma mais legível, pois não estou mais na cama, mas numa bonita poltrona branquinha.
Oh Madre! sinto que tudo o que vos digo não tem ordem, mas sinto também a necessidade de, antes de vos falar do passado, falar-vos dos meus actuais sentimentos. Se adiar, perderei, talvez, a lembrança deles. Quero dizer-vos, inicialmente, o quanto estou comovida por vossas delicadezas maternas. Ah! acreditai, Madre querida, o coração da vossa filha está repleto de gratidão, nunca esquecerá o que vos deve...

Madre, o que mais me comove é a novena que estais fazendo para Nossa Senhora das Vitórias, as missas que mandais celebrar para minha cura. Sinto que todos esses tesouros espirituais fazem um bem imenso à minha alma. No início da novena, dizia-vos, Madre, que era preciso a Santíssima Virgem curar-me ou me levar para os Céus, pois achava muito triste para vós e para a comunidade ter o encargo de uma jovem religiosa doente; agora, aceito ficar doente a vida toda se isso for agradável a Deus e consinto, até, em que minha vida seja muito longa. A única graça que desejo é que ela seja interrompida pelo amor.

Não! não receio um vida longa, não recuso a luta, pois o Senhor é a rocha na qual estou erigida, ele é quem adestra minhas mãos para a liça e meus dedos para a guerra. Nunca pedi a Deus para morrer jovem, mas é verdade que sempre esperei que seja essa a vontade Dele. Muitas vezes, o Senhor contenta-se com o desejo de trabalhar para sua glória e sabeis, Madre, que meus desejos são muito grandes. Sabeis também que Jesus me ofereceu mais de um cálice amargo, que afastou dos meus lábios antes de eu bebê-lo, não sem antes me fazer provar seu amargor. Madre querida, o santo rei David tinha razão quando cantava: "Oh! como é belo, como é prazenteiro o convívio de muitos irmãos juntos!" Senti isso muitas vezes, mas é no meio dos sacrifícios que essa união deve acontecer na terra. Não foi para viver com minhas irmãs que vim para o Carmelo, foi unicamente para atender ao chamado de Jesus; ah! pressentia que seria um motivo de sofrimento contínuo viver com as próprias irmãs, quando não se quer conceder nada à natureza. Como se pode dizer ser mais perfeito afastar-se dos seus?... Já se censurou irmãos por combaterem no mesmo campo de batalha? Já os censuraram por colher juntos a palma do martírio?... Julgou-se, sem dúvida e com razão, que eles se animavam mutuamente; mas o martírio de cada um passava a ser o de todos. Assim é na vida religiosa, que os teólogos chamam de martírio. Ao dar-se a Deus, o coração não perde sua natural ternura, pelo contrário, essa ternura cresce ao tornar-se mais pura e mais divina.

Madre querida, é com essa ternura que vos amo, que amo minhas irmãs; estou feliz por combater em família para a glória do Rei dos Céus, mas estou disposta também a voar para outro campo de batalha se o Divino General me manifestar o desejo. Não haveria necessidade de uma ordem, bastaria um olhar, um simples sinal.

Desde meu ingresso na arca abençoada, sempre pensei que se Jesus não me levasse logo para o Céu o destino da pombinha de Noé seria o meu. Que um dia o Senhor abriria a janela da arca e me mandaria voar para muito longe, para praias infiéis, levando comigo o raminho de oliveira. Madre, esse pensamento fez crescer minha alma, fez-me planar acima de todo o criado. Compreendi que até no Carmelo poderia haver separações, que só no Céu a união seria completa e eterna. Quis, então, que minha alma morasse nos Céus, que só olhasse de longe as coisas da terra. Não só aceitei exilar-me no meio de um povo desconhecido, mas, o que me era muito mais amargo, aceitei o exílio para minhas irmãs. Nunca me esquecerei de 2 de Agosto de 1896. Naquele dia, o da partida dos missionários, falou-se seriamente da [partida] de Madre Inês de Jesus. Ah! não queria fazer um só gesto para impedi-la de partir; embora sentisse uma grande tristeza em meu coração, achava que sua alma tão sensível, tão delicada, não era feita para viver no meio de almas que não saberiam compreendê-la. Mil outros pensamentos acorriam numerosos ao meu espírito e Jesus permanecia calado, não dava ordens à tempestade... Eu lhe dizia: Meu Deus, por amor a vós, aceito tudo; se o quiserdes, posso morrer de tristeza. Jesus contentou-se com a aceitação, mas alguns meses depois falou-se da partida de Irmã Genoveva e de Irmã Maria da Trindade. Foi então outro tipo de sofrimento, muito íntimo, muito profundo. Imaginava todas as provações, todos os sofrimentos que elas teriam de encontrar. Enfim, meu céu estava carregado de nuvens... só o fundo do meu coração ficava no sossego e na paz.

Madre querida, vossa prudência soube descobrir a vontade de Deus e, em nome Dele, proibistes às vossas noviças de pensar agora em deixar o berço da infância religiosa. Mas compreendíeis as aspirações delas, sendo que vós mesma, Madre, havíeis pedido, na juventude, para ir para Saigão. É assim, muitas vezes, que o desejo das mães encontra eco na alma dos filhos. Ó Madre querida, vosso desejo apostólico encontra em minha alma um eco muito fiel, bem o sabeis. Deixai que vos confidencie o motivo de eu ter desejado e ainda desejar, caso a Santíssima Virgem me cure, trocar por uma terra estrangeira o delicioso oásis onde vivo tão feliz sob vosso olhar materno.

Madre, já me dissestes que para viver em Carmelos estrangeiros é preciso ter uma vocação toda especial. Muitas almas pensam ser chamadas sem o ser de fato. Dissestes-me também que eu tinha essa vocação e que só minha saúde era empecilho. Sei que esse obstáculo sumiria se Deus me chamasse para uma terra longínqua; portanto, vivo sem preocupações. Se eu precisar, um dia, deixar meu querido Carmelo, ah! não seria sem ferida, Jesus não me deu um coração insensível, mas é justamente por ser capaz de sofrer que desejo que ele dê a Jesus tudo o que pode dar. Aqui, Madre querida, vivo sem preocupação alguma com os cuidados da miserável terra. Só tenho de cumprir a suave e fácil missão que me confiastes. Aqui, estou suprida das vossas atenções maternas, não sinto a pobreza, nunca me faltou coisa alguma. Mas aqui, sobretudo, sou amada, de vós e de todas as irmãs, e esse afecto me é muito agradável. Eis por que sonho com um mosteiro onde não seria conhecida, onde teria de sofrer pobreza, falta de afecto, enfim, no exílio do coração.

Ah! não foi para prestar serviços ao Carmelo que quisesse receber-me que eu deixaria tudo o que me é caro; sem dúvida, faria tudo o que dependesse de mim, mas conheço minha incapacidade e sei que fazendo o melhor que eu puder não chegaria a fazer muito e bem, por não ter, como dizia há pouco, conhecimento algum das coisas da terra. Minha única finalidade seria cumprir a vontade de Deus, sacrificar-me por Ele da maneira que lhe fosse agradável.

Sinto que eu não teria decepção nenhuma, pois, quando se espera um sofrimento puro e sem mistura, a menor alegria torna-se uma surpresa e, vós o sabeis Madre, o próprio sofrimento passa a ser a maior das alegrias quando é buscado como o mais precioso dos tesouros.

Oh, não! não é para usufruir dos meus trabalhos que quero partir, se tal fosse minha finalidade, não sentiria essa doce paz que me inunda e até sofreria por não poder realizar a minha vocação para as missões longínquas. Há muito não me pertenço, entreguei-me totalmente a Jesus. Portanto, Ele é livre para fazer de mim o que quiser. Deu-me a atracção por um exílio completo, fez-me compreender todos os sofrimentos que eu encontraria, perguntou-me se estava pronta a esgotar o cálice da amargura. Quis tomar logo essa taça mas, puxando-a da minha mão, fez-me entender que a aceitação lhe era suficiente.

Ó Madre, de quantas dúvidas nos livramos pelo voto da obediência! Como as simples religiosas são felizes, tendo por única bússola a vontade das suas superioras, estão sempre seguras de estar no caminho certo, não receiam errar mesmo quando lhes parece óbvio que as superioras se enganam. Quando, porém, alguém pára de olhar para a bússola infalível, quando se afasta do caminho que ela aponta, sob pretexto de fazer a vontade de Deus que não está esclarecendo direito quem o representa, logo a alma se perde nos caminhos áridos onde a água da graça passa logo a fazer falta.

Madre querida, sois a bússola que Jesus me deu para levar-me seguramente ao porto eterno. Como me é agradável fixar em vós o meu olhar e cumprir a vontade do Senhor. Depois que Ele permitiu que eu sofresse tentações contra a fé, aumentou muito, em meu coração, o espírito de fé que me faz ver em vós, não apenas uma mãe que me ama e que amo, mas, sobretudo, que me faz ver em vossa alma o Jesus vivo que me comunica a sua vontade por vosso intermédio. Sei muito bem, Madre, que me tratais como alma fraca, menina mimada; por isso, não tenho dificuldade em carregar o fardo da obediência. Mas parece-me, pelo que sinto no fundo do meu coração, que eu não alteraria minha conduta e que meu amor por vós não sofreria diminuição alguma se preferísseis tratar-me severamente; pois ainda veria que se trata da vontade de Jesus que ajais assim para o maior bem da minha alma.

Este ano, Madre querida, Deus deu-me a graça de compreender o que é a caridade. Compreendia antes, mas de maneira imperfeita, não tinha aprofundado esta palavra de Jesus: "O segundo [mandamento] é semelhante a este: "Ama o teu próximo como a ti mesmo". Dedicava-me, sobretudo, a amar a Deus e foi amando-o que compreendi que não devia deixar que meu amor se traduzisse apenas em palavras, pois: "Nem todo o que me diz: `Senhor, Senhor', entrará no reino dos céus, mas o que faz a vontade de meu Pai que está nos céus". Essa vontade, Jesus a deu a conhecer muitas vezes, deveria dizer quase a cada página do seu Evangelho; mas na última ceia, quando sabe que o coração dos seus discípulos arde de maior amor por Ele que acaba de dar-se a eles no inefável mistério da sua Eucaristia, esse doce Salvador quer dar-lhes um novo mandamento. Diz-lhes com indizível ternura: "Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros; que, assim como eu vos amei, vós também vos ameis uns aos outros. E nisto precisamente todos reconhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros".

De que maneira Jesus amou seus discípulos e por que os amou? Ah! não eram suas qualidades naturais que podiam atraí-lo, havia entre eles e Ele uma distância infinita. Ele era a ciência, a Sabedoria Eterna; eles eram pobres pescadores ignorantes e cheios de pensamentos terrenos. Contudo, Jesus os chama de amigos, de irmãos, quer vê-los reinar com Ele no reino do seu Pai e, para abrir-lhes esse reino, quer morrer numa cruz, pois disse: Não há amor maior que dar a vida por quem se ama.

Madre querida, ao meditar essas palavras de Jesus, compreendi como era imperfeito o meu amor para com minhas irmãs, pois não as amava como Deus as ama. Ah! compreendo agora que a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, não se surpreender com suas fraquezas, edificar-se com os menores actos de virtude que os vemos praticar. Compreendi, sobretudo, que a caridade não deve ficar presa no fundo do coração. Ninguém, disse Jesus, acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, e assim alumia a quantos estão em casa. Parece-me que essa candeia representa a caridade que deve alumiar, alegrar, não só os que me são mais caros, mas todos os que estão em casa, sem exceptuar ninguém.

Quando o Senhor ordenou a seu povo que amasse o próximo, como a si mesmo, não tinha vindo ainda à terra. Mas, sabendo até que grau se ama a si mesmo, não podia pedir às suas criaturas amor maior para com o próximo. Quando Jesus deu a seus discípulos um mandamento novo, o Seu mandamento, como diz adiante, não é mais amar o próximo como a si mesmo que ele ordena, mas amá-lo como Ele, Jesus o amou, como o amará até o final dos séculos...

Ah, Senhor! sei que não ordenais nada impossível, conheceis minha fraqueza e minha imperfeição melhor do que eu mesma; bem sabeis que nunca poderei amar as minhas irmãs como vós as amastes, se vós mesmo, ó meu Jesus, não as amásseis em mim. É porque queríeis me conceder essa graça que fizestes um mandamento novo. Oh! como o amo, sendo que me dás a certeza de que vossa vontade é amar em mim todos aqueles que me ordenastes amar!...

Sinto que quando sou caridosa é só Jesus que age em mim; mais unida fico a Ele, mais amo todas as minhas irmãs. Quando quero aumentar em mim esse amor, quando o demónio, sobretudo, procura colocar perante os olhos da alma os defeitos de tal ou qual irmã que me é menos simpática, apresso-me em procurar ver suas virtudes, seus bons desejos. Penso que, se a vi cair uma vez, bem pode ter conseguido muitas vitórias que ela esconde por humildade, e que mesmo aquilo que para mim parece ser uma falta pode ser, devido à intenção, um ato de virtude. Não tenho dificuldade em acreditar, pois já fiz uma pequena experiência que me provou que não se deve julgar. Foi durante um recreio, a porteira deu dois toques, era preciso abrir a grande porta dos serviçais a fim de introduzir árvores destinadas ao presépio. O recreio não estava alegre, pois não estáveis aí, Madre querida, e, por isso, pensei que me seria agradável ser mandada para servir de terceira. Nesse momento, madre vice-priora disse-me que fosse, ou a irmã que estava a meu lado. Logo comecei a desatar o nosso avental, mas bem devagar, a fim de que minha companheira pudesse desatá-lo antes de mim, pois pensei agradar-lhe deixando-a ser terceira. A irmã que substituía a depositária observava-nos rindo e, vendo que me levantei por último, disse-me: Ah! bem que imaginei que não seria vós quem acrescentaríeis uma pérola à coroa, andáveis devagar demais...

Certamente, a comunidade toda pensou que eu tinha agido segundo a natureza. Não sei dizer como uma tão pequena coisa fez bem à minha alma e me tornou indulgente em relação às fraquezas dos outros. Isso me impede também de sentir vaidade quando sou julgada favoravelmente, pois digo a mim mesma: se meus pequenos atos de virtude são vistos como imperfeições, pode também haver engano e considerar-se como ato de virtude o que não passa de imperfeição. Então, digo com são Paulo: Bem pouco me importo em ser julgado por vós ou por um tribunal de homens, nem julgo a mim mesma; quem me julga é o Senhor. Assim, a fim de fazer com que esse julgamento me seja favorável, ou melhor, a fim de não ser julgada de forma alguma, quero ter sempre pensamentos caridosos, pois Jesus disse: Não julgueis e não sereis julgados.

Ao ler o que acabo de escrever, poderíeis, Madre, crer que a prática da caridade não me é difícil. É verdade que, desde alguns meses, não tenho mais de combater para praticar essa bela virtude. Não quero dizer com isso que nunca me acontece cair em faltas. Ah! sou imperfeita demais para evitar isso, mas não tenho muita dificuldade em me levantar quando caio, pois num certo combate alcancei a vitória e, por isso, a milícia celeste vem agora em meu socorro, não podendo aceitar ver-me vencida depois de ter sido vitoriosa na guerra gloriosa que vou procurar descrever.

Encontra-se na comunidade uma irmã que tem o dom de desagradar-me em tudo, suas maneiras, suas palavras, seu carácter eram-me muito desagradáveis, porém é uma santa religiosa que deve ser muito agradável a Deus. Não querendo entregar-me à antipatia natural que sentia, disse a mim mesma que a caridade não deveria assentar-se nos sentimentos, mas nas obras. Então, apliquei-me em fazer por essa irmã o que teria feito pela pessoa que mais amo. Cada vez que a encontrava, rezava por ela, oferecendo a Deus todas as suas virtudes e méritos. Sentia que isso agradava a Jesus, pois não há artista que não goste de receber elogios pelas suas obras, e Jesus, o artista das almas, fica feliz quando, em vez de olhar apenas o exterior, entramos no santuário íntimo que ele escolheu para morada e admiramos sua beleza. Não me restringia a rezar muito pela irmã que me levava a tantos combates, procurava prestar-lhe todos os serviços possíveis. Quando estava tentada a responder-lhe de modo desagradável, contentava-me em lhe dar meu mais agradável sorriso e procurava desviar a conversa, pois diz-se na Imitação que é melhor deixar cada um no seu sentimento que se entregar à contestação.

Muitas vezes também quando não estava no recreio (quero dizer, durante as horas de trabalho), tendo algum relacionamento de serviço com essa irmã, quando os combates se faziam violentos demais, fugia como desertora. Como ela ignorava completamente o que eu sentia por ela, nunca suspeitou os motivos do meu comportamento e está persuadida de que o carácter dela me é agradável. Um dia, no recreio, disse-me, aproximadamente, as seguintes palavras com ar contentíssimo: "Aceitaríeis dizer-me, Irmã Teresa do Menino Jesus, o que tanto vos atrai em mim, pois cada vez que me olhais vejo-vos sorrir?" Ah! o que me atraía era Jesus oculto no fundo da alma dela... Jesus que torna suave o que é amargo... Respondi que sorria por estar contente em vê-la (obviamente não acrescentei que era do ponto de vista espiritual).

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