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14/12/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo de Advento

São João da Cruz – Doutor da Igreja

Evangelho: Mt 21, 23-27

23 Tendo ido ao templo, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo aproximaram-se d'Ele, quando estava a ensinar, e disseram-Lhe: «Com que autoridade fazes estas coisas? E quem Te deu tal direito?». 24 Jesus respondeu-lhes: «Também Eu vos farei uma pergunta; se Me responderdes, Eu vos direi com que direito faço estas coisas. 25 Donde era o baptismo de João? Do céu ou dos homens?». Mas eles reflectiam consigo: 26 «Se Lhe dissermos que é do céu, Ele dirá: “Então porque não crestes nele?”. Se Lhe dissermos que é dos homens, tememos o povo»; porque todos tinham João como um profeta. 27 Portanto, responderam a Jesus: «Não sabemos». Ele disse-lhes também: «Pois então nem Eu vos digo com que autoridade faço estas coisas».

Comentário:

Ensinar é um privilégio de quem tem sabedoria e ninguém pode outorgar-se esse exclusivo além de que nunca se sabe o suficiente para ensinar tudo.

O mestre é antes de mais aquele que tendo pessoalmente comprovado o que aprendeu sabe que é certo e correcto o que ensina e age com humildade de quem transmite a outros o que recebeu.

(ama, comentário sobre Mt 21 23-27, 2014.12.15)

Leitura espiritual


Santificação do trabalho quotidiano

O que é "Santificar o trabalho"?

Dizia São Josemaria que o espírito do Opus Dei recolhe a realidade formosíssima de que qualquer tarefa digna e humanamente nobre, pode converter-se num trabalho divino. 

"Homens e mulheres que trabalham apenas com horizontes terrenos, de duas dimensões, entusiasmam-se ao saber que o seu trabalho profissional pode adquirir uma dimensão transcendente". A vida de muitas pessoas deu uma volta ao conhecerem esta doutrina e, por vezes, por ouvirem falar de santificação do trabalho. Homens e mulheres que trabalham só com horizontes terrenos, de duas dimensões, entusiasmam-se ao saber que o seu trabalho profissional pode adquirir uma dimensão transcendente, com relevo de vida eterna. Como não pensar no gozo daquele personagem do Evangelho que ao encontrar um tesouro escondido num campo, foi e vendeu tudo o que tinha para comprar aquele campo? 1

O Espírito Santo fez descobrir a São Josemaria este tesouro na doutrina do Evangelho, especialmente nos longos anos da vida de Jesus em Nazaré, anos de sombra, mas para nós claros como a luz do sol 2, porque esses anos ocultos do Senhor não são algo sem significado, nem uma simples preparação dos anos que viriam depois, os da Sua vida pública. Desde 1928 compreendi claramente que Deus deseja que os cristãos tomem exemplo de toda a vida do Senhor. Entendi especialmente a Sua vida escondida, a Sua vida de trabalho corrente no meio dos homens 3.

"O trabalho é ocasião de desenvolvimento da própria personalidade, vínculo de união com os outros seres".
Graças à luz de Deus, o Fundador do Opus Dei ensinou constantemente que o trabalho profissional é realidade santificável e santificadora. Verdade simples e grandiosa que o Magistério da Igreja ensinou sobretudo a partir do Concilio Vaticano II 4 e recolheu depois no Catecismo, assinalando que «o trabalho pode ser um meio de santificação e de animação das realidades terrenas no Espírito de Cristo» 5.

«Com sobrenatural intuição» – afirmou João Paulo II – «o Beato Josemaria pregou incansavelmente a chamada universal à santidade e ao apostolado. Cristo convoca todos a santificarem-se na realidade da vida quotidiana; por isso, o trabalho é também meio de santificação pessoal e de apostolado quando se vive em união com Jesus Cristo» 6.

O nosso Fundador foi instrumento querido por Deus para difundir esta doutrina abrindo perspectivas imensas à santidade pessoal de uma multidão de cristãos e para a santificação da sociedade humana a partir de dentro, ou seja, a partir da própria malha das relações profissionais que a configuram.

"O trabalho acompanha inevitavelmente a vida do homem sobre a terra".
Esta semente dará os frutos que o Senhor espera, se nós pusermos o empenho necessário para a meditar na presença de Deus, a pusermos em prática com a Sua ajuda, porque a santificação do trabalho não é só una ideia que basta explicar para que se aprenda; é um ideal que se procura e se conquista por amor a Deus, conduzidos pela Sua graça.

SENTIDO DO TRABALHO

Logo no início da Sagrada Escritura, no livro do Génesis, se nos revela o sentido do trabalho. Deus, que fez boas todas as coisas, «quis livremente criar um mundo "em estado de caminho" para a perfeição última» 7, e criou o homem ut operaretur 8, para que com o seu trabalho «prolongasse de certo modo a obra criadora e alcançasse a sua própria perfeição» 9.

Como consequência do pecado, o trabalho é acompanhado de fadiga e muitas vezes de dor 10.
Mas ao assumir a nossa natureza para nos salvar, Jesus Cristo Nosso Senhor transformou a fadiga e a dor em meios para manifestar o amor e a obediência à Vontade divina e reparar a desobediência do pecado.
Assim viveu Jesus durante seis lustros: era fabri filius [i], o filho do carpinteiro. (...)
Era o faber, filius Mariae [ii], o carpinteiro, filho de Maria. E era Deus e estava a realizar a redenção do género humano, e estava a atrair a Si todas as coisas [iii], 11.

Para um cristão "o trabalho aparece como participação na obra criadora de Deus".

Juntamente com esta realidade do trabalho de Jesus Cristo, que nos mostra a plenitude do seu sentido, temos de considerar que, por graça sobrenatural, fomos feitos filhos de Deus formando uma só coisa com Jesus Cristo, um só corpo.
A Sua Vida sobrenatural é vida nossa e fez-nos participantes do Seu sacerdócio para que sejamos co-redentores com Ele.

Esta profunda união do cristão com Cristo ilumina o sentido de todas as nossas actividades e, em particular, o trabalho.
Nos ensinamentos de São Josemaria, o fundamento da santificação do trabalho, é o sentido da filiação divina, a consciência de que Cristo quer encarnar nos nossos afazer 12.

Toda esta visão cristã do sentido do trabalho, se compendia nas palavras seguintes:
O trabalho acompanha necessariamente a vida do homem sobre a terra. Com ele nascem o esforço, a fadiga, o cansaço, as manifestações de dor e de luta que fazem parte da nossa existência humana actual e que são sinais da realidade do pecado e da necessidade da redenção.
Mas o trabalho, em si mesmo, não é uma pena nem uma maldição ou castigo: os que assim falam não leram bem a Sagrada Escritura.

(...) O trabalho, todo o trabalho, é testemunho da dignidade do homem, do seu domínio sobre a criação.
É um meio de desenvolvimento da personalidade.
É um vínculo de união com os outros seres; fonte de recursos para sustentar a família; meio de contribuir para o melhoramento da sociedade em que se vive e para o progresso de toda a Humanidade.

"O trabalho santifica-se de facto quando se realiza por amor a Deus".

 Para um cristão, essas perspectivas alargam-se e ampliam-se, porque o trabalho aparece como participação na obra criadora de Deus que, ao criar o homem, o abençoou dizendo-lhe:
Procriai e multiplicai-vos e enchei a terra e subjugai-a, e dominai sobre todo o animal que se mova à superfície da terra.
Além disso, ao ser assumido por Cristo, o trabalho apresenta-se-nos como uma realidade redimida e redentora: é, não só o âmbito em que o homem vive, mas também meio e caminho de santidade, realidade santificável e santificadora. 13.

SANTIFICAR A ACTIVIDADE DE TRABALHAR

Uma expressão de São Josemaria, que saía com frequência dos seus lábios e da sua caneta, introduz-nos no esplêndido panorama da santidade e do apostolado no exercício de um trabalho profissional: para a grande maioria dos homens, ser santo supõe santificar o próprio trabalho, santificar-se no seu trabalho, e santificar os outros com o trabalho 14.

São três aspectos de uma mesma realidade, inseparáveis e ordenados entre si.
Primeiro santificar – fazer santo – o trabalho, a actividade de trabalhar 15.
Santificar o trabalho é tornar santa essa actividade, fazer santo o acto da pessoa que trabalha. 

Disto dependem os outros dois aspectos, porque o trabalho santificado é também santificador; santifica-nos a nós próprios e é meio para a santificação dos outros e para empapar a sociedade com o espírito cristão.
Convém, portanto, que nos detenhamos a considerar o primeiro ponto; o que significa tornar santo o trabalho profissional.

"É imprescindível procurar de um ou de outro modo a presença de Deus".

 Um acto nosso é santo quando é um acto de amor a Deus e aos outros por Deus, um acto de amor sobrenatural – de caridade – o que pressupõe, nesta terra, a fé e a esperança.
Um acto assim é santo porque a caridade é participação da infinita Caridade, que é o Espírito Santo 16, o Amor subsistente do Pai e do Filho, de modo que um acto de caridade é um tomar parte na Vida sobrenatural da Santíssima Trindade, um tomar parte na santidade de Deus. 

No caso do trabalho profissional, há que ter em conta que a actividade de trabalhar tem por objecto as realidades deste mundo – cultivar um campo, investigar uma ciência, proporcionar serviços, etc. – e que, para ser humanamente boa e santificável, há-de ser exercício das virtudes humanas.
Mas isto não basta para que seja santa. 

O trabalho santifica-se de facto quando se realiza por amor a Deus, para Lhe dar glória – e, consequentemente, como Deus quer, cumprindo a Sua Vontade, praticando as virtudes cristãs informadas pela caridade – para o oferecer a Deus em união com Cristo, já que «por Ele, com Ele e n’Ele, a Ti, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória» 17.

Dá um motivo sobrenatural à tua actividade profissional de cada dia e terás santificado o trabalho 18.

Com estas breves palavras o fundador do Opus Dei mostra a chave da santificação do trabalho.
A actividade humana de trabalhar santifica-se quando se leva a cabo por um motivo sobrenatural. 

O decisivo não é, portanto, que saia bem, mas que trabalhemos por amor a Deus, já que é isto o que Ele procura em nós: Deus olha o coração 19.
O decisivo é o motivo sobrenatural, a finalidade última, a rectidão de intenção da vontade, o realizar o trabalho por amor a Deus e para servir os outros por Deus.
Eleva-se assim o trabalho à ordem da graça, santifica-se, converte-se em obra de Deus, operatio Dei, opus Dei. 20.

"O decisivo não é, portanto, que saia bem, mas que trabalhemos por amor a Deus. Deus olha o coração".

(cont)





[i] Mt 13, 55
[ii] Mc 6, 3
[iii] Jo 12, 32

15/12/2014

Ev. Coment. L. esp. (Amigos de Deus)

Advento III Semana

Evangelho: Mt 21 23-27

23 Tendo ido ao templo, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo aproximaram-se d'Ele, quando estava a ensinar, e disseram-Lhe: «Com que autoridade fazes estas coisas? E quem Te deu tal direito?». 24 Jesus respondeu-lhes: «Também Eu vos farei uma pergunta; se Me responderdes, Eu vos direi com que direito faço estas coisas. 25 Donde era o baptismo de João? Do céu ou dos homens?». Mas eles reflectiam consigo: 26 «Se Lhe dissermos que é do céu, Ele dirá: “Então porque não crestes nele?”. Se Lhe dissermos que é dos homens, tememos o povo»; porque todos tinham João como um profeta. 27 Portanto, responderam a Jesus: «Não sabemos». Ele disse-lhes também: «Pois então nem Eu vos digo com que autoridade faço estas coisas».

Comentário

Toda a pergunta merece resposta?
Evidentemente… sim!
Só que a resposta tem de estar de acordo com duas coisas principais:
A primeira é se a pergunta tem razão de ser, isto é, se justifica por não haver informação suficiente sobre o que se quer saber;
A segunda é se quem pergunta merece credibilidade na intenção com que pergunta.

(ama, comentário sobre Mt 21, 23-27, 2013.12.16)


Leitura espiritual



São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus 73 a 83
  
73          
Conta S. Lucas, no capítulo sétimo: Um fariseu pediu-lhe que fosse comer com ele. E tendo entrado em casa do fariseu, pôs-se à mesa. Chega então uma mulher da cidade, conhecida publicamente como pecadora, e aproxima-se para lavar os pés de Jesus, que, segundo o uso da época, comia reclinado. As lágrimas são a água deste comovedor lavabo; e os cabelos, a toalha. Com bálsamo trazido num rico frasco de alabastro, unge os pés do Mestre e beija-os.

O fariseu pensa mal do que vê. Não lhe cabe na cabeça que Jesus seja capaz de albergar tanta misericórdia no seu coração. Se este fosse profeta - vai congeminando - com certeza saberia quem e de que espécie é esta mulher que o toca. Jesus lê os seus pensamentos e observa-lhe: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, não me deste água para os pés; e esta com as suas lágrimas banhou os meus pés e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste o ósculo. Porém, esta, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés. Não ungiste a minha cabeça com bálsamo, ao passo que esta derramou perfumes sobre os meus pés. Por isso te digo: são-lhe perdoados muitos pecados, porque muito amou .

Não podemos agora considerar as maravilhas divinas do Coração misericordioso de Nosso Senhor. Vamos concentrar a nossa atenção noutro aspecto da cena, que é o facto de Jesus sentir a falta de todos esses pormenores de cortesia e de delicadeza humanas, que o fariseu não soube manifestar-Lhe. Cristo é perfectus Deus, perfectus homo , Deus, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e homem perfeito. Traz a salvação e não a destruição da natureza; com Ele aprendemos que não é cristão comportar-se mal com o homem, criatura de Deus, feito à Sua imagem e semelhança.

74          
Virtudes humanas

Certa mentalidade laicista e outras maneiras de pensar a que poderíamos chamar pietistas coincidem em não considerar o cristão como homem íntegro e pleno. Para os primeiros, as exigências do Evangelho sufocariam as qualidades humanas; para os outros, a natureza caída poria em perigo a pureza da fé. O resultado é o mesmo: desconhecer a profundidade da Encarnação de Cristo, ignorar que o Verbo se fez carne, homem, e habitou entre nós.

A minha experiência de homem, de cristão e de sacerdote ensina-me precisamente o contrário: não existe coração, por mais empedernido no pecado, que não esconda, como rescaldo no meio da cinza, um lume de nobreza. Sempre que bati à porta desses corações, a sós e com a palavra de Cristo, sempre corresponderam. Neste mundo, muitos não privam com Deus; são criaturas que talvez não tenham tido ocasião de ouvir a palavra divina ou que a esqueceram. Mas as suas disposições são humanamente sinceras, leais, compassivas, honradas. Atrevo a afirmar que quem reúne essas condições está a ponto de ser generoso com Deus, porque as virtudes humanas constituem o fundamento das sobrenaturais.

75          
É certo que não é suficiente essa capacidade pessoal: ninguém se salva sem a graça de Cristo. Mas se o indivíduo conserva e cultiva um espírito de rectidão, Deus aplanar-lhe-á o caminho e poderá ser santo, porque soube viver como homem de bem.

Talvez tenhais observado outros casos, de certo modo contrapostos: tantos e tantos que se dizem cristãos - porque foram baptizados e recebem outros Sacramentos -, mas que se mostram desleais, mentirosos, insinceros, orgulhosos... E caem de repente. Parecem estrelas que brilham durante alguns momentos no céu e, de súbito, despenham-se irremediavelmente.

Se aceitarmos a nossa responsabilidade de filhos de Deus, saberemos que Ele quer que sejamos muito humanos. A cabeça pode tocar o céu, mas os pés assentam na terra, com segurança. O preço de se viver cristãmente não é nem deixar de ser homem nem abdicar do esforço por adquirir essas virtudes que alguns têm, mesmo sem conhecerem Cristo. O preço de todo o cristão é o Sangue redentor de Nosso Senhor, que nos quer - insisto - muito humanos e muito divinos, com o empenho diário de O imitar, pois é perfectus Deus, perfectus homo.

76          
Talvez não seja capaz de dizer qual é a principal virtude humana. Depende muito do ponto de vista de que se parta. Além disso, a questão torna-se ociosa, porque não se trata de praticar uma ou várias virtudes. É preciso lutar por adquiri-las e praticá-las todas. Cada uma de per si entrelaça-se com as outras e, assim, o esforço por sermos sinceros, por exemplo, torna-nos justos, alegres, prudentes, serenos.

Nem sequer me conseguem convencer essas formas de pensar que distinguem as virtudes pessoais das virtudes sociais. Não há virtude alguma que fomente o egoísmo; cada uma redunda necessariamente no bem da nossa alma e das almas dos que nos rodeiam. Porque todos somos homens e todos filhos de Deus, não podemos conceber a nossa vida como a trabalhosa preparação de um brilhante curriculum, de uma vistosa carreira. Todos temos de sentir-nos solidários e, na ordem da graça, estamos unidos pelos laços sobrenaturais da Comunhão dos Santos.

Precisamos, ao mesmo tempo, de considerar que a decisão e a responsabilidade residem na liberdade pessoal de cada um e, por isso, as virtudes são também radicalmente pessoais, da pessoa. No entanto, nessa batalha de amor ninguém luta sozinho - ninguém é um verso solto, costumo repetir -: de certo modo, ou nos ajudamos ou nos prejudicamos. Todos somos elos de uma mesma cadeia. Pede agora comigo a Deus Nosso Senhor, que essa cadeia, nos prenda ao seu Coração, até chegar o dia de O contemplar face a face, no Céu, para sempre.

77          
Fortaleza, Serenidade, Paciência, Magnanimidade

Vamos considerar algumas destas virtudes humanas. Enquanto eu falar, cada um pela sua parte, dialogue com Nosso Senhor: peça-lhe que nos ajude a todos, que nos estimule a aprofundar hoje no mistério da sua Encarnação, para que também nós, na nossa carne, saibamos ser entre os homens testemunhos vivos de Quem veio para nos salvar.

O caminho do cristão, o de qualquer homem, não é fácil. Certo é que em determinadas épocas parece que tudo se cumpre segundo as nossas previsões; mas isto habitualmente dura pouco. Viver é defrontar dificuldades, sentir no coração alegrias e pesares; e é nesta forja que o homem pode adquirir a fortaleza, a paciência, a magnanimidade e a serenidade.

É forte quem persevera no cumprimento do que entende dever fazer, segundo a sua consciência; quem não mede o valor de uma tarefa exclusivamente pelos benefícios que recebe, mas pelo serviço que presta aos outros. O homem forte às vezes sofre, mas resiste; talvez chore, mas traga as lágrimas. Quando a contradição aumenta, não se curva. Recordemo-nos do exemplo que nos narra o livro dos Macabeus: daquele ancião, Eleazar, que prefere morrer a violar a lei de Deus. Morrendo valorosamente, mostrar-me-ei digno da minha velhice e deixarei aos jovens um exemplo de fortaleza, se sofrer com ânimo pronto e constante uma honrosa morte em defesa de leis tão veneráveis e tão santas .

78           
Quem sabe ser forte não se deixa invadir pela pressa de conquistar logo o fruto da sua virtude; é paciente. A fortaleza leva-nos realmente a saborear a virtude humana e divina da paciência. Mediante a vossa paciência, possuireis as vossas almas (Lc XXI, 19). A posse da alma exprime-se na paciência, que, na verdade, é raiz e custódia de todas as virtudes. Nós possuímos a alma com a paciência, porque, aprendendo a dominar-nos a nós mesmos, começamos a possuir aquilo que somos. E é esta paciência que nos leva também a ser compreensivos com os outros, persuadidos de que as almas, como o bom vinho, melhoram com o tempo.

79          
Fortes e pacientes: serenos. Mas não com a serenidade daquele que compra a tranquilidade pessoal à custa de se desinteressar dos seus irmãos ou da grande tarefa, que corresponde a todos, de difundir ilimitadamente o bem por todo o mundo. Serenos, porque há sempre perdão, porque tudo tem remédio, menos a morte, e, para os filhos de Deus, a morte é vida. Serenos, ainda que seja só para poder actuar com inteligência: quem conserva a calma está em condições de reflectir, de estudar os prós e os contras de cada problema, de examinar judiciosamente os resultados das acções previstas. E depois, sossegadamente, pode intervir com decisão.

80          
Estamos a enumerar com rapidez algumas virtudes humanas. Sei que, na vossa oração ao Senhor, aflorarão muitas outras. Eu gostaria de me demorar agora uns momentos numa qualidade maravilhosa: a magnanimidade.

Magnanimidade: ânimo grande, alma grande onde cabem muitos. É a força que nos dispõe a sairmos de nós próprios, a fim de nos prepararmos para empreender obras valiosas, em benefício de todos. No homem magnânimo não tem lugar a mesquinhez; não entra a medida estreita, o cálculo egoísta ou a deslealdade interesseira. O magnânimo dedica sem reservas as suas forças ao que vale a pena; por isso é capaz de se entregar a si próprio. Não se conforma apenas com dar: dá-se. E então consegue compreender a maior prova de magnanimidade: dar-se a Deus.

81          
Laboriosidade, diligência

Há duas virtudes humanas - a laboriosidade e a diligência - que se confundem numa só: no empenho em tirar partido dos talentos que cada um de nós recebeu de Deus. São virtudes, porque induzem a acabar bem as coisas. O trabalho - prego isto desde 1928 - não é uma maldição, nem um castigo do pecado. O Génesis fala dessa realidade antes de Adão se ter revoltado contra Deus. Nos planos de Nosso Senhor, o homem teria sempre de trabalhar, cooperando assim na imensa tarefa da criação.

Quem é laborioso aproveita o tempo, que não é apenas ouro, é glória de Deus! Faz o que deve e está no que faz, não por rotina nem para ocupar as horas, mas como fruto de uma reflexão atenta e ponderada. Por isso é diligente. O uso normal desta palavra - diligente - evoca-nos a sua origem latina. Diligente vem do verbo diligo, que significa amar, apreciar, escolher algo depois de uma atenção esmerada e cuidadosa. Não é diligente quem se precipita, mas quem trabalha com amor, primorosamente.

Nosso Senhor, perfeito homem, escolheu um trabalho manual que realizou delicada e amorosamente durante quase todo o tempo que permaneceu na terra. Exercitou a sua ocupação de artesão entre os outros habitantes da sua aldeia, e aquele trabalho humano e divino demonstrou-nos claramente que a actividade habitual não é um pormenor de pouca importância, mas é o fulcro da nossa santificação, oportunidade contínua de nos encontrarmos com Deus e de louvá-lo e glorificá-lo com o trabalho da nossa inteligência ou das nossas mãos.

82          
Veracidade e justiça

As virtudes humanas exigem de nós um esforço contínuo, porque não é fácil manter durante muito tempo uma têmpera de honradez perante as situações que parecem comprometer a nossa segurança. Reparemos na limpidez da veracidade: mas será certo que caiu em desuso? Terá triunfado definitivamente a conduta de compromisso, o dourar a pílula e o pintar a fachada? Teme-se a verdade. Por isso se lança mão de um expediente mesquinho: afirmar que ninguém vive nem diz a verdade e que todos recorrem à simulação e à mentira.

Felizmente não é assim. Existem muitas pessoas - cristãos e não cristãos - decididas a sacrificar a sua honra e a sua fama pela verdade, que não andam a saltitar constantemente de um lado para o outro para procurar o sol que mais aquece. São os mesmos que, por amor à sinceridade, sabem rectificar quando descobrem que se enganaram. Só não rectifica quem começa por mentir, quem reduz a verdade a uma palavra sonora para encobrir as suas claudicações.

83          
Se formos verazes, seremos justos. Nunca me cansaria de falar da justiça, mas aqui só podemos apontar alguns aspectos, sem perder de vista qual é a finalidade de todas estas reflexões: edificar uma vida interior real e autêntica sobre os alicerces profundos das virtudes humanas. Justiça é dar a cada um o que é seu. Mas acrescentaria que isso não basta. Por muito que cada um mereça, é preciso dar-lhe mais, porque cada alma é uma obra-prima de Deus.

A melhor caridade consiste em exceder-se generosamente na justiça. Esta caridade costuma passar despercebida, mas a sua fecundidade estende-se ao Céu e à terra. É um erro pensar que as expressões meio termo ou justo meio, na medida em que são característica das virtudes morais, significam mediocridade: algo como a metade do que é possível realizar. Esse meio entre o excesso e o defeito é um cume, um ponto álgido: o melhor que a prudência indica. Além disso, em relação às virtudes teologais não se admitem equilíbrios: não se pode crer, esperar ou amar de mais. E esse amor sem limites a Deus reverte a favor dos que nos rodeiam, em abundância de generosidade, de compreensão, de caridade.

(cont)