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11/06/2016

Evangelho e comentário


Tempo Comum
São Barnabé - Apóstolo

Evangelho: Mt 10, 7-13

7 Ide, e anunciai que está próximo o Reino dos Céus. 8 «Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, lançai fora os demónios. Dai de graça o que de graça recebestes. 9 Não leveis nos vossos cintos nem ouro, nem prata, nem dinheiro, 10 nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bordão; porque o operário tem direito ao seu alimento. 11 «Em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, informai-vos de quem há nela digno de vos receber, e ficai aí até que vos retireis. 12 Ao entrardes na casa, saudai-a, dizendo: “A paz seja nesta casa”. 13 Se aquela casa for digna, descerá sobre ela a vossa paz; se não for digna, a vossa paz tornará para vós.

Comentário:

«Dai de graça o que de graça recebestes

Esta recomendação do Senhor não admite tergiversações!

O que recebemos de graça?

Tudo, absolutamente e não se referem os meios de subsistência – muitos ou poucos – porque estes só os adquirimos porque fomos dotados de inteligência e capacidades várias para o conseguirmos, fala-se também do que recebemos pela Fé, pelos Dons e Frutos do Espírito Santo, as virtudes, a tendência para fazer o bem…

Dar, pois, de tudo isto não é grande coisa afinal porque não se tratará tanto de “dar” mas de distribuir.

(ama, comentário sobre Mt 10, 7-15, 2015.06.11)



11/06/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)

 

Tempo comum X Semana

São Barnabé – Apóstolo

Evangelho: Mt 10, 7-13

7 Ide, e anunciai que está próximo o Reino dos Céus. 8 «Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, lançai fora os demónios. Dai de graça o que de graça recebestes. 9 Não leveis nos vossos cintos nem ouro, nem prata, nem dinheiro, 10 nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bordão; porque o operário tem direito ao seu alimento. 11 «Em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, informai-vos de quem há nela digno de vos receber, e ficai aí até que vos retireis. 12 Ao entrardes na casa, saudai-a, dizendo: “A paz seja nesta casa”. 13 Se aquela casa for digna, descerá sobre ela a vossa paz; se não for digna, a vossa paz tornará para vós.

Comentário:

Jesus Cristo, o Príncipe da Paz, insiste na paz interior de quem tem por missão difundir a Sua Palavra.

Ninguém pode conseguir o que for se não estiver em paz consigo próprio e, esta, só se alcança quando se está absolutamente seguro de que o que se faz é bem feito, com o empenho total e a disponibilidade absoluta que Cristo pede aos Seus pastores.

Homens santos, autênticos, de altar, que ponham no seu trabalho de pastores de almas estritamente o que a Igreja manda, sem acrescentar da sua lavra o que for.

A Santa Igreja é de Cristo, sua Cabeça, a Doutrina é a Doutrina de Cristo e, o modo de a aplicar é seguindo com obediência e fidelidade estritas o que manda o Magistério.

(ama, comentário sobre Mt 10, 7-15, 2012.06.05)

Leitura espiritual




a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS





x sacerdócio comum dos fiéis


        Já assinalámos em páginas anteriores que toda a vida cristã, engendrada na Graça recebida no Baptismo e nos outros sacramentos que nos converte em «filhos de Deus em Cristo» ao fazer-nos participar da «natureza divina), é o desenvolvimento dessa «filiação divina» em cada um de nós.

        Deus, ao converter-nos em «seus filhos em Cristo» deseja que colaboremos com Ele em toda a missão que Cristo veio realizar na terra.
Repetimos que essa conversão não é possível se o homem não aceita livremente esse plano de Deus e, uma vez aceite, se dispõe a colaborar também livremente com Deus para o levar a cabo.

        Esta é a «conversão sacerdotal», o «sacerdócio real» a que tende toda a vida cristã em homens e mulheres crentes.
Esta conversão comporta e leva consigo uma missão.
Uma missão de apóstolo.
Uma missão de redenção e de santificação que Cristo realiza actuando como sacerdote, como profeta, como rei e deseja vivê-la com cada um de nós de forma que nós vivamos assim toda a sua vida, paixão, morte e ressurreição com Ele, nele, por Ele.
E cada um de forma inefável, diferente e irrepetível.

        Cristo indica-nos muito claramente a missão a que fomos chamados:
«Vós sois o sal da terra. (…)
Vós sois a luz do mundo. Não pode esconder-se uma cidade situada no alto de um monte nem se acende uma luz para pô-la debaixo do candelabro mas sobre um candeeiro que ilumine todos os da casa.
Ilumine assim a vossa luz os homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus» [1].

        O Concílio Vaticano II afirma, por uma lado, a realidade dos baptizados como «sacerdócio santo» para que por meio de toda a obra do homem cristão ofereçam sacrifícios espirituais e anunciem o poder daquele que os chamou das trevas à sua luz admirável» e assinala que «o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, ainda que essencialmente diferentes e não só em grau, todavia se ordenam um ao outro pois ambos participam à sua maneira do único sacerdócio de Cristo» [2].

        Esclarecidos estes pontos diz:
«Os fiéis em virtude do seu sacerdócio real, concorrem para a oferenda da Eucaristia e exercem-nos na recepção dos sacramentos, na oração e acção de graças, mediante o testemunho de uma vida santa, na abnegação e caridade operante» [3].

        Noutro documento, o Concílio sublinha a missão sacerdotal dos fiéis:
«Há na Igreja diversidade de ministérios mas unidade de missão.
Cristo confiou aos Apóstolos e aos seus sucessores o encargo de ensinar, de santificar e reger em seu próprio nome e autoridade.
Os seculares, por seu lado, ao ter recebido participação no ministério sacerdotal profético e real de Cristo, cumprem na Igreja e no mundo a parte que lhes compete na missão total do Povo de Deus» [4].

        A vivência deste «sacerdócio comum» desenvolve-se nas três dimensões de Cristo: Sacerdote, Profeta, Rei.


missão sacerdotal

        Já considerámos que São Pedro na sua primeira carta, 2, 4-5, 9, nos recorda estes planos do Senhor que nos constitui em «povo sacerdotal» em Cristo e que já tinha anunciado a Moisés no monte Sinai [5].

        Vivendo a vida da Graça todas as nossas acções se convertem em acções redentoras e santificadoras como foram as de Cristo.
Na realidade, as nossas acções convertem-se em acções de Cristo e trudo fazemos com Ele, por Ele e nele.

        A Constituição Conciliar «Lumen gentium» assinala esta realidade de forma muito clara e explícita:

        «Pois aos que associa intimamente à sua vida e à sua missão também os faz partícipes da sua acção sacerdotal com o fim de que exerçam o culto espiritual para glória de Deus e salvação dos homens.
Pelo qual, os leigos, enquanto consagrados a Cristo e ungidos pelo Espírito Santo são admiravelmente chamados e dotados para que neles se produzam sempre os mais ubérrimos frutos do Espírito.
Pois todas as suas obras, as suas orações e iniciativas apostólicas, a vida conjugal e familiar, o trabalho quotidiano e o descanso da alma e do corpo, se são feitos no Espírito, e inclusive as próprias provas da vida se se sobrelevam pacientemente, convertem-se em sacrifícios espirituais aceitáveis por Deus por Jesus Cristo [6] que na celebração da Eucaristia se oferecem piedosissimamente ao Pai junto com a oblação do corpo do Senhor» [7].

        Cada cristão, sacerdote ou leigo, homem ou mulher, jovem ou ancião, doente ou são, sem nenhum tipo de distinção salvo o da unidade com Cristo que cada um viva, leva a cabo esta Missão Sacerdotal.
A todos se aplicam da mesma forma as palavras do Concílio Vaticano II recolhidas nos parágrafos seguintes:

        »Cristo Senhor, Pontífice tomado dentre os homens [8], do seu povo fez… um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai [9].
Os baptizados, com efeito, são consagrados pela regeneração e unção do Espírito Santo como casa espiritual e sacerdócio santo para que, por meio de toda a obra do homem cristão ofereçam sacrifícios espirituais e anunciem o poder daquele que os chamou das trevas á Sua luz admirável» [10].

        «O Senhor Jesus, a Quem o Pai santificou e enviou ao mundo [11], torna partícipe todo o Seu Corpo místico da unção do Espírito com que Ele foi ungido.
Nele todos os fiéis são feitos sacerdócio santo e régio, oferecem sacrifícios espirituais a Deus por Jesus Cristo e apregoam as maravilhas daquele que os chamou das trevas á Sua luz admirável.
Não há, portanto, nenhum membro que não tenha parte na missão de Cristo, mas antes que cada um deve santificar Jesus no seu coração e dar testemunho de jesus com espírito de profecia» [12].

        A razão desta igualdade no sacerdócio real de todos os baptizados o Concílio também as explica com estas palavras que de novo recolhemos:
«o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, ainda que essencialmente diferentes e não só em grau, todavia se ordenam um ao outro pois ambos participam à sua maneira do único sacerdócio de Cristo» [13].

        Por esta missão sacerdotal o fiel leigo oferece a Deus a sua piedade e toda a sua vida, os eus trabalhos e afãs, como verdadeiro sacrifício santificador e redentor.
Fá-lo unido ao sacrifício de Cristo, «no» sacrifício de Cristo.
Daí a importância que já sublinhámos em páginas anteriores, da Santa Missa na vida pessoal cristã por ser o «centro e a raiz» da vida cristã, em palavras de São Josemaria que o Concílio Vaticano II também fez suas.

        E daí também a necessidade de afirmar que nenhum cristão deixa de viver esta missão sacerdotal em plenitude.
Por exemplo, o secular vive a Santa Missa com Cristo, em Cristo, por Cristo em virtude do seu sacerdócio real, com a mesma intensidade com que possa vivê-la o sacerdote ministerial.
O presbítero torna possível que a Missa se possa celebrar, depois os leigos celebram a Missa – não concelebram, obviamente – cada um segundo o seu sacerdócio real.

        No Cânone Romano o sacerdote diz ao oferecer o sacrifício:
«Recorda-te, Senhor, dos Teus filhos…, e de todos os aqui reunidos, cuja fé e entrega bem conheces, por eles e por todos os seus, pelo perdão dos seus pecados e a salvação que esperam, te oferecemos, e eles mesmos te oferecem, este sacrifício de louvor a ti, eterno Deus, vivo e verdadeiro.

        E com o oferecimento, sacerdote e leigos, em virtude do seu sacerdócio real, louvam, pedem, dão graças com Cristo, por Cristo, em Cristo.
Mais, Cristo é quem verdadeiramente vive o oferecimento da sua vida, paixão, morte e ressurreição a Deu, no Espírito Santo, em toda a pessoa de cada fiel.

        É no desenvolvimento da missão sacerdotal da sua vida onde o cristão descobre o verdadeiro sentido da sua existência.


missão profética


        Esta missão está muito bem assinalada no nr 35 da «Lumen gentium» quwe a seguir de forma escalonada recolhemos:

        «Cristo, o grande Profeta que proclamou o reino do Pai com o testemunho da vida e com o poder da palavra, cumpre a sua missão profética até à plena manifestação da glória, não só através da Hierarquia que ensina em seu nome e com o seu poder, mas também por meio dos leigos aos quais, por conseguinte, constitui em testemunhas e os dota do sentido da fé e da graça da palavra [14] para que a virtude do Evangelho brilhe na vida diária» [15].

        «(…) assim os leigos ficam constituídos em pregoeiros poderosos da fé em coisas que esperamos [16] quando, sem vacilação, unem a vida segundo a fé à posse dessa fé.
Tal evangelização, quer dizer, o anúncio de Cristo apregoado pelo testemunho da vida e da palavra, adquire uma característica específica e uma eficácia singular pelo facto de se levar a cabo nas condições comuns do mundo [17].

        «Nesta tarefa ressalta o grande valor daquele estado de vida santificado por um sacramento especial, a saber, a vida matrimonial e familiar.
Nela o apostolado dos leigos encontra uma ocasião de exercício e uma escola preclara se a religião cristã penetra toda a organização da vida e a transforma cada dia mais.
Aqui os cônjuges têm a sua vocação própria: o ser mutuamente e para os seus filhos testemunhas da fé e do amor de Cristo.
A família cristã proclama em voz muito alta tanto as virtudes presentes do reino de Deus como a esperança da vida bem-aventurada.
De tal forma, com o seu exemplo e o seu testemunho interpela o mundo de pecado e ilumina os que procuram a verdade» [18].



(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)







[1] Mt 5, 13-16
[2] Lumen gentium, n. 10
[3] Lumen gentium, n. 10
[4] Apostolicam actuositatem, n. 2
[5] Ex 19, 5-6
[6] Cfr. 1 Ped 2, 5
[7] Lumen gentium, n. 34, 2
[8] Cfr. Hb 5, 1-5
[9] Ap 1 6; cfr. 5, 9-10
[10] Lumen gentium, n. 10
[11] Jo 10, 36
[12] Presbyterorum ordinis, n. 2
[13] Lumen gentium, n. 10
[14] cfr. Act 2, 17-18; Ap 19, 10
[15] Lumen gentium, n. 35, 1
[16] Cfr. Hb 11, 1
[17] Lumen gentium, n. 35, 2
[18] Lumen gentium, n. 35, 3

11/06/2014

Evangelho, coment. Leit. Espiritual - A Paciência 1

Tempo comum Semana X

São Barnabé - Apóstolo

Evangelho: Mt 10, 7-13

7 Ide, e anunciai que está próximo o Reino dos Céus. 8 «Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, lançai fora os demónios. Dai de graça o que de graça recebestes. 9 Não leveis nos vossos cintos nem ouro, nem prata, nem dinheiro, 10 nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bordão; porque o operário tem direito ao seu alimento. 11 «Em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, informai-vos de quem há nela digno de vos receber, e ficai aí até que vos retireis. 12 Ao entrardes na casa, saudai-a, dizendo: “A paz seja nesta casa”. 13 Se aquela casa for digna, descerá sobre ela a vossa paz; se não for digna, a vossa paz tornará para vós.

Comentário:

Fala-se constantemente de paz, justamente por ela não estar, como deveria, instalada no mundo.

A paz verdadeira, a única que nos deve interessar, é a paz de Cristo.

A paz que os homens almejam não é a conseguida com a imposição, à força quer seja à mesa de negociações quer alcançada no campo de batalha. Para ter paz é preciso, antes de mais, estar pronto, disponível para ceder sem hesitação naquilo que, em nós, não passa de capricho ou teimosia.
Enquanto o não fizermos é inútil perseguir a paz porque, não a tendo em nós mesmos, jamais a alcançaremos.

(ama, comentário sobre Mt 10, 7-15, 2012.06.11)


Leitura espiritual




Temas

A PACIÊNCIA

INTRODUÇÃO
O HOMEM NA CALÇADA
O homem estava ali, perto de nós – de mim e de um meu amigo –, na mesma calçada, a uns vinte metros de distância. Era um sessentão de estatura mediana e puxava para gordo. Chamava a atenção porque gesticulava com invulgar veemência. Dava para perceber, mesmo de longe, que se lhe contraíam as feições. De súbito, elevou fortemente a voz, e então chegou até nós uma frase perfeitamente audível:

– Tenha santa paciência!

Nada havíamos captado, nem eu nem o meu amigo, da agitada conversação anterior. Mas uma certeza nos ficava: aquele homem acabava de perder a paciência, que devotamente invocava como “santa”.

Era evidente que o homem gordo não tinha gostado de alguma coisa de que lhe falara o seu interlocutor. E o pedido de que tivesse santa paciência – explodido num desabafo – fora sem dúvida provocado por uma contrariedade: o outro afirmara, narrara ou defendera algo que o tinha aborrecido, que o tinha contrariado. Sempre são as contrariedades que nos fazem perder a paciência. Como é lógico, nunca nos impacientamos quando tudo nos sorri e se amolda aos nossos desejos.

Se prestarmos atenção, poderemos observar que, na nossa linguagem comum, a perda da paciência anda sempre associada a alguma coisa difícil de aceitar, de aturar, de “engolir”, de sofrer:
“Haja paciência para aguentar isso”, “Aquilo já está saturando as paciências”, “É dose...”, dizemos.

E é claro que, com isso, estamos falando de algo desagradável, que nos aborreceu; quase sempre, de uma pessoa ou de uma situação que nos vem contrariando ou incomodando desde há um certo tempo. Perante a adversidade instantânea (como a agressão verbal de um motorista – “domingueiro!” – que passa por nós em alta velocidade), não caímos propriamente na impaciência, mas – como veremos logo – na ira.

TRÊS CONTRARIEDADES E DUAS REACÇÕES

Se pensarmos um pouco, analisando o que se passa connosco, perceberemos que costumamos padecer de três tipos de contrariedades e que, em face delas, temos dois tipos de reacções.

Existem as contrariedades provocadas pelos outros: eles têm aqueles modos desagradáveis de falar, de olhar ou não olhar, de retrucar ou não responder, de esquecer ou estar lembrando-nos certas coisas a toda a hora, de dirigir carro – dirigir? –, de se atrasar, de impor...

Existem depois as contrariedades procedentes de nós mesmos: “Não me aguento, voltei a deixar a chave de casa no escritório!”, “Por que sempre gaguejo ao falar na sala de aula?”, “Não consigo contar uma piada que faça rir a ninguém!” E, por último, as que decorrem das circunstâncias: “Já faz sete meses que estou sem emprego!”, “Desde que apanhei aquela bronquite, nunca mais deixei de tossir!”, “Justamente quando fui tirar férias, veio aquela frente fria estacionária e não parou mais de chover!”

De facto, quase todas as contrariedades se enquadram em algum desses três capítulos.

Ora, ao lado dessas três espécies de contrariedades, existem, como mencionávamos acima, dois modos diferentes, ainda que muito “aparentados”, de reagir. Vale a pena focalizá-los.

O primeiro modo é a impaciência. É preciso dizer desde já que a impaciência, em si mesma, na sua essência mais íntima, consiste em não saber sofrer. Precisamente a palavra paciência deriva do verbo latino pati, que significa padecer. Por isso, a virtude da paciência é a capacidade de padecer dignamente, a arte de sofrer bem, e mais concretamente a paciência cristã é a virtude que nos dá, com a graça divina, a capacidade de sofrer, de suportar as contrariedades e a dor – especialmente quando se prolongam – com fé, esperança e amor.

Uma vez esclarecido isto, pode também ficar claro que a irritação, a brusquidão, a raiva ou a cólera não fazem parte, propriamente falando, da impaciência – ainda que muitas vezes a acompanhem –, mas da ira. É bem verdade que a ira – a que nos referiremos daqui a instantes – e a impaciência convivem muitas vezes no nosso dia-a-dia como duas irmãs siamesas. Mas é útil não perder de vista, na leitura destas páginas dedicadas à paciência, que a impaciência se dá – mesmo que não se faça acompanhar de nenhuma emoção ou explosão – simplesmente quando não sabemos aceitar ou aceitamos de má vontade aquilo que nos contraria ou nos faz sofrer.

A impaciência é rica em apresentações. Pode-se manifestar quer no nosso interior, quer externamente, de maneiras muito variadas. Com muita frequência, aflora em forma de queixas internas (quando a pessoa se lamenta no íntimo, sentindo-se vítima), ou de reclamações ásperas ou lamurientas com os outros, ou de cobranças insistentes, ou de suspiros lastimosos, ou de trejeitos e desabafos reveladores de cansaços morais (“Já não suporto mais! Cheguei ao limite! Isto é superior às minhas forças!”). Também são frutos da impaciência os comentários de desânimo e os olhares de tristeza... É interessante saber que um dos principais efeitos da paciência, mencionado por São Tomás de Aquino, é expulsar a tristeza do coração. [1]

A IRA É DIFERENTE

Ao lado da impaciência, um segundo modo de reagir perante as contrariedades é a ira, a irritação já acima mencionada como assídua parceira da impaciência. Quando alguém se deixa levar pela ira, é porque perdeu – repentinamente ou por acumulação de contrariedades – o controlo emocional. A pessoa irada não tem mais autodomínio e extravasa a sua revolta por meio do grito (os terríveis gritos das mães desgovernadas!), do safanão, da injúria, do palavrão (abra-se o ouvido no meio do trânsito de uma grande cidade), do comentário ofensivo e grosseiro, da “cortada” (fecha a cara, levanta-se da mesa e vai-se embora sem acabar de jantar) ou da violência: desde dar um pontapé num objecto ou fechar uma porta com estrondo, até sacar o revólver e disparar.

Assim é a ira. Parente próxima, irmã siamesa até – dizíamos – da impaciência, mas diferente dela. Não é inútil, pois, repisar que a impaciência é, essencialmente, a incapacidade de sofrer, de sofrer “com classe”, dignamente, como um filho de Deus.

Importa insistir nisto porque é muito comum, hoje em dia, considerar como modelos de paciência comportamentos mansos (sem ira nenhuma) que, na realidade, são exemplos da mais perversa impaciência. Refiro-me, por exemplo, ao caso, tristemente trivial, de casais que se separam, após poucos ou muitos anos de matrimónio e, fazendo alarde de uma pretensa “maturidade”, se gabam de que “não brigaram”, não quiseram nem ouvir falar em separação litigiosa, e entraram em acordo “como gente civilizada” (acomodando suave e serenamente os seus dois egoísmos).

Por trás de tanta calma, o que é que houve? Vejamos de perto, e logo perceberemos que existiu uma elementar incapacidade de sofrer, de aceitar e superar com generosidade as contrariedades e divergências normais de uma vida a dois. Ou seja, houve a mais pura impaciência, uma impaciência radicalmente egoísta que, por apresentar-se cinicamente calma e sorridente, é especialmente abjecta. Costumam ter maior grandeza de coração e de carácter – e mais conserto – os que cometem o erro de separar-se arrastados por uma erupção vulcânica de raiva, de ira, de amor-próprio ferido. A ira, às vezes, é apenas um sinal de fraqueza. Mas a infidelidade fria e calculista é sempre o retrato do egoísmo.

Mas deixemos a ira para outra ocasião, e tentemos enfronhar-nos na impaciência, que é o tema que agora nos ocupa. E, antes de mais, como começo de conversa, será preciso reconhecer que todos nós, de um modo ou de outro, padecemos deste mal. Ninguém escapa. Por isso, será interessante procurarmos descobrir por que e como é que nos impacientamos, a fim de enxergarmos melhor os caminhos que nos podem conduzir à paciência, essa virtude tão amada, tão desejada e tão pouco praticada.

O ESTOJO DO MUNDO
OS BELOS ESTOJOS

O leitor há-de concordar comigo em que uma das coisas mais belas do mundo é um bom estojo. Ainda há poucos dias, ficava eu extasiado diante do estojo deslumbrante de uma caneta alemã. É verdade que era dez vezes maior do que a caneta, mas seus brilhos nacarados, sua pátina ambarina, e sobretudo o veludo roxo azulado – macio e aristocrático – do interior, onde a caneta dourada se encaixava à perfeição, eram de deixar de queixo caído.

Todos nós já admiramos, provavelmente, a beleza e o ajuste preciso do estojo de um relógio novo, de uma flauta reluzente, de uma joia... Haveria matéria para escrever um livro inteiro sobre as maravilhas dos estojos. E, como é lógico, nesse livro não poderia faltar, por contraste, um capítulo dedicado aos maus estojos. Como é desagradável um estojo ruim, em que o objecto guardado dança, chacoalha com um barulho irritante e acaba por estragar-se a si mesmo e estragar os nossos nervos.

Mas todas estas digressões sobre estojos, que têm a ver com a paciência?

– Desculpe – haveria de responder a quem fizesse essa pergunta –, talvez eu tenha posto o carro à frente dos bois. Só um pouco de paciência – estamos nisso –, e daqui a nada vamos ver que estojo e paciência são duas coisas muito relacionadas.

Para isso, basta que pensemos se não é verdade que um dos nossos desejos mais íntimos é que o mundo (a vida, as coisas, os acontecimentos e as pessoas) funcione como um estojo aveludado e perfeitamente modelado, em que se encaixem sempre suavemente, sem colisões nem atritos, os nossos sonhos, os nossos desejos, os nossos caprichos, as nossas manias e até mesmo os nossos defeitos.

Ah, se tudo na vida fosse assim! Para o meu mau humor, o estojo de cetim da compreensão dos outros; para a minha doença, o estojo de seda de um serviço público de saúde com a aparelhagem funcionando e sem filas; para o meu trabalho, o estojo adamascado de chefes que me louvem e subordinados que em tudo me obedeçam; e, lá em casa, o veludo amabilíssimo dos filhos dóceis e agradecidos, sempre prontos a sussurrar com um sorriso carinhoso: – “Mamãe e papai têm razão”, e o de um marido ou uma mulher que, sem pensarem em problemas e cansaços pessoais, só saibam dizer, com o olhar mais terno: – “Meu bem, que gostaria de fazer hoje?”

Que fantástico um mundo-estojo assim! É melhor nem pensar nele porque, depois, ao abrirmos os olhos à realidade, ficaríamos machucados. De qualquer modo, é indiscutível que, se o mundo fosse o nosso suave, ajustadinho e macio estojo sob medida (incluindo-se nessa “medida” também os auxílios imediatos de um Deus tão “bom” que nos fizesse sempre as vontades), a impaciência desapareceria do mapa e deveria ser apagada dos dicionários.
(cont.)







[1] Suma Teológica, II-II, q. 136, a. 2, 1.

24/04/2014

Evangelho do dia, comentário e Leitura espiritual

Tempo comum Semana X

Santo André - Apóstolo

Evangelho: Mt 10, 7-13

7 Ide, e anunciai que está próximo o Reino dos Céus. 8 «Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, lançai fora os demónios. Dai de graça o que de graça recebestes. 9 Não leveis nos vossos cintos nem ouro, nem prata, nem dinheiro, 10 nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bordão; porque o operário tem direito ao seu alimento. 11 «Em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, informai-vos de quem há nela digno de vos receber, e ficai aí até que vos retireis. 12 Ao entrardes na casa, saudai-a, dizendo: “A paz seja nesta casa”. 13 Se aquela casa for digna, descerá sobre ela a vossa paz; se não for digna, a vossa paz tornará para vós.

Comentário:

Fala-se constantemente de paz, justamente por ela não estar, como deveria, instalada no mundo.


A paz verdadeira, a única que nos deve interessar, é a paz de Cristo.


A paz que os homens almejam não é a conseguida com a imposição, à força quer seja à mesa de negociações quer alcançada no campo de batalha. Para ter paz é preciso, antes de mais, estar pronto, disponível para ceder sem hesitação naquilo que, em nós, não passa de capricho ou teimosia.
Enquanto o não fizermos é inútil perseguir a paz porque, não a tendo em nós mesmos, jamais a alcançaremos.


(ama, comentário sobre Mt 10, 7-15, 2012.06.11)

Documentos do Concílio Vaticano II

CONSTITUIÇÃO PASTORAL
GAUDIUM ET SPES
SOBRE A IGREJA NO MUNDO ACTUAL

PROÉMIO 1

Íntima união da Igreja com toda a família humana

1. As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história.

A quem se dirige o Concílio: todos os homens

2. Por isso, o Concílio Vaticano II, tendo investigado mais profundamente o mistério da Igreja, não hesita agora em dirigir a sua palavra, não já apenas aos filhos da Igreja e a quantos invocam o nome de Cristo, mas a todos os homens. Deseja expor-lhes o seu modo de conceber a presença e actividade da Igreja no mundo de hoje.

Tem, portanto, diante dos olhos o mundo dos homens, ou seja a inteira família humana, com todas as realidades no meio das quais vive; esse mundo que é teatro da história da humanidade, marcado pelo seu engenho, pelas suas derrotas e vitórias; mundo, que os cristãos acreditam ser criado e conservado pelo amor do Criador; caído, sem dúvida, sob a escravidão do pecado, mas libertado pela cruz e ressurreição de Cristo, vencedor do poder do maligno; mundo, finalmente, destinado, segundo o desígnio de Deus, a ser transformado e alcançar a própria realização.

Para iluminar a problemática humana e salvar o homem

3. Nos nossos dias, a humanidade, cheia de admiração ante as próprias descobertas e poder, debate, porém, muitas vezes, com angústia, as questões relativas à evolução actual do mundo, ao lugar e missão do homem no universo, ao significado do seu esforço individual e colectivo, enfim, ao último destino das criaturas e do homem.

Por isso, o Concílio, testemunhando e expondo a fé do Povo de Deus por Cristo congregado, não pode manifestar mais eloquentemente a sua solidariedade, respeito e amor para com a inteira família humana, na qual está inserido, do que estabelecendo com ela diálogo sobre esses vários problemas, aportando a luz do Evangelho e pondo à disposição do género humano as energias salvadoras que a Igreja, conduzida pelo Espírito Santo, recebe do seu Fundador. Trata-se, com efeito, de salvar a pessoa do homem e de restaurar a sociedade humana. Por isso, o homem será o fulcro de toda a nossa exposição: o homem na sua unidade e integridade: corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade.

Eis a razão por que este sagrado Concílio, proclamando a sublime vocação do homem, e afirmando que nele está depositado um germe divino, oferece ao género humano a sincera cooperação da Igreja, a fim de instaurar a fraternidade universal que a esta vocação corresponde. Nenhuma ambição terrena move a Igreja, mas unicamente este objectivo: continuar, sob a direcção do Espírito Consolador, a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade 2, para salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido 3.

INTRODUÇÃO

A CONDIÇÃO DO HOMEM NO MUNDO ACTUAL

Esperanças e temores

4. Para levar a cabo esta missão, é dever da Igreja investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu carácter tantas vezes dramático. Algumas das principais características do mundo actual podem delinear-se do seguinte modo.

A humanidade vive hoje uma fase nova da sua história, na qual profundas e rápidas transformações se estendem progressivamente a toda a terra. Provocadas pela inteligência e actividade criadora do homem, elas reincidem sobre o mesmo homem, sobre os seus juízos e desejos individuais e colectivos, sobre os seus modos de pensar e agir, tanto em relação às coisas como às pessoas. De tal modo que podemos já falar duma verdadeira transformação social e cultural, que se reflecte também na vida religiosa.

Como acontece em qualquer crise de crescimento, esta transformação traz consigo não pequenas dificuldades. Assim, o homem, que tão imensamente alarga o próprio poder, nem sempre é capaz de o pôr ao seu serviço. Ao procurar penetrar mais fundo no interior de si mesmo, aparece frequentemente mais incerto a seu próprio respeito. E, descobrindo gradualmente com maior clareza as leis da vida social, hesita quanto à direcção que a esta deve imprimir.

Nunca o género humano teve ao seu dispor tão grande abundância de riquezas, possibilidades e poderio económico; e, no entanto, uma imensa parte dos habitantes da terra é atormentada pela fome e pela miséria, e inúmeros são ainda os analfabetos. Nunca os homens tiveram um tão vivo sentido da liberdade como hoje, em que surgem novas formas de servidão social e psicológica. Ao mesmo tempo que o mundo experimenta intensamente a própria unidade e a interdependência mútua dos seus membros na solidariedade necessária, ei-lo gravemente dilacerado por forças antagónicas; persistem ainda, com efeito, agudos conflitos políticos, sociais, económicos, «raciais» e ideológicos, nem está eliminado o perigo duma guerra que tudo subverta. Aumenta o intercâmbio das ideias; mas as próprias palavras com que se exprimem conceitos da maior importância assumem sentidos muito diferentes segundo as diversas ideologias. Finalmente, procura-se com todo o empenho uma ordem temporal mais perfeita, mas sem que a acompanhe um progresso espiritual proporcionado.

Marcados por circunstâncias tão complexas, muitos dos nossos contemporâneos são incapazes de discernir os valores verdadeiramente permanentes e de os harmonizar com os novamente descobertos. Daí que, agitados entre a esperança e a angústia, sentem-se oprimidos pela inquietação, quando se interrogam acerca da evolução actual dos acontecimentos. Mas esta desafia o homem, força-o até a uma resposta.

Evolução e domínio da técnica e da ciência

5. A actual perturbação dos espíritos e a mudança das condições de vida, estão ligadas a uma transformação mais ampla, a qual tende a dar o predomínio, na formação do espírito, às ciências matemáticas e naturais, e, no plano da acção, às técnicas, fruto dessas ciências. Esta mentalidade científica modela a cultura e os modos de pensar duma maneira diferente do que no passado. A técnica progrediu tanto que transforma a face da terra e tenta já dominar o espaço.

Também sobre o tempo estende a inteligência humana o seu domínio: quanto ao passado, graças ao conhecimento histórico; relativamente ao futuro, com a perspectiva e a planificação. Os progressos das ciências biológicas, psicológicas e sociais não só ajudam o homem a conhecer-se melhor, mas ainda lhe permitem exercer, por meios técnicos, uma influência directa na vida das sociedades. Ao mesmo tempo, a humanidade preocupa-se cada vez mais com prever e ordenar o seu aumento demográfico.

O próprio movimento da história torna-se tão rápido, que os indivíduos dificilmente o podem seguir. O destino da comunidade humana torna-se um só, e não já dividido entre histórias independentes. A humanidade passa, assim, duma concepção predominantemente estática da ordem das coisas para um outra, preferentemente dinâmica e evolutiva; daqui nasce uma nova e imensa problemática, a qual está a exigir novas análises e novas sínteses.

Mudanças na ordem social

6. Pelo mesmo facto, verificam-se cada dia maiores transformações nas comunidades locais tradicionais, como são famílias patriarcais, os clãs, as tribos, aldeias e outros diferentes grupos, e nas relações da convivência social.

Difunde-se progressivamente a sociedade de tipo industrial, levando algumas nações à opulência económica e transformando radicalmente as concepções e as condições de vida social vigentes desde há séculos. Aumentam também a preferência e a busca da vida urbana, quer pelo aumento das cidades e do número de seus habitantes, quer pela difusão do género de vida urbana entre os camponeses.

Novos e mais perfeitos meios de comunicação social permitem o conhecimento dos acontecimentos e a rápida e vasta difusão dos modos de pensar e de sentir; o que, por sua vez, dá origem a numerosas repercussões.

Nem se deve minimizar o facto de muitos homens, levados por diversos motivos a emigrar, mudarem com isso o próprio modo de viver.

Multiplicam-se assim sem cessar as relações do homem com os seus semelhantes, ao mesmo tempo que a própria socialização introduz novas ligações, sem no entanto favorecer em todos os casos uma conveniente maturação das pessoas e relações verdadeiramente pessoais («personalização»).

É verdade que tal evolução aparece mais claramente nas nações que beneficiam já das vantagens do progresso económico e técnico, mas nota-se também entre os povos ainda em vias de desenvolvimento, que desejam alcançar para os seus países os benefícios da industrialização e da urbanização. Esses povos, sobretudo os que estão ligados a tradições mais antigas, sentem ao mesmo tempo a exigência dum exercício cada vez mais pessoal da liberdade.

Transformações psicológicas, morais e religiosas

7. A transformação de mentalidade e de estruturas põe muitas vezes em questão os valores admitidos, sobretudo no caso dos jovens. Tornam-se frequentemente impacientes e mesmo, com a inquietação, rebeldes; conscientes da própria importância na vida social, aspiram a participar nela o mais depressa possível. Por este motivo, os pais e educadores encontram não raro crescentes dificuldades no desempenho da sua missão.

Por sua vez, as instituições, as leis e a maneira de pensar e de sentir herdadas do passado nem sempre parecem adaptadas à situação actual; e daqui provém uma grave perturbação no comportamento e até nas próprias normas de acção.

Por fim, as novas circunstâncias afectam a própria vida religiosa. Por um lado, um sentido crítico mais apurado purifica-a duma concepção mágica do mundo e de certas sobrevivências supersticiosas, e exige cada dia mais a adesão a uma fé pessoal e operante; desta maneira, muitos chegam a um mais vivo sentido de Deus. Mas, por outro lado, grandes massas afastam-se práticamente da religião. Ao contrário do que sucedia em tempos passados, negar Deus ou a religião, ou prescindir deles já não é um facto individual e insólito: hoje, com efeito, isso é muitas vezes apresentado como exigência do progresso científico ou dum novo tipo de humanismo. Em muitas regiões, tudo isto não é apenas afirmado no meio filosófico, mas invade em larga escala a literatura, a arte, a interpretação das ciências do homem e da história e até as próprias leis civis; o que provoca a desorientação de muitos.
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Notas:
1. A Constituição pastoral «A Igreja no mundo actual», formada por duas partes, constitui um todo unitário. E chamada «pastoral», porque, apoiando-se em princípios doutrinais, pretende expor as relações da Igreja com o mundo e os homens de hoje. Assim, nem à primeira parte falta a intenção pastoral, nem à segunda a doutrinal. Na primeira parte, a Igreja expõe a sua própria doutrina acerca do homem, do mundo no qual o homem está integrado e da sua relação para com eles. Na segunda, considera mais expressamente vários aspectos da vida e da sociedade contemporâneas, e sobretudo as questões e os problemas que, nesses domínios, padecem hoje de maior urgência. Daqui resulta que, nesta segunda parte, a matéria, tratada à luz dos princípios doutrinais, não compreende apenas elementos imutáveis, mas também transitórios. A Constituição deve, pois, ser interpretada segundo as normas teológicas gerais, tendo em conta, especialmente na segunda parte, as circunstâncias mutáveis com que estão intrinsecamente ligados os assuntos em questão.
2. Cfr. Jo. 18,37.