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25/05/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo Comum

Evangelho: Mc 10, 32-45

32 Iam em viagem para subir a Jerusalém; Jesus ia diante deles. E iam perturbados e seguiam-n'O com medo. Tomando novamente à parte os doze, começou a dizer-lhes o que tinha de Lhe acontecer: 33 «Eis que subimos a Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas; eles O condenarão à morte e O entregarão aos gentios; 34 e O escarnecerão, Lhe cuspirão, O açoitarão, e Lhe tirarão a vida. Mas ao terceiro dia ressuscitará». 35 Então aproximaram-se d'Ele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo: «Mestre, queremos que nos concedas o que Te vamos pedir». 36 Ele disse-lhes: «Que quereis que vos conceda?». 37 Eles responderam: «Concede-nos que, na Tua glória, um de nós se sente à Tua direita e outro à Tua esquerda». 38 Mas Jesus disse-lhes: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu vou beber, ou ser baptizados no baptismo com que Eu vou ser baptizado?». 39 Eles disseram-Lhe: «Podemos». Jesus disse-lhes: «Efectivamente haveis de beber o cálice que Eu vou beber e haveis de ser baptizados com o baptismo com que Eu vou ser baptizado; 40 mas, quanto a estardes sentados à Minha direita ou à Minha esquerda, não pertence a Mim concedê-lo, mas é para aqueles para quem está preparado». 41 Ouvindo isto, os dez começaram a indignar-se com Tiago e João. 42 Mas Jesus, chamando-os, disse-lhes: «Vós sabeis que aqueles que são reconhecidos como chefes das nações as dominam e que os seus príncipes têm poder sobre elas. 43 Porém, entre vós não deve ser assim, mas o que quiser ser o maior, será o vosso servo, 44 e o que entre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. 45 Porque também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida para redenção de todos».

Comentário:

Secretamente por vezes alberga-se no nosso íntimo o desejo de que nos sirvam.

Achamos que temos "direito" a tal e que não é demais.

Pode ser mas... e desejo de servir os outros... também o temos?

(ama, comentário sobre Mc 10, 35-45, Enxomil, 2015.10.18)


Leitura espiritual




INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO

INTRODUÇÃO

“CREIO – AMÉM”

«Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do céu e da terra"

CAPÍTULO QUINTO

Fé no Deus Trino

b) Motivos condutores. Como se chegou a essa decisão? No caminho para ela três atitudes básicas foram decisivas. A primeira poderia chamar-se o imediatismo do homem com Deus. Trata-se do homem em relação com Cristo: nele, acessível como seu próximo, o homem encontra o próprio Deus, não um ser híbrido que se colocasse entre ele e Deus. A preocupação pela verdadeira divindade de Jesus na Igreja antiga tem as mesmas raízes que o cuidado pela sua verdadeira condição humana. Somente sendo homem real como nós, Cristo pode ser o nosso mediador; e somente sendo Deus real como Deus, a sua mediação alcança a meta. Aliás, não é difícil de perceber que aqui está posta em questão a atitude fundamental do monoteísmo – a identidade já descrita do Deus da fé e do Deus dos filósofos – alçando-se aqui à sua posição mais aguda: meta de uma piedade comprometida com a verdade só pode estar naquele Deus que, por um lado, é o fundamento real do mundo e, por outro, nos está completamente próximo. Com o que já está aduzida a segunda atitude básica: a inabalável tomada de posição na opção pela fé de que existe somente um Deus. Em qualquer hipótese, impunha-se impedir que, por trás do mediador, afinal, tomasse a criar-se uma região de seres intermediários, e, com ela, uma região de deuses, onde o homem iria adorar o que não é Deus.

A terceira atitude básica poderia ser descrita como o esforço em tomar a sério a história de Deus com o homem. Isto é: se Deus se apresenta como Filho que diz "tu" ao Pai, não se trata de nenhuma encenação feita para o homem, de nenhum baile de máscaras no palco da história humana, mas de uma expressão da realidade. A ideia de um drama divino foi apresentada pelos "monarquistas" na Igreja antiga. As três pessoas são três "papéis" com que Deus se nos revela no correr da história. Aqui cumpre lembrar que o termo "pessoa" (persona em latim e em grego prósopon) tomou-se emprestado da linguagem teatral. Chamava-se assim a máscara que permitia ao artista tomar-se a encarnação de um outro. A partir destas conotações, a palavra foi introduzida na linguagem da fé, por ela alterada até surgir a ideia de pessoa, estranha à mentalidade antiga.

Outros, os chamados "modalistas", ensinavam que as três figuras de Deus eram "modos" como Deus é percebido pela nossa consciência e como ele mesmo se explica. Muito embora seja verdade que conhecemos a Deus só na representação da mente humana, a fé cristã sustenta sempre que nessa representação conhecemos a Deus. Mesmo sendo incapazes de romper a estreiteza da nossa consciência, Deus é capaz de invadir esta consciência e revelar-se-lhe. E não é preciso negar que nos esforços monarquistas e modalistas houve notável arranque rumo a ideia certa de Deus: a linguagem da fé acabou incorporando a terminologia propagada por eles, na confissão das três pessoas em Deus, em uso até hoje. O vocábulo prósopon-persona (pessoa) não estava em condições de exprimir toda a extensão do que aqui devia ser expresso: mas isto não é culpa sua. A ampliação dos limites do pensamento humano necessária para elaborar espiritualmente a experiência cristã de Deus não se realizou por si mesma. Exigiu uma luta, para a qual também o erro trouxe as suas vantagens. E aí ela seguiu a lei fundamental, à qual está subordinado o espírito humano no seu avanço contínuo.

c) A inviabilidade dos caminhos. Toda esta luta, tão profundamente ramificada nos primeiros séculos, à luz do que se disse até agora, pode reduzir-se à situação aporética (cética) de dois caminhos, mais e mais identificáveis como não-caminhos: subordinacionismo e monarquismo. Ambas as soluções parecem lógicas, e ambas destroem o todo com sua simplificação tentadora. A doutrina cristã, tal como se nos oferece na expressão: "Deus uno e trino" denota, no fundo, a renúncia ao atalho e a permanência no mistério insondável para o homem: na realidade, esta confissão é a única renúncia real à pretensão de saber, que torna tão atraentes as soluções simples com a sua falsa modéstia.

O assim chamado subordinacionismo escapa ao dilema, afirmando: o próprio Deus é um só; Cristo não é Deus, mas um ser muito chegado a Deus. Com isto suprime-se a dificuldade, mas a consequência é – como anteriormente desenvolvemos detalhadamente - que o homem se separa de Deus, trancando-se no provisório. Deus torna-se, por assim dizer, monarca constitucional; a fé nada tem a ver com ele, mas com os seus ministros. Quem não aceita isto, quem crê realmente no domínio de Deus, no "máximo" dentro do "mínimo", deverá aferrar-se à ideia de que Deus é homem, de que o ser de Deus e do homem se entrosaram, aceitando assim, com a fé em Cristo, o ponto de partida para a doutrina trinitária.

O monarquismo, cuja solução já foi explanada anteriormente, resolve o dilema no sentido contrário. Também ele se atém decididamente à unidade de Deus, mas igualmente toma a sério o Deus que vem ao nosso encontro, que nos aborda como Criador e Pai, primeiro, como Filho e Salvador em Cristo, depois, e, finalmente, como Espírito Santo. Contudo, as três figuras são consideradas meras máscaras de Deus, que revelam algo sobre nós, nada porém sobre Deus. Por aliciante que pareça tal caminho, afinal, torna a colocar o homem exclusivamente dentro de si mesmo, não avançando até Deus. A pós-história do monarquianismo no pensamento moderno apenas tornou a comprová-lo. Hegel e Schelling, na sua tentativa de explicar o Cristianismo filosoficamente e de fazer Filosofia a partir do Cristianismo, reataram a antiga tentativa de uma Filosofia cristã, esperando tornar racionalmente compreensível e manejável a doutrina trinitária, a partir daí; elevando-a à chave de uma compreensão completa do ser, no seu supostamente puro sentido filosófico. Evidentemente, não queremos tentar agora uma avaliação completa destas tentativas, até agora, sem dúvida, as mais fascinantes de aplicação racional da fé cristã. Basta apontar como a inviabilidade, que constatamos como típica para o monarquismo (modalismo) simplesmente volta aqui.

Ponto de partida continua sendo a ideia de que a doutrina trinitária é expressão do lado histórico de Deus, ou seja, do modo como Deus se manifesta na história. Desenvolvendo radicalmente esta ideia, Hegel – e de modo diverso, Schelling chega à consequência de não distinguir mais esse processo da auto-representação histórica divina do Deus que permanece, repousado, por trás dos bastidores, mas passa agora a compreender o processo da história como processo do próprio Deus. Então a imagem histórica de Deus torna-se progressivo auto-devir do divino; história é real como progresso do Logos, mas também o Logos só é real como progresso da história. Expresso noutros termos: o Logos – o sentido de todo o ser – nasce para si mesmo, gradativamente, somente na história. A historicidade da doutrina trinitária, incluída no monarquismo torna-se assim historicidade de Deus. O que, novamente, significa que o sentido não é, sem mais, criador da história, mas que a história se torna criadora do sentido, passando este a criatura dela. Karl Marx contentou-se em tirar as últimas consequência desta doutrina: se o sentido não antecede o homem, está no futuro, que o homem, combativamente, deve tornar presente.

Ora, assim se comprova que na lógica do pensamento monarquista o caminho da fé se perde não menos do que o subordinacionismo. Porquanto numa tal opinião suspende-se o contraste das liberdades, tão essencial para a fé; suspende-se, não menos, o diálogo do amor e a sua incalculabilidade, suspende-se a estrutura personalística do sentido cosmo-envolvente e da criatura aberta para este sentido. Tudo isto – o pessoal, o dialogal, a liberdade e o amor – funde-se na necessidade do processo único da razão. Mas ainda há outra coisa a notar: o desejo radical de penetrar na doutrina trinitária, a racionalização radical que devém historicidade do próprio Logos, querendo, com o conceito de Deus, compreender sem mistério, também a história de Deus e construí-la na sua lógica exacta exactamente esta grandiosa tentativa de apossar-se totalmente da lógica do próprio Logos reconduz à mitologia da história, ao mito de um Deus que se dá à luz a si mesmo historicamente. A tentativa de uma lógica total termina em ilógica, em auto-supressão da lógica mergulhada no seio do mito.

De resto, a história do monarquismo ainda revela um outro aspecto que cumpre citar, ao menos brevemente: o monarquismo recebe uma conotação positivamente política já na sua forma primitiva e, depois novamente, na sua versão tomada por Hegel e Marx: torna-se "teologia política". Na Igreja antiga o monarquismo serve para a tentativa de fundamentar teologicamente a monarquia imperial; em Hegel torna-se apoteose do estado prussiano; em Marx passa a ser programa de acção para um futuro feliz da humanidade. Vice-versa, poder-se-ia notar, como, na Igreja antiga, a vitória sobre o monarquismo denota um triunfo sobre o abuso político da teologia: a fé trinitária da Igreja destruiu os modelos politicamente aproveitáveis, suprimindo deste modo a teologia como mito político e recusando o abuso da pregação para justificar uma situação política.

d) Doutrina trinitária como teologia negativa. Um olhar complexivo sobre o conjunto constata que a forma eclesiástica da doutrina trinitária pode ser justificada, primeiro e antes de tudo, negativamente, como comprovante da inviabilidade de todos os demais caminhos. Talvez seja isto a única coisa que aqui de facto se possa fazer. Num tal caso, a doutrina trinitária deveria ser entendida negativamente, como a única forma segura de rebater qualquer veleidade de penetrar o mistério, como uma espécie de código para a insolubilidade do mistério de Deus. Tornar-se-ia problemática se tentasse, por sua vez, encaminhar-se por um querer-saber simples e positivo. Se a trabalhosa história da luta humana e cristã em torno de Deus prova alguma coisa, então será que qualquer tentativa de enquadrar Deus no conceito da nossa razão conduz ao absurdo. Podemos falar correctamente dele, exclusivamente renunciando ao desejo de compreender, deixando-o como o incompreensível. Portanto, doutrina trinitária não pode ser uma compreensão de Deus. Ela é uma declaração de limites, um gesto indicador, a apontar para o inominável, não uma definição a encaixar as coisas nos arquivos do saber humano; não um conceito capaz de colocar o objecto na posse do espírito humano.

Este carácter de indicação onde conceito se torna mero aceno, compreensão se torna simples tentativa rumo ao inatingível, poderia ser representado exactamente mediante as próprias formulações eclesiásticas e por meio de sua pré-história. Cada um dos grandes conceitos básicos da doutrina trinitária já foi condenado alguma vez: todos eles só foram aceites através desse entre-cruzamento com alguma condenação; tais conceitos valem apenas enquanto são simultaneamente designados como inúteis para assim serem admitidos, como pobre balbuciar e nada mais. O conceito persona (prósopon), como ouvimos, foi condenado uma vez; o termo central, que no século IV se tornou estandarte da ortodoxia, o homousios (= uma natureza com o Pai) fora condenado no século IV; a ideia da processão tem atrás de si uma proscrição, e assim por diante. Penso que essas condenações das fórmulas posteriores da fé pertencem intrinsecamente a estas mesmas fórmulas: são utilizáveis apenas pela negação e no ilimitado carácter indirecto que daí se segue: a doutrina trinitária só é possível como teologia entrecruzada.

Ainda haveria outra observação a acrescentar. Perlustrando a história dogmática da doutrina trinitária em qualquer tratado moderno de Teologia, temos a impressão de estar nalguma necrópole de heresias, cujos estandartes a Teologia continua a carregar consigo, como outros tantos troféus de batalhas vencidas. Contudo, olhando desta maneira, não se compreende bem a questão, pois todas essas tentativas repelidas finalmente como aporias e, assim como heresias, no correr de uma refrega demorada, não são meros mausoléus de pesquisas humanas fracassadas, sepulcros nos quais nos é dado constatar quantas vezes o pensamento falhou, restos que agora podemos contemplar com uma curiosidade voltada para o passado – aliás sem resultado prático. Cada heresia é, antes, um código, uma sigla a resumir alguma verdade permanente que só subsiste unida com outras declarações igualmente válidas, separada das quais, resulta em falsa visão. Dito por outras palavras: todas essas declarações não são tanto monumentos sepulcrais, mas, antes, pedras de uma catedral, que, naturalmente, serão aproveitáveis se não ficarem isoladas, mas, encaixadas no todo maior, assim como as fórmulas positivamente aceites só valem quando guardam consciência, ao mesmo tempo, da sua insuficiência.

(cont)

joseph ratzinger, Tübingen, verão de 1967.

(Revisão da versão portuguesa por ama)




27/05/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)



Tempo comum VIII Semanas

Evangelho: Mc 10 32-45

32 Iam em viagem para subir a Jerusalém; Jesus ia diante deles. E iam perturbados e seguiam-n'O com medo. Tomando novamente à parte os doze, começou a dizer-lhes o que tinha de Lhe acontecer: 33 «Eis que subimos a Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas; eles O condenarão à morte e O entregarão aos gentios; 34 e O escarnecerão, Lhe cuspirão, O açoitarão, e Lhe tirarão a vida. Mas ao terceiro dia ressuscitará». 35 Então aproximaram-se d'Ele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo: «Mestre, queremos que nos concedas o que Te vamos pedir». 36 Ele disse-lhes: «Que quereis que vos conceda?». 37 Eles responderam: «Concede-nos que, na Tua glória, um de nós se sente à Tua direita e outro à Tua esquerda». 38 Mas Jesus disse-lhes: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu vou beber, ou ser baptizados no baptismo com que Eu vou ser baptizado?». 39 Eles disseram-Lhe: «Podemos». Jesus disse-lhes: «Efectivamente haveis de beber o cálice que Eu vou beber e haveis de ser baptizados com o baptismo com que Eu vou ser baptizado; 40 mas, quanto a estardes sentados à Minha direita ou à Minha esquerda, não pertence a Mim concedê-lo, mas é para aqueles para quem está preparado». 41 Ouvindo isto, os dez começaram a indignar-se com Tiago e João. 42 Mas Jesus, chamando-os, disse-lhes: «Vós sabeis que aqueles que são reconhecidos como chefes das nações as dominam e que os seus príncipes têm poder sobre elas. 43 Porém, entre vós não deve ser assim, mas o que quiser ser o maior, será o vosso servo, 44 e o que entre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. 45 Porque também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida para redenção de todos».

Comentário:

Os dois discípulos compreendem perfeitamente que o fim está próximo e apressam-se a garantir o seu próprio futuro.
Isto é reprovável?
Sinceramente penso que não, bem pelo contrário mostram uma confiante intimidade com o Mestre e, ao mesmo tempo, uma simplicidade pessoal tão grandes que não pode deixar de comover-nos.
Querem os primeiros lugares e é o que pedem, ou anseiam por estar o mais perto possível de Cristo — mesmo a Seu lado — e é o que solicitam?

(ama, comentário sobre Mc 10, 32-45, 2013.05.29)


Leitura espiritual



a beleza de ser cristão

SEGUNDA PARTE

COMO SER CRISTÃOS

II A ORAÇÃO




características gerais da oração

…/3
       


o pai nosso


        Examinemos brevemente a riqueza que o Pai-nosso contém e a o mesmo tempo recordamos – entre outros – os comentários a esta oração se Santo Agostinho, de Orígenes, de Bento XVI, e os nn. 2777-2865 do Catecismo para os que desejem apreciar a verdade de pensamento ilimitada, de luzes, de sentidos, que as palavras do Pai-nosso provocaram e continuarão provocando até ao final dos tempos.

        Pai.

– Desde o começo da oração Cristo abre o espírito do homem à realidade de Deus que é Pai.
O homem dirige-se como filho a Deus desde o primeiro instante, reafirma ante si próprio a sua condição constitutiva cristã: ser filho de Deus em Cristo Jesus e goza em saber que Deus é seu Pai.
A oração do cristão é uma oração filial.

        Não estamos ante uma realidade impessoal que se pudesse denominar o «absoluto», o «ser supremo», «o eterno», «o infinito», ainda que esses termos filosóficos também se apliquem e com propriedade a Deus.
Com maior razão não nos apresentamos ante um símbolo – inventado por nós – das nossas aspirações mais recônditas.
Ao rezar o homem encontra-se com Deus Pai.

        Portanto não nos dirigimos a um ser estranho, inalcançável pelas limitadas forças humanas.
Um ser que nos contempla desde a lonjura da sua Omnipotência e que não tem nem procura estabelecer vinculação directa com os homens.

        São Paulo sabe muito bem a Quem dirige o seu coração e a sua inteligência, e pode assim escrever aos de Éfeso:
«Por isso dobro os meus joelhos ante o Pai de quem procede toda a paternidade no céu e na terra» [1].

        «A primeira palavra da Oração do Senhor é uma bên.ção de adoração antes de ser uma imploração.
Porque a Glória de Deus é que nós O reconheçamos como Pai, Deus verdadeiro.
Damos-lhe graças por nos ter revelado o Seu Nome, por nos ter concedido acreditar nele e por ter sido habitados pela Sua presença» [2].

        Nosso.

– Reafirmada a relação paterno-filial que cada criatura tem com Deus e que dá origem à sua capacidade para se dirigir a Deus com confiança, Nosso Senhor Jesus Cristo convida-nos a rezar dizendo: «Pai Nosso».
Porquê Pai Nosso e não Meu Pai?
Cristo quer dizer-nos que Ele reza em nós e connosco.

        Ao despedir-se dos Apóstolos sublinha a diferença com eles: «Vou para meu Pai e vosso Pai».
Agora, ao convidar-nos a orar, a sua Humanidade vincula-se com cada homem.
Mais, «é significativo que Lucas ponha o Pai-nosso em relação com a oração pessoal do próprio Jesus.
Ele torna-nos partícipes da sua própria oração, introduz-nos no diálogo interior do Amor trinitário, por assim dizer, eleva as nossas necessidades humanas até ao coração de Deus» [3].

        E esse orar ao Pai, com Cristo e em Cristo, transforma-nos.
Ratzinger acrescenta:
«Isto também significa que as palavras do Pai-nosso indicam a via para a oração interior, são orientações fundamentais para a nossa existência, pretendem conformar-nos à imagem do Filho» [4].

        E, ao mesmo tempo, assinala-nos que digamos: Pai-nosso, para que descubramos na paternidade de Deus a realidade e o significado da fraternidade entre nós, entre todos os homens.

        Somente a paternidade de Deus pode chegar a originar e estabelecer um profundo sentido de fraternidade entre os homens.
É no coração de Deus, no coração de Cristo, onde nós homens alcançamos amar a todos como Cristo os ama, a superar os ódios, os rancores, todas as causas de divisão entre nós originadas pelo pecado.

        O irmão do filho pródigo teria vencido o seu rancor e inveja para com o seu irmão se tivesse sabido ler o coração do seu pai, cheio de misericórdia e de amor.
Isto mesmo vivemos nós cristãos ao rezar o Pai-nosso.

        Que estás nos céus.

- A proximidade de Deus como Pai não excluía separação e certa distância da Divindade com respeito à suas criaturas.
Um distanciamento que Deus Pai, Filho e Espírito Santo colmataram vindo o Filho viver com o homem e que, ao mesmo tempo, o homem consciente de ser procurado por Deus não deve esquecer em nenhum momento.

        Cristo fala-nos em primeiro lugar – Pai Nosso -, da proximidade de Deus para que o coração do homem não se acobarde nem se atemorize e consiga dirigir-se a Deus Pai confiadamente em qualquer circunstância da sua vida.

        A consciência da proximidade-distanciamento de Deus e do abismo ontológico e vital que nos separa dele vivida na segurança do seu amor, da sua paternidade, facilita-nos reviver a consciência de ser criatura; consciência agradecida que aprecia com clareza os dons recebidos e a possibilidade de conhecer Deus no absoluto da sua transcendência.

        Santificado seja o teu nome.

        - Até este momento a oração foi um olhar que o homem dirige a Deus.

        Nesta petição Cristo convida-nos a que roguemos ao Pai que o desígnio de nos tornar partícipes da sua Santidade triunfe plenamente em nós e cheguemos a ser: «santos e imaculados na Sua presença, por amor» [5].
Deus dá-nos da sua «Glória», transmite-a a nós e o homem acolhe-a gozando na santificação do nome de Deus que se converte assim em verdadeira luz do mundo.

        A petição também comporta que mediante o trabalho e a acção dos homens o nome de Deus seja louvado, reconhecido e adorado por todos os homens e por toda a criação.

        Desta forma o homem dá toda a glória a Deus sem, por outros lado, esquecer que ao pedir a santificação do nome de Deus estamos a pedir a santificação do homem que tem lugar quando o homem acolhe gozosamente os dons que Deus lhe dá e recebendo esses dons partilha com Deus o gozo de Deus em dar.

        Venha a nós o teu Reino.

        - A petição do cristão que reza pela vinda do Reino tem um duplo sentido.
«Na Oração do Senhor trata-se principalmente da vinda final do Reino de Deus por meio do retorno de Cristo.
Mas esse desejo não distrai a Igreja da sua missão neste mundo antes a compromete.
Porque desde o Pentecostes a vinda do Reino é obra do Espírito do Senhor a fim de santificar todas as coisas levando à plenitude a sua obra no mundo» [6].

        Portanto esta petição é um clamor ao Pai para que o Reinado de Cristo em toda a criação seja uma realidade definitiva e efectiva no final dos tempos e, ao mesmo tempo, para que esse Reinado seja eficaz e real hoje e agora no coração e na vida dos cristãos que vivem «na verdade e a vida em santidade e a graça, na justiça, no amor e na paz», pela acção da Graça, do Espírito Santo, nas suas almas.
«A vocação do homem para a vida eterna não suprime antes reforça o seu dever de pôr em prática as energias e os meios recebidos do Criador para servir neste mundo a justiça e a paz» [7].

        Insistimos: esta é a glória de Deus tornar-nos partícipes da sua alegria e da sua paz.

       

       


(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)






[1] Ef 3, 15
[2] Catecismo, n. 2781
[3] Joseph Ratzinger, Jesús de Nazaret, o.c., p. 166
[4] Ibidem
[5] Ef 1, 4
[6] Catecismo, n. 2818
[7] Catecismo, n. 2820