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23/10/2016

Evangelho e comentário


Tempo Comum

Evangelho: Lc 18, 9-14

9 Disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros: 10 «Subiram dois homens ao templo a fazer oração: um era fariseu e o outro publicano. 11 O fariseu, de pé, orava no seu interior desta forma: Graças Te dou, ó Deus, porque não sou como os outros homens: ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano. 12 Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo o que possuo. 13 O publicano, porém, conservando-se a distância, não ousava nem sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Meu Deus, tem piedade de mim, pecador. 14 Digo-vos que este voltou justificado para sua casa e o outro não; porque quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».

Comentário:

O respeito devido a Deus também se manifesta nas atitudes que tomamos.
Já o dissemos várias vezes: ajoelhar-se em frente do Sacrário ou durante os principais momentos da Santa Missa, como por exemplo durante a Consagração, é a atitude correcta a observar, não só por o ser mas também pelo exemplo a que se dá aos outros.

A Santa Missa não é nem um acto ou cerimónia qualquer nem mais uma "obrigação" em que, como cristãos, participamos, é o maior e mais completo acto de louvor e acção de graças que prestamos a Deus por isso todas as nossas atitudes têm de reflectir estes sentimentos.

(ama, comentário sobre Lc 18, 9-14, 2016.03.05)








05/03/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Quaresma
Semana III

Evangelho: Lc 18, 9-14

9 Disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros: 10 «Subiram dois homens ao templo a fazer oração: um era fariseu e o outro publicano. 11 O fariseu, de pé, orava no seu interior desta forma: Graças Te dou, ó Deus, porque não sou como os outros homens: ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano. 12 Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo o que possuo. 13 O publicano, porém, conservando-se a distância, não ousava nem sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Meu Deus, tem piedade de mim, pecador. 14 Digo-vos que este voltou justificado para sua casa e o outro não; porque quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».

Comentário:

Parece haver pessoas que por um motivo qualquer - que não de saúde ou impossibilidade física - acham que não devem ajoelhar-se perante o Sacrário onde está presente Nosso Senhor e até durante a Santa Missa durante os momentos mais destacados como a Consagração permanecem de pé.

Estas mesmas pessoas curvam-se e fazem vénia aos “grandes” deste mundo, aos personagens que, no seu entender, ocupam lugares ou posições na escala social que merecem essa demonstração de respeito.

É, no mínimo, estranho…

(ama, comentário sobre Lc 18, 9-14, 2015.03.15)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO - CONFISSÕES

LIVRO SEGUNDO

CAPÍTULO III

Cegueira do pai, cuidados da mãe

Nesse mesmo ano tive de interromper meus estudos, quando voltei de Madaura, cidade vizinha, onde fora estudar literatura e oratória, enquanto se faziam os preparativos necessários para minha viagem mais longa a Cartago, levado mais pela ambição de meu pai que pelos seus parcos bens, pois, era mui modesto cidadão de Tagaste.

Mas, a quem conto eu estes factos? Certamente, não a ti, meu Deus, mas em tua presença conto estas coisas aos da minha estirpe, ao gênero humano, ainda que estas páginas chegassem às mãos de poucos. E para que então? Para que eu, e quem me ler, pensemos na profundeza do abismo de onde temos de clamar por ti? E que há de mais próximo a teus ouvidos que o coração contrito e a vida que procede da fé?

Quem então não cumulava a meu pai de louvores, pois excedendo até seus deveres familiares, gastava com o filho o necessário para tão longa viagem por causa de seus estudos?

Porquê, muitos cidadãos, muito mais ricos do que ele, não mostravam para com os filhos igual cuidado?

Contudo, este mesmo pai não se importava de saber se eu crescia para ti, ou que fosse casto, contanto que fosse deserto; mas antes eu era deserto, por carecer de teu cultivo, ó Deus, único, verdadeiro e bom senhor de teu campo, o meu coração.

Porém, no meu décimo-sexto ano foi necessária uma interrupção nos meus estudos por falta de recursos familiares e, livre da escola, passei a viver com meus pais. Avassalaram então a minha cabeça os espinhos das minhas paixões, sem que houvesse mãos que os arrancassem.

Pelo contrário, meu pai, certo dia, percebendo no banho sinais da minha puberdade e vendo-me revestido de inquieta adolescência, como se já se alegrasse pensando nos netos, foi contá-lo alegre à minha mãe. Alegria esta gerada pela embriaguez com que este mundo esquece de ti, seu criador, e no teu lugar ama a tua criatura; embriaguez que nasce do vinho subtil da sua perversa e mal inclinada vontade para as coisas baixas.

Mas, nessa época, já tinhas começado a levantar, no coração da minha mãe, o teu templo e os alicerces da tua santa morada; meu pai não era mais que catecúmeno, recente ainda. Por isso a minha mãe perturbou-se com santo temor. Embora eu ainda não fosse baptizado, temia que eu seguisse as sendas tortuosas por onde andam os que te voltam as costas, e não o rosto.

Ai de mim! Como me atrevo a dizer que te calavas quando me afastava de ti? Seria verdade que então te calavas comigo? E de quem eram, senão tuas, aquelas palavras que pela boca de minha mãe, tua serva fiel, sussurraste em meus ouvidos, embora nenhuma delas penetrasse no meu coração, para que a cumprisse?

Lembro bem que um dia me admoestou em segredo, com grande solicitude, que me abstivesse da luxúria e, sobretudo, que não cometesse adultério com a mulher de ninguém.

Porém, esses conselhos pareciam-me próprios de mulheres, e eu envergonhar-me-ia segui-los.

Mas, na realidade, eram teus, embora eu não o soubesse, e por isso julgava que te calavas, e que era ela quem me falava; e eu desprezava-te na tua serva, eu, seu filho, filho de tua serva e servo teu, a ti que não cessavas de me falar pela sua boca.

Mas eu não o sabia, e precipitava-me com tanta cegueira, que me envergonhava entre os companheiros de minha idade, de ser menos torpe do que eles. Ouvia-os jactar-se das suas maldades, e gloriar-se tanto mais quanto mais infames eram; assim eu gostava de fazer o mal, não só pelo prazer, mas ainda por vaidade. O que há de mais digno de vitupério do que o vicio? E, contudo, para não ser escarnecido, tornava-me mais viciado e, quando não houvesse cometido pecado que me igualasse aos mais perdidos, fingia ter feito o que não cometera, para que não parecesse mais abjecto quanto mais inocente, e tanto mais vil quanto mais casto.

Eis com que companheiros eu andava pelas graças de Babilónia, revolvendo-me na lama, como em cinamomo e unguentos preciosos. E, para que todo esse lodo me agarrasse bem firme, subjugava-me o inimigo invisível, e seduzia-me, por ser eu presa fácil da sedução.

Nem então minha mãe carnal, que já fugira do meio da Babilónia, mas que em outras coisas caminhava mais devagar, cuidou – como fizera ao aconselhar-me a castidade – de conter com os laços do matrimónio aquilo de que seu marido lhe falara a meu respeito. Já percebera que me era pestilencial, e que mais adiante me seria perigoso – já que essa paixão não podia ser cortada pela raiz. Não pensou nisso, digo, por temer que o vínculo matrimonial frustrasse a esperança que sobre mim acalentava; não a esperança da vida futura, que ela já tinha posto em ti, mas a esperança das letras que ambos, meu pai e minha mãe, desejavam ardentemente; meu pai, porque não pensava quase nada de ti, mas apenas ambições vãs a meu respeito; minha mãe, porque considerava que tais tradicionais estudos das letras não só não me seriam de estorvo, sendo de não pouca ajuda para chegar a ti. Assim julgo eu, agora, enquanto me é possível pela lembrança, o carácter de meus pais.

Por isso, soltavam-me as rédeas para o jogo mais do que o permite uma moderada severidade, deixando-me cair na dissolução de várias paixões; e de todas surgia uma obscuridade que me toldava, ó meu Deus, a luz da tua verdade; e, por assim dizer, do meu corpo, brotava minha iniquidade.

CAPÍTULO IV

O furto das peras

É certo, Senhor, que a tua lei pune o furto, lei tão arraigada no coração dos homens que nem a própria iniquidade pode apagar. Que ladrão há que suporte com paciência que o roubem? Nem o rico tolera isto a quem o faz forçado pela indigência. Também eu quis roubar, e roubei não forçado pela necessidade, mas por penúria, fastio de justiça e abundância de maldade, pois roubei o que tinha em abundância, e muito melhor. Nem me atraía ao furto o gozo do seu resultado, mas atraía-me o furto em si, o pecado.

Nas imediações da nossa vinha, havia uma pereira carregada de frutos, que nem pelo aspecto, nem pelo sabor tinham algo de tentador. Alta noite – pois até então ficaríamos jogando nas eiras, de acordo com nosso mau costume – dirigimo-nos ao local, eu e alguns jovens malvados, com o fim de sacudi-la e colher-lhe os frutos. E levamos grande quantidade deles, não para saboreá-los, mas para jogá-los aos porcos, embora comêssemos alguns; o nosso deleite era fazer o que nos agradava justamente pelo facto de ser coisa proibida.

Aí está o meu coração, Senhor, o meu coração que olhaste com misericórdia quando se encontrava na profundeza do abismo. Que este meu coração te diga agora que era o que ali procurava, para fazer o mal gratuitamente, não tendo a minha maldade outra razão que a própria maldade. Era hedionda, e eu amei-a; amei a minha morte, amei o meu pecado; não o objecto que me fazia cair, mas a minha própria queda. Ó torpe alma minha, que saltando para fora do santo apoio, te lançavas na morte, não buscando na ignomínia senão a própria ignomínia?

CAPÍTULO V

A causa do pecado

Todos os corpos formosos, o ouro, a prata, e todos os demais têm, com efeito, o seu aspecto atraente. No contacto carnal intervém grandemente a congruência das partes, e cada um dos sentidos percebe nos corpos certa modalidade própria. Também a honra temporal e o poder de mandar e dominar têm seu atractivo, de onde nasce o desejo de vingança.

Todavia, para obtermos estas coisas, não é necessário abandonarmos a ti, nem nos desviar da tua lei. Também a vida que aqui vivemos tem os seus encantos, por certa beleza que lhe é própria, e pela harmonia que tem com as demais belezas terrenas. Cara é, finalmente, a amizade dos homens pela união que une muitas almas com o doce laço do amor.

Por todos estes motivos, e outros semelhantes, pecamos quando, por propensão imoderada para os bens ínfimos, são abandonados os melhores e mais altos, como tu, Senhor, nosso Deus, a tua verdade e a tua lei.

É verdade que também esses bens ínfimos têm seus deleites, porém, não como os de Deus, criador de todas as coisas, porque nele se deleita o justo, e nele acham suas delicias os rectos de coração.

Portanto, quando indagamos a causa de um crime, não descansamos até averiguar qual o apetite dos bens chamados ínfimos, ou que temor de perdê-los foi capaz de provocá-lo. Sem dúvida são belos e atraentes, embora, comparados com os bens superiores e beatíficos, sejam abjectos e desprezíveis. Alguém comete um homicídio. Por quê? Porque desejou a esposa do morto, ou suas terras, ou porque quis roubar alguma coisa, ou então, ferido, ardeu em desejos de vingança. Por acaso cometeria o crime sem motivo, apenas pelo gosto de matar? Quem pode acreditar em semelhante coisa?

Mesmo de Catilina, homem sem entranhas e muito cruel, de quem se disse que era mau e cruel sem razão, acrescenta o historiador um motivo: “Para que a ociosidade não embotasse as suas mãos e sentimento”.

Todavia, se indagares porque agia assim, dir-te-ei que mediante o exercício de crimes, depois de tomada a cidade, conseguisse honras, poderes e riquezas, libertando-se do medo das leis e das dificuldades da vida, causados pela pobreza de seu património e a consciência dos seus crimes. Logo, nem o próprio Catilina amava os seus crimes, mas aquilo por cujo motivo os cometia.

(cont)

(Revisão de versão portuguesa por ama)


14/03/2015

Evangelho com. L. espirit. (Evangelli Gaudium)

Tempo de Quaresma III Semana

Evangelho: Lc 18 9-14

9 Disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros: 10 «Subiram dois homens ao templo a fazer oração: um era fariseu e o outro publicano. 11 O fariseu, de pé, orava no seu interior desta forma: Graças Te dou, ó Deus, porque não sou como os outros homens: ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano. 12 Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo o que possuo. 13 O publicano, porém, conservando-se a distância, não ousava nem sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Meu Deus, tem piedade de mim, pecador. 14 Digo-vos que este voltou justificado para sua casa e o outro não; porque quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».

Comentário:

Este trecho do Evangelho termina com uma sentença de Jesus Cristo que não admite interpretações.

Não se trata de outra coisa senão a simplicidade que as crianças possuem, a ausência de preconceitos e escrúpulos e, sobretudo, a sinceridade das suas escolhas.

Assim vemos que a dificuldade realmente reside em ser-mos como as crianças, com um coração inteiro e não corrompido totalmente entregue ao amor por aqueles em quem confiam.

Este é o desafio e a verdadeira luta que temos de travar para conseguir vencer. O prémio excederá em tudo as expectativas que possamos ter.

(ama, comentário sobre Lc 18, 9-14, 2014.03.29)

Leitura espiritual

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA EVANGELII GAUDIUM
DO SANTO PADRE FRANCISCO AO EPISCOPADO, AO CLERO ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E AOS FIÉIS LEIGOS SOBRE O ANÚNCIO DO EVANGELHO NO MUNDO ACTUAL

À escuta do povo

154. O pregador deve também pôr-se à escuta do povo, para descobrir aquilo que os fiéis precisam de ouvir.
Um pregador é um contemplativo da Palavra e também um contemplativo do povo.
Desta forma, descobre «as aspirações, as riquezas e as limitações, as maneiras de orar, de amar, de encarar a vida e o mundo, que caracterizam este ou aquele aglomerado humano», prestando atenção «ao povo concreto com os seus sinais e símbolos e respondendo aos problemas que apresenta».[i]
Trata-se de relacionar a mensagem do texto bíblico com uma situação humana, com algo que as pessoas vivem, com uma experiência que precisa da luz da Palavra.
Esta preocupação não é ditada por uma atitude oportunista ou diplomática, mas é profundamente religiosa e pastoral.
No fundo, é uma «sensibilidade espiritual para saber ler nos acontecimentos a mensagem de Deus», e isto é muito mais do que encontrar algo interessante para dizer.
Procura-se descobrir «o que o Senhor tem a dizer nessas circunstâncias».[ii]
Então a preparação da pregação transforma-se num exercício de discernimento evangélico, no qual se procura reconhecer – à luz do Espírito – «um “apelo” que Deus faz ressoar na própria situação histórica: também nele e através dele, Deus chama o crente».[iii]

155. Nesta busca, é possível recorrer apenas a alguma experiência humana frequente, como, por exemplo, a alegria dum reencontro, as desilusões, o medo da solidão, a compaixão pela dor alheia, a incerteza perante o futuro, a preocupação com um ser querido, etc.; mas faz falta intensificar a sensibilidade para se reconhecer o que isso realmente tem a ver com a vida das pessoas.
Recordemos que nunca se deve responder a perguntas que ninguém se põe, nem convém fazer a crónica da actualidade para despertar interesse; para isso, já existem os programas televisivos.
Em todo o caso, é possível partir de algum facto para que a Palavra possa repercutir fortemente no seu apelo à conversão, à adoração, a atitudes concretas de fraternidade e serviço, etc., porque acontece, às vezes, que algumas pessoas gostam de ouvir comentários sobre a realidade na pregação, mas nem por isso se deixam interpelar pessoalmente.

Recursos pedagógicos

156. Alguns acreditam que podem ser bons pregadores por saber o que devem dizer, mas descuidam o como, a forma concreta de desenvolver uma pregação.
Zangam-se quando os outros não os ouvem ou não os apreciam, mas talvez não se tenham empenhado por encontrar a forma adequada de apresentar a mensagem. Lembremo-nos de que «a evidente importância do conteúdo da evangelização não deve esconder a importância dos métodos e dos meios da mesma evangelização».[iv]
A preocupação com a forma de pregar também é uma atitude profundamente espiritual.

É responder ao amor de Deus, entregando-nos com todas as nossas capacidades e criatividade à missão que Ele nos confia; mas também é um exímio exercício de amor ao próximo, porque não queremos oferecer aos outros algo de má qualidade.
Na Bíblia, por exemplo, aparece a recomendação para se preparar a pregação de modo a garantir uma apropriada extensão: «Sê conciso no teu falar: muitas coisas em poucas palavras»[v].

157. Apenas, para exemplificar, recordemos alguns recursos práticos que podem enriquecer uma pregação e torná-la mais atraente.
Um dos esforços mais necessários é aprender a usar imagens na pregação, isto é, a falar por imagens.
Às vezes usam-se exemplos para tornar mais compreensível algo que se quer explicar, mas estes exemplos frequentemente dirigem-se apenas ao entendimento, enquanto as imagens ajudam a apreciar e acolher a mensagem que se quer transmitir.
Uma imagem fascinante faz com que se sinta a mensagem como algo familiar, próximo, possível, relacionado com a própria vida.
Uma imagem apropriada pode levar a saborear a mensagem que se quer transmitir, desperta um desejo e motiva a vontade na direcção do Evangelho.
Uma boa homilia, como me dizia um antigo professor, deve conter «uma ideia, um sentimento, uma imagem».

158. Já dizia Paulo VI que os fiéis «esperam muito desta pregação e dela poderão tirar fruto, contanto que ela seja simples, clara, directa, adaptada».[vi]
A simplicidade tem a ver com a linguagem utilizada.
Deve ser linguagem que os destinatários compreendam, para não correr o risco de falar ao vento.
Acontece frequentemente que os pregadores usam palavras que aprenderam nos seus estudos e em certos ambientes, mas que não fazem parte da linguagem comum das pessoas que os ouvem.
Há palavras próprias da teologia ou da catequese, cujo significado não é compreensível para a maioria dos cristãos.

O maior risco de um pregador é habituar-se à sua própria linguagem e pensar que todos os outros a usam e compreendem espontaneamente.

Se se quer adaptar à linguagem dos outros, para poder chegar até eles com a Palavra, deve-se escutar muito, é preciso partilhar a vida das pessoas e prestar-lhes benévola atenção.
A simplicidade e a clareza são duas coisas diferentes.
A linguagem pode ser muito simples, mas pouco clara a pregação.
Pode-se tornar incompreensível pela desordem, pela sua falta de lógica, ou porque trata vários temas ao mesmo tempo.
Por isso, outro cuidado necessário é procurar que a pregação tenha unidade temática, uma ordem clara e ligação entre as frases, de modo que as pessoas possam facilmente seguir o pregador e captar a lógica do que lhes diz.

159. Outra característica é a linguagem positiva.
Não diz tanto o que não se deve fazer, como sobretudo propõe o que podemos fazer melhor.
E, se aponta algo negativo, sempre procura mostrar também um valor positivo que atraia, para não se ficar pela queixa, o lamento, a crítica ou o remorso.
Além disso, uma pregação positiva oferece sempre esperança, orienta para o futuro, não nos deixa prisioneiros da negatividade.

Como é bom que sacerdotes, diáconos e leigos se reúnam periodicamente para encontrarem, juntos, os recursos que tornem mais atraente a pregação!

IV
Uma evangelização para o aprofundamento do querigma

160. O mandato missionário do Senhor inclui o apelo ao crescimento da fé, quando diz: «ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado»[vii].
Daqui se vê claramente que o primeiro anúncio deve desencadear também um caminho de formação e de amadurecimento.
A evangelização procura também o crescimento, o que implica tomar muito a sério em cada pessoa o projecto que Deus tem para ela.
 Cada ser humano precisa sempre mais de Cristo, e a evangelização não deveria deixar que alguém se contente com pouco, mas possa dizer com plena verdade: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim»[viii].

161. Não seria correcto que este apelo ao crescimento fosse interpretado, exclusiva ou prioritariamente, como formação doutrinal.
Trata-se de «cumprir» aquilo que o Senhor nos indicou como resposta ao seu amor, sobressaindo, junto com todas as virtudes, aquele mandamento novo que é o primeiro, o maior, o que melhor nos identifica como discípulos: «É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei»[ix].

É evidente que, quando os autores do Novo Testamento querem reduzir a mensagem moral cristã a uma última síntese, ao mais essencial, apresentam-nos a exigência irrenunciável do amor ao próximo: «Quem ama o próximo cumpre plenamente a lei. (…)

É no amor que está o pleno cumprimento da lei»[x].

De igual modo, para São Paulo, o mandamento do amor não só resume a lei mas constitui o centro e a razão de ser da mesma: «Toda a lei se cumpre plenamente nesta única palavra: Ama o teu próximo como a ti mesmo»[xi].
E, às suas comunidades, apresenta a vida cristã como um caminho de crescimento no amor: «O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos»[xii].
Também São Tiago exorta os cristãos a cumprir «a lei do Reino, de acordo com a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo»[xiii], acabando por não citar nenhum preceito.

162. Entretanto, este caminho de resposta e crescimento aparece sempre precedido pelo dom, porque o antecede aquele outro pedido do Senhor: «baptizando-os em nome...»[xiv].
A adopção como filhos que o Pai oferece gratuitamente e a iniciativa do dom da sua graça [xv] são a condição que torna possível esta santificação constante, que agrada a Deus e Lhe dá glória.
É deixar-se transformar em Cristo, vivendo progressivamente «de acordo com o Espírito»[xvi].

Uma catequese querigmática e mistagógica

163. A educação e a catequese estão ao serviço deste crescimento.
 Já temos à disposição vários textos do Magistério e subsídios sobre a catequese, preparados pela Santa Sé e por diversos episcopados. Lembro a Exortação Apostólica Catechesi tradendae (1979), o Directório Geral para a Catequese (1997) e outros documentos cujo conteúdo, sempre actual, não é necessário repetir aqui.
Queria deter-me apenas nalgumas considerações que me parece oportuno evidenciar.

164. Voltámos a descobrir que também na catequese tem um papel fundamental o primeiro anúncio ou querigma, que deve ocupar o centro da actividade evangelizadora e de toda a tentativa de renovação eclesial.

O querigma é trinitário.

É o fogo do Espírito que se dá sob a forma de línguas e nos faz crer em Jesus Cristo, que, com a sua morte e ressurreição, nos revela e comunica a misericórdia infinita do Pai.
Na boca do catequista, volta a ressoar sempre o primeiro anúncio: «Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar».
Ao designar-se como «primeiro» este anúncio, não significa que o mesmo se situa no início e que, em seguida, se esquece ou substitui por outros conteúdos que o superam; é o primeiro em sentido qualitativo, porque é o anúncio principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, duma forma ou doutra, durante a catequese, em todas as suas etapas e momentos.[xvii]
Por isso, também «o sacerdote, como a Igreja, deve crescer na consciência da sua permanente necessidade de ser evangelizado».[xviii]

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Ibid., 63: o .c., 53.
[ii] Ibid., 43: o. c., 33.
[iii] João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de Março de 1992), 10: AAS 84 (1992), 672.
[iv] Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 40: AAS 68 (1976), 31
[v] Sir 32, 8
[vi] Ibid., 43: o. c., 33.
[vii] Mt 28, 20
[viii] Gal 2, 20
[ix] Jo 15, 12
[x] Rm 13, 8.10
[xi] Gal 5, 14
[xii] 1 Ts 3, 12
[xiii] Ib. 2, 8
[xiv] Mt 28, 19
[xv] cf. Ef 2, 8-9; 1 Cor 4, 7
[xvi] Rm 8, 5
[xvii] Cf. Propositio 9.
[xviii] João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de Março de 1992), 26: AAS 84 (1992), 698.