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14/03/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Quaresma

Semana V

Evangelho: Jo 8, 1-11

1 Jesus foi para o monte das Oliveiras. 2 Ao romper da manhã, voltou para o templo e todo o povo foi ter com Ele, e Ele, sentado, os ensinava. 3 Então os escribas e os fariseus trouxeram-Lhe uma mulher apanhada em adultério; puseram-na no meio, 4 e disseram-Lhe: «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante delito de adultério. 5 Ora Moisés, na Lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres. E Tu que dizes?». 6 Diziam isto para Lhe armarem uma cilada, a fim de O poderem acusar. Porém, Jesus, inclinando-Se, pôs-Se a escrever com o dedo na terra. 7 Continuando, porém, eles a interrogá-l'O, levantou-Se e disse-lhes: «Aquele de vós que estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra». 8 Depois, tornando a inclinar-Se, escrevia na terra. 9 Mas eles, ouvindo isto, foram-se retirando, um após outro, começando pelos mais velhos; e ficou só Jesus com a mulher diante d'Ele. 10 Então, levantando-Se, disse-lhe: «Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?». 11 Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Então Jesus disse: «Nem Eu te condeno; vai e doravante não peques mais».

Comentário:

A Liturgia repete dois dias seguidos o mesmo Trecho do Evangelho de São João e, parece-me, com uma intenção: marcar bem a postura de Jesus Cristo face à mulher e à sua dignidade como pessoa humana.
Há, de facto, tentativas ao longo dos tempos – também hoje em dia – para que a sociedade reconheça à mulher os direitos que lhe são exclusivos como pessoa humana – direitos e dignidade, bem-entendido -.
Tal não tem nada a ver com outras - não poucas - iniciativas que tentam considerar a mulher igual ao homem o que é profundamente errado.

O homem e a mulher são dois seres humanos com direitos, responsabilidades e deveres comuns, mas, em muitos variados aspectos, com dignidades e “lugares” diferentes na sociedade.
Desde logo só à mulher é reservado o papel da maternidade, a capacidade de gerar um novo ser e, considerando apenas esta particularidade, a mulher tem desde logo um papel de colaboradora activa com Deus.

Deus Nosso Senhor quis expressamente que a Sua humanidade santíssima fosse gerada num seio feminino, numa Mãe terrena, que embora revestida e enormíssimas prerrogativas e privilégios era e tudo igual a qualquer mulher.

Talvez que a palavra mais doce e que move mais corações seja a palavra MÂE, exactamente porque nos lembra – a todos – essa que nos deu a vida, velou por nós nos primeiros dias da nossa existência e, não poucas vezes, nos colocou em primeiríssimo lugar das suas preocupações diárias.

(ama, comentário sobre Jo 8 1-11, 2016.01.15)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO - CONFISSÕES

LIVRO QUINTO

CAPÍTULO I

Oração

Recebe, Senhor, o sacrifício das minhas Confissões por meio da minha língua, que tu formaste e impeliste a confessar o teu nome. Cura todos os meus ossos, e que eles proclamem: Senhor, quem haverá semelhante a ti? Na verdade, quem se dirige a ti, nada te informa do que ocorre em si, porque não há coração fechado que se possa subtrair ao teu olhar, nem dureza de homem que possa repelir a tua mão. Ao contrário, a abrandas quando queres, ou para compadecer-te, ou para castigar; não há quem se esconda do teu calor. Mas, que minha alma te louve para que te ame, a confesse as tuas misericórdias para que te louve. Toda a criação não cala os teus contínuos louvores, nem os espíritos todos, com a sua boca voltada para ti, nem os animais e coisas corporais, pela boca dos que os contemplam. Assim, apoiando-se na tua criação, a nossa alma levanta-se da sua franqueza, e chega a ti, seu admirável criador, onde encontrará rejuvenescimento e verdadeira fortaleza.

CAPÍTULO II

Os que fogem de Deus

Afastem-se e fujam de ti os irrequietos e os pecadores. Tu os vês e distingues as suas sombras. E eis que, apesar deles, todas continuam belas; somente eles são feios. E que damos te poderiam causar? Ou em que poderia desonrar o teu império, justo e íntegro desde os céus até as coisas mais ínfimas? E para onde fugiram, ao fugir da tua presença? E em que lugar não os encontrarás? Fugiram, sim, para não te ver a ti, que os estás vendo, mas deparam contigo, que não abandonas nada do que criaste; tropeçaram contigo, injustos, e justamente são castigados; subtraindo-se á tua brandura, ofenderam a tua santidade, e caíram sob os teus rigores.

Evidentemente eles ignoram que estás em toda parte, que nenhum lugar te limita, e que só tu estás presente mesmo nos que se afastam de ti.

Que se convertam, pois, e te busquem, porque não abandonas a tua criatura, como elas abandonaram o seu Criador. Que se convertam, e logo estarás nos seus corações, nos corações dos que te confessam, dos que se lançam em ti, dos que choram no teu regaço depois de percorrerem penosos caminhos. E tu, bondoso, enxugarás as suas lágrimas; e chorarão ainda mais, mas serão felizes por chorar, porque és tu, Senhor, e nenhum homem de carne e sangue, tu, Senhor, que os criaste, que os consolas e robusteces.

E onde estava eu quando te buscava? Certamente, estavas diante de mim, mas eu tinha-me afastado de mim mesmo, e não me encontrava, e muito menos de ti!

CAPÍTULO III

Fausto e o maniqueísmo

Falarei, na presença do meu Deus, do ano vigésimo-nono da minha vida. Já havia chegado a Cartago um dos bispos maniqueus, chamado Fausto, grande laço do demónio, no qual caíam muitos pelo encanto sedutor da sua eloquência. Apesar de ser exaltada por mim, eu a sabia contudo discernir das verdades que desejava conhecer. Não era o prato do estilo que eu considerava, mas o alimento doutrinal que nele me era servido por aquele famoso Fausto, tão reputado entre os seus.

Antecedera-o a fama de homem erudito em toda espécie de ciência, e particularmente instruído nas artes liberais. E como eu tinha lido muitas teorias dos filósofos, e as guardava na memória, quis comparar algumas destas com as grandes fábulas do maniqueísmo. Pareciam-me mais prováveis as doutrinas daqueles que chegaram a conhecer a ordem do mundo, embora não tivessem encontrado o seu Criador. Porque tu és grande, Senhor, e pondes os olhos nas coisas humildes, e as elevadas conhece-las de longe, e não te aproximas senão dos contritos de coração. Nem és encontrado pelos soberbos, ainda que a sua curiosa perícia seja capaz de contar as estrelas do céu e as areias do mar; seja capaz de medir as regiões do céu e de investigar o curso dos astros.

Com a inteligência e o engenho que lhes deste investigam os segredos do mundo, e descobriram muitos deles; predisseram com muitos anos de antecedência os eclipses do sol e da lua, no dia e hora em que hão-de suceder, sem que nunca lhes falhasse o cálculo, acontecendo sempre tal e como haviam anunciado. Deixaram ainda por escrito as leis por eles descobertas, as quais ainda hoje se leem, e de acordo com elas se prediz em que ano, e em que mês do ano, e em que dia do mês, e em que hora do dia, e em que parte da sua luz se hão-de eclipsar o sol e a lua; e tudo acontece como está predito.

Admiram-se disto os ignorantes, e pasmam. Os sábios gloriam-se disso, e desvanecem-se, e com ímpia soberba afastam-se e eclipsam-se da tua luz. E, prevendo com exactidão o eclipse vindouro do sol, não veem o seu, que já está presente. Não procuram religiosamente saber de onde lhes vem o talento com que investigam essas coisas e, achando que tu as criaste, não se entregam a ti, para que conserves o que lhes deste, nem se te oferecem em sacrifício, como se se tivessem feito a si mesmos; nem dão morte às suas soberbas, que alçam voo como aves do céu; nem às suas insaciáveis curiosidades que, como peixes do mar, passeiam pelas secretas sendas do abismo; nem às suas luxúrias, que os igualam aos animais do campo, a fim de que tu, ó Deus, fogo devorador, destruas estas suas preocupações de morte, e os tornes a criar para uma vida imortal.

Mas não conheceram o caminho, o teu Verbo, por quem fizeste as coisas que numeram, e a eles próprios que as numeram, e os sentidos com que percebem as coisas que numeram, e a mente graças à qual as numeram. Tua sabedoria escapa aos números. Teu Filho Unigénito se fez para nós sabedoria, justiça e santificação, e foi contado entre nós, e pagou tributo a César. Não conheceram este caminho, por onde desceriam do seu orgulho até ele, e por ele subiriam até ele; não conheceram, digo, este caminho, e julgaram-se mais elevados e resplandecentes que as estrelas, e assim vieram a rolar por terra, e seu coração insensato se obscureceu.

Dizem muitas coisas verdadeiras acerca das criaturas; mas, como não procuram piedosamente a Verdade, isto é, o autor da Criação, não o encontram; e, se o encontram reconhecendo-o por Deus, não o honram como a Deus, nem lhe dão graças. Antes, se desvanecem nos seus pensamentos, e se dizem sábios, atribuindo a si próprios o que é teu.

Atribuem a ti, com perversa cegueira, as suas mentiras, a ti, que és a própria Verdade; alteram a glória de um Deus incorruptível, concebendo-a à semelhança e imagem do homem corruptível, das aves, dos quadrúpedes, das serpentes. E convertem a tua verdade em mentira, e adoram e servem antes à criatura do que ao Criador.

Eu porém guardava muitas das suas opiniões verdadeiras acerca das criaturas, cuja explicação encontrava nos números, na ordem dos tempos e no testemunho visível dos astros; comparava-as com os ensinamentos de Manés, que escreveu sobre essas matérias numerosas e delirantes loucuras, sem achar nenhuma explicação para os solstícios e equinócios, os eclipses do sol e da lua, e para outras coisas, enfim, das quais tomara conhecimento pelos livros da sabedoria profana.

Contudo, exigia-me que acreditasse nessas doutrinas, embora não concordassem absolutamente com os meus cálculos e com o que os meus olhos testemunhavam.

CAPÍTULO IV

Ciência e ignorância

Senhor, Deus da verdade, acaso te agradará quem conhecer essas coisas? Infeliz do homem que, conhecendo-a todas, te ignora ti; mas feliz de quem te conhece, embora as ignore!

Quanto ao que conhece a ti e a elas, este não é mais bem-aventurado por causa do seu saber, mas só é feliz por ti, se, conhecendo-te, glorifica-te como Deus, e dá-te graças, e não se desvanece em seus pensamentos.

É melhor aquele que reconhece estar na posse de uma árvore e te dá graças pela sua utilidade, embora ignore quantos côvados tem de altura e de largura, que o que a mede, e conta todos os seus ramos, mas não a possui, nem conhece, nem ama o seu Criador. Assim o homem fiel, a quem pertencem todas as riquezas do mundo, e que, nada possuindo, possui tudo, por estar unido a ti, a quem servem todas as coisas – embora desconheça até o curso das estrelas da Ursa – e seria insensatez duvidar – é certamente melhor do que o que mede os céus, conta as estrelas e pesa os elementos, mas despreza-te a ti, que dispuseste todas as coisas em número, peso e medida.

(cont)


(Revisão de versão portuguesa por ama)

13/03/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Quaresma

Semana V

Evangelho: Jo 8, 1-11

1 Jesus foi para o monte das Oliveiras. 2 Ao romper da manhã, voltou para o templo e todo o povo foi ter com Ele, e Ele, sentado, os ensinava. 3 Então os escribas e os fariseus trouxeram-Lhe uma mulher apanhada em adultério; puseram-na no meio, 4 e disseram-Lhe: «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante delito de adultério. 5 Ora Moisés, na Lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres. E Tu que dizes?». 6 Diziam isto para Lhe armarem uma cilada, a fim de O poderem acusar. Porém, Jesus, inclinando-Se, pôs-Se a escrever com o dedo na terra. 7 Continuando, porém, eles a interrogá-l'O, levantou-Se e disse-lhes: «Aquele de vós que estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra». 8 Depois, tornando a inclinar-Se, escrevia na terra. 9 Mas eles, ouvindo isto, foram-se retirando, um após outro, começando pelos mais velhos; e ficou só Jesus com a mulher diante d'Ele. 10 Então, levantando-Se, disse-lhe: «Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?». 11 Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Então Jesus disse: «Nem Eu te condeno; vai e doravante não peques mais».

Comentário:

É interessante verificar que a Lei que os Escribas e Fariseus tanto fazem por zelar seja tão discriminatória.

De facto para haver adultério é necessário haver mais que um responsável.

Mas Jesus vem corrigir este critério quando diz que o adultério - o acto propriamente dito - não é exclusivo porque bastará o desejo íntimo de outro para o cometer.

Mas, ainda hoje em dia, a sociedade descrimina de forma absurda – e indecente – as mulheres como sendo as únicas culpadas das relações adúlteras.

Aos homens é concedido como que um “estatuto” de defesa automática como se o adultério praticado por estes fosse menos gravoso quando, muitas vezes, são, até, os principais responsáveis não só procurando essas relações mas, também, exercendo autênticas perseguições a mulheres em situação mais fragilizada como sejam, por exemplo, muitas das que os maridos violentam ou abandonam tornando-se “presas fáceis” desses autênticos predadores.

(ama, comentário sobre Jo 8 1-11, 2015.03.23)


Leitura espiritual



SANTO AGOSTINHO - CONFISSÕES

LIVRO QUATRO

CAPÍTULO XIII

O problema do belo

Então eu ignorava tais coisas – e por isso amava belezas terrenas. Caminhava para o abismo, dizendo aos meus amigos: “Será que amamos algo que não é belo? E que é o belo? E que é a beleza? Que é que nos atrai e apega às coisas que amamos? Pois, com certeza, se nelas não houvesse certa graça e formosura, não nos atrairiam.

E eu observava e via que num mesmo corpo uma coisa era o todo, harmonioso e belo, e outra o que lhe era conveniente, com aptidão de se ajustar de maneira perfeita a alguma coisa como, por exemplo, a parte do corpo em relação ao conjunto, o calçado em relação ao pé, e outras similares. Esta consideração brotou na minha alma do íntimo de meu coração, e escrevi alguns livros sobre o belo e o conveniente, creio que dois ou três – tu o sabes, Senhor – pois já me esqueci, e não os tenho mais porque se me extraviaram não sei como.

CAPÍTULO XIV

Razões de uma dedicatória

Mas, meu Senhor e meu Deus, qual o motivo de dedicar esses livros a Hiério, orador de Roma? Não o conhecia, apreciando-o apenas pela fama de sua doutrina, que era grande, e por alguns ditos seus, que ouvira, e que me agradaram. Mas gostava dele principalmente porque ele agradava aos outros, que lhe tributavam grandes elogios, admirados de que um sírio, educado na eloquência grega, chegasse a orador admirável na latina, e grande conhecedor de todos os assuntos, ligados à filosofia. Assim, ouve-se louvar um homem, e, embora ausente, começa-se a amá-lo. Entrará o amor no coração do que ouve pela boca do que louva? É certo que não, mas o amor de um inflama-se com amor do outro. Por isso se ama o que é louvado; mas só quando se está persuadido de que o louvor vem de coração sincero, ou quando o louvor é inspirado pelo amor.

Assim pois eu amava então aos homens, pelo juízo dos homens, e não pelo teu, meu Deus, em quem ninguém se engana. Contudo, por que não o louvava como se louva a um auriga famoso ou a um caçador afamado pelas aclamações do povo, mas de modo mais distinto e mais ponderado, tal como eu gostaria de ser louvado?

Certamente, eu não gostaria de ser louvado e amado como os comediantes, embora eu também os ame e louve; antes, preferiria mil vezes, permanecer desconhecido a ser louvado dessa maneira, e mesmo ser odiado a ser amado assim. De que modo convivem em uma alma gostos tão vários e diversos? Como é que amo noutro o que rejeitaria e afastaria para longe de mim, sendo ambos homens? Aprecia-se um bom cavalo, sem que se queira ser um cavalo, se isso fosse possível. Mas de um histrião não se pode dizer o mesmo, pois tem a mesma natureza que nós. Logo, amo num homem o que teria horror de ser, embora também eu seja homem?

Grande abismo é o homem, cujos cabelos tu, Senhor, tens contados; e não se perde um sem que tu o saibas; e, contudo, mais fáceis de contar são os seus cabelos que as suas paixões e os movimentos de seu coração.

Mas aquele orador era do número dos que eu amava a ponto de desejar ser como ele; mas eu andava errante por causa do meu orgulho e era arrastado por toda espécie de vento, embora em segredo fosse governado por ti. E como sei, e como te confesso com tanta certeza que o amava mais por amor dos que o louvavam do que pelos méritos que lhe valiam esses louvores?

Se em vez de o louvarem aquelas mesmas pessoas o criticassem, e se me contassem dele as mesmas coisas, mas com censura e desprezo, certamente não me entusiasmaria por ele; não obstante, os factos não seriam diferentes e nem outro o homem, mas unicamente os sentimentos dos narradores.

Eis onde jaz enferma a alma que ainda não se apoiou na firmeza da verdade. É levada e trazida, atirada e rechaçada, segundo os sopros das línguas que ventam dos peitos dos que opinam! E de tal modo a luz lhe é toldada, que não distingue a verdade, apesar de estar ela à nossa vista.

Para mim era importante que aquele homem conhecesse as minhas palavras e os meus trabalhos. Se ele os aprovasse, entusiasmar-me-ia ainda mais por ele; mas se os reprovasse, meu coração fútil e vazio da tua firmeza, lastimar-se-ia. Contudo, o meu prazer era pensar e reflectir no problema do belo e do conveniente, assunto do livro que lhe dedicara, admirando-o na minha imaginação, mesmo que ninguém mais o louvasse.

CAPÍTULO XV

Os primeiros livros

Mas não atinava com a chave das tuas artes em tão grandes obras, ó Deus omnipotente, único criador de maravilhas. Vagava a minha alma pelas formas corpóreas, e definia o belo como o que agrada por si mesmo, e o conveniente como o que agrada pela sua acomodação a outra coisa, e apoiava essa distinção com exemplos tomados dos corpos.

Daqui passei à natureza da alma, mas o falso conceito que tinha das coisas espirituais não me permitia perceber a verdade. A própria força da verdade saltava-me aos olhos, mas logo eu afastava da realidade incorpórea meu espírito inquiridor, voltando-me para as figuras, as cores e as grandezas materiais. E como não podia ver nada semelhante na alma, julgava que tampouco seria possível ver a minha alma.

Mas, como eu amava a paz da virtude, e aborrecia a discórdia do vício, notava naquela certa unidade e neste certa desunião; parecia-me que residisse nessa unidade a alma racional, a essência da verdade e do sumo bem. Na desunião, eu via não sei que substância de vida irracional e a natureza do sumo mal, que não era apenas substância, mas também verdadeira vida. Todavia não procedia de ti, meu Deus, de quem procedem todas as coisas. E chamava àquela unidade mónada, como alma sem sexo, e a esta multiplicidade díada, como a ira nos crimes, a concupiscência nas paixões, sem saber o que dizia. Ignorava então, ainda não havia aprendido que o mal não é substância alguma, nem que nosso espírito não é o bem soberano e imutável.

Assim como se cometem crimes quando o movimento do espírito é vicioso e se atira insolente e turbulento, e se cometem infâmias quando o afecto da alma, fonte dos prazeres carnais, é imoderado, assim os erros e falsas opiniões contaminam a vida se a alma racional está viciada, como estava a minha então. Ignorava que ela deveria ser ilustrada por outra luz para participar da verdade, por não ser da mesma essência da verdade, porque tu, Senhor, alumiarás a minha lâmpada; tu, meu Deus, iluminarás as minhas trevas, e todos participamos da tua plenitude, porque és a luz verdadeira que ilumina a todo homem que vem a este mundo, e porque em ti não há mudança nem a momentânea obscuridade.

Eu esforçava-me para me aproximar de ti, mas tu repelias-me para que experimentasse a morte, pois resistes aos soberbos. E que maior soberba haveria que afirmar, com inaudita loucura, que eu era da mesma natureza que tu? Porque, sendo eu mutável, e reconhecendo-me tal – pois, se queria ser sábio, era para fazer-me de menos para mais perfeito – preferia, contudo, julgar mutável a ti do que não ser o que tu és. Eis aqui porque era repelido, e porque resistias à minha soberba cheia de vento.

Eu não imaginava mais que formas corpóreas; carne, acusava a carne; espírito errante, não conseguia voltar para ti, nem em mim, nem nos corpos; não eram sugeridas pela tua verdade, mas imaginadas pela minha vaidade, de acordo com os corpos. E dizia aos pequeninos teus fiéis concidadãos, dos quais eu, ignaro, ainda exilado, dizia-lhes eu, tagarela inepto: “Por quê a alma, criatura de Deus, se engana?” Mas não queria que dissessem: “É por que Deus se engana?” E defendia antes que a tua substância imutável era obrigada a errar, para não confessar que a minha, mutável, se desencaminhara espontaneamente, ou que era castigada pelo erro.

Teria eu vinte e seis ou vinte e sete anos quando escrevi essas coisas, revolvendo dentro de mim apenas imagens corporais, cujo ruído aturdia os ouvidos do meu coração. Eu procurava aplicá-los – ó doce verdade – à tua melodia interior, quando meditava sobre o belo e o conveniente. Meu desejo era estar diante de ti, e ouvir a tua voz, e alegrar-me intensamente com a voz do esposo, mas não o podia, porque o alarido do meu erro me arrebatava para fora e, sob o peso da minha soberba, caía no abismo. Pois ainda não davas gozo e alegria a meus ouvidos, nem exultavam os meus ossos, porque ainda não haviam sido humilhados.

CAPÍTULO XVI

As dez categorias de Aristóteles

E que lucro me trazia, tendo eu vinte anos de idade, mais ou menos, e chegando-me às mãos a obra de Aristóteles, intitulada As Dez Categorias – que meu mestre, o retórico de Cartago, e outros, considerados doutos, citavam com grande ênfase e ponderação, fazendo-me suspirar por ela como por algo grandioso e divino – de que me servia ler essa obra e compreendê-la sozinho? Falando com outros, que afirmavam ter conseguido entendê-la só por meio de mestres eruditíssimos, que lha haviam explicado não apenas com palavras, mas também com figuras pintadas na areia, nada me souberam dizer que eu já não tivesse entendido em minha leitura particular.

Parecia-me que essa obra falava com muita clareza das substâncias, como o homem, e das coisas que nelas se encerram, como a forma do homem; a estatura, quantos pés mede; o parentesco, de quem é irmão; onde se encontra, quando nasceu; se está de pé, sentado, calçado ou armado; se faz alguma coisa ou se padece de alguma coisa, e, enfim, uma infinidade de relações que se contêm nestes nove géneros, dos quais citei alguns exemplos, ou no próprio género da substância, que são também inumeráveis os que encerra.

De que me aproveitava tudo isso, se até me prejudicava? Julgando que naqueles dez predicamentos se achavam compreendidas, de modo absoluto, todas as coisas, esforçava-me por compreender também a ti, meu Deus, Ser maravilhosamente simples e imutável, como se fosses subordinado à tua grandeza e formosura, como se estas estivessem em ti como em seu sujeito, como se fosses um corpo; a tua grandeza e beleza são porém uma mesma coisa contigo, ao  contrário dos corpos, que não são grandes ou belos por serem corpos, pois, embora fosses menores e menos belos, nem por isso deixariam de ser corpos.

Era pois falso o que pensava de ti, e não verdade; ilusões da minha miséria, e não representação sólida da tua beleza. Havias ordenado, Senhor, e assim se cumpria em mim a tua vontade, que a terra me produzisse abrolhos e espinhos, e que eu só conseguisse o meu pão à custa de trabalho.

De que me aproveitava também ler e compreender por mim mesmo todos os livros que pude ter nas mãos sobre as artes chamadas liberais, se eu era então escravo das minhas más inclinações? Comprazia-me na sua leitura, sem atinar de onde vinha quanto de verdadeiro e certo achava neles; eu estava de costas para a luz, e o rosto, para os objectos iluminados, e por isso os meus olhos, que os viam iluminados, não recebiam luz.

Tu sabes, Senhor, meu Deus, como sem ajuda de mestre, aprendi tudo o que li, quanto às leis da retórica, da dialéctica, da geometria, da música e da matemática, porque também a vivacidade da inteligência e a agudeza da intuição são dons teus. Mas não te oferecia por eles sacrifício algum, e por isso causavam-me mais dano do que proveito. Insisti em apoderar-me da melhor parte da minha herança, e não guardei em ti a minha força, mas afastei-me de ti para uma região longínqua, a fim de dissipá-la entre as meretrizes das minhas paixões.

De que me serviam dons tão preciosos, se não usava bem deles? Só compreendi que aquelas artes eram tão difíceis de entender, mesmo para os estudiosos e sábios, quando me esforçava por as expor: entre eles, o mais destacado era o que me compreendia menos vagarosamente.

Mas qual o fruto disso, se eu te concebia, Senhor meu Deus, ó Verdade, como um corpo luminoso e infinito, e eu como uma parcela desse corpo? Que rematada perversidade! Assim era eu; não me envergonho agora, meu Deus, de confessar as tuas misericórdias para comigo, e de te invocar, já que não me envergonhei então de proferir ante os homens tais blasfémias e de ladrar contra ti. De que me aproveitava, repito, a inteligência ágil para entender aquelas ciências, e para explicar com clareza tantos livros complicados, sem que ninguém mos houvesse explicado, se errava monstruosamente na piedade com sacrílega torpeza? E que prejuízo sofriam os teus pequeninos em serem de menor inteligência, se não se afastavam de ti, para que, seguros no ninho da tua Igreja, se cobrissem de penas, e lhes alimentassem as asas da caridade com o sadio alimento da fé?

Ó Deus e Senhor nosso! Esperemos, ao abrigo das tuas asas; protege-nos, leva-nos! Tu levarás os pequeninos, e até escarnecidos tu os levarás, a nossa firmeza só é firmeza quando está em ti; mas quando depende de nós, então é debilidade. O nosso bem vive sempre em ti, e somos perversos porque nos afastamos de ti. Voltemos já, Senhor, para não nos aniquilarmos, porque em ti vive nosso bem, sem deficiência alguma; sem medo de não o encontrar quando voltarmos para nossa origem e, embora ausentes, nem por isso desaba a nossa casa, a tua eternidade.

(cont)


(Revisão de versão portuguesa por ama)

23/03/2015

Evangelho, Com. Leitura esp. (Evangelli Gaudium)

Tempo de Quaresma V Semana

Evangelho: Jo 8 1-11

1 Jesus foi para o monte das Oliveiras. 2 Ao romper da manhã, voltou para o templo e todo o povo foi ter com Ele, e Ele, sentado, os ensinava. 3 Então os escribas e os fariseus trouxeram-Lhe uma mulher apanhada em adultério; puseram-na no meio, 4 e disseram-Lhe: «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante delito de adultério. 5 Ora Moisés, na Lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres. E Tu que dizes?». 6 Diziam isto para Lhe armarem uma cilada, a fim de O poderem acusar. Porém, Jesus, inclinando-Se, pôs-Se a escrever com o dedo na terra. 7 Continuando, porém, eles a interrogá-l'O, levantou-Se e disse-lhes: «Aquele de vós que estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra». 8 Depois, tornando a inclinar-Se, escrevia na terra. 9 Mas eles, ouvindo isto, foram-se retirando, um após outro, começando pelos mais velhos; e ficou só Jesus com a mulher diante d'Ele. 10 Então, levantando-Se, disse-lhe: «Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?». 11 Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Então Jesus disse: «Nem Eu te condeno; vai e doravante não peques mais».


Comentário:

Jesus nunca condena o pecador, condena o pecado.
Quanto ao pecador, espera que, arrependido, peça perdão.
Quanto ao pecado, porque é Santo, não pode mais que abominá-lo.

Eu, pecador, me confesso...são as palavras que o Senhor sempre espera ouvir de nós para, depois de nos perdoar, nos mandar em paz.

(ama, Comentário sobre Jo 8, 1-11, 2010.04.11)

Leitura espiritual

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA EVANGELII GAUDIUM
DO SANTO PADRE FRANCISCO
AO EPISCOPADO, AO CLERO ÀS PESSOAS CONSAGRADAS E AOS FIÉIS LEIGOS SOBRE O ANÚNCIO DO EVANGELHO NO MUNDO ACTUAL

O todo é superior à parte

234. Entre a globalização e a localização também se gera uma tensão.
É preciso prestar atenção à dimensão global para não cair numa mesquinha quotidianidade.
Ao mesmo tempo convém não perder de vista o que é local, que nos faz caminhar com os pés por terra.
As duas coisas unidas impedem de cair em algum destes dois extremos: o primeiro, que os cidadãos vivam num universalismo abstracto e globalizante, miméticos passageiros do carro de apoio, admirando os fogos-de-artifício do mundo, que é de outros, com a boca aberta e aplausos programados; o outro extremo é que se transformem num museu folclórico de eremitas localistas, condenados a repetir sempre as mesmas coisas, incapazes de se deixar interpelar pelo que é diferente e de apreciar a beleza que Deus espalha fora das suas fronteiras.

 235. O todo é mais do que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas.

Portanto, não se deve viver demasiado obcecado por questões limitadas e particulares.
É preciso alargar sempre o olhar para reconhecer um bem maior que trará benefícios a todos nós.
Mas há que o fazer sem se evadir nem se desenraizar.
É necessário mergulhar as raízes na terra fértil e na história do próprio lugar, que é um dom de Deus.
Trabalha-se no pequeno, no que está próximo, mas com uma perspectiva mais ampla.
Da mesma forma, uma pessoa que conserva a sua peculiaridade pessoal e não esconde a sua identidade, quando se integra cordialmente numa comunidade não se aniquila, mas recebe sempre novos estímulos para o seu próprio desenvolvimento.
Não é a esfera global que aniquila, nem a parte isolada que esteriliza.

236. Aqui o modelo não é a esfera, pois não é superior às partes e, nela, cada ponto é equidistante do centro, não havendo diferenças entre um ponto e o outro.

O modelo é o poliedro, que reflecte a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua originalidade.
Tanto a acção pastoral como a acção política procuram reunir nesse poliedro o melhor de cada um.
Ali entram os pobres com a sua cultura, os seus projectos e as suas próprias potencialidades. Até mesmo as pessoas que possam ser criticadas pelos seus erros, têm algo a oferecer que não se deve perder. É a união dos povos, que, na ordem universal, conservam a sua própria peculiaridade; é a totalidade das pessoas numa sociedade que procura um bem comum que verdadeiramente incorpore a todos.

237. A nós, cristãos, este princípio fala-nos também da totalidade ou integridade do Evangelho que a Igreja nos transmite e envia a pregar.
A sua riqueza plena incorpora académicos e operários, empresários e artistas, incorpora todos.

A «mística popular» acolhe, a seu modo, o Evangelho inteiro e encarna-o em expressões de oração, de fraternidade, de justiça, de luta e de festa.

A Boa Nova é a alegria dum Pai que não quer que se perca nenhum dos seus pequeninos.
Assim nasce a alegria no Bom Pastor que encontra a ovelha perdida e a reintegra no seu rebanho.

O Evangelho é fermento que leveda toda a massa e cidade que brilha no cimo do monte, iluminando todos os povos.

O Evangelho possui um critério de totalidade que lhe é intrínseco: não cessa de ser Boa Nova enquanto não for anunciado a todos, enquanto não fecundar e curar todas as dimensões do homem, enquanto não unir todos os homens à volta da mesa do Reino.
O todo é superior à parte.

IV. O diálogo social como contribuição para a paz

238. A evangelização implica também um caminho de diálogo.
Neste momento, existem sobretudo três campos de diálogo onde a Igreja deve estar presente, cumprindo um serviço a favor do pleno desenvolvimento do ser humano e procurando o bem comum: o diálogo com os Estados, com a sociedade – que inclui o diálogo com as culturas e as ciências – e com os outros crentes que não fazem parte da Igreja Católica.

Em todos os casos, «a Igreja fala a partir da luz que a fé lhe dá»,[i] oferece a sua experiência de dois mil anos e conserva sempre na memória as vidas e sofrimentos dos seres humanos.
Isto ultrapassa a razão humana, mas também tem um significado que pode enriquecer a quantos não creem e convida a razão a alargar as suas perspectivas.

239. A Igreja proclama o «evangelho da paz»[ii] e está aberta à colaboração com todas as autoridades nacionais e internacionais para cuidar deste bem universal tão grande.

Ao anunciar Jesus Cristo, que é a paz em pessoa[iii], a nova evangelização incentiva todo o baptizado a ser instrumento de pacificação e testemunha credível duma vida reconciliada.[iv]

É hora de saber como projectar, numa cultura que privilegie o diálogo como forma de encontro, a busca de consenso e de acordos mas sem a separar da preocupação por uma sociedade justa, capaz de memória e sem exclusões.
O autor principal, o sujeito histórico deste processo, é a gente e a sua cultura, não uma classe, uma fracção, um grupo, uma elite.
Não precisamos de um projecto de poucos para poucos, ou de uma minoria esclarecida ou testemunhal que se aproprie de um sentimento colectivo.
Trata-se de um acordo para viver juntos, de um pacto social e cultural.

240. O cuidado e a promoção do bem comum da sociedade competem ao Estado.[v]
Este, com base nos princípios de subsidiariedade e solidariedade e com um grande esforço de diálogo político e criação de consensos, desempenha um papel fundamental – que não pode ser delegado – na busca do desenvolvimento integral de todos.
Este papel exige, nas circunstâncias actuais, uma profunda humildade social.

241. No diálogo com o Estado e com a sociedade, a Igreja não tem soluções para todas as questões específicas.
Mas, juntamente com as vá- rias forças sociais, acompanha as propostas que melhor correspondam à dignidade da pessoa humana e ao bem comum.
Ao fazê-lo, propõe sempre com clareza os valores fundamentais da existência humana, para transmitir convicções que possam depois traduzir-se em acções políticas.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)




[i] Bento XVI, Discurso à Cúria Romana (21 de Dezembro de 2012): AAS 105 (2013), 51.
[ii] Ef 6, 15
[iii] cf. Ef 2, 14
[iv] Cf. Propositio 14.181
[v] Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1910; Pont. Conselho «Justiça e Paz», Compêndio de Doutrina Social da Igreja, 168.