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07/04/2016

Evangelho, comentário, L. espiritual


Páscoa

Evangelho: Jo 3, 31-36

31 «Aquele que vem lá de cima é superior a todos. Aquele que vem da terra, é da terra, e terrestre é a sua linguagem. Aquele que vem do céu, é superior a todos. 32 Ele testifica o que viu e ouviu, mas ninguém recebe o Seu testemunho. 33 Quem recebe o Seu testemunho certifica que Deus é verdadeiro. 34 Aquele a Quem Deus enviou fala palavras de Deus, porque Deus não Lhe dá o Espírito por medida. 35 O Pai ama o Filho e pôs todas as coisas na Sua mão. 36 Quem acredita no Filho tem a vida eterna; quem, porém, não acredita no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele».

Comentário:

Esta longa conversa de Jesus com Nicodemos deveria ser leitura frequente de todo o cristão.

Pela própria boca do Senhor ficamos a saber com perfeita acuidade quanto precisamos sobre a Pessoa do Salvador, a Santíssima Trindade e os "planos" de Deus em relação às Suas criaturas.

Não nos deixemos "afastar" pela aparente erudição ou complexidade do discurso, antes vejamos a simplicidade grandiosa do Amor divino.

(ama, comentário sobre Jo 3 31-36 2015.04.16)


Leitura espiritual


SANTO AGOSTINHO – CONFISSÕES

LIVRO NONO

CAPÍTULO XII

As lágrimas negadas

Fechei-lhe os olhos, e uma tristeza imensa invadiu-me o coração, e já me ia desfazer em lágrimas; ao mesmo tempo, os meus olhos, obedecendo ao enérgico poder da minha vontade, fechavam a sua fonte até secá-la. Como foi angustiosa essa luta! E foi quando ela deu o último suspiro, que o meu filho Adeodato rebentou em soluços; mas, instado por todos nós, calou-se.

Deste modo a sua voz juvenil, voz do coração, calou em mim essa espécie de emoção pueril que me provocava o pranto. De facto, não julgávamos correcto celebrar aquele funeral com lágrimas e choro, pois tais demonstrações deploram geralmente o triste destino dos que morrem, ou a sua total extinção. A morte de minha mãe não era uma desgraça, e ela não morria para sempre, e disto estávamos certos pelo testemunho dos seus costumes, pela sua fé sincera e outras razões inequívocas.

Que era então o que tanto me pungia, senão a ferida recente causada pelo rompimento repentino do nosso dulcíssimo e querido convívio?

Era para mim grande consolação o testemunho que dera de mim, quando nesta última enfermidade, respondendo com ternura às minhas atenções, chamava-me de bom filho, e recordava com grande afecto o nunca ter ouvido da minha boca uma só palavra dura ou injuriosa contra ela. Entretanto, o que era, meu Deus e meu Criador, a solicitude que eu lhe tributava, em comparação com o devotamento servil que por mim suportava? Por me ver privado de tão grande consolo, sentia a alma ferida e a minha vida, que era uma só com sua, estava despedaçada.

Reprimido o pranto do Adeodato, Evódio tomou o saltério e começou a cantar um salmo, ao que todos respondíamos “Misericórdia e justiça te cantarei Senhor”. Conhecida a notícia da sua morte, acorreram muitos irmãos e mulheres piedosas e, enquanto os encarregados dos funerais faziam o seu ofício conforme o hábito, retirei-me para um lugar conveniente, junto com os amigos que julgavam oportuno não me deixar só. Falava sobre assuntos próprios das circunstâncias, e com o lenitivo da verdade mitigava o meu sofrimento, só conhecido por ti. Eles ignoravam-no e ouviam-me atentamente, julgando que não sofria nenhuma dor.

Mas eu, pertinho dos teus ouvidos, onde ninguém me podia escutar, censurava a minha sensibilidade e fraqueza e reprimia a onda de tristeza que me invadia; esta cedia por uns instantes, e novamente me arrastava com o seu ímpeto, embora não chegasse a derramar lágrimas ou alterar a face. Somente eu sabia quão oprimido estava o meu coração! E como me desgostava profundamente que as vicissitudes humanas tivessem tanto poder sobre mim, que são inelutáveis pela ordem natural e a sorte da nossa condição; a minha própria dor causava-me outra dor, e me afligia com dupla tristeza.

Quando o corpo foi levado à sepultura, fui e voltei sem derramar uma lagrima. Nem mesmo nas orações que te fizemos, quando oferecemos o sacrifício da nossa redenção por intenção da morta, cujo cadáver jazia junto ao sepulcro antes de ser inumado, como ali é costume, nem mesmo nessas orações, chorei. Mas durante todo o dia andei oprimido por grande tristeza interior; pedia-te como podia, com a mente perturbada, que aliviasses a minha dor. Mas não me atendias, sem dúvida para que fixasse, bem na memória, ao menos por esta única experiência, como são poderosos os laços do costume, mesmo numa alma que já não se alimentava de palavras enganadoras.

Lembrei-me então ir aos banhos, por ter ouvido dizer que a palavra banho (bálneo, em latim) vinha dos gregos, que o chamaram balanéion (tirar fora a ania), porque o banho aliviava as tristezas da alma. Mas eu o confesso à tua misericórdia – ó Pai dos órfãos: depois do banho fiquei como estava antes, porque  meu coração não expulsou o amargor da sua tristeza.

Depois adormeci. Ao despertar, a minha dor estava mitigada; só, no meu leito, lembrei-me dos versos cheios de verdade de teu Ambrósio. Porque, na verdade Tu és Deus, criador de quanto existe,
De todo o mundo supremo governante,
Que o dia vestes com tua luz brilhante,
E de sonhos gratos a noite triste
A fim de que os membros cansados
O descanso ao trabalho prepare
E as mentes cansadas, repare
E os peitos de pena oprimidos.

Depois, pouco a pouco voltava aos sentimentos de antes sobre a tua serva. Recordava a sua piedade para contigo, a sua solicitude e paciência comigo, da qual subitamente me via privado. E senti consolação em chorar diante de ti, por causa dela e por ela, e por minha causa e por mim. E deixei que as lágrimas reprimidas corressem à vontade, estendendo-as como um leito reparador sob o meu coração. Os teus ouvidos eram os que ali me escutavam, e não os de nenhum homem, que pudesse interpretar com soberba o meu pranto.

E agora, Senhor, to confesso nestas linhas: leia-o quem quiser, interprete-o como quiser. E se alguém julgar que pequei nessas lágrimas, que derramei sobre a minha mãe por alguns instantes, por minha mãe então morta a meus olhos, ela que me havia chorado tantos anos para que eu vivesse aos teus olhos, não se ria. Antes, é grande a sua caridade, chore por meus pecados diante de ti, Pai de todos os irmãos de teu Cristo!

CAPÍTULO XIII

Preces pela mãe morta

Agora, com a ferida do meu coração já sanada, na qual se podia censurar um afecto muito carnal, derramo diante de ti, meu Deus, pela tua serva, outra espécie de lágrimas, bem diferentes, aquelas que brotam do espírito comovido à vista dos perigos que corre toda alma que morre em Adão. É verdade que minha mãe, vivificada em Cristo, antes mesmo de ser livre dos laços da carne, viveu de tal modo, que o teu nome era louvado na sua fé e nos seus costumes. Contudo, não me atrevo a dizer que desde que a regeneraste no baptismo não saiu da sua boca nenhuma palavra contrária à tua lei. Porque a Verdade, que é teu Filho, disse: “Quem chamar a seu irmão louco será réu do fogo da geena”. Ai da vida dos homens, por mais louvável que seja, se tu a julgares sem a tua misericórdia! Mas porque não examinas os nossos pecados com rigor, confiadamente esperamos tomar lugar a teu lado. Quem enumera diante de ti os seus próprios méritos, que mais expõe senão os teus dons? Oh! Se os homens se reconhecessem como homens!

Se quem se glorifica se glorificasse no Senhor!

Por isso, Deus do meu coração, minha vida e minha gloria, esquecendo por um momento as boas ações de minha mãe, pelas quais te dou graças com alegria, peço-te agora perdão pelos seus pecados. Ouve-me pelos méritos daquele que é o médico das nossas feridas, que foi suspenso do madeiro da cruz e que, sentado agora à tua direita, intercede por nós junto a ti. Eu sei que ela sempre agiu com misericórdia, e que perdoou de coração todas as faltas contra ela cometidas; perdoa-lhe também as suas dívidas, se algumas contraiu em tantos anos que se seguiram ao baptismo. Perdoa-lhe, Senhor, perdoa-lhe, te suplico, e não entres em juízo com ela.

Triunfe a misericórdia sobre a justiça pois as tuas são palavras de verdade, e prometeste misericórdia aos misericordiosos. Se alguém o foi, deve-o à tua graça, tu que tens compaixão de quem te apraz, e usas de misericórdia com quem queres ser misericordioso.

Creio que já fizeste o que te suplico, mas desejo, Senhor, que acolhas os desejos de minha boca. Estando iminente o dia da sua morte, ela não desejou sepultar o corpo com grande pompa, ou que fosse embalsamado com preciosos aromas, nem desejou um rico monumento, nem se preocupou em tê-lo na pátria. Nada disto nos pediu, mas desejou apenas que nos lembrássemos dela ante o teu altar, onde servira todos os dias de sua vida, sabendo que nele se oferece a vítima santa, com cujo sangue se destrói o libelo da nossa condenação, e pelo qual vencemos o inimigo que conta as nossas faltas e procura com que nos acusar, nada achando naquele que é nossa vitória.

Quem poderá devolver-lhe seu sangue inocente? Quem poderá restituir-lhe o preço pago pelo nosso resgate, para nos arrancar ao inimigo? A este mistério de nossa redenção ligou a tua serva a sua alma com o vínculo da fé. Que ninguém a afaste da tua proteção. Que entre ela e ti não se interponha, nem pela força, nem pelo engano, o leão ou o dragão. Ela não responderá que nada deve, para não ser convencida e arrebatada pelo astuto acusador, responderá que as suas dívidas lhe foram perdoadas por aquele a quem ninguém pode restituir o que por nós pagou sem nada dever.

Que ela repouse em paz com o seu marido, antes e depois do qual não teve outro; a quem serviu, com uma paciência cujo fruto te oferecia, para o ganhar também para ti. Mas inspira, meu Senhor e meu Deus, inspira os teus servos, meus irmãos, os teus filhos, meus senhores, a quem sirvo de coração, com a palavra e com a pena, para que, ao lerem estas páginas, diante do teu altar se lembrem de Mónica, tua serva, e de Patrício, outrora seu esposo, pelos quais me introduziste misteriosamente nesta vida. Que se lembrem com piedoso afecto daqueles que foram os meus pais nesta vida transitória, e meus irmãos em ti, ó Pai, na Igreja Católica, nossa mãe, e meus concidadãos na eterna Jerusalém, pela qual suspira o teu povo na sua peregrinação desde a saída até ao regresso. Assim, graças às minhas confissões, o último desejo de Mónica será mais amplamente satisfeito com muitas orações do que só pelas minhas.

(Revisão de versão portuguesa por ama)



16/04/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (A beleza de ser cristão)


Semana II da Páscoa


Evangelho: Jo 3 31-36

31 «Aquele que vem lá de cima é superior a todos. Aquele que vem da terra, é da terra, e terrestre é a sua linguagem. Aquele que vem do céu, é superior a todos. 32 Ele testifica o que viu e ouviu, mas ninguém recebe o Seu testemunho. 33 Quem recebe o Seu testemunho certifica que Deus é verdadeiro. 34 Aquele a Quem Deus enviou fala palavras de Deus, porque Deus não Lhe dá o Espírito por medida. 35 O Pai ama o Filho e pôs todas as coisas na Sua mão. 36 Quem acredita no Filho tem a vida eterna; quem, porém, não acredita no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele».

Comentário:

Jesus Cristo fala de Si próprio e explica repetindo uma vez mais, quase com as mesmas palavras, Quem É e ao que veio!

O mais importante a reter é que Ele mesmo Se afirma como o caminho – o único – para o Pai e, sendo assim, como de facto é, só por Ele, com Ele e nele poderemos alcançar a vida eterna.

(ama, comentário sobre Jo 3, 31-36, 2014.05.01)

Leitura espiritual


a beleza de ser cristão

PRIMEIRA PARTE

O QUE É SER CRISTÃO?

I.            Relações que Deus estabelece com o homem.

…/2


Até aqui o esquema dos desejos de Deus de viver com os homens as relações que Deus Uno e Trino quis estabelecer com cada ser humano, que serão o objecto da primeira parte do nosso estudo. E, como estamos tratando de Deus e dos homens, não mencionaremos a criação e a existência dos anjos, que damos por assente.

Assim como antes sublinhamos que Deus não é um ser que o homem possa «inventar”; parece oportuno recordar agora que esses desejos que Deus manifesta de relacionar-se com o homem – desejos engendrados no arcano mistério do Espírito de Deus e, portanto, também no arcano mistério da liberdade, segundo a afirmação do Apóstolo: «O Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade»[i] – hão-de ser recebidos e aceites pelo homem, pelo homem na sua liberdade, para que sejam realmente eficazes e alcancem o seu fim.

Para que a liberdade do homem se encontre em harmonia com a liberdade de Deus, essa harmonia se desenvolva no amor que origina os vínculos e consiga os fins que o amor de Deus pretende alcançar transmitindo ao homem a sua própria vida na graça, o homem necessita de viver livremente umas disposições espirituais de fundo.

Essas disposições, ensinou-no-las Jesus Cristo; e são fundamentalmente: a mansidão, a humildade, a caridade: «Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração».[ii] «Dou-vos um mandato novo: que vos ameis uns aos outros. E nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros».[iii]

Aberto o seu espírito com estas disposições, as relações do homem dom Deus permitem-lhe descobrir que Deus, a criar e vincular desta forma o homem a Ele anseia não só conceder-lhe a condição de filho por adopção, mas também que Deus Pai, Filho e Espírito Santo “sonha” em converter o homem em seu colaborador nas três grandes obras de Deus: na Criação, na Redenção e na Santificação de todo o Universo.

Consciente desses projectos de Deus sobre si, o cristão descobre a sua própria grandeza.

Nessa perspectiva da sua inteligência, da sua vontade, chega a vislumbrar a profunda conversão que se origina na sua pessoa: recebe a vida que Deus lhe oferece, Deus, depois, não o abandona, chama-o a colaborar com Ele, como seu filho em Cristo.

Desta forma, o homem que vive de uma “certa participação na vida de Deus”, vivida na ordem natural e na ordem da graça na unidade do seu eu, converte todo o seu actuar, todo o seu amar, todo o seu ser em Criação, em Redenção, em santificação.

Como é possível esta colaboração do homem com Deus?

ii . a criação

Assinalámos que o homem não pode “criar”, “inventar” Deus. Agora não é difícil entender que o homem é um ser que tampouco está em condições de se ter criado a si próprio.

Não é estranho encontrar-se com frases como «o homem faz-se a si mesmo”; «o homem é o que faz”; «o homem realiza-se a sai próprio segundo o seu projecto de vida”; etc.

São afirmações e desejos que desconhecem, ou que não desejam conhecer, as perguntas sobre a origem e o fim do ser humano; perguntas que, definitivamente, são as verdadeiramente radicais que o homem pode e deve colocar-se a si mesmo; se não mente ou se engana a si mesmo ao dizer que anseia conhecer quem é.

Se nascemos, se vivemos, se morremos, como é evidente, teve de transmitir-nos esta vida, que temos e de que gozamos, mas que não nos demos, Quem não existe não se pode “inventar”.

A doação original da vida que sustém o mundo, e o homem no mundo, é o acto criador de Deus.

Fica no ar a pergunta sobre a realidade de um Criador: quem é? Como é?

Se o mundo tem uma origem, e esta parece ser uma verdade já alcançada. E não digo "cientificamente” alcançada porque a pergunta sobre a origem do mundo não tem uma resposta «científica”. A realidade não se esgota no que é “cientificamente verificável”.

Ou seja, se esta é já uma verdade alcançada para explicar a origem do mundo, conceptualmente só há dois caminhos possíveis para encontrar a resposta: um Criador pessoal, inteligente e livre; ou antes, um ser anónimo, convertível e variável em força amorfa, que necessariamente sustenha em marcha um processo sem começo nem fim e sem nenhum sentido. Não há meios-termos. Deus pessoal ou panteísmo. [iv]

O segundo destes caminhos reduz-se, definitivamente, a um certo “panteísmo”.
Ou seja, ou Deus cria o homem e o homem vive fora de Deus ou o homem e Deus são uma “mesma coisa”, em contínuo movimento, contínuo fazer-se; um deus que nasce e morre continuamente em nós, que somos, portanto, esse mesmo “deus”.

A narração bíblica dos primeiros dias do ser humano, homem e mulher, sobre a terra, apresenta-nos a verdade do facto histórico da criação numa linguagem cheia de imagens, que descreve uma realidade impensável par qualquer ser humano que não tivesse “visto” já a Deus por caminhos para nós desconhecidos.

A consideração que alguns escritores voltam a apresentar de vez em quando e até periodicamente, que Deus não é mais que um produto da mente do homem face aos medos, os temores, e ao tomar consciência da instabilidade, da fragilidade e das limitações que comporta a sua condição de criatura, carece de qualquer fundamento racional.

Simplesmente, porque se dá por adquirido a existência fora do homem do Ser que se pretende objecto da invenção do homem e porque pressupõe que o homem “inventa” um ser com a finalidade de acalmar uns medos e temores que, sem esse ser, o homem não teria jamais nenhuma razão nem motivo para sentir.

Com efeito: que razão há para que o homem tema e fraqueje ante “um algo”, “um alguém”, ou, simplesmente, ante “um nada” se não sabe já que existe?

Porque é que o homem pode encher-se de medo ante “o desconhecido”, se em absoluto não sabe “o que há de verdade no desconhecido”, e tampouco o que “o desconhecido” esconde?

Como pode sequer originar-se no homem o conceito de “desconhecido”, se não descobre no seu próprio ser uns limites que só podem ser realidade na sua condição de criatura?

De que estranho poço de sabedoria pode o homem tomar consciência das suas limitações, dos seus limites, se o seu existir é “pura química”, fruto das «necessidades” da força e da energia evolutiva?

Só se pode negar Deus a partir de um conhecimento prévio de Deus.
E a Deus não é possível, absolutamente, “afirmá-lo” fora dele, a partir do homem.
O homem descobre Deus nele; não o inventa, uma vez mais sublinho.

O homem tomou consciência da existência de Deus a partir do próprio instante da sua criação, ao receber o espírito que o constituía homem.
E esta é a razão pela qual o homem, ao longo de toda a sua história, em qualquer rincão do mundo em que se encontre, em qualquer condição em que estivesse a sua vida, adorou a Deus.

Ainda que, e é necessário admiti-lo: «este conhecimento seja com frequência obscurecido e desfigurado pelo erro».[v]

E com esse acto de adoração deixou um traço da profundidade da inteligência com que foi dotado desde o princípio e rico na sabedoria de a utilizar.

Estando já assente no crente a verdade de um Deus pessoal Criador, o espírito do homem abre-se à compreensão da criação, pondo-se duas interrogações; ainda que possa parecer estranho começar por essas perguntas e não outras; e estranho porque contêm uma palavra que em si mesma parece não necessitar de resposta: criação.

Porquê Deus criou o homem?

Para quê Deus criou o homem?

A primeira pergunta não tem possibilidade de outra resposta que a seguinte: Deus criou o mundo por Amor.

«Assim pois, acerca da questão Porquê Deus criou o mundo? há que dizer o seguinte: Na medida em que esta questão reclama uma resposta por causa da nossa imagem humana de Deus – e só na razão da nossa imagem humana de Deus o problema se pode colocar, não há mais que a resposta de uma confissão esclarecedora: Deus é o amor e, levado por esse amor, cria o mundo para o homem e por causa do homem.
O motivo do seu amor é o seu próprio amor, cujo acto fundamental não é uma resposta a um bem fora de si próprio, mas um dispor criador de todos os bens. [vi]

Uma resposta semelhante corre o perigo de ser entendida num sentido muito redutor; se aplicamos a Deus noções de egoísmo que podemos encontrar em qualquer amor humano.

Deus cria a sua criação por amor; porque anseia transmitir vida e amor. Não para aumentar a sua bem-aventurança nem para adquirir um aumento de perfeição, mas simplesmente para manifestar o seu amor pelos bens que outorga às suas criaturas.
Só o verdadeiro Deus, no seu desígnio libérrimo, criou do nada e ao mesmo tempo uma e outra criatura, a espiritual e a corporal; e. com a criatura, começou o tempo.

(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)






[i] 2 Co 3, 17
[ii] Mt 11, 29
[iii] Jo 13, 34-35
[iv] juan arana, El Dios sin rostro, Biblioteca Nueva, Madrid 2003
[v] Catecismo n. 286
[vi] johann auer, El mundo, creación de Dios, Herder, Barcelona 1985, Part I, cap. II, pag. 9.