03/03/2019

Leitura espiritual


Exame


Observo-me, escrevo sobre mim mas, algumas vezes parece que estou como que a fazer um “prédica” a terceiras pessoas.
É a minha forma de ser aviso desde já.
Dificilmente me atrevo a fazer um exame profundo do meu procedimento.
Qual a razão?
Porque sei muito bem que tenho uma explicação, uma desculpa para tudo de forma que nunca encontro nada absolutamente errado mas, tão só, pequenas falhas sem grande relevo.
Então, quer dizer, não faço exame porque fico pior que se o não Fizesse?
Não!
É pura e simples cobardia e auto-convencimento da bondade da minha forma de proceder.
Eu é que sei! Poderia afirmar.
Que falta de vergonha, que pobreza de critério!
A continuar assim onde irei parar?
Ajuda-me Senhor pois bem vês que não sou capaz.
Exame pois claro!
Como se fosse assim algo de extraordinário, com um merecimento enorme!
Ainda se fosse verdadeiro, profundo, detalhado!
Mas não é, não costuma passar de uma revisão da memória onde me perco em inúmeras coisas sem importância nenhuma, em vez de ir ao "fundo", ao cerne onde nascem os meus defeitos, os meus erros.
Desejo tirar esta capa de "bem-comportado" com que me cubro para poder apresentar-me ao Senhor tal qual sou, ou, por outras palavras, como Ele sabe que sou.
Só com a Tua ajuda o conseguirei e, por isso Te peço me ajudes.

…….

Não tenho outro remédio, tenho de fazer exame!
Penso que fazer exame é um acto sério que define a consciência e o carácter da pessoa.
Não o fazer equivale a considerar-se ou perfeito - e a perfeição não se examina - ou estar completamente desinteressado da vida que se leva, do impacto ou influência que os nossos actos podem ter nos outros, indiferença pelas escolhas dos caminhos ou decisões que se tomam, enfim, viver como um irracional que, como se sabe, não pensa.

Mas, fazer exame não significa um escalpelizar da personalidade à procura de erros, defeitos, vícios, mau procedimento. É, também, verificar o que está bem e que pode eventualmente melhorar e, este aspecto do exame é, seguramente, tão importante como o outro.

…..

É muito possível que o exame pessoal nos arraste a um desejo de controlo absoluto e constante sobre as nossas acções, desejos e querer.
Se assim for não há mal nenhum desde que, evidentemente, esse desejo não nos conduza a um imobilismo ou a uma situação em que os escrúpulos nos levem à indecisão.
Como para tudo, também o exame pessoal tem de ser equilibrado com critério e bom-senso.

….

Mas, o exame é algo privado, como que secreto?
Privado e pessoal sim, mas não tem que ser secreto.
Ao contrário, pode muito bem servir para ajudar outros.
Seria, talvez, motivo de conversa apostólica levar outros ao hábito do exame pessoal.
O exame dá sempre fruto o que é óptimo para quem necessita - e somos todos os homens - de se apresentar ao Senhor com algo para Lhe oferecer.
….
Há duas posições que parecem antagónicas mas, de facto não são.
A primeira é considerar-se um desgraçado cheio de defeitos e debilidades incapaz de merecer o que for.
A segunda é ter-se como alguém impecável que procede bem e credor de reconhecimento das suas qualidades.
Como dizia parecem antagónicas, mas na verdade têm pelo menos um ponto em comum: ambas são exageradas e fogem à realidade.
Quando se tem uma consciência bem formada, isto é, se consegue quase sem esforço distinguir o bem do mal - não no sentido abstracto ou subjectivo mas no aspecto simples e formal - o que pode ser conveniente ou o que não interessa, temos com certeza facilidade em fazer exame.
Por exemplo:
O fiz hoje de bom?
O que fiz mal?
O que podia ter evitado?
O que deveria fazer melhor?

Perguntas simples e concretas que requerem respostas ao mesmo nível.

Ah e sempre – condição sine-qua-non, com honestidade intelectual.

Depois, naturalmente, como consequência lógica, surgirá um propósito, um desejo de melhoria que pode incluir compromisso de correcção.


Há que ter algum cuidado neste aspecto do propósito.
Talvez possa haver uma intenção sincera de o levar a termo mas é necessário que esse propósito seja muito concreto fugindo às generalidades.
E também simples para ser exequível.
Pode ser um propósito composto, isto é, a levar a cabo por fazes, com tempo, não pretender que seja tudo feito imediatamente como um objectivo que em vez de ser "acessível" se converta num fardo difícil de levar.

….

O propósito pode ter como raiz um desejo ou uma necessidade de correcção ou ainda uma vontade de melhoria.
Seja como for nunca nos esqueçamos que se trata de uma decisão pessoal livremente tomada e não algo imposto por outro seja porque motivo for.
Antes de fazer o propósito deve considerar-se que se está a assumir um compromisso e portanto envolve uma responsabilidade que não pode ser descartada por uma razão ou motivo qualquer.
Se me comprometer com Deus, não cumprir o prometido equivale a desiludir o Senhor e assim mais vale não se comprometer.

Esta conclusão parece tornar tudo muito mais fácil:

Ou me considero capaz de um compromisso, mesmo contando com eventuais falhas; ou não!

Chego a uma conclusão final que parece dever ser:

1 - O exame é algo sério e importante.
2 - Tudo quanto é sério e importante deve ser levado à consideração da oração.
3 – Antes do exame, oração a pedir luz e discernimento e, naturalmente, humildade.
4 – Depois do exame, agradecer a luz e inspirações recebidas e, novamente levá-las à oração.
5 – Depois e só depois, virá o propósito consequência lógica do resultado da oração.

AMA, Reflexão, Porto 26-05-2018

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