04/05/2017

Leitura espiritual

A Cidade Deus
A CIDADE DE DEUS 


Vol. 2

LIVRO X

CAPÍTULO XII

Milagres que o verdadeiro Deus opera pelo ministério dos san­tos anjos.

Todavia, com o com essas artes se realizam tantas e tais coisas que ultrapassam todos os limites da capacidade humana — que resta senão que todos estes prodígios, que parecem divinamente preditos ou cumpridos, mas sem relação com o culto do Deus único (em cuja união, com o confessam e atestam largam ente mesmo os platónicos, se
encontra o único bem beatífico), sejam prudentemente considerados com o divertimento dos malignos demónios e obstáculos sedutores que a verdadeira religião deve evitar? Mas todos os milagres realizados por ordem divina pelos anjos ou por qualquer outro modo, tendo por finalidade recomendar o culto e a religião do Deus único no qual, e só no qual existe a vida bem-aventurada, devem ser considerados como provenientes, operando Deus neles, da acção ou da intercessão dos que nos amam segundo a verdade e a piedade.

Não devem ser ouvidos os que negam que Deus invisível possa fazer milagres visíveis. Nem mesmo esses podem negar que este mesmo Deus fez o mundo que, não há dúvida, é visível. Tudo o que de maravilhoso acontece neste mundo é, com certeza, menos do que o mundo no seu todo, isto é, do que o Céu e a Terra e tudo o que encerram — obras que, indubitavelmente, foi Deus quem as fez. Mas tal como Aquele que as fez, assim também o modo como as fez, se conserva oculto e incompreensível homem. Talvez os milagres das naturezas visíveis tenham perdido o seu valor devido a tantas vezes terem sido observados. Todavia, se encararmos com olhos de ver, verem os que são superiores aos mais extraordinários e mais raros. Realmente, o homem é um milagre maior do que qualquer milagre feito por um homem.

É por isso que Deus, que fez o Céu e a Terra visíveis, não desdenha fazer no Céu e na Terra milagres visí­veis para estimular a alma, ainda presa às coisas visíveis, a adorá-lo a Ele invisível. Mas «onde» e «quando» os fará — é n’Ele o objecto dum desígnio imutável em cuja disposição se encontram já presentes os tempos futuros. E que Ele move as coisas temporais e não se move no tempo. Para Ele, conhecer o que se vai fazer e o que está feito é tudo o mesmo; nem atende os que o invocam de forma diferente dos que o hão-de invocar. Mesmo quando são os anjos que atendem, é Ele ainda quem neles atende como no seu verdadeiro templo que não é feito pelas mãos dos homens. O mesmo ocorre com os seus homens santos. E os preceitos realizam-se no tempo em conformidade com a lei eterna.


CAPÍTULO XIII

Deus invisível tem-se muitas vezes mostrado visível, não tal qual é, mas como o podem suportar os que o vêem.

Não é de estranhar que Deus, sendo invisível, se tenha· apresentado muitas vezes visível aos Patriarcas. Assim como o som faz perceber um pensamento encerrado no silêncio do espírito sem ser propriamente o pensamento, assim também a forma, sob a qual aparece Deus invisível por natureza, não é o que Ele é. Todavia, era a Ele mesmo que se via sob a forma corporal com o era o próprio pensamento que se percebia no som da voz. Os Patriarcas não ignoravam que viam o Deus invisível sob uma forma corporal que não era Ele próprio.

Falava com Moisés e este também lhe dirigia a palavra, chegando a pedir-lhe:

Se diante de ti encontrei graça, mostra-te a mim para que eu, vendo-te, te conheça [i].

Como era preciso que a lei fosse proclamada pelos anjos duma forma terrífica, não a um só homem nem a poucos sábios, mas a toda um a nação e a um povo enorme, diante do povo aconteceram prodígios sobre a montanha onde a lei lhe foi dada por intermédio de um só homem, enquanto a multidão presenciava o que de terrível e terrífico se ia desenrolando. A verdade é que o povo de Israel não acreditou em Moisés com o os Lacedemónios acreditaram no seu Licurgo, isto é, que ele tinha recebido de Júpiter ou de Apolo as leis que estabeleceu. Efectivamente, quando o povo recebeu a lei que lhe prescrevia o culto do único Deus — sinais e movimento sob os seus olhares operados nas coisas, na medida que a Divina Providência considerava conveniente, tornavam evidente que, para dar essa lei, a criatura era mero instrumento do Criador.

CAPÍTULO XIV

Deve-se prestar culto ao único Deus não só pelos seus benefícios eternos, mas também pelos seus benefícios temporais, uma vez que tudo está sob o domínio da sua Providência.

Tal como o de um só homem, assim também o correcto progresso educacional do género humano, que está a cargo do povo de Deus, se desenrola através de jornadas no tempo, com o que em idades escalonadas. Assim, ele se eleva das coisas temporais à inteligência das eternas e das visíveis às invisíveis. Nem mesmo no tempo em que Deus
permitia a este povo recompensas visíveis lhe era menos prescrito que adorasse o Deus único para que a alma humana, mesmo na mira dos bens terrenos desta vida passageira, a nenhum outro que não fosse o seu verdadeiro criador e senhor se submetesse. Realmente, todo o bem que os anjos ou os homens podem fazer aos homens depende de um só Deus Omnipotente, e duvidar disto é uma loucura.

No De Providentia o platónico Plotino prova pela beleza das florinhas e das folhas que esta providência desce de Deus altíssimo, cuja beleza é inteligível e inefável, até aos mais pequenos seres da Terra. Todos estes seres, assegura ele, tão humildes e tão rapidamente perecíveis, não poderiam ter nas suas formas estas proporções harmoniosas se não tivessem recebido a marca da origem em que reside a forma inteligível e imutável que em si contém ao mesmo tempo (simul) todas as perfeições. E o que mostra o Senhor Jesus quando diz:

Olhai os lírios do campo: não trabalham nem fiam. Porém digo-vos: nem o próprio Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Ora se o feno do campo, que hoje existe mas amanhã é lançado ao fogo, Deus assim veste
quanto mais a vós, ó gente de pouca fé
[ii].

Com toda a razão, portanto, a alma humana, ainda debilitada pelos desejos terrenos, que no tempo prefere os mais baixos e terrenos bens necessários a esta vida transitória, des­prezíveis em comparação dos favores eternos da outra vida, bom é que se habitue a não os esperar senão de Deus único, de maneira que, mesmo quando os deseja, se não afaste do culto desse Deus ao qual não pode chegar senão desviando-se deles com desprezo.


CAPÍTULO XV

Ministério dos santos anjos ao serviço da Providência.

Assim, pois, aprouve à divina Providência ordenar o curso dos tempos de modo que a lei que prescreve o culto do único Deus verdadeiro fosse promulgada, com o já disse e se lê nos Actos dos Apóstolos, pelo ministério dos anjos. Apareceu, então, visivelmente a pessoa do próprio Deus, não em sua própria substância que permanece sempre invisível aos olhos corruptíveis, mas por sinais reveladores, por intermédio de um a criatura submetida ao criador; sílaba a sílaba, através das durações sucessivas dos tempos dessas sílabas, falava por meio das palavras da linguagem humana Aquele que, não corporal mas espiritualmente, não sensível mas inteligivelmente, não temporal mas por assim dizer eternamente, fala uma linguagem que não começa nem acaba. E a Ele que ouvem com maior pureza, não com o ouvido do corpo mas com o da mente, os seus ministros e mensageiros que gozam, em imortal beatitude, da sua verdade imutável e realizam, sem vacilações nem dificuldades, o que, de maneiras inefáveis, ouvem que deve ser realizado e deve chegar até estes seres visíveis e sensíveis.

Ora esta lei, segundo as conveniências do tempo, foi ada para obter primeiro, com o já disse, as promessas terrenas, sem­pre significadoras das eternas que, nos sacramentos visíveis, muitos celebrariam e poucos entenderiam. Todavia, o culto de um único Deus é clarissimamente prescrito pelo testem unho convergente de todas as palavras e de todos os ritos desta lei; o culto não de um deus tirado da turbamulta, mas, sim o culto d’Aquele que fez o Céu e a Terra, todas as almas e todos os espíritos — tudo o que não é Ele. Ele fez — as coisas foram feitas; e para que as coisas sejam e se encontrem bem, têm necessidade de quem as fez.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Ex. XXXIII, 13.
[ii] Mt VI, 28.

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