13/05/2017

Leitura espiritual

A CIDADE DE DEUS

Vol. 2

LIVRO XIII
CAPÍTULO XXIV

Com o se deve entender quer o sopro de Deus pelo qual o primeiro homem foi feito em alma vivente, quer aquele que o Senhor emitiu ao dizer aos seus discípulos: Recebei o Espírito Santo.

Têm também procedido sem consideração os que, na passagem em que se lê:

Deus soprou sobre a sua face um espírito de vida e foi feito o homem numa alma vivente,[i]

são de parecer que não foi dada então ao primeiro homem a alma, mas que foi vivificada pelo Espírito Santo a que ele já tinha. Impressiona-os o facto de o Senhor Jesus, depois de ter ressuscitado dos mortos, ter soprado sobre os seus discípulos, dizendo:

Recebei o Espírito Santo.[ii]

Julgam ter acontecido agora algo semelhante ao que aconteceu então, com o se o evangelista tivesse acrescentado: «E foram feitos em almas viventes». Se ele tivesse dito isto, tal significaria, na nossa opinião, que o Espírito de Deus é, de certa maneira, a vida das almas e que, sem Ele, as almas racionais devem ser tidas por mortas, mesmo quando a sua presença parece vivificar os corpos. Mas não foi o que aconteceu quando o homem foi criado. Atestam-no suficientemente as palavras do livro deste teor:

E formou Deus o homem do pó da terra3,[iii]

— o que alguns, para maior clareza, traduzem assim: «Deus formou o homem do barro da terra», porque, mais acima, fora dito:

Uma fonte jorrava da terra e regava-lhe toda a superfície,[iv]

— o que podia designar o barro feito duma mistura de terra e de água. De facto, depois de ter sido dito isto, segue-se logo:

E formou Deus o homem do pó da terra,[v]

como vem nos códices gregos dos quais foi a Escritura traduzida para a língua latina. Não interessa para o caso que se traduza a palavra grega por criou (formavit) ou por modelou (finxit), embora «modelou» seja o termo mais apropriado. Mas para evitar equívocos, houve quem preferisse «criou» (formavit) porque prevaleceu na língua latina o costume de utilizar fingere (modelar, fingir) na composição de ficções mentirosas. É, portanto, este homem, formado do pó da terra ou de barro (isto é, de pó molhado), este homem, digo eu, «pó tirado da terra», como expressamente relata a Escritura, é que foi feito corpo animal, como o ensinou o Apóstolo, quando recebeu uma alma:

E foi feito este homem numa alma vivente,[vi]

isto é, este pó assim modelado foi dotado de alma vivente.

Ele já tinha uma alma, dirão, sem o que não se chamaria homem — porque homem não é corpo só nem alma só, mas o com posto de corpo e alma. Realmente, a verdade é que a alma não é o homem todo, mas a sua parte melhor; nem o corpo é o homem todo, mas a sua parte inferior. É ao conjunto de ambos que se dá o nome de homem; mas as partes não perdem este nome mesmo quando se fala só de cada uma. Quem é que, realmente, se coíbe de dizer, conforme certa regra da conversação de todos os dias: «Aquele homem morreu e agora está em repouso ou no sofrimento» — embora isto só da alma se possa dizer? Ou então: «Este homem foi sepultado em tal ou tal lugar» — embora isto só do corpo se possa entender? Quererão eles dizer que não é assim que a Sagrada Escritura costuma falar? Bem ao contrário — também ela nisto está de acordo connosco pois, mesmo quando as duas partes estão unidas e o homem vive ainda, dá ela a cada uma das partes o nome de homem: chama à alma «homem interior» e ao corpo «homem exterior», como se fossem dois, embora o homem seja um a e outra parte ao mesmo tempo. Mas convém compreender em que sentido se diz que o homem é a «imagem de Deus», e que é «terra e à terra voltará». A primeira expressão refere-se à alma racional dada ao homem, isto é, ao corpo do homem pelo sopro de Deus ou, se se prefere expressão mais adequada, pela inspiração de Deus; a segunda refere-se ao corpo tal qual foi formado por Deus a partir do pó, ao qual se deu a alma para dele fazer um corpo animado, isto é, um homem dotado de alma vivente.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Gen., II, 7.
[ii] Jo XX, 22.
[iii] Gen., II, 7.
[iv] Gen., II, 7-6.
V I Corint., XV, 45.
[vi] I Corint., XV, 45.

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