30/04/2017

Tratado da vida de Cristo 158

Questão 53: Da ressurreição de Cristo

Art. 2 — Se Cristo devia ressuscitar no terceiro dia.

O segundo discute-se assim. — Parece que Cristo não devia ressuscitar no terceiro dia.

1. — Pois, os membros devem harmonizar-se com a cabeça. Ora, nós, membros de Cristo, não ressuscitamos da morte no terceiro dia, senão que a ressurreição nos é diferida até o fim do mundo. Logo, parece que Cristo, nossa cabeça, não devia ter ressuscitado no terceiro dia, mas a ressurreição devia ter-lhe sido diferida até o fim do mundo.

2. Demais. — Diz Pedro que era impossível Cristo ser prisioneiro do inferno e da morte. Ora, quem está morto é prisioneiro da morte. Logo, parece que a ressurreição de Cristo não devia ser diferida até o terceiro dia, mas devia ressuscitar logo no mesmo dia. Sobretudo que a Glosa Supra referida diz: Nenhuma utilidade haveria na efusão do sangue de Cristo, se não ressuscitasse logo.

3. Demais. — O dia começa ao nascer do sol, que com a sua presença é a causa dele. Ora, Cristo ressuscitou antes do nascer do sol, segundo o Evangelho: No primeiro dia da semana veio Maria Madalena ao sepulcro de manhã, fazendo ainda escuro. E então já Cristo tinha ressuscitado, conforme o diz a continuação desse lugar do Evangelho: E viu que a tampa estava tirada do sepulcro. Logo Cristo não ressuscitou no terceiro dia.

Mas, em contrário, o Evangelho: Entregá-lo-ão aos gentios para ser escarnecido e açoitado e crucificado, mas ao terceiro dia ressuscitará

Como se disse, a ressurreição ele Cristo era necessária para a ilustração da nossa fé. Ora, a nossa fé tem por objecto tanto a divindade como a humanidade de Cristo; pois, não basta crer numa sem crer na outra, como do sobredito se colhe. Donde, para que se confirmasse a nossa fé na verdade da sua divindade, era necessário ressuscitasse logo, nem lhe fosse diferida a ressurreição até ao fim do mundo. Mas, para que fosse confirmada a fé na verdade da sua humanidade e da sua morte, era necessário que houvesse um intervalo entre a morte e a ressurreição. Se, ao contrário, tivesse ressuscitado imediatamente depois da morte poderia parecer que não tinha verdadeiramente morrido, e por consequência que também não era verdadeira a sua ressurreição. Ora para manifestar a verdade da morte de Cristo, bastava que a sua ressurreição fosse diferida até ao terceiro dia; pois, não é necessário, que um homem aparentemente morto manifeste, dentro desse tempo, quaisquer sinais de vida. — E também o facto de ter ressuscitado no terceiro dia proclama a perfeição do número três, número próprio de todas as causas, por ter princípio, meio e fim, como diz Aristóteles. - E mostra ainda misteriosamente, que Cristo, com a morte única do seu corpo, que foi uma luz, por causa da sua justiça, destruiu as nossas duas mortes - a do corpo e a da alma, envoltas nas trevas, do pecado. Por isso Cristo permaneceu morto um dia inteiro e duas noites como diz Agostinho. - E além disso significa que com a ressurreição de Cristo começava o terceiro tempo. Pois, o primeiro foi o anterior à lei; o segundo, o da lei; o terceiro, o da graça. — Enfim, com a ressurreição de Cristo começou o terceiro estado dos Santos. Pois, o primeiro foi o figurado, sob a lei; o segundo, o da realidade da fé; o terceiro será o da eternidade da glória, que começou com a ressurreição de Cristo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A cabeça e os membros harmonizam-se pela natureza, mas não pela virtude; pois, a virtude da cabeça é mais excelente que a dos membros. Por isso, para manifestar a excelência da virtude de Cristo, ele devia ressuscitar no terceiro dia, sendo a ressurreição dos demais dilatada a ao fim do mundo.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A prisão implica uma coacção. Ora, Cristo não estava adstrito a nenhuma necessidade que lhe a morte tivesse imposto; mas era livre entre os mortos. Por isso, permaneceu algum tempo morto, não como prisioneiro da morte, mas por vontade própria, enquanto o julgava necessário para a ilustração de nossa fé. Pois, dizemos que se realiza imediatamente o que se faz com breve interpolação de tempo.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Como dissemos, Cristo ressuscitou pela madrugada, quando já iluminava o dia, para significar que mediante a sua ressurreição nos conduzia à luz da glória. Assim como morreu quando já o dia entardecia e declinava para as trevas, a fim de mostrar que pela sua morte destruiria as trevas da culpa e da pena. E, contudo, se diz, que ressuscitou no terceiro dia, tomando esta palavra pelo dia natural, que abrange o espaço de vinte e quatro horas. E, no dizer de Agostinho, a noite, até o dilúculo em que se deu a ressurreição do Senhor, pertence ao terceiro dia. Pois, o próprio Deus, ordenando que das trevas resplandecesse a luz, a fim de que pela graça do Novo Testamento e pela participação da ressurreição de Cristo, pudéssemos aplicar as palavras do Apóstolo — Noutro tempo éreis trevas, mas agora sais luz no Senhor — o próprio Deus nos insinua de certo modo que o dia começa pela noite. Assim, pois, como os primeiros dias da criação se contavam a partir da luz até à noite, por causa da queda futura do homem, assim no caso vertente, por causa da redenção, os dias se contam partindo das trevas à luz. — Donde é claro, que ainda que tivesse ressuscitado à meia noite, poderíamos dizer que ressuscitou no terceiro dia, entendendo-se este como dia natural. Mas, como na verdade ressuscitou no dilúculo, podemos dizer que ressuscitou no terceiro dia, mesmo considerando este como dia artificial, causado pela presença do sol; porque já o sol começava a iluminar o ar. Por isso S. Marcos diz, que as mulheres chegaram ao sepulcro, quando já o sol era nascido. O que não encontra o dito de João, segundo o explica Agostinho: pois, no surgir do dia, as trevas remanescentes tanto mais se dissipam quanto mais se intensifica a luz; donde, o dito de Marcos - já o sol era nascido - não devemos entendê-la como se esse astro já estivesse acima do horizonte, mas significam somente que ia aparecer logo.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.



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