22/04/2017

Leitura espiritual

A Cidade Deus
A CIDADE DE DEUS


Vol. 2

LIVRO XII

Nele Agostinho trata primeiro dos anjos, averigua depois porque é que a boa vontade de uns e a má vontade de outros foi a causa da bem-aventurança dos bons e da desgraça dos maus, e por fim trata da criação do homem e prova que não foi criado desde sempre, mas no tempo, nem por outro autor senão Deus.


CAPÍTULO I

Natureza única tanto dos anjos bons com o dos maus.

Antes de começar a falar cia criação do homem — assunto no qual se tornará patente a origem das duas cidades em relação ao género dos racionais mortais, com o já se viu, parece-me, no livro anterior acerca dos anjos — reparo que ainda me falta dizer umas coisas acerca dos anjos. Devo explicar, tanto quanto me é possível, que não há inconveniência nem incoerência em falar dum a cidade com um aos anjos e aos homens. Não há quatro cidades (ou seja, duas dos anjos e duas dos homens), mas apenas duas — uma composta de bons e outra de maus, anjos ou homens.

Não é lícito pôr em dúvida que as inclinações, entre si contrárias, dos bons e dos maus anjos, não resultam de naturezas e princípios diversos, pois foi Deus, autor e criador excelente de todas as substâncias, quem as criou a umas e outras, — mas provêm das vontades e apetites. Uns mantêm-se no bem, com um a todos, que para eles é o próprio Deus, e na sua eternidade, na sua verdade, na sua capacidade; os outros, comprazendo-se mais no seu poder pessoal, com o se fosse bem seu próprio, afastaram-se do supremo bem, fonte universal de felicidade e, — preferindo o fausto da sua elevação à eminentíssima glória da eternidade, a astúcia da sua vaidade à plena certeza da verdade, as suas paixões de facção à indivisível caridade — tornaram -se orgulhosos, enganadores e invejosos. A beatitude daqueles tem, pois, por causa a sua união a Deus — e a desgraça destes explica-se pela razão contrária: a separação de Deus. Se, portanto, a quem perguntar porque é que uns são felizes?, se deve responder: porque estão unidos a Deus; e a quem perguntar porque é que outros são infelizes?, se deve responder: porque eles não estão unidos a Deus — segue-se que o único bem fonte de beatitude para a criatura racional e inteligente é Deus. E, embora nem todas as criaturas sejam capazes de alcançar a beatitude (o animal, a madeira, a pedra e outras coisas que tais não obtêm nem atingem este dom), todavia, as que a podem alcançar, não o podem por si próprias, pois foram criadas do nada, mas podem-no por Aquele que as criou. Possuí-lo é a sua felicidade; perdê-lo é a sua desgraça. Mas o que tira a sua felicidade do bem que Ele é e não de outro, não pode ser infeliz porque não pode perder-se.

Dizemos que só há um bem imutável — o Deus verdadeiro e bem-aventurado. Porém, as criaturas que Ele fez, embora sejam boas, pois d’Ele provêm, são, todavia, mutáveis, pois que não foi d’Ele mas do nada que as fez. Embora não sejam o bem supremo, pois que maior bem que eles é Deus, são, todavia, grandes bens esses bens mutáveis que, unindo-se ao bem imutável, podem conseguir a felicidade. Deus é em tal medida o seu bem que, sem Ele, são necessariamente infelizes. Nem por isso as outras criaturas do universo são melhores pelo facto de não poderem ser infelizes, com o também se não devem
considerar as outras partes do nosso corpo melhores do que os olhos pelo facto de se não poderem tom ar cegas. A natureza sensível, mesmo quando sente uma dor, é melhor que uma pedra que nunca a poderá sentir. Também uma natureza racional, mesmo infeliz, é superior a um a natureza privada de razão ou de sensibilidade, sobre a qual, portanto, não cai a desgraça.

Porque assim é, o facto de estar separada de Deus constitui um vício para esta natureza dotada de uma tal superioridade que, embora ela própria seja mutável, a sua felicidade consiste em unir-se ao bem imutável, isto é, a Deus Soberano e, como só sendo feliz é que colmata a sua indigência, só Deus chega para a colmatar. Mas todo o vício é prejudicial à natureza e, portanto, é contrário à natureza. Por isso, é pelo vício, e não pela natureza, que o ser que se une a Deus difere daquele que dele se separa. Mas é ainda esse vício que faz ressaltar a extraordinária grandeza e a tão alta dignidade da própria natureza. Efectivamente, presta-se homenagem à natureza daquele de quem justificadamente se censura o vício — pois o vício só é justo objecto de censura porque desonra uma natureza digna de louvor. Assim:

chamar à cegueira vício dos olhos é mostrar que a vista pertence à natureza dos olhos;

chamar à surdez vício dos ouvidos é mostrar que a audição pertence à natureza dos ouvidos;

da mesma forma, quando se diz que é vício da natureza angélica aquele pelo qual ela se não une a Deus, declara-se abertamente que à sua natureza convém a união a Deus. Aliás, quão grande seja a glória de estar unido a Deus para servir para Ele, ser sábio e feliz por Ele fruir de tamanho bem sem conhecer a morte nem o erro nem o sofrimento, — quem disto poderá pensar ou falar adequadamente? Tanto o vício é prejudicial à natureza que até o dos anjos maus (que consiste na separação de Deus) mostra à saciedade que Deus criou a sua natureza tão boa que o facto de não estar esta com Deus já lhe é prejudicial.


CAPÍTULO II

Parece que nenhuma essência é contrária a Deus pois só se opõe totalmente ao Ser supremo e eterno o que não é.

Devemos afirmar coisas para que ninguém, a propó­sito dos anjos apóstatas, pense que eles poderiam ter recebido uma natureza diversa proveniente de outro princípio — natureza de que Deus não seria o autor. Cada um se verá livre deste erro ímpio tão rápida e facilmente quanto com mais perspicácia puder compreender o que pelo anjo disse Deus quando mandou Moisés aos filhos de Israel:

Eu sou aquele que sou.[i]


Deus, a essência suprema, isto é, aquele que é sumamente e por isso é imutável, deu o ser às coisas que criou do nada, mas não deu o ser sumamente com o ele próprio é: a uns deu mais ser a outros menos ser e assim ordenou as naturezas segundo os graus da sua essência. (Assim como, de facto, o verbo sapere (saber) deu a palavra sapientia (sapiência), assim também do verbo esse (ser) vem a palavra essentia (essência): palavras novas de certo que os antigos autores latinos não usaram, mas em pregadas hoje para que não faltasse à nossa língua o que os gregos chamam ουσίαν que se traduz literalmente por essentia). Assim, pois, a esta natureza, que sumamente é, pela qual tudo quanto existe foi feito, não há natureza contrária a não ser aquela que
não é. Realmente, só o não ser é que é contrário ao que é. E por isso é que a Deus, essência suprema, autor de todas as essências, sejam elas quais forem, nenhum a essência é contrária.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Ex. III, 14.

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