06/03/2017

Leitura espiritual

A CIDADE DE DEUS

Vol. 2

LIVRO IX

CAPÍTULO IV

Opinião dos peripatéticos e dos estoicos acerca das perturbações da alma.

São duas as opiniões dos filósofos acerca dos movimentos da alma a que alguns dos nossos, com o Cícero, chamam «perturbações» (perturbationes); outros chamam-lhes «disposições» (affectiones) ou «afectos» (affectus), e ainda outros, como o citado Apuleio, «paixões» (passiones) — termo que melhor traduz a palavra grega. Dizem certos filósofos que estas perturbações, disposições ou paixões atingem mesmo o sábio. Mas, no sábio, elas são moderadas e submetidas à razão, cuja autoridade lhes impõe leis que, de certo modo, as contêm nos seus limites necessários. É este o sentimnto quer dos platónicos quer dos aristotélicos, pois Aristóteles, fundador da escola peripatética, foi discípulo de Platão.

Segundo outros, como os estoicos, tais paixões nunca atingem o sábio. Cícero, porém, nos seus livros De finibus bonorum et malorum [i] convence os estoicos de que estão em desacordo, mais em palavras do que na realidade, com os platónicos ou os peripatéticos. E que os estoicos se recusam a chamar «bens» às comodidades corporais e exteriores, porque, a seu ver, não há para o homem «bem» fora da virtude: esta é que é a arte de viver bem e só reside na alma. Mas estes (os platónicos), usando de linguagem simples e corrente, chamam-lhes «bens», embora, em comparação com a virtude, que assegura a rectidão da vida, os considerem pequenos e medíocres. Donde se conclui que, chame-lhes cada um como quiser — «bens» ou «comodidades» —, ambos os têm em igual estima, e nesta questão os estoicos mais não procuram que a novidade das palavras. Também a mim me parece que, quando se pergunta se as paixões do espírito podem afectar o sábio ou se este está delas totalmente livre, a discussão versa mais sobre palavras do que sobre realidades. Parece-me, pois, que o sentimento dos estoicos é idêntico ao dos platónicos e dos aristotélicos, se não quanto à expressão pelo menos quanto ao âmago da questão.

Para não me tornar demasiado extenso, ponho de parte outros argumentos e apenas exporei um que é bem revelador. Conta Aulo Gélio, varão de elegantíssimo estilo e de vasta e profunda erudição, no seu livro que tem por título Noctes Atticae (Noites Áticas), que, certo dia, viajava no mar com um reputado filósofo estoico. Esse filósofo, como mais larga e copiosamente refere Aulo Gélio e eu resumo aqui, ao ver o barco sacudido por um céu medonho e um mar perigosíssimo, devido ao medo começou a empalidecer. Isto foi notado pelos presentes, que, apesar da morte vizinha, curiosamente perguntavam se a alma de um filósofo se perturbaria. Depois, passada que foi a tempestade e quando a segurança deu aso à troca de impressões e mesmo de gracejos, um dos passageiros, faustoso rico asiático, increpou o filósofo por ter tido medo e empalidecido, ao passo que ele se manteve intrépido perante a morte iminente. Mas o outro contou-lhe a resposta do socrático Aristipo: este, ao ouvir, em iguais circunstâncias, as mesmas palavras de um indivíduo da mesma laia, respondeu-lhe que tinha feito muito bem em não se apoquentar com a vida de um velhaco, mas que devia recear pela vida de um Aristipo.

O rico ficou confundido com esta resposta, mas Aulo Gélio, não com vontade de atacar, mas de aprender, logo perguntou ao filósofo qual a razão do seu pavor. Este, para satisfazer um homem inflamado do desejo de aprender, tirou da sacola um livro do estoico Epicteto, em que este consignava as suas ideias concordantes com os princí­pios de Zenão e Crisipo, fundadores, com o se sabe, da escola estoica. Diz Aulo Gélio ter lido nesse livro que os estoicos admitem certas percepções da alma a que chamam «fantasias», de que não está em nosso poder saber em que condições e em que momento se produzem na alma. Quando provêm de acontecimentos terríveis, espantosos, comovem fatalmente a alma do próprio sábio — e de tal sorte que, por momentos, também este experimenta o calafrio do medo e a angústia da tristeza, antecipando-se, por assim dizer, estas paixões ao exercício da inteligência e da razão, sem que, contudo, o espírito se contagie com o mal, as aprove ou nelas consinta. Isto é o que está em nosso poder, dizem os estoicos — e é nisto que reside a diferença entre a alma do sábio e a do néscio: no néscio, ela cede às paixões e aceita o assentimento da mente, ao passo que no sábio, embora se veja por necessidade a elas submetido, mantém com mente imperturbável o verdadeiro e estável juízo acerca do que deve apetecer e do que deve razoavelmente evitar. Estas ideias que Aulo Gélio recorda ter lido no livro de Epicteto e declara tê-las achado conformes com os princípios dos estoicos, expu-las, julgo eu, não com mais elegância do que aquele, mas, certamente, com maior concisão e clareza.

Se isto é assim, não há, ou quase não há diferença entre a opinião dos estoicos e a dos outros filósofos acerca das paixões e perturbações da alma. Tanto uns como outros defendem a mente e a razão do sábio, do domínio daquelas. Se os estoicos dizem que elas não atingem o sábio, é talvez porque jamais elas obscurecerão com algum erro ou mancharão com algum a nódoa essa sabedoria que o torna sábio: sem alterarem a serenidade da alma do sábio, podem afectar-lha com o que chamamos comodidade ou incomodidade, já que não querem chamar-lhes «bens» ou «males».

Seguramente que, se na verdade o tal filósofo não desse qualquer apreço aos bens que sentia fugirem-lhe no naufrágio — tais como a vida e a saúde do corpo —, ele não teria tremido de pavor perante o perigo ao ponto de mostrar a sua palidez. Mas essa mesma emoção podia muito bem suportá-la mantendo-se firmemente convencido de que a vida e a saúde do corpo, ameaçadas de serem levadas pela furiosa tempestade, não são os bens que, como a justiça, tornam bons os que as possuem. Que se deva chamar-lhes, com o eles dizem, não bens, mas comodidades — é uma guerra de palavras e não uma questão sobre a realidade. Que interessa que se lhes chame, com maior exactidão, bens ou comodidades, se a ameaça de os perder faz igualmente empalidecer e tremer tanto o estoico como o peripatético, os quais, sem lhes darem o mesmo nome, os apreciam da mesma forma? O certo é que tanto uns como outros declaram que, se fossem constrangidos a cometer um acto injusto ou criminoso que pusesse em perigo esses bens ou comodidades sem de outro modo poderem salvá-los, prefeririam perder tudo o que garante a saúde e a vida a violar a justiça, cometendo esse acto. Assim a mente, em que esta convicção está alicerçada, não permite que em si possa prevalecer perturbação alguma contra a razão, mesmo que essa perturbação se verifique nas regiões inferiores da alma; mais ainda: a razão exerce sobre elas o seu domínio, e — nelas não consentindo, mas, pelo contrário, resistindo-lhes, — faz com que reine a virtude. É assim que Vergílio descreve Eneias quando diz:

O seu espírito mantém-se inquebrantável e é em vão que as lágrimas correm [ii].  


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Cícero, De finibus bonorum et malorum, III, 3, 10.
[ii] Vergílio, Eneida, IV, 449.

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