10/03/2017

Leitura espiritual

A CIDADE DE DEUS

Vol. 2

LIVRO IX

CAPÍTULO XIV

Sendo mortais, poderão os homens gozar da verdadeira felici­dade?

Se o homem poderá ser simultaneamente feliz e mortal — é a grande questão que entre os homens se põe. Alguns, olhando para a sua condição com demasiada modéstia, negaram ao homem a capacidade de ser feliz enquanto vive sujeito à mortalidade. Outros, considerando-
-se superiores, ousaram dizer que os mortais poderão ser felizes desde que estejam de posse da sabedoria. Se assim é, porque é que se não colocam estes como intermediários entre os homens miseráveis e os felizes imortais, pois têm de comum com os imortais felizes a felicidade e com os mortais miseráveis a mortalidade? Com certeza que, se são felizes, a ninguém invejam (haverá realmente algo de mais miserável que a inveja?), e ajudam, na media que lhes é possível, os mortais infelizes a obterem a felicidade para que possam também ser imortais depois da morte e possam unir-se aos anjos imortais e felizes.


CAPÍTULO XV

O homem Jesus Cristo mediador entre Deus e os homens.

Mas, se, segundo a opinião mais aceitável e mais provável, todos os homens são necessariamente infelizes por serem mortais, tem que se procurar um intermediário que seja, além de homem, também Deus — para, por mediação da sua bem-aventurada imortalidade, encaminhar os ho­mens da sua miserável mortalidade à imortalidade bem-aventurada. Era necessário que nem fosse excluído da mortalidade nem constrangido a permanecer mortal. Tornou-se, de facto, mortal, não por enfraquecimento da di­vindade do Verbo, mas por assunção da fraqueza da carne. Mas não permaneceu mortal na carne, que Ele res­suscitou dos mortos. O fruto da sua mediação é precisamente este: que aqueles para cuja libertação se fez mediador não permaneçam mais na morte perpétua da carne. Foi, pois, necessário que o mediador entre Deus e nós possuísse uma mortalidade transitória e uma felicidade permanente, para se poder acomodar aos mortais no passageiro e levá-los de entre os m ortos ao que permanece.

Os anjos bons não podem, portanto, ocupar uma posição intermediária entre os infelizes mortais e os imortais bem-aventurados, porque eles próprios são bem-aventurados (felizes) e imortais. Podê-lo-iam ser os anjos maus, porque, com o os mortais, são infelizes, e imortais como os bem-aventurados. Contrário a eles está o bom mediador que, contra a imortalidade e desgraça dos anjos maus, quis tornar-se mortal por algum tempo e pôde permanecer bem-aventurado na eternidade. Assim, para impedir que os maus anjos, imortais orgulhosos e infelizes
criminosos, seduzissem os homens, valendo-se da sua imortalidade para os conduzir à infelicidade, — o bom mediador, pela humildade da sua morte e a suavidade da sua beatitude destruiu o domínio daqueles nos corações que pela fé purificou da sua imundíssima tirania.

Assim, o homem mortal e infeliz, muito afastado dos seres imortais e felizes, que mediador poderá escolher que o conduza à imortalidade e à beatitude? O que poderia deleitá-lo na imortalidade dos demónios, é miséria; o que poderia chocá-lo na mortalidade de Cristo, já não existe. Naquele caso, tem que se precaver contra a desgraça sem fim, — neste caso, já não tem que temer a morte que não pôde ser eterna, mas amar a felicidade sempiterna. Se se interpusesse um mediador imortal e infeliz, seria para fechar a passagem à imortalidade feliz, porque o que impede de lá chegar — a própria infelicidade — persiste sempre. Mas, ao contrário, o que era mortal e feliz interpôs-se, uma vez passada a mortalidade, para dar aos que morreram a imortalidade — o que ele mostrou em si próprio ressuscitando e conferindo aos que são infelizes a beatitude de que jamais foi privado.

Há, pois, um mediador mau que separa os amigos — e há um mediador bom que congraça os inimigos. São muitos os mediadores que separam, porque, se a multidão dos anjos bons tira a sua beatitude da participação no Deus único, a desgraçada multidão dos anjos maus, privada desta participação, faz oposição mais para impedir do que para facilitar a nossa felicidade. A sua própria multidão de certo modo nos ensurdece com a sua vozearia, para nos tornar impossível o acesso ao bem único e beatificante. Para o conseguirmos, não são precisos mui­tos mediadores: basta um — precisamente aquele cuja participação nos torna felizes, o Verbo de Deus incriado, por quem tudo foi criado.  Todavia, não é enquanto Verbo que ele é mediador, porque o Verbo, soberanamente imortal e soberanamente feliz, está longe dos mortais infelizes. Ele é mediador enquanto homem, mostrando por isso mesmo que, para atingir aquele que é, não somente o Bem feliz (beatum) mas também beatificante (beatificum) não é preciso procurar outros mediadores que julguemos encarregados de dispor os degraus da nossa ascensão — pois foi o próprio Deus bem-aventurado (beatus) beatificante (beatificus), tor­nado partícipe da nossa humanidade, quem nos forneceu um meio rápido de participarmos na sua divindade. Real­mente, ao libertar-nos da mortalidade e da miséria, não foi para os anjos imortais e felizes que nos encaminhou, para nos alcançar uma felicidade e uma imortalidade deles recebida: foi sim para aquela Trindade cuja participação faz a felicidade dos próprios anjos. Por isso, quando quis, para ser mediador, pôs-se abaixo dos anjos na forma de escravo, manteve-se acima deles na sua forma de Deus, fazendo-se caminho de vida entre os inferiores, Ele mesmo que é a vida entre os superiores.


CAPÍTULO XVI

Terão os platónicos caracterizado acertadamente os deuses celestes quando afirmam que, para evitarem o contacto terreno, eles se não misturam com os homens, os quais, por sua vez, para conseguirem a sua amizade, precisam da ajuda dos demónios?

Não é verdade o dito que o mesmo platónico atribui a Platão:

Nenhum deus se mistura com os homens
[i] .

A melhor prova da sublimidade dos deuses, acrescenta ele, é que se não maculam em qualquer contacto com os homens. Reconhece, portanto, que os demónios estão maculados — e, por isso, não podem purificar aqueles que os poluem, e todos se tornam igualmente impu­ros: os demónios pelo contacto com os homens, os homens pelo
culto dos demónios. Ou então, se os demónios podem contactar e misturar-se com os homens sem se mancharem, é porque são melhores que os deuses, que se manchariam se se misturassem aos homens. Realmente, é privilégio dos deuses, diz-se, estarem de tal modo separados pela sublimidade que o contacto hum ano os não poderá macular.

Quanto ao Deus supremo, de tudo criador, a quem chamamos o Deus verdadeiro, diz Apuleio que, segundo Platão, é o único que não pode, por penúria da palavra humana, ser convenientemente compreendido pela linguagem; só no sábio, quando por sua força de alma, se despoja, tanto quanto possí­vel, do corpo humano, se torna transparente a com preensão deste Deus — e mesmo isto só por vezes, com o um fulgurante relâmpago em trevas profundas. Se, portanto, o Deus verdadeiramente superior a todas as coisas, nem por isso deixa de estar presente, embora só por vezes e no brilho fulgurante dum rápido
relâmpago, duma maneira inteligível e inefável à inteligência dos sá­bios quando eles tanto quanto possível se desprendem do corpo, sem já serem para Deus uma ocasião de contaminação — para que pôr os deuses pagãos tão longe nas alturas, com medo de que o contacto humano os macule? Como se não fosse suficiente ver esses corpos etéreos cuja luz ilumina, tanto quanto basta, a Terra! Se, na verdade, os astros, de que Apuleio faz outros tantos deuses visíveis, não são poluídos por quem os vê, também os demónios o não serão pelos olhares dos homens, mesmo que estes os vejam de perto.

Por acaso será que os deuses, que não podem ser manchados pela vista, poderão sê-lo pela voz dos homens — e por isso se teriam valido da intervenção dos demónios para receberem deles as palavras humanas, de que se conservam afas­tados para se manterem totalmente puros? Que direi, então, dos outros sentidos? Não é cheirando que quer os deuses quer os demónios, quando estão presentes, podem ser contaminados pelas exalações dos corpos vivos dos homens — pois que não o são durante os sacrifícios pela pestilência dos cadáveres. Quanto ao gosto — nenhuma necessidade os obriga a restabelecer a sua mortalidade, para que, movidos pela fome, peçam
alimentos aos homens. O tacto está à sua disposição, porque, embora pareça que o contacto se relaciona principalmente com o tacto, os deu­ses poderiam muito bem, se quisessem, misturar-se com os homens de m aneira a verem e a serem vistos, a ouvirem e a serem ouvidos. Que necessidade têm eles de tocar? Os próprios homens não se atreveriam a desejar tal dom desde que gozassem da vista ou do convívio dos deuses ou dos demónios bons. E, se a sua curiosidade chegasse ao ponto de o desejarem — como poderia um homem tocar num deus ou num demónio contra a vontade deles, se nem num pardal poderá tocar sem o apanhar?

Os deuses poderiam, portanto, misturar-se corporalmente com os homens, vendo-os e oferecendo-se à sua vista, falando-lhes e ouvindo-os. Mas, se os demónios, como disse, deste modo se misturam aos homens sem por isso se mancharem, ao passo que os deuses se mancham por esse contacto, então os demónios, no seu entender,
não podem ser manchados, mas podem-no os deuses. Mas,
se os próprios demónios se maculam, que auxílio podem eles prestar aos homens para lhes obterem a vida bem-aventurada depois da morte? Estando maculados, não podem purificá-los para os reunirem, uma vez purificados, aos deuses sem mácula, junto dos quais foram constituídos mediadores dos homens. E, se não prestam este serviço para que serve aos homens a amistosa mediação dos demó­nios? Será porventura para que, depois da morte, os homens não passem a deuses por intervenção dos demónios, mas vivam uns e outros contaminados e, portanto, nem uns nem outros felizes? A não ser que alguém o explique dizendo que os demónios, à laia de esponjas ou
coisa parecida, limpam os seus amigos, ficando eles tanto mais sórdidos quanto mais os homens ficam asseados por esta espécie de limpeza. Se assim é, os deuses misturam-se com os demónios mais contaminados, ao passo que, para não serem contaminados, evitam a vizinhança e o contacto dos ho­mens. Ou será que os deuses podem purificar os demónios contaminados pelos homens, sem por eles
serem contaminados, e não podem do mesmo modo purificar os ho­mens? Quem senão um enganado pelos falacíssimos demónios poderá pensar desta maneira? Se alguém fica manchado por ver e por ser visto — porque é que os deuses visíveis (como diz Apuleio)
essas brilhantes luzes do mundo [ii]
e com eles, todos os outros astros, estão expostos aos olhares dos homens, ao passo que os demónios, que só serão vistos se quiserem, estão livres deste contágio dos homens? E, se não é o facto de ser visto, mas o de ver que contamina, — então, terão que negar que

essas brilhantes luzes do mundo
[iii]

de que fizeram deuses, vêem os homens quando dardejam os seus raios sobre a Terra! Estes raios, que se difundem sobre tantos objectos imundos, não se contaminam, — e contaminam-se os deuses, se se misturarem com os homens, mesmo que necessário seja o contacto para aos homens socorrerem? O facto é que, tocada pelos raios do
Sol e da Lua, a Terra não contamina a sua luz.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Ibid.
[ii] Apuleio, De Deo Socratis, II, p. 8, ed. Thomas.
Ver Vergílio, Georg. I, 5-6
[iii] Apuleio, De Deo Socratis, II, p. 8, ed. Thomas.
Ver Vergílio, Georg. I, 5-6

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