04/02/2017

Leitura espiritual

A CIDADE DE DEUS

Vol. 1

LIVRO V

CAPÍTULO XV

Recompensa temporal que Deus concedeu aos bons costumes dos Romanos.

A estes, portanto, não tinha Deus que conceder a vida eterna com os seus santos anjos na sua Cidade Celeste. A verdadeira piedade é que conduz a essa sociedade, a qual só se manifesta quando se tributa ao único Deus verdadeiro o serviço religioso a que os gregos chamam λατρεία. Se este Deus não lhes concedesse nem sequer a glória terrena do mais glorioso dos impérios, — não lhes concederia a recompensa das suas boas qualidades, isto é, das virtudes com que se esforçaram por chegar a tamanha glória.

Foi na verdade de tais homens, que parece terem feito algo de bem para serem glorificados pelos homens, que o Senhor também disse:

Na verdade vos digo, receberam a sua recompensa [i].

De facto, sacrificaram os seus interesses pelo bem comum, isto é, pelo estado e pelo erário público:
— resistiram à avareza e vigiaram pelo bem da pátria com livre determinação;
— foram isentos de crimes e de vícios punidos por lei;
— por estes meios como por um caminho verdadeiro, procuraram alcançar honras, poder e glória;
— conseguiram ser honrados por quase todos os povos;
— impuseram as leis do seu império a muitos povos;
— em quase todos os povos são hoje glorificados nas letras e na história. Não têm que se queixar da justiça de Deus verdadeiro e supremo — receberam a sua recompensa [ii].

CAPÍTULO XVI

Recompensa dos santos cidadãos da Cidade eterna aos quais são úteis os exemplos das virtudes dos Romanos.

Mas, mesmo cá, é muito diferente a recompensa dos santos que sofrem opróbrios pela verdade de Deus, odiosa para os apaixonados por este mundo. Esta cidade é eterna
— ninguém nela nasce porque ninguém nela morre;
— nela é verdadeira e plena a felicidade, que não é uma deusa mas um dom de Deus;
— dela recebemos o penhor da fé para todo o tempo durante o qual, peregrinando, suspiramos pela sua beleza;
— nela o Sol já não se levanta para os bons e para os maus,
— o Sol da justiça apenas protege os bons;
— nela não haverá mais esforços para enriquecer o erário público à custa das fortunas privadas, porque o tesouro comum será a verdade.

Não foi, por conseguinte, somente para que uma tal recompensa fosse concedida a tais homens que o Império Romano se desenvolveu e conquistou a glória humana; — foi também para que os cidadãos desta Cidade eterna, enquanto por cá peregrinam, olhem com atenção e com tino para aqueles exemplos e vejam quão grande amor se deve à pátria celeste por causa da vida eterna — quando a cidade terrena é tão amada pelos seus cidadãos por causa da glória dos homens.

CAPÍTULO XVII

Que frutos colheram os Romanos das guerras e que aproveitaram estas aos vencidos.

No que respeita a esta vida mortal, que desliza e acaba em poucos dias, que interessa sob que autoridade vive o homem feito para morrer, se os que mandam não o obrigam a actos ímpios e iníquos? Os Romanos não causaram prejuízos aos povos aos quais, depois de subjugados, impuseram as suas leis, apenas porque isso aconteceu mercê das ingentes carnificinas das guerras? Se tal tivesse acontecido de mútuo acordo, os resultados teriam sido melhores; mas seria nula a vitória dos triunfadores. De facto, os Romanos viviam, eles também, sob as suas pró­prias leis que impunham aos outros. Se tudo isto tivesse acontecido sem a intervenção de Marte ou de Belona, de maneira que não haveria também lugar para a Vitória, nem haveria vencedores porque não tinha havido luta — não seria a mesma a condição dos Romanos e dos outros povos? Sobretudo se se fizesse em seguida o que tão gratuita e humanamente se fez mais tarde: associar à cidade todos os que pertencessem ao Império Romano e declará-los cidadãos romanos; assim seria de todos o que antes era de poucos — só que aquela plebe que não possuía campos seus tinha de viver a expensas do Estado. Estas despesas de alimentação seriam prestadas mais gostosamente se previamente tivessem chegado a acordo e se servissem de bons administradores públicos do que se, depois de vencidos, lhas tivessem de extorquir.

Fora de tão ilusório orgulho da glória humana — por que «já receberam a sua recompensa» os que, devido ao seu imenso amor por ela, empreenderam sangrentas guerras — não vejo na verdade que possa interessar à segurança e aos bons costumes isso (que pensamos serem os méritos dos homens): que uns sejam vencedores e outros vencidos. Não cobram eles os impostos das suas terras? Será que lhes é permitido aprender (discere) o que aos outros não é permitido? Não haverá nas outras terras muitos senadores que os Romanos nem sequer de vista conhecem? Deita fora a jactância: que são todos os homens senão homens? Mas, ainda mesmo que a perversidade do século admitisse que fossem mais honrados os melhores — nem mesmo assim se deveria ter em grande conta a honra humana: porque o fumo não tem peso.

Todavia, mesmo nestas coisas, aproveitemos dos benefícios do Senhor nosso Deus. Consideremos tudo o que desprezaram, tudo o que suportaram, quantas paixões abafaram pela glória humana estes homens que a mereceram como recompensa de tais virtudes, e que isto nos ajude também a reprimir a nossa soberba. E, pois que aquela cidade, em que nos foi permitido reinar, dista tanto da de cá quanto o Céu dista da Terra, a vida eterna dista da alegria temporal, a sólida glória dista dos vãos louvores, a sociedade dos anjos dista da sociedade dos mortais, a luz d’Aquele que fez o Sol e a Lua dista da luz do Sol e da Lua, — não julguem os cidadãos de tão grande pátria que alguma coisa de grande fizeram quando, para a conquistarem, algo fizeram de bom ou suportaram alguns males, quando os Romanos pela pátria terrestre que já possuíam fizeram tamanhas coisas e tamanhas coisas suportaram; principalmente porque a remissão dos pecados que congrega os cidadãos para a eterna pátria, tem alguma coisa a que, como uma sombra, se assemelha o asilo de Rómulo em que a impunidade concedida a todos os crimes reuniu a multidão com que ele fundaria esta cidade.

CAPÍTULO XVIII

Quão alheios se devem manter os cristãos da jactância se algo tiverem feito por amor à pátria eterna, quando os Romanos tamanhas proezas realizaram por amor da glória e da Cidade terrena.

Que é que de extraordinário há em desprezar por aquela celeste e eterna Pátria todas as seduções deste século, quando, por esta pátria terrestre e temporal, um Bruto pôde até matar os filhos — o que a Pátria celeste a ninguém obriga a fazer? E, com certeza, mais difícil matar os filhos do que praticar as acções que tal pátria nos impõe: dàr aos pobres os bens que tencionávamos juntar para os nossos filhos, ou perder esses mesmos bens se se apresentar uma provação que nos obrigue a tal em nome da fé e da justiça. Não são de facto as riquezas da Terra que nos tornarão felizes a nós ou a nossos filhos: — temos de as perder em vida, uma vez mortos serão elas levadas por quem desconhecemos ou talvez possuídas por quem não queremos. Deus é que faz a nossa felicidade e é a verdadeira riqueza das almas.

Mas, a respeito de Bruto, mesmo o poeta que o louva por ter morto os filhos, dá testemunho da sua infelicidade, pois diz:

O pai, por amor da bela liberdade, enviará para o suplício os filhos que preparavam uma nova guerra. Desgraçado — pensem o que pensarem destes factos os pósteros [iii].

Mas no verso seguinte consola o infeliz:

Triunfa o amor da pátria e uma paixão imensa de glória [iv].

São estas duas — a liberdade e a paixão pela glória humana — que levaram os Romanos a tão admiráveis feitos. Se, pois, pela liberdade de quem está destinado a morrer e pela paixão dos louvores por que os mortais anseiam, um pai pôde matar os filhos, que há de extraordinário se, pela verdadeira liberdade (aquela que nos liberta do domino da iniquidade, da morte e do Diabo), — não pelo desejo de louvores humanos, mas pelo amor de libertar os homens, não de um rei Tarquínio, mas do demónio e do príncipe dos demónios — quisermos, não matar os nossos filhos, mas que os pobres de Cristo sejam contados entre os seus filhos?

Um outro notável romano houve, chamado Torquato, que também matou um filho. Este não lutou contra a pátria, mas pela pátria. Fê-lo, porém, contra as suas ordens, ou seja, contra o que ele como pai e general, lhe ordenara. Provocado pelo inimigo lutou com ardor e, embora saísse vencedor, o pai matou-o para que o desprezo da sua autoridade não constituísse um exemplo mais perigoso do que vantajosa tinha sido a glória de ter derrotado um inimigo. Para que se vangloriam aqueles que, conforme as leis da pátria imortal, desprezam todos os bens terrestres muito menos amados do que os filhos?

— Fúrio Camilo, que tinha libertado a sua ingrata pátria do jugo dos Veientes, seus mais encarniçados inimigos, e tinha sido condenado por rivais, voltou de novo a libertá-la da ameaça dos Gauleses por não ter outra melhor onde pudesse viver com mais glória: porque se orgulha, como se tivesse feito alguma coisa extraordiná­ria, o que na Igreja, vítima de inimigos carnais, sofre injustamente uma grave desonra e não se passa para os inimigos dela nem funda contra ela uma nova seita, mas antes, tanto quanto pode, a defende da violenta perversidade dos herejes, pois que não há outra em que se possa não ser glorificado pelos homens, mas adquirir a vida eterna?

— Se Múrcio, para celebrar a paz com o rei Porsena que apoquentava os Romanos com uma pesadíssima guerra, e para se castigar por não ter morto este rei e, por erro, ter abatido outro em seu lugar, estendeu à sua vista a mão direita sobre o braseiro de um altar, dizendo-lhe que muitos outros como o que ele estava a ver tinham jurado a sua morte, e se Porsena, temendo a coragem e a conjura de tais homens, sem hesitar fez a paz e se absteve daquela guerra — quem fará dos seus méritos um título do reino dos céus se, para obter um reino, ele entrega às chamas, não espontaneamente mas constrangido por um perseguidor, não digo uma só mão mas o corpo todo?

— Se Cúrcio, vestido das suas armas, com o seu fogoso cavalo se precipitou na goela de um abismo para obedecer aos oráculos dos seus deuses que tinham ordenado que para lá mandassem o que os Romanos tinham de melhor, e estes não podendo compreender que algo houvesse de melhor que os guerreiros e as armas, julgaram-se obrigados a mandar para a morte, por ordem dos deuses, um soldado todo armado — porque é que se julga que cometeram uma façanha pela Pátria celeste aqueles que, sob os golpes de um inimigo da sua fé, não se atiram espontaneamente à morte mas para ela são enviados pelo inimigo, sendo certo que receberam do seu Senhor, Rei da sua Pátria, um oráculo mais certo:

Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma [v]?

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)




[i] Mt, VI, 2
[ii] Mt., VI, 2.
[iii] Vergílio, Eneida, VI, 820-822.
[iv] Vergílio, Eneida, VI, 823.
[v] Mt., X , 28.

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