27/02/2017

Leitura espiritual


A CIDADE DE DEUS


Vol. 1

LIVRO VIII

CAPÍTULO XIV

Opinião dos que admitem três géneros de almas racionais: a dos deuses celestes, a dos demónios aéreos, a dos homens terrestres.

Os seres vivos, dotados de alma racional, dividem-se, dizem eles, em três classes: os deuses, os homens, os demónios. Os deuses ocupam os lugares mais elevados, os homens os mais baixos e os demónios os intermédios. Os deuses residem no céu, os homens na terra e os demónios no ar. À diferença de dignidade dos lugares corresponde a das naturezas. Assim, os deuses são superiores aos homens e aos demónios; mas os homens são inferiores aos deuses e aos demónios tanto pela categoria dos elementos como pela diferença de méritos. Os demónios estão, portanto, no meio. Devem, pois, ser postos depois dos deuses aos quais são inferiores pelo lugar, e preferidos aos homens pois habitam acima deles. Têm de comum com os deuses a imortalidade do corpo e com os homens as paixões da alma. Por isso não é muito de estranhar, acrescentam eles, que se comprazam nas obscenidades dos jogos e nas ficções dos poetas, uma vez que são dotados de sentimentos humanos de que os deuses estão muito distantes e absolutamente alheios. Pode, pois, concluir-se: repudiando e proibindo as ficções poéticas, não foi aos deuses, todos bons e excelsos, que Platão privou do prazer dos jogos cénicos, mas sim aos demónios.

Se isto é assim (isto, além de estar referido noutros autores, refere-o também Apuleio, platónico de Madaura, num livro exclusivamente dedicado a este assunto, denominado O deus de Sócrates. Nele se disserta e expõe a que categoria de divindades pertencia a que estava ligada a Sócrates por uma certa amizade e o avisava para renunciar à acção quando o acto que pretendia não viria a ter próspero desenlace. Declara abertamente e assegura repetidamente que não era um deus, mas um demónio. E fá-lo ao examinar com cuidado a opinião de Platão acerca da elevada posição dos deuses, da baixa posição dos homens e da média dos demónios.), se, pois, assim é, como é que Platão ousou, ao expulsar os poetas da cidade, privar, se não os deuses que afasta de todo o contacto impuro com os homens, pelo menos os demónios dos prazeres do teatro? Não quereria ele por este meio advertir a alma humana, embora prisioneira ainda nos seus membros votados à m o rte a que desprezasse, em nome do esplendor da virtude, as ordens impuras dos demónios, e a que detestasse as suas obscenidades?

Se Platão honestissimamente isto denuncia e proíbe, foi seguramente uma infâmia dos demónios tê-lo reclamado e exigido. Portanto — ou Apuleio se enganou e o espírito amigo de Sócrates não pertence a esta categoria de divindades; ou Platão se contradiz, ora honrando os demónios, ora banindo os seus divertimentos duma cidade que respeita os bons costumes; ou a amizade de Sócrates por um demónio não merece elogio. O próprio Apuleio disso se envergonhou de tal forma que pôs ao seu livro o título de O deus de Sócrates em vez de, conforme a discussão em que tão diligente e minuciosamente distingue os deuses dos demónios, intitulá-lo não O deus, mas antes O demónio de Sócrates. Preferiu, porém, pôr isto na própria discussão a pô-lo no título do livro. É que, graças à sã doutrina que brilhou sobre os homens, todos ou quase todos têm horror ao nome de demónios — de tal forma que quem, sem conhecer a exposição de Apuleio a favor da dignidade dos demónios, lesse este título O demónio de Sócrates jamais acreditaria tratar-se de um homem são do juízo.

E o próprio Apuleio, que encontra ele digno de louvor nos demónios além da subtileza e da robustez dos corpos e da maior altura do lugar onde residem? Realmente, acerca dos seus costumes, e ao falar de todos em geral, nenhum bem diz deles, mas antes muito mal. Enfim, depois da leitura daquele livro, ninguém se admira de que eles tenham pretendido que as torpezas cénicas figurassem entre as coisas divinas; de que, pretendendo ser temidos como deuses, se deleitem com os crimes dos deuses; e de que tudo o que no seu culto inspira troça ou horror por uma obscena solenidade ou uma crueldade torpe, está bem de harmonia com as suas paixões.

CAPÍTULO XV

Os demónios não são superiores aos homens nem pelos corpos aéreos nem pela altitude dos lugares em que habitam.

Longe esteja, pois, de uma alma verdadeiramente religiosa e submissa ao verdadeiro Deus julgar, considerando estas coisas, que os demónios são melhores do que ela, lá porque têm melhores corpos. Se assim fosse, deveria pôr acima de si muitos animais que nos superam pela acuidade dos seus sentidos, a facilidade e a agilidade dos seus movimentos, o vigor das suas forças, a válida longevidade dos seus corpos. Que homem se compara na vista à águia e ao abutre, aos cães no olfacto, na velocidade às lebres, ao veado e a todas as aves, aos leões e aos elefantes na valentia e na longevidade às serpentes que, diz-se, ao largarem a pele, se despojam da velhice e reencontram a juventude? Todavia, assim como a todos os animais nos avantajamos pela capacidade de raciocinar e de compreender, assim também somos superiores aos demónios pela nossa capacidade de viver recta e honestamente. É indubitável que a Providência divina dotou de certas vantagens corporais os seres que nos são incontestavelmente inferiores. Assim o determinou para nos convidar a cultivarmos com muito maior cuidado o que a eles nos torna superiores e para nos ensinar a desprezarmos a perfeição corporal que poderíamos atribuir aos demónios e que, comparada com uma vida virtuosa pela qual os ultrapassamos, nada é — tanto mais que também nós estamos destinados à imortalidade dos corpos, não a que a eternidade dos suplícios há-de atormentar, mas a que a pureza da alma há-de preparar.

Mesmo em relação à altura do lugar — lá porque os demónios habitam no ar ao passo que nós habitamos a terra, seria totalmente ridículo perturbarmo-nos com isso ao ponto de nisso vermos uma superioridade sobre nós. Se assim fosse, seríamos inferiores a todas as aves. Todavia as aves, quando estão cansadas de voar ou são obrigadas a retemperar as forças comendo, voltam à terra para repousarem e se alimentarem — o que os demónios, diz-se, não fazem. Será que lhes agrada, nesse caso, reconhecer que as aves estão acima de nós e que os demónios estão acima mesmo das aves? Se pensar assim é pura loucura, não teremos que pensar que, por causa da habitação num elemento superior, os demónios são dignos da nossa submissão religiosa. Realmente, assim como o facto de as aves do ar, longe de serem superiores a nós, nos estão subordinadas, a nós seres terrestres, devido à dignidade da nossa alma racional, assim também os demónios, lá porque habitam numa região do ar mais elevada, nem por isso nos são superiores a nós, seres terrestres, só porque o ar está acima da terra. Pelo contrário, os homens devem a eles ser preferidos porque de forma nenhuma pode ser comparado o seu desespero com a esperança dos homens pios.

De resto, a citada maneira como Platão liga numa ordem harmoniosa os quatro elementos, colocando entre os dois extremos (o fogo mobilíssimo e a terra imóvel), os dois intermédios (o ar e a água) — porque tanto o ar está acima das águas e o fogo acima do ar quanto as águas estão acima da terra — este argumento adverte-nos de que os méritos dos seres animados não devem ser avaliados pela categoria dos elementos. O próprio Apuleio, como os demais, diz que o homem é um animal terrestre, muito superior, porém, aos animais aquáticos, embora Platão conceda às águas a proeminência sobre a terra. Por aqui se vê que, quando se trata de apreciar o valor das almas, não se deve usar do mesmo padrão que se usa na medição dos corpos; pode bem acontecer que um corpo inferior abrigue uma alma melhor e um corpo superior uma alma pior.




(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)


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