26/02/2017

Leitura espiritual


A CIDADE DE DEUS 

Vol. 1

LIVRO VIII

CAPÍTULO XI

Onde terá Platão adquirido uma compreensão que tanto se aproximou da doutrina cristã.




Alguns, que nos estão unidos pela graça de Cristo, admiram-se quando lêem ou ouvem dizer que Platão teve de Deus concepções que, reconhecem, estão em estreita concordância com a verdade da nossa religião. Por isso alguns têm pensado que, tendo ido Platão ao Egipto, poderia ter ouvido Jeremias, ou lido os seus escritos proféticos durante a viagem. Eu mesmo consignei esta opinião em alguns dos meus livros. Mas um cálculo mais apurado das datas, tais como se contém na história cronológica, mostra que Platão nasceu cerca de cem anos depois da época em que Jeremias profetizou. Com efeito ele viveu oitenta anos; ora do ano da sua morte até àquele em que Ptolomeu, rei do Egipto, pediu à Judeia os livros dos profetas hebreus para os mandar traduzir para seu uso por setenta hebreus que também conheciam o grego, passaram-se cerca de sessenta. Portanto Platão não pôde, no decurso da sua viagem, nem ver Jeremias, morto desde há muito tempo, nem ler as suas Escrituras ainda não traduzidas para grego, língua em que era exímio. A menos, talvez, que, apaixonado estudioso como era, tenha delas tido conhecimento por intérpretes, como aconteceu com as egípcias — sem se tratar duma tradução escrita (insigne favor que, diz-se, mereceu Ptolomeu, ele que, pelo poder da sua realeza, também podia inspirar algum temor); mas sem dúvida que conseguiu, com as suas conversações, tomar conhecimento, na medida do possível, do seu conteúdo.

Alguns indícios parecem autorizar esta hipótese. O livro do Génesis começa assim:

No começo fez Deus o Céu e a Terra. A Terra era invisível e desorganizada. A s trevas estendiam-se sobre o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas [i].
Ora no Timeu, onde trata da formação do mundo, Platão declara que, para esta obra, Deus começou por juntar a terra e o fogo. É manifesto que ele põe o fogo em lugar do céu. Esta concepção tem pois alguma semelhança com o que diz a Escritura:

No começo fez Deus o Céu e a Terra [ii].
Seguidamente diz que os dois elementos intermédios que serviram para associar entre si estes dois elementos extremos, foram a água e o ar. Nisto se viu uma interpretação do que está escrito:

O Espírito de Deus pairava sobre as águas [iii].
Pouco cuidadoso de certo com a maneira por que a Escritura designa habitualmente o Espírito de Deus, como o ar também se chama espírito, parece que se pode imaginar que esta passagem mencionava estes quatro elementos.

Quanto à afirmação de Platão de que filósofo é o que ama a Deus, nada há mais claro nas Escrituras. Mas o que mais me inclina quase a crer que Platão não desconheceu estes livros está nisto: quando Moisés recebeu por um anjo a mensagem de Deus, perguntou pelo nome de quem lhe ordenava que fosse ter com o Povo Hebreu para libertar do Egipto, tendo-lhe sido respondido:

Eu sou quem sou e dirás aos filhos de Israel: O que é manda-me ter convosco [iv].
como se, comparadas Àquele que é realmente, porque é imutável, as criaturas mutáveis não fossem. Platão sustentou isto com tenacidade e recomendou-o com solicitude. Não sei se isto se encontra algures em obras anteriores a Platão, salvo naquela onde se diz:

Eu sou quem sou e dir-lhes-ás: O que é manda-me ter convosco [v].

CAPÍTULO XII

Mesmo os platónicos, apesar da sua justa ideia de um único Deus verdadeiro, acharam que era necessário o culto a vários deuses.

Mas onde quer que seja que Platão tenha aprendido estas verdades, quer tenha sido nos livros dos antepassados quer tenha sido, como diz o Apóstolo:

Porque o que de Deus se pode conhecer está patente. O próprio Deus o manifestou. Desde que o mundo existe, as suas perfeições invisíveis tomaram-se visíveis ao espírito por meio das suas obras, bem como o seu etemo poder e a sua divindade [vi]
creio ter mostrado suficientemente que tinha razão em escolher os platónicos para com eles discutir a questão que nos ocupa da teologia natural: «Será preciso, tendo em vista a felicidade depois da morte, oferecer sacrifícios a um só Deus ou a muitos»?

Se os preferi a todos os outros, foi porque acerca do Deus único que fez o Céu e a Terra, eles lhes estão tanto acima em glória e prestígio quanto mais justas são as suas concepções. Quão preferidos foram aos outros no juízo dos pósteros diz-no-lo o seguinte: Aristóteles, discípulo de Platão, homem de notável engenho embora a Platão inferior no estilo (mas quão superior a tantos outros) fundou a escola dos peripatéticos, assim denominados porque ele tinha o hábito de discutir passeando. Destacando-se pelo brilho da sua fama, conquistou, ainda em vida do seu mestre, muitos discípulos para as suas doutrinas. Mas depois da morte de Platão, Espeusipo, filho de sua irmã, e Xenócrates, seu discípulo predilecto, sucederam-lhe na chefia da escola, que se chamou Academia, e por isso é que a eles e a seus sucessores chamaram académicos. Todavia, os mais célebres filósofos deste tempo que preferiram seguir Platão, não quiseram que os apelidassem de peripatéticos nem de académicos, mas sim de platónicos. Os mais célebres dentre eles são os gregos Plotino, Jâmblico, Porfírio e, nas duas línguas, grega e latina, um platónico notável, o africano Apuleio. Mas todos estes filósofos, outros similares e o próprio Platão acharam que se devia oferecer sacrifícios aos deuses.

CAPÍTULO XIII

Parecer de Platão que definiu os deuses como seres necessariamente bons e amigos dos homens.

Embora em muitos outros pontos importantes estejam em desacordo connosco, neste ponto que acabei de referir, já porque o tópico é relevante, já porque levantei esta questão, começo por lhes perguntar: no seu entender a que deuses convém prestar culto? Aos bons? Aos maus? Ou aos bons e aos maus? Temos a opinião de Platão, segundo a qual todos os deuses são bons, não havendo absolutamente nenhum que seja mau. Donde se conclui que é aos bons que se deve prestar culto: — portanto, é apenas aos deuses que se presta culto, pois não são deuses se não são bons. Se assim é (e seria decoroso pensar outra coisa dos deuses?), desvanece-se a opinião de alguns segundo os quais é preciso apaziguar com sacrifícios os deuses maus para que não nos sejam maléficos, e invocar os deuses bons para que nos prestem auxílio. É que nenhum dos maus é deus. É, pois, aos deuses bons que se deve, como dizem, prestar honras sagradas.

Que deuses são então os que gostam dos jogos cénicos, que exigem que estes façam parte das coisas divinas e que a sua representação se exiba em sua honra? O seu poder mostra que existem; mas esse apego (aos jogos) indica que são maus. A opinião de Platão acerca dos jogos é bem conhecida quando reconhece que os próprios poetas, autores desses poemas tão indignos da majestade e bondade dos deuses, devem ser expulsos da cidade. Que] deuses são então esses que entram em conflito com Platão a propósito dos jogos cénicos? Efectivamente ele não suporta que se desonrem os deuses com crimes inventados; mas os próprios deuses prescrevem que se representem esses crimes em sua honra. Enfim, quando exigiam a instituição desses jogos, reclamando infâmias, praticavam maldades: tiraram a Tito Latínio seu filho e a ele feriram-no de doença porque se opunha às suas ordens; restituíram- -lhe a saúde quando ele se submeteu. Platão, porém, pensa que se não devem temer mesmo que sejam maus e, mantendo com suma constância a força da sua opinião, não hesita em proscrever dum povo sabiamente constituído todas as bagatelas sacrílegas dos poetas, nas quais se comprazem os deuses tornando-se cúmplices das suas máculas. Mas é a este Platão que, como já contei no livro segundo, Labeão coloca na categoria dos semideuses. E este Labeão é da opinião que as divindades más se devem apaziguar com o sangue das vítimas e as orações públicas do mesmo jaez — e as divindades boas com jogos e outros meios de provocar a alegria. Porque ousou então o semideus Platão recusar tão teimosamente, não a semideuses, mas a deuses e mesmo a deuses bons, tais divertimentos lá porque ele os considera infames? Estes deuses, aliás, refutam a opinião de Labeão porque, no caso de Latínio, não se mostram apenas lascivos e brincalhões, mas também cruéis e terríveis. Que os platónicos nos expliquem então tudo isto, pois que, fiéis ao pensamento do Mestre, consideram todos os deuses bons, honestos, associados aos sábios pelas suas virtudes, e julgam que é um sacrilégio ter deles outro conceito. Nós o explicaremos, dizem eles. Pois então ouçamo-los com atenção.




(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Gén. I, 2.
[ii] Ibidem.
[iii] Ibidem.
[iv] Êxodo, III, 14.
[v] Ibidem.
[vi] Rom., 1 , 19 e segs..

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