23/02/2017

Leitura espiritual


A CIDADE DE DEUS

Vol. 1

LIVRO VIII

Aborda o terceiro género de Teologia, chamada natural, e trata da questão dos deuses a essa teologia ligados — isto é, se o culto desses deuses tem interesse para se conseguir a vida bem-aventurada que surgirá depois da morte. A discussão travar-se-á com os platónicos porque estes estão muito acima dos outros filósofos e estão mais próximos da verdade da fé cristã. Antes de tudo, refutam-se aqui Apuleio e todos os que pretendem que se deve prestar culto aos demónios como mediadores e intérpretes entre os deuses e os homens; demonstra-se que esses demónios estão sujeitos aos vícios e introduziram o que os homens honrados e prudentes reprovam e condenam, ou seja: as sacrílegas ficções dos poetas, os ludí­brios teatrais, os malefícios e os crimes das artes mágicas. Averiguado que eles favorecem e se comprazem com tudo isto, conclui-se que de modo nenhum se podem conciliar os homens com os deuses bons.

CAPÍTULO I

É com os filósofos que professam a mais elevada doutrina que se deve discutir a questão da teologia natural.

Precisamos agora de uma muito maior atenção do que a exigida para a explicação e solução dos problemas dos livros anteriores. É que, de facto, ao tratarmos da chamada teologia natural, temos que lidar, não com quaisquer homens (pois já não se trata da teologia fabulosa ou civil, isto é, a do teatro e a da cidade, das quais uma exalta ostensivamente os crimes dos deuses e a outra põe a descoberto os seus mais criminosos desejos, desejos, portanto, mais de demónios maléficos do que de deuses), mas é com filósofos que devemos discutir, com aqueles cujo nome proclama o amor da sabedoria.

Ora se a Sabedoria é Deus por quem tudo foi feito, como o demonstraram a autoridade divina e a verdade, verdadeiro filósofo é o que ama a Deus. Mas porque a própria coisa assim chamada não existe em todos os que se gabam deste nome (realmente nem todo aquele que se diz filósofo é por isso amigo da verdadeira sabedoria), certamente que, de entre todos aqueles cujas opiniões e escritos podemos conhecer, teremos que escolher aqueles com quem se pode dignamente tratar desta questão. Aliás, nesta obra não pretendo refutar todas as opiniões de todos os filósofos, mas apenas as que se referem à teologia, palavra grega com que queremos significar o pensamento ou palavra acerca da divindade; e mesmo assim, não a opinião de todos, mas apenas a dos que, admitindo embora a existência de Deus e a sua solicitude para com os homens, julgam todavia que o culto de um Deus único e imutável é insuficiente para se obter a bem-aventurança depois da morte e crêem que por isso é preciso adorar uma multidão de deuses, criados, aliás, e instituídos pelo único e verdadeiro Deus.

A opinião destes filósofos marca já um grande progresso sobre a de Varrão na aproximação da verdade. Realmente este soube desenvolver a teologia natural apenas até aos limites deste mundo ou da sua alma: aqueles, porém, confessam um Deus que ultrapassa toda a natureza da alma; um Deus que fez não apenas este mundo visível, a que tantas vezes chamamos o céu e a terra, mas também toda a alma sem excepção; um Deus que concede a felicidade à alma dotada de razão e de inteligência, como é o caso da alma humana, fazendo-a participar da sua luz imutável e incorpórea.

Estes filósofos chamam-se platónicos, nome que deriva de Platão, seu mestre. Ninguém o ignora por muito que tenha ouvido falar destes assuntos. Vou, portanto, a propósito de Platão, tratar sumariamente do que me parece necessário à presente discussão, mencionando primeiramente os que o precederam neste género de estudos.

CAPÍTULO II

As duas escolas filosóficas — a itálica e a jónica — e os seus fundadores.

No que respeita às letras gregas, cuja língua é considerada como a de maior lustre entre as nações, a tradição dá-nos a conhecer duas escolas de filósofos: uma, denominada itálica, desta parte da Itália a que outrora se dava o nome de Grande Grécia, e a outra, a jónica, da parte a que ainda hoje se dá o nome de Grécia.

A escola itálica teve por fundador Pitágoras de Samos de quem provém também, segundo se conta, o nome da filosofia. Efectivamente antes dele chamavam-se sábios aqueles que de certo modo sobressaíam dos demais por uma conduta digna de louvor; mas ele, interrogado acerca da sua profissão, respondeu que era um filósofo, isto é, um estudante ou amigo da sabedoria. É que lhe parecia demasiado pretensioso chamar-se sábio a si próprio.

A escola jónica teve por chefe Tales de Mileto, um dos chamados sete sábios. Os outros seis distinguiram-se pelo seu género de vida e por certas regras próprias para assegurarem uma boa conduta. Tales, na mira de suscitar sucessores, elevou-se acima de todos aprofundando a natureza das coisas e reduzindo as suas pesquisas a escrito. O que lhe valeu maior admiração foi ter conseguido captar as leis da astronomia e predizer os eclipses do Sol e da Lua. Pensou que a água é o princípio das coisas donde provêm todos os elementos do mundo, o próprio mundo e o que nele se produz. Mas a esta actividade que a consideração do mundo nos faz ver tão admirável, não prepôs ele qualquer princípio proveniente da inteligência divina.

Anaximandro, um dos seus auditores, sucedeu-lhe e modificou a sua concepção da natureza. Para este não é duma só coisa, — como a água para Tales —, que tudo provém; mas cada coisa nasce dos seus princípios próprios. Estes princípios próprios de cada coisa são, crê ele, em número infinito e geram inúmeros mundo há com tudo o que nele aparece. Ainda segundo a sua opinião, estes mundos ora se dissolvem ora renascem, conforme o tempo que cada um pode durar. Também ele não reconhece à inteligência divina nenhuma interferência nas actividades da natureza.

Deixou como sucessor Anaxímenes que atribuiu ao ar infinito todas as causas dos seres. Não negou os deuses, nem deixou de a eles se referir; todavia não julgou que tivessem feito o ar, mas, antes, eles é que provêm do ar.

Pelo contrário Anaxágoras, auditor de Anaxímenes, julgou que todos os seres que vemos tiveram por autor um espirito divino e afirmou que ele os tirou de uma matéria infinita, constituída por partículas semelhantes entre si. Cada um dos seres era feito das suas partículas próprias, mas sob a acção do espírito divino.

Diógenes, outro auditor de Anaximandro, afirmou, também ele, que o ar era a matéria de que todos os seres eram feitos; mas que o ar era dotado duma inteligência divina sem a qual dele nada se pode fazer.

A Anaxágoras sucede seu auditor Arquelau. Também este pensou que todas as coisas são constituídas por partículas semelhantes entre si, mas entendia que todas elas se mantinham coesas graças a uma inteligência que movia os corpos eternos, isto é, as referidas partículas, unindo-as e separando-as.

Diz-se que teve por discípulo Sócrates, mestre de Platão; foi em consideração a este mestre que resumi todas estas doutrinas.

CAPÍTULO III

Doutrina de Sócrates.

Segundo a tradição, Sócrates foi o primeiro a orientar toda a filosofia para a reforma e a disciplina dos costumes, ao passo que todos os seus antecessores tinham consagrado os maiores esforços a aprofundar as coisas físicas, isto é, as coisas da natureza. Porque terá ele procedido assim? Terá ele pretendido, dominado pelo tédio das coisas obscuras e incertas, descobrir algo de claro e certo, necessário para a vida feliz, a cuja única consecução parece encaminhado o cuidado e o trabalho de todos os filósofos? Ou será, como suspeitam alguns mais benevolentemente, que ele não queria que espíritos manchados pelas paixões terrenas tivessem a veleidade de aspirar às coisas divinas? Não me parece que seja possível pôr a claro esta questão. Às vezes notava que se afadigavam na investigação das causas das coisas, quando, segundo pensava, essas causas apenas residem, como primeiras e supremas, unicamente na vontade de um único e soberano Deus. Daí que, ainda segundo a sua opinião, só é possível captá-las com uma inteligência purificada. E por isso é que ele julgava que era necessário insistir na obrigação de purificar a vida com hábitos; assim é que a alma, aliviada do fardo das paixões degradantes, se poderia elevar pelo seu natural vigor para as verdades eternas e contemplar com uma inteligência pura a substância da incorpórea e imutável luz onde vivem firmes as causas de todas as naturezas criadas.

Consta que, ora confessando a sua ignorância, ora dissimulando o seu saber, castigou e venceu, com o maravilhoso encanto da sua dialéctica e a extrema finura da sua graça, a loucura dos ignorantes que pretendiam saber alguma coisa, mesmo em questões morais, às quais parecia que tinha ele dedicado toda a sua atenção. Deste modo atraiu sobre si inimizades e, incriminado por acusação caluniosa, foi condenado à morte. Mais tarde, porém, essa mesma Atenas que publicamente o declarara culpado, também publicamente por ele pôs luto; e a indignação do povo voltou-se contra os dois acusadores com tamanha violência que um deles morreu às mãos da multidão e o outro só escapou ao castigo pelo exílio voluntário e perpétuo.

A fama de tão preclara vida e da sua morte valeu a Sócrates ter deixado numerosos discípulos que, à porfia, tomaram o gosto pelo estudo dos problemas morais em que se trata do soberano bem que pode tomar o homem feliz. Mas porque nas lucubrações de Sócrates não aparece tudo muito claro, dada a sua maneira de tratar as questões, isto é, afirmando-as ou negando-as, cada um dos seus discípulos tomou o que mais lhe aprouve, estabelecendo, como melhor lhe pareceu, qual o fim último. Mas chama- -se fim último ao que toma feliz quem o consegue. É acerca desse fim que os Socráticos (facto dificilmente de acreditar por se tratar de discípulos do mesmo e único mestre) têm concepções tão divergentes que alguns, como Aristipo, puseram o bem supremo na voluptuosidade; outros, como Antístenes, na virtude; e houve ainda muitos outros que emitiram opiniões que seria muito demorado a todas enumerar.




(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)


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